Ação coletiva revoluciona o saneamento e leva água limpa a milhões no Brasil

A experiência “Collective action brings clean fresh water to millions in Brazil”, promovida no âmbito do Pacto Global da ONU, apresenta um modelo concreto de como o saneamento pode avançar por meio de articulações multissetoriais. Na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que contribui fortemente para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, a combinação de secas, assoreamento e poluição pressionou os sistemas de captação e tratamento. Em resposta, instituiu-se um fundo hídrico com governança compartilhada, priorizando restauração de nascentes, recomposição de matas ciliares e soluções baseadas na natureza. Essa abordagem reforça a qualidade da água bruta e, portanto, reduz custos operacionais do saneamento, melhora a confiabilidade do abastecimento e eleva a resiliência hídrica urbana e rural.

Aprendizados para profissionais do saneamento

Integração entre bacia e operação do sistema

O saneamento não se limita à rede e às estações de tratamento; depende diretamente da qualidade do manancial. Ao reduzir carga difusa e sólidos por meio de restauração ecológica, diminui-se a dosagem química, a variabilidade de turbidez e o consumo energético na ETA. Consequentemente, o saneamento torna-se mais previsível, eficiente e resiliente a eventos climáticos extremos.

Mobilização multissetorial e governança

Empresas, produtores rurais, governos, universidades e organizações da sociedade civil compartilham metas e responsabilidades. Essa governança colaborativa amplia a escala de intervenções e garante que o saneamento avance com transparência, metas técnicas mensuráveis e controle social. Além disso, facilita a compatibilização entre planos de bacia, planos municipais e contratos de concessão.

Soluções baseadas na natureza com foco em custo-benefício

Reflorestamento ripário, terraços de infiltração, barraginhas e manejo de estradas rurais funcionam como pré-tratamento natural, reduzindo picos de cor e matéria orgânica. A médio prazo, a operação do saneamento se beneficia de menor variabilidade na água bruta e de menos paradas de ETA por eventos extremos, com impacto positivo em OPEX e confiabilidade.

Modelagem financeira e previsibilidade

Fundos hídricos e compromissos corporativos de água permitem estruturar aportes públicos e privados, com desembolsos condicionados a metas de restauração e indicadores de saneamento. Assim, viabiliza-se pipeline de projetos que unem conservação e melhoria operacional, alavancando investimentos e mitigando riscos para o prestador.

Escalabilidade e replicação

O modelo é replicável em diferentes bacias, desde que se adeque a hidrologia local, uso do solo, governança e matriz tarifária. Para o saneamento, isso significa padronizar metodologias (monitoramento, indicadores de desempenho, critérios de priorização) e criar guias operacionais que acelerem a implantação em novos territórios.

Alinhamento a marcos legais e ao direito ao saneamento

O reconhecimento do saneamento como direito dá respaldo institucional para integrar conservação hídrica às metas de universalização. Essa convergência fortalece a priorização de mananciais estratégicos, a transparência regulatória e a previsibilidade de recursos em projetos estruturantes.

Exemplos brasileiros que inspiram

No estado de São Paulo, ações de restauração em bacias estratégicas vêm reduzindo pressão sobre ETAs e reforçando a segurança hídrica de longo prazo, com reflexos diretos no saneamento. Em municípios menores, iniciativas como programas de esgotamento simplificado e manejo de águas pluviais com soluções de baixo impacto têm suportado o saneamento com custos compatíveis à realidade local. Projetos cooperativos na Amazônia para melhoria de água e esgoto em comunidades ribeirinhas demonstram que modelos de governança compartilhada podem acelerar o saneamento com respeito às especificidades socioculturais.

Recomendações práticas para companhias de saneamento e reguladores

1) Mapear bacias críticas e riscos ao saneamento

  • Priorizar mananciais que abastecem captações; cruzar dados de uso do solo, outorgas, vazões de estiagem e eventos extremos.

2) Incorporar metas ambientais nos planos de saneamento

  • Vincular indicadores de restauração (hectares, nascentes) a KPIs operacionais (turbidez, cor aparente, custo químico por m³, paradas de ETA).

3) Estruturar financiamento híbrido

  • Combinar receitas tarifárias, fundos hídricos, compensações ambientais e aportes corporativos vinculados a metas de saneamento.

4) Fortalecer governança e transparência

  • Instituir comitês com atores locais e publicar painéis com metas, marcos, cronogramas e resultados do saneamento.

5) Padronizar monitoramento e mensuração de benefícios

  • Consolidar séries históricas de qualidade da água bruta e do desempenho operacional para demonstrar ganhos do saneamento.

6) Planejar comunicação e engajamento

  • Explicar como a proteção de mananciais reduz custos e melhora a continuidade do serviço de saneamento, gerando apoio social e regulatório.

Conclusão

Ao conectar proteção de bacias, governança multissetorial e financiamento inovador, o modelo de ação coletiva oferece um roteiro pragmático para o saneamento avançar com eficiência, previsibilidade e impacto social. A integração entre conservação hídrica e operação de ETA/ETE reduz riscos, melhora a qualidade de entrega e acelera metas de universalização. Com monitoramento robusto, transparência e foco em resultados, o saneamento brasileiro pode transformar desafios em ganhos sustentáveis para milhões de pessoas.

Fontes