A universalização do saneamento brasileiro não será alcançada por uma única empresa, por um único modelo de prestação ou apenas pela construção de novas obras. Além de recursos financeiros, serão necessários planejamento de longo prazo, segurança regulatória, capacidade técnica, gestão de riscos e cooperação entre instituições públicas e privadas.
Essa foi a principal mensagem transmitida no 12º episódio do Papo de Clima, iniciativa da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento. O programa recebeu Christianne Dias Ferreira, dirigente da ABCON SINDCON, para uma conversa conduzida pela jornalista Patrícia Duarte sobre os desafios climáticos, regulatórios e econômicos enfrentados pelo setor.
O encontro entre AESBE e ABCON foi relevante porque colocou lado a lado duas importantes representações do saneamento nacional. Enquanto a AESBE reúne companhias estaduais que atendem milhares de municípios, a ABCON SINDCON representa empresas e grupos privados que atuam em concessões, parcerias público-privadas e outras modalidades de prestação.
Consequentemente, o episódio não ficou limitado à discussão sobre quem deve operar os serviços. Pelo contrário, o debate avançou para uma questão mais importante: como diferentes agentes podem contribuir para ampliar o acesso à água, à coleta e ao tratamento de esgoto em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais severas.
Uma entrevista marcada pela liderança feminina
A participação de Christianne Dias e Patrícia Duarte também demonstrou a crescente presença feminina em posições estratégicas do saneamento brasileiro.
Christianne Dias ocupa a direção da ABCON SINDCON e participa diretamente das discussões relacionadas à regulação, aos investimentos, à segurança jurídica e à expansão da participação privada no setor. A entidade informa que representa 12 holdings e mais de 125 empresas associadas, atuando na formulação de estudos, na articulação institucional e no acompanhamento das políticas públicas do saneamento.
Patrícia Duarte, por sua vez, conduziu a conversa com uma abordagem voltada à compreensão dos desafios setoriais. Ao transformar temas complexos, como equilíbrio econômico-financeiro, resiliência e regulação, em uma discussão acessível, a jornalista ajudou a aproximar decisões institucionais da realidade enfrentada diariamente pelos profissionais das companhias.
Portanto, além do conteúdo técnico, a entrevista valorizou duas profissionais que atuam em áreas complementares. De um lado, esteve a experiência institucional e regulatória. Do outro, destacou-se a capacidade de comunicação e de tradução dos assuntos estratégicos para diferentes públicos.
Essa combinação é especialmente importante porque o saneamento precisa não apenas executar projetos, mas também explicar suas prioridades, seus custos e seus resultados para governos, reguladores, investidores e sociedade.
AESBE e ABCON colocam a universalização no centro
A universalização foi um dos principais eixos da conversa. A legislação brasileira determina que os contratos de saneamento estabeleçam metas capazes de garantir, até 31 de dezembro de 2033, o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto.
Além disso, a lei exige metas relacionadas à continuidade do abastecimento, à redução das perdas de água e à melhoria dos processos de tratamento. Portanto, universalizar não significa apenas instalar tubulações. Significa garantir que o serviço seja contínuo, eficiente, seguro e ambientalmente adequado.
Nesse contexto, o diálogo entre AESBE e ABCON mostrou que o país precisa acelerar investimentos sem abandonar a qualidade dos projetos. Uma obra executada rapidamente, porém sem estudos hidrológicos, licenciamento adequado, planejamento operacional ou previsão de manutenção, poderá gerar novos problemas no futuro.
Da mesma forma, contratos com metas ambiciosas, mas sem fontes de financiamento ou mecanismos de reequilíbrio, podem perder capacidade de execução ao longo do tempo.
Por isso, a entrevista reforçou que a universalização deve ser tratada como uma agenda integrada. Engenharia, regulação, gestão comercial, meio ambiente, operação, atendimento e planejamento financeiro precisam trabalhar de forma coordenada.
Os números mostram o tamanho do desafio
Os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, com ano de referência 2024, ajudam a compreender a dimensão do desafio apresentado na entrevista.
Segundo o SINISA 2025, 84,1% da população brasileira era atendida por redes de abastecimento de água. Esse percentual correspondia a aproximadamente 174 milhões de habitantes. Entretanto, o índice urbano chegava a 92,3%, enquanto apenas 22,9% da população rural aparecia atendida por redes públicas de abastecimento.
Portanto, ainda existe uma diferença significativa entre os territórios urbanos e rurais. Além disso, as médias nacionais escondem desigualdades expressivas entre regiões, estados e municípios.
No esgotamento sanitário, a situação é ainda mais desafiadora. O SINISA apontou que 62,3% da população total era atendida por redes coletoras de esgoto. Nas áreas urbanas, o índice alcançava 68,4%. Nas áreas rurais, entretanto, apenas 4,8% da população aparecia atendida por redes coletoras.
Além disso, 51,8% do volume estimado de esgoto gerado era tratado. Quando se considera apenas o esgoto efetivamente coletado, o percentual tratado chegava a 85,2%.
Essa diferença é importante. Ela demonstra que o tratamento apresenta desempenho elevado em parte dos sistemas existentes, porém uma parcela significativa do esgoto ainda não chega às estações de tratamento porque não é coletada. Assim, ampliar redes, ligações domiciliares, interceptores, elevatórias e estações continua sendo fundamental.
Os números ajudam a explicar por que AESBE e ABCON defenderam a necessidade de mobilização conjunta. O prazo para 2033 é curto diante da quantidade de projetos, licenciamentos, licitações, desapropriações, financiamentos e obras que precisam ser realizados.
Mudanças climáticas alteram o planejamento do saneamento
Outro ponto central da entrevista foi a influência das mudanças climáticas sobre os sistemas de água e esgoto.
Durante muitos anos, os projetos foram elaborados principalmente com base em séries históricas de chuva, vazão e temperatura. Contudo, eventos extremos mais frequentes tornam o passado menos confiável como única referência para o futuro.
As secas prolongadas podem reduzir a disponibilidade dos mananciais, diminuir os volumes armazenados e aumentar a concentração de poluentes. Como consequência, as estações de tratamento podem precisar utilizar mais produtos químicos, ampliar etapas de tratamento ou buscar fontes alternativas de abastecimento.
Por outro lado, chuvas intensas podem inundar estações elevatórias, comprometer painéis elétricos, provocar entrada indevida de água pluvial nas redes de esgoto e aumentar o volume que chega às estações. Além disso, deslizamentos e erosões podem romper adutoras, coletores e redes de distribuição.
Dessa maneira, a conversa entre AESBE e ABCON evidenciou que a resiliência climática precisa deixar de ser tratada como um tema exclusivamente ambiental. Ela deve fazer parte da gestão de ativos, da elaboração de projetos, da contratação de seguros, da regulação e do planejamento financeiro.
O que significa infraestrutura resiliente
Infraestrutura resiliente é aquela capaz de continuar funcionando, recuperar-se rapidamente ou operar de forma alternativa após um evento adverso.
No abastecimento de água, isso pode incluir a diversificação dos mananciais, a interligação entre sistemas, a ampliação da reservação, o controle de perdas, o reúso, a dessalinização em condições específicas e a instalação de geradores ou fontes redundantes de energia.
Também pode envolver o monitoramento em tempo real da qualidade da água, a automação das unidades e a elaboração de planos de contingência para secas, rompimentos de adutoras e falhas de energia.
No esgotamento sanitário, a resiliência pode ser fortalecida por meio da proteção contra inundações, da separação adequada entre redes de esgoto e drenagem, da instalação de equipamentos em cotas seguras e da criação de redundâncias em estações elevatórias.
Além disso, ativos críticos precisam ser identificados. Uma pequena elevatória pode atender uma região ambientalmente sensível e causar um grande impacto caso fique inoperante. Portanto, o valor estratégico de um equipamento nem sempre está relacionado ao seu tamanho.
A mensagem apresentada por AESBE e ABCON foi clara: a infraestrutura futura precisa ser projetada para uma realidade climática diferente daquela encontrada décadas atrás.
Segurança jurídica não é assunto apenas de investidores
Christianne Dias destacou a importância da segurança jurídica e regulatória para ampliar os investimentos no saneamento.
Em linguagem simples, segurança jurídica significa que contratos, leis, responsabilidades e regras devem ser claros e previsíveis. Já a segurança regulatória depende de decisões técnicas, transparentes e coerentes das agências responsáveis por fiscalizar e regular os serviços.
Quando as regras mudam constantemente ou quando os contratos não são cumpridos, o risco dos projetos aumenta. Como resultado, os financiamentos podem ficar mais caros, os investimentos podem ser adiados e a execução das metas pode ser prejudicada.
Entretanto, a segurança jurídica não deve ser interpretada como proteção exclusiva ao prestador. Ela também protege o usuário, o poder concedente e a continuidade do serviço.
Contratos bem estruturados precisam prever indicadores de qualidade, metas de expansão, mecanismos de fiscalização, regras tarifárias, sanções, revisões e procedimentos para situações excepcionais.
Além disso, eventos climáticos podem alterar custos operacionais e exigir investimentos adicionais. Assim, os contratos precisam possuir instrumentos adequados para analisar essas situações sem comprometer a modicidade tarifária nem a sustentabilidade da prestação.
AESBE e ABCON defendem diálogo entre modelos
Um dos aspectos mais importantes do episódio foi a defesa da cooperação entre os diferentes modelos de prestação.
A AESBE informa possuir 26 associadas, que atuam em mais de 3 mil municípios. As companhias estaduais acumulam experiência operacional, conhecimento territorial e capacidade de atuação regional.
A ABCON SINDCON, por sua vez, atua no fortalecimento da participação privada, das concessões e das parcerias público-privadas, além de defender segurança jurídica, eficiência, sustentabilidade e inovação.
Portanto, AESBE e ABCON representam experiências distintas, mas não necessariamente incompatíveis.
Em muitos estados, companhias públicas continuarão exercendo papel central. Em outros territórios, concessões privadas ou PPPs poderão assumir determinadas etapas dos serviços. Também poderão existir estruturas híbridas, com divisão de responsabilidades entre produção de água, distribuição, coleta e tratamento de esgoto.
O que deve orientar a decisão é a capacidade de garantir atendimento, qualidade, eficiência, sustentabilidade e cumprimento das metas.
A entrevista foi valiosa justamente por evitar uma discussão limitada à oposição entre público e privado. Em vez disso, o debate colocou a população e os resultados no centro da agenda.
O que os profissionais do saneamento podem levar da entrevista
A conversa entre AESBE e ABCON oferece algumas orientações práticas para as equipes que trabalham diariamente nos sistemas.
Primeiramente, os riscos climáticos precisam entrar nos planos de manutenção e expansão. Não basta reagir quando a crise ocorre. Devem ser mapeadas as unidades sujeitas a alagamentos, falta de energia, escassez hídrica, erosão, deslizamentos ou dificuldade de acesso.
Em segundo lugar, os projetos precisam considerar cenários diferentes. Adutoras, estações, reservatórios e elevatórias devem ser dimensionados com base em estudos atualizados e análises de risco.
Além disso, os indicadores operacionais precisam apoiar decisões. Perdas de água, intermitência, consumo de energia, falhas de equipamentos, extravasamentos e tempo de recuperação devem ser monitorados continuamente.
A gestão comercial também possui papel decisivo. A universalização depende da execução das ligações, da atualização cadastral, da medição correta, do faturamento sustentável e da inclusão de famílias vulneráveis por meio de políticas tarifárias adequadas.
Por fim, a comunicação precisa ganhar espaço. Profissionais, clientes, reguladores e gestores públicos devem compreender por que determinados investimentos são necessários e quais riscos são evitados por meio deles.
AESBE e ABCON mostram um caminho possível
O 12º episódio do Papo de Clima mostrou que o saneamento brasileiro precisa superar divisões simplificadas para enfrentar problemas cada vez mais complexos.
A contribuição de Christianne Dias trouxe ao debate uma visão institucional ligada aos investimentos, à regulação e à participação privada. Ao mesmo tempo, a condução de Patrícia Duarte tornou a conversa clara e conectada com os desafios enfrentados pelo setor.
As duas profissionais contribuíram para um debate necessário, qualificado e orientado para soluções. Dessa forma, também reforçaram a importância da liderança feminina na construção das políticas e das estratégias do saneamento brasileiro.
A aproximação entre AESBE e ABCON não elimina divergências entre entidades ou modelos de prestação. Contudo, demonstra que existe uma agenda comum: universalizar os serviços, fortalecer a regulação, ampliar os investimentos e preparar a infraestrutura para os impactos climáticos.
Portanto, o principal recado é objetivo. A universalização não poderá ser alcançada de maneira isolada. Ela dependerá da atuação coordenada de empresas públicas, concessionárias privadas, municípios, estados, União, agências reguladoras, financiadores e profissionais do saneamento.
Ao promover esse encontro, AESBE e ABCON ajudaram a mostrar que cooperação, planejamento e competência técnica serão tão importantes quanto os recursos financeiros para transformar metas legais em água tratada, esgoto coletado e qualidade de vida.
Fontes consultadas
- Vídeo — Papo de Clima com Christianne Dias
- AESBE — 12º episódio do Papo de Clima
- AESBE — Informações institucionais
- ABCON SINDCON — Quem somos
- ABCON SINDCON — Equipe e diretoria
- Lei Federal nº 11.445/2007 — texto atualizado
- SINISA 2025 — Resultados nacionais
- SINISA 2025 — Relatório de abastecimento de água
- SINISA 2025 — Relatório de esgotamento sanitário



