A regulação da água está deixando de ser apenas uma atividade associada a tarifas, contratos e fiscalização para assumir um papel cada vez mais estratégico no futuro do saneamento. Eficiência operacional, inteligência artificial, redução de perdas, reúso, dessalinização, segurança hídrica, investimentos e confiabilidade dos serviços começam a depender diretamente da qualidade dos modelos regulatórios.
É justamente essa transformação que está por trás da criação do Water Regulation Forum, anunciado pela Saudi Water Authority (SWA), autoridade hídrica da Arábia Saudita, em parceria estratégica com a International Desalination and Reuse Association (IDRA).
A primeira edição está prevista para 1º de novembro de 2026, em Riade, paralelamente ao IDRA World Congress 2026, que ocorrerá entre 1º e 5 de novembro. O fórum pretende reunir reguladores, formuladores de políticas públicas e lideranças do setor para discutir como melhorar a governança da água em um cenário marcado por escassez, mudanças climáticas, transformação digital e crescimento da demanda. (Water Online)
Para os profissionais do saneamento, a iniciativa transmite uma mensagem importante: operar bem continuará essencial, porém será cada vez mais necessário transformar desempenho operacional em dados, indicadores e resultados regulatórios comprováveis.
Por que esse fórum merece atenção do setor de saneamento?
A criação de uma plataforma internacional específica sobre regulação da água demonstra que os desafios do setor já ultrapassaram as fronteiras tradicionais entre operação, engenharia e regulação.
Uma companhia pode possuir estações modernas, profissionais altamente capacitados e sistemas digitais avançados. Entretanto, sem regras adequadas para reconhecer investimentos, incentivar eficiência e garantir sustentabilidade econômico-financeira, parte dos benefícios dessas tecnologias pode demorar a chegar aos usuários.
Portanto, a regulação passa a funcionar como uma ponte entre tecnologia, investimentos e resultados.
O Banco Mundial destaca que reguladores modernos exercem funções relacionadas a tarifas, padrões de serviço, coleta de dados sobre desempenho financeiro e operacional, fiscalização, transparência e atendimento aos consumidores. Além disso, sistemas mais maduros utilizam benchmarking e mecanismos de incentivo para estimular melhoria contínua. (Centro PPP)
Nesse contexto, profissionais de operação, manutenção, engenharia, gestão comercial, tecnologia, planejamento, meio ambiente e atendimento ganham ainda mais importância.
Afinal, são essas equipes que produzem grande parte das informações que permitem medir se uma companhia realmente está melhorando.
Arábia Saudita transforma escassez em laboratório hídrico
A escolha da Arábia Saudita como sede não é casual.
O país enfrenta condições extremamente restritivas de disponibilidade natural de água. Além disso, não possui rios perenes e apresenta níveis muito baixos de recursos hídricos renováveis.
Consequentemente, tornou-se necessário desenvolver infraestrutura em grande escala para produzir, transportar e distribuir água.
Segundo os dados apresentados no lançamento do Water Regulation Forum, a Arábia Saudita responde por mais de 22% da capacidade mundial de dessalinização. O sistema produz mais de 16,2 milhões de metros cúbicos de água por dia, enquanto sua infraestrutura de transmissão ultrapassa 14 mil quilômetros de tubulações. (Water Online)
Esses números ajudam a compreender por que a regulação da água ganhou importância estratégica no país.
Não basta produzir grandes volumes de água dessalinizada.
Também é necessário definir como essa água será produzida, transportada, financiada, tarifada e distribuída, além de estabelecer padrões de eficiência energética, confiabilidade e sustentabilidade ambiental.
Portanto, o desafio regulatório passa a acompanhar toda a cadeia do saneamento.
Cinco temas mostram para onde a regulação está caminhando
A programação anunciada apresenta cinco prioridades que ajudam a compreender as principais tendências internacionais.
A primeira envolve boas práticas internacionais de regulação. Isso significa comparar modelos, aprender com experiências de outros países e identificar mecanismos que possam melhorar a eficiência dos serviços.
A segunda envolve políticas públicas, legislação e sustentabilidade regulatória. Esse tema ganha relevância porque contratos e investimentos em saneamento normalmente possuem horizontes de décadas. Portanto, segurança jurídica e previsibilidade regulatória são fundamentais.
A terceira prioridade é inovação e transformação digital.
A quarta envolve governança integrada dos recursos hídricos.
Finalmente, a quinta aborda eficiência operacional e confiabilidade dos serviços. (Water Online)
A combinação desses temas demonstra que a regulação da água tende a ficar muito mais próxima da rotina das companhias.
Indicadores como perdas, consumo energético, continuidade do abastecimento, qualidade da água, eficiência das equipes, produtividade, reclamações, tempo de atendimento e confiabilidade dos ativos podem ganhar ainda mais relevância.
Transformação digital entra definitivamente na regulação
Talvez um dos pontos mais relevantes para profissionais do saneamento seja a inclusão explícita da transformação digital.
Durante muitos anos, automação e sistemas de informação foram tratados predominantemente como ferramentas internas das companhias.
Esse cenário está mudando.
Telemetria, sensores IoT, hidrômetros inteligentes, sistemas SCADA, modelos hidráulicos, inteligência artificial e digital twins produzem uma quantidade crescente de dados sobre o comportamento dos sistemas.
Consequentemente, reguladores também podem utilizar essas informações para acompanhar desempenho.
Uma companhia pode, por exemplo, demonstrar continuidade de abastecimento por meio de dados de pressão.
Da mesma forma, macromedição e micromedição podem fornecer informações mais confiáveis sobre perdas.
Além disso, sistemas digitais podem permitir monitoramento mais preciso de tempos de atendimento, ocorrências operacionais e eficiência da manutenção.
Assim, a regulação da água tende a se tornar progressivamente orientada por dados.
Entretanto, isso cria um novo desafio: a qualidade dos dados passa a ser quase tão importante quanto o próprio indicador.
Cadastros desatualizados, sensores mal calibrados, sistemas desconectados ou informações inconsistentes podem comprometer análises regulatórias.
Por isso, os profissionais que coletam, tratam, validam e interpretam dados passam a ocupar uma posição estratégica dentro das companhias de saneamento.
Dessalinização precisará de regulação cada vez mais sofisticada
A expansão internacional da dessalinização também explica a criação do fórum.
A tecnologia permite transformar água salgada ou salobra em água adequada para diferentes usos. Entretanto, os sistemas exigem investimentos relevantes, consumo energético e controle ambiental adequado.
Consequentemente, a regulação da água precisa responder a perguntas cada vez mais complexas.
Será necessário definir como investimentos serão remunerados, quais metas de desempenho deverão ser estabelecidas, como os custos de energia serão tratados e quais exigências ambientais deverão ser observadas.
Além disso, será necessário avaliar competitividade entre diferentes soluções.
Em determinadas regiões, ampliar um manancial convencional pode ser economicamente mais interessante. Em outras, reúso ou dessalinização podem representar maior segurança hídrica.
Portanto, reguladores precisarão compreender cada vez mais engenharia, tecnologia e economia.
Reúso deixa de ser alternativa e ganha espaço estratégico
O reúso também aparece com destaque na agenda internacional.
A própria programação oficial do IDRA World Congress prevê discussões sobre reúso potável direto e sobre os modelos regulatórios necessários para permitir sua implantação de maneira segura.
Nesse tipo de solução, água já utilizada passa por tratamento avançado, barreiras múltiplas, monitoramento rigoroso e controle de riscos antes de retornar ao sistema hídrico.
O desafio não é apenas tecnológico.
Também existe uma questão regulatória e de confiança pública.
Será necessário definir padrões de qualidade, parâmetros de monitoramento, responsabilidades institucionais e mecanismos de comunicação com a população.
A programação do congresso destaca justamente a necessidade de estruturas regulatórias baseadas em ciência e avaliação de riscos para aumentar a confiança nessas soluções. (IDRA World Congress 2026)
Portanto, a regulação da água será decisiva para determinar a velocidade com que o reúso avançará em diferentes países.
Eficiência operacional passa a ter valor regulatório
Outro ponto importante está diretamente relacionado à rotina das companhias.
Reduzir perdas, melhorar manutenção, diminuir interrupções, controlar pressão e aumentar eficiência energética não são apenas objetivos operacionais.
Cada vez mais, essas ações também poderão produzir consequências regulatórias.
Um regulador pode estabelecer metas progressivas.
Além disso, pode comparar empresas semelhantes, avaliar evolução histórica e vincular determinados incentivos ao desempenho.
Essa lógica aproxima profissionais técnicos das decisões estratégicas das companhias.
Uma intervenção bem executada em uma zona de pressão, por exemplo, pode reduzir vazamentos, consumo energético e ocorrências operacionais.
Entretanto, quando esses resultados são corretamente medidos, também podem demonstrar eficiência perante o regulador.
Assim, conhecimento técnico deixa de ser apenas suporte operacional e passa a gerar evidências de desempenho institucional.
O Brasil já está caminhando nessa direção
A discussão internacional encontra forte conexão com o cenário brasileiro.
Desde a atualização do marco legal do saneamento pela Lei nº 14.026/2020, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico passou a editar normas de referência que devem orientar as entidades reguladoras infranacionais.
A regulação da água no Brasil, portanto, também vive um processo de transformação.
Entre os temas já regulamentados pela ANA estão governança das entidades reguladoras, modelos de regulação tarifária, metas progressivas de universalização, condições gerais para prestação dos serviços, estrutura tarifária e tarifa social.
Além disso, a ANA publicou a Norma de Referência nº 15/2025, voltada às diretrizes para gestão da redução progressiva e controle de perdas nos sistemas de distribuição de água potável. (Serviços e Informações do Brasil)
Esse último exemplo é especialmente importante.
Historicamente, perdas de água poderiam ser observadas principalmente como um problema de engenharia e operação.
Agora, o tema ganha também uma dimensão regulatória nacional.
Consequentemente, atividades realizadas diariamente por equipes de campo, centros de controle, manutenção, micromedição, macromedição, cadastro e gestão comercial passam a influenciar diretamente o cumprimento de objetivos regulatórios.
Regulação brasileira também busca maior padronização
Outro desafio brasileiro está relacionado à grande diversidade de estruturas regulatórias.
No país, a ANA estabelece normas de referência, enquanto a regulação e a fiscalização direta continuam sob responsabilidade de agências estaduais, municipais, distritais ou intermunicipais.
A própria ANA esclarece que não fiscaliza diretamente os serviços locais nem aplica penalidades aos prestadores. Essas responsabilidades permanecem com as entidades reguladoras infranacionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Por isso, padronização e governança representam desafios importantes.
A Agenda Regulatória 2025-2026 da ANA busca aumentar previsibilidade e transparência, enquanto o processo de implementação das normas exige adaptação das entidades reguladoras e dos prestadores. Em maio de 2026, por exemplo, foi aberto o processo anual para comprovação do atendimento às normas de referência aplicáveis pelas entidades reguladoras infranacionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Nesse cenário, experiências internacionais discutidas no Water Regulation Forum podem trazer referências úteis.
Entretanto, cada modelo precisa ser analisado considerando a realidade institucional brasileira.
Profissionais do saneamento tornam-se protagonistas da nova regulação
Existe uma consequência importante que nem sempre recebe a devida atenção: quanto mais técnica se torna a regulação da água, maior passa a ser a importância dos profissionais que conhecem os sistemas reais.
Reguladores podem estabelecer indicadores.
Contudo, são operadores, engenheiros, técnicos, analistas, profissionais comerciais, equipes de laboratório, especialistas em tecnologia e gestores que conhecem as condições reais de funcionamento das redes, estações e processos.
São essas equipes que sabem onde as perdas acontecem.
São elas que identificam falhas de cadastro.
Também são elas que percebem limitações de equipamentos, dificuldades operacionais e oportunidades de melhoria que nem sempre aparecem imediatamente nos relatórios corporativos.
Por isso, modelos regulatórios modernos precisam aproximar regulação e conhecimento de campo.
Valorizar os profissionais do saneamento significa também reconhecer que dados regulatórios confiáveis começam no trabalho realizado diariamente dentro das companhias.
Regulação pode determinar a velocidade dos investimentos
Existe ainda uma dimensão financeira.
Saneamento é uma atividade intensiva em capital.
Estações de tratamento, redes, adutoras, reservatórios, sistemas de reúso e plantas de dessalinização podem exigir investimentos elevados e operar durante décadas.
Dessa forma, investidores e financiadores precisam compreender as regras que determinarão receitas, tarifas, metas e riscos durante longos períodos.
Quanto maior a previsibilidade, menor tende a ser a incerteza regulatória.
Ao mesmo tempo, entretanto, o regulador precisa proteger os usuários e exigir eficiência.
Portanto, uma boa regulação da água precisa encontrar equilíbrio entre tarifas adequadas, universalização, qualidade do serviço, capacidade de investimento e eficiência operacional.
Esse equilíbrio é um dos maiores desafios do setor.
O que as companhias brasileiras podem observar desde agora
A iniciativa saudita indica que algumas agendas deverão ganhar força internacionalmente.
Entre elas estão regulação baseada em desempenho, governança de dados, digitalização, reúso, eficiência operacional, mecanismos de incentivo, confiabilidade dos serviços e maior integração entre planejamento hídrico e saneamento.
Para as companhias brasileiras, isso reforça a necessidade de melhorar não apenas infraestrutura, mas também sistemas de medição e gestão.
Não basta reduzir perdas.
Será necessário demonstrar quanto foi reduzido.
Não basta melhorar o atendimento.
Será necessário medir o resultado.
Não basta digitalizar processos.
Será necessário comprovar que a digitalização trouxe eficiência, confiabilidade ou melhoria para o usuário.
Portanto, a regulação da água tende a estimular uma cultura cada vez mais baseada em evidências.
O futuro da água será técnico, digital e regulatório
A criação do Water Regulation Forum revela uma mudança maior do que a realização de um novo evento internacional.
Ela mostra que países com desafios hídricos complexos estão percebendo que infraestrutura e tecnologia não resolvem tudo isoladamente.
É necessário construir regras capazes de incentivar inovação, garantir investimentos, controlar riscos e proteger a sociedade.
A agenda oficial do IDRA World Congress 2026 também reforça essa direção ao abordar dessalinização avançada, expansão do reúso, sistemas integrados, inteligência digital e resiliência hídrica. O congresso reunirá participantes de mais de 60 países em Riade. (IDRA World Congress 2026)
A regulação da água, portanto, passa a atuar como uma engrenagem central do saneamento moderno.
Porém, nenhuma norma produz resultados sozinha.
Resultados aparecem quando regras tecnicamente adequadas encontram profissionais capacitados, dados confiáveis, boa engenharia, gestão eficiente e capacidade de execução.
É justamente por isso que os profissionais do saneamento precisam ser valorizados nesse processo.
São eles que transformarão metas regulatórias em redução de perdas, melhoria do abastecimento, tratamento adequado, atendimento mais eficiente, segurança hídrica e qualidade de vida para a população.
A evolução regulatória pode definir as regras do futuro.
Entretanto, serão os profissionais do saneamento que transformarão essas regras em resultados concretos.
Fontes
Water Online — Saudi Water Authority Launches Global Water Regulation Forum
Notícia publicada em 6 de agosto de 2026.
Saudi Water Authority — SWA
Informações institucionais sobre governança e transformação do setor hídrico saudita.
IDRA World Congress 2026
Programação oficial do congresso, Global Regulators Summit, dessalinização, reúso e transformação digital.
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Normas de Referência do Saneamento Básico e Agenda Regulatória 2025-2026.
Banco Mundial — Water Sector Regulation
Referências internacionais sobre regulação econômica, benchmarking, governança, desempenho e sustentabilidade das utilities.



