Top 10 companhias de saneamento no Mercado Livre de Energia

O saneamento brasileiro está protagonizando um movimento silencioso, mas de enorme impacto financeiro: Sanepar, Embasa e Sabesp ocupam as três primeiras posições do Brasil em quantidade de unidades consumidoras associadas ao Ambiente de Contratação Livre (ACL) em levantamento elaborado a partir dos dados abertos mais recentes da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). A Corsan também aparece em 6º lugar e a Cagece em 20º, considerando empresas de todos os setores da economia. (Thunders⁠)

Em junho de 2026, a consolidação da base aberta da CCEE apontava 867 unidades consumidoras para a Sanepar, 754 para a Embasa, 705 para a Sabesp, 516 para a Corsan e 227 para a Cagece. Portanto, cinco companhias de saneamento estavam entre as 20 organizações brasileiras de maior capilaridade no mercado livre. (Thunders⁠)

O protagonismo não ocorre por acaso. O relatório mensal mais recente da própria CCEE mostra que o saneamento foi o ramo com maior crescimento na quantidade de cargas modeladas em junho de 2026: alta de 34% sobre junho de 2025. Além disso, em 2025, o consumo de energia do setor de saneamento dentro do ambiente livre havia crescido 28,3%, também liderando a expansão entre os ramos econômicos analisados pela Câmara. (CCEE⁠)

Por trás desses números está uma característica estrutural do setor. Captar água, recalcar grandes vazões, tratar água, pressurizar redes, transportar esgoto, operar estações elevatórias, aerar reatores e tratar efluentes exige energia 24 horas por dia. Consequentemente, pequenas reduções no preço efetivo de cada megawatt-hora podem representar milhões de reais ao longo de um contrato.

Entretanto, o Mercado Livre de Energia não deve ser tratado simplesmente como uma forma de “comprar energia mais barata”. Trata-se, sobretudo, de uma nova competência de gestão. Contratação mal dimensionada, exposição excessiva ao mercado de curto prazo, previsão inadequada da carga ou contratos pouco flexíveis podem reduzir a economia e, em alguns casos, elevar os custos.

Por isso, os profissionais do saneamento assumem papel central nessa transformação. Engenheiros, técnicos eletromecânicos, operadores, equipes de energia, gestores de contratos, profissionais financeiros, jurídicos e de suprimentos conhecem particularidades que nenhuma comercializadora consegue compreender isoladamente: sazonalidade de produção, acionamento de grandes conjuntos motobomba, níveis de reservatórios, períodos de estiagem, sistemas emergenciais, expansão de redes, novas ETEs e comportamento da demanda.

É justamente essa integração entre conhecimento operacional e inteligência de contratação que determina se o Mercado Livre de Energia produzirá apenas uma mudança contratual ou uma verdadeira transformação na eficiência do saneamento.

Como foi construído o Top 10

A CCEE não publica um ranking único chamado “Top 10 das companhias de saneamento”. Além disso, existem diferentes formas de medir liderança: quantidade de unidades consumidoras, volume de energia, percentual do consumo já migrado, economia financeira ou maturidade da estratégia energética.

Por essa razão, o ranking foi estruturado com prioridade para a presença atual no ACL e para a quantidade de unidades ou cargas modeladas, complementada pelo consumo de energia, posição nos rankings oficiais da CCEE e resultados corporativos divulgados pelas próprias companhias.

Assim, não se trata de um ranking de “melhor companhia”. Trata-se de uma leitura técnica sobre a dimensão e o estágio de utilização do Mercado Livre de Energia no saneamento brasileiro.

Também existe uma diferença metodológica importante. Uma companhia pode divulgar determinado número de “unidades migradas”, enquanto uma consolidação dos dados abertos da CCEE identifica quantidade diferente de unidades modeladas vinculadas aos agentes e perfis utilizados pela empresa. Por isso, sempre que possível, os dois números são apresentados com sua respectiva origem.

1. Sanepar: maior capilaridade no mercado livre

A Companhia de Saneamento do Paraná aparece na liderança do ranking de unidades consumidoras elaborado a partir da base aberta da CCEE. Em junho de 2026, a consolidação identificava 867 UCs e aproximadamente 86,07 MW médios associados à Sanepar. Com isso, a empresa ocupava o primeiro lugar nacional em quantidade de unidades, considerando todos os segmentos econômicos analisados. (Thunders⁠)

Entretanto, o release corporativo da Sanepar referente ao segundo trimestre de 2026, divulgado em 14 de agosto, informa 800 unidades consumidoras migradas, contra 779 no segundo trimestre de 2025. A diferença entre os 800 informados pela companhia e as 867 UCs identificadas na consolidação dos dados abertos reforça a importância de distinguir “unidades migradas” do conceito de unidades/cargas modeladas encontrado nas bases do mercado. (Sanepar⁠)

O caso da Sanepar traz, ainda, uma das lições mais importantes para quem pretende entrar no Mercado Livre de Energia. Mesmo com a ampliação da migração, a despesa de energia elétrica subiu 24,4% no segundo trimestre de 2026, alcançando R$ 129,7 milhões. A própria empresa relacionou o aumento à maior produção de água, maior volume de esgoto tratado, ajustes operacionais e, principalmente, alterações nos contratos de suprimento que aumentaram a exposição aos preços do mercado de curto prazo. (Sanepar⁠)

Portanto, estar no mercado livre não garante que a despesa cairá todos os anos. A qualidade da estratégia de contratação permanece essencial.

2. Embasa: vice-líder nacional em número de UCs

A Embasa ocupa uma posição particularmente relevante. Na consolidação referente a junho de 2026, foram identificadas 754 unidades consumidoras e aproximadamente 97,74 MW médios, colocando a companhia baiana em segundo lugar no Brasil em número de UCs, atrás apenas da Sanepar. (Thunders⁠)

Além da capilaridade, a Embasa aparece no InfoMercado oficial da CCEE como 3º maior consumidor especial do país em consumo de energia, posição que inclui empresas de todos os setores. No ranking de número de unidades dentro da categoria de consumidores especiais, também aparece na terceira posição. (CCEE⁠)

A trajetória financeira ajuda a explicar por que o mercado livre ganhou dimensão estratégica. Em 2022, a Embasa informou que a migração de cargas para o ACL havia proporcionado R$ 45,4 milhões de economia, dentro de um programa mais amplo de energias renováveis. (Embasa⁠)

Mais recentemente, no primeiro trimestre de 2025, a empresa informou que a contratação no mercado livre havia chegado a 90% de cobertura, gerando R$ 9 milhões de economia somente naquele período. (Embasa⁠)

Assim, a Embasa representa um dos exemplos brasileiros mais avançados de transformação da compra de energia em uma atividade estratégica de gestão operacional.

3. Sabesp: gigante em volume de energia

Se o critério deixa de ser quantidade de unidades e passa a ser consumo, a Sabesp ganha ainda mais relevância.

O levantamento baseado nos dados abertos da CCEE registra 705 UCs vinculadas à companhia em junho de 2026. Além disso, no ranking geral por consumo, a Sabesp aparece como 9º maior consumidor do Mercado Livre de Energia brasileiro, com aproximadamente 314,7 MW médios. É uma escala comparável à de grandes grupos industriais eletrointensivos. (Thunders⁠)

O InfoMercado oficial de junho também coloca a Sabesp em posições excepcionais: primeiro lugar em quantidade de unidades tanto entre consumidores livres quanto entre consumidores especiais, além do segundo maior consumo entre consumidores especiais e oitavo entre consumidores livres. (CCEE⁠)

A dimensão revela como o saneamento pode ser energeticamente intensivo. A operação envolve sistemas metropolitanos gigantescos, estações elevatórias, captações, ETAs, ETEs, reservatórios e uma infraestrutura distribuída em centenas de pontos.

Por isso, a Sabesp demonstra que energia não deve ser tratada apenas como conta a pagar. Em operações desse porte, energia deve ser gerida como insumo estratégico.

4. Corsan: mais de 500 unidades no ACL

A Corsan aparece com 516 unidades consumidoras e aproximadamente 47,39 MW médios na consolidação de junho de 2026. Com isso, estava em sexto lugar no ranking nacional por quantidade de UCs, considerando empresas de todos os setores. (Thunders⁠)

No relatório oficial da CCEE, a Corsan também aparece em quinto lugar entre os consumidores especiais com maior número de unidades modeladas e em oitavo entre os maiores consumos dessa categoria. (CCEE⁠)

A posição demonstra outra característica relevante do saneamento: a pulverização das cargas. Diferentemente de uma siderúrgica, que pode concentrar centenas de megawatts em poucas plantas, uma companhia de água e esgoto distribui o consumo por captações, elevatórias, boosters, ETAs, ETEs e instalações operacionais espalhadas por dezenas ou centenas de municípios.

Essa característica torna a gestão contratual mais complexa, mas também cria oportunidades para estratégias de portfólio e agrupamento de cargas.

5. Cagece: destaque do Nordeste

A Cagece aparece com 227 unidades consumidoras e aproximadamente 17,38 MW médios na consolidação da base aberta referente a junho de 2026. O número coloca a companhia entre as 20 maiores organizações brasileiras em quantidade de UCs no ACL. (Thunders⁠)

Mais significativo ainda, o InfoMercado oficial da CCEE posiciona a Cagece como segunda maior consumidora especial do país em quantidade de unidades modeladas, atrás apenas da Sabesp dentro dessa classificação. (CCEE⁠)

A experiência cearense começou antes da atual onda de abertura. Em 2020, por exemplo, a companhia já registrava economia superior a R$ 2,6 milhões com duas unidades no mercado livre, equivalente a uma redução de 9,9% no custo de energia dessas instalações. (Portal Cagece⁠)

Atualmente, a gestão do Mercado Livre de Energia continua integrada ao planejamento estratégico da Cagece, mostrando como a experiência inicialmente concentrada em grandes cargas pode evoluir para uma política energética corporativa.

6. CASAN: economia próxima de R$ 20 milhões em um ano

A CASAN apresenta um dos casos recentes mais claros de economia financeira.

Em abril de 2026, a companhia informou possuir 79 unidades operando no mercado livre, responsáveis por aproximadamente 50% de todo o seu consumo de energia elétrica. A quantidade havia crescido quase 700% em comparação com 2024. Além disso, a companhia declarou economia de quase R$ 20 milhões em 2025 e de mais de R$ 35 milhões desde 2022. (Casan⁠)

A CCEE confirma a relevância dessa expansão ao posicionar a CASAN em sétimo lugar entre os consumidores especiais com maior número de unidades modeladas em junho de 2026. (CCEE⁠)

Outro aspecto merece atenção dos profissionais: a migração foi utilizada como oportunidade para revisar subestações, sistemas de proteção, medição e componentes elétricos. Portanto, o projeto deixou de ser exclusivamente financeiro e passou a contribuir para confiabilidade e segurança operacional.

Essa abordagem é particularmente recomendável no saneamento, onde uma falha elétrica pode significar desabastecimento de água, extravasamento de esgoto ou paralisação de processos críticos.

7. Compesa: grande consumo e contratação renovável

A Compesa aparece em quarto lugar entre os consumidores especiais de maior consumo de energia do Brasil no InfoMercado de junho de 2026. A posição, novamente, considera empresas de todos os setores, mostrando a intensidade energética da operação pernambucana. (CCEE⁠)

A estratégia vem sendo estruturada há vários anos. Em uma contratação anunciada em 2023, por exemplo, 20 unidades que respondiam por aproximadamente 12% do consumo total da companhia foram selecionadas para aquisição de energia renovável no ACL. À época, a redução projetada era de 26% a 30% em comparação ao ambiente regulado, com uma economia estimada de aproximadamente R$ 62 milhões durante os cinco anos do contrato. (Compesa Serviços⁠)

Além disso, a companhia já havia identificado centenas de unidades potencialmente elegíveis, demonstrando que a migração pode ocorrer em ondas, começando pelas maiores cargas e avançando progressivamente conforme a viabilidade econômica e regulatória.

8. Águas do Piauí: entrada rápida entre as maiores modelagens

A Águas do Piauí já aparece no relatório de junho de 2026 da CCEE como oitavo maior consumidor especial do Brasil em quantidade de unidades modeladas. (CCEE⁠)

O dado chama atenção porque demonstra como novos operadores podem incorporar a gestão energética desde os primeiros ciclos de modernização das operações.

Por outro lado, como ainda não foram identificados dados corporativos públicos suficientemente detalhados e comparáveis sobre economia anual e quantidade total consolidada de UCs no ACL, não seria tecnicamente correto atribuir à companhia percentuais de redução de custos ou valores financeiros sem documentação equivalente à disponível para Embasa, CASAN ou Saneago.

Ainda assim, sua presença no ranking oficial da CCEE justifica a inclusão entre os principais nomes a acompanhar.

9. Saneago: R$ 31 milhões de economia em 2025

A Saneago fornece um caso didático de expansão planejada.

Até dezembro de 2025, a companhia havia migrado 42 unidades consumidoras, distribuídas por 19 cidades. Apesar de aparentemente pequeno diante das centenas de UCs de Sanepar e Embasa, essas unidades correspondiam a 41,4% de toda a energia consumida pela Saneago. (Saneago⁠)

O resultado financeiro foi expressivo: a economia estimada entre janeiro e dezembro de 2025 atingiu R$ 31 milhões. Além disso, o planejamento previa a migração de mais 28 unidades anualmente, com expectativa de elevar a participação do mercado livre para aproximadamente 60% do consumo da companhia. (Saneago⁠)

O exemplo demonstra uma regra importante: quantidade de unidades não deve ser analisada isoladamente. Uma única estação elevatória de grande porte pode consumir muito mais energia do que dezenas de pequenos escritórios, reservatórios ou unidades administrativas.

10. Copasa: estratégia com potencial de centenas de milhões

A Copasa também vem ampliando a utilização do mercado livre. A companhia iniciou a contratação de energia convencional no ACL em 2022 e, a partir de junho de 2023, passou também a adquirir energia incentivada proveniente de fontes renováveis para unidades de média e alta tensão.

Segundo divulgação corporativa, essa estratégia deveria alcançar aproximadamente 51% de toda a energia consumida pela companhia, com redução de custos projetada em cerca de R$ 280 milhões ao longo de 60 meses. (Notícias Copasa⁠)

É importante destacar que R$ 280 milhões constituem uma projeção de economia contratual, e não um valor já integralmente realizado. Essa distinção é essencial para análises profissionais.

Ainda assim, o porte da operação e a participação prevista do ACL colocam a Copasa entre os principais casos brasileiros de utilização estratégica do Mercado Livre de Energia.

O caso da Caesb merece atenção especial

Embora não entre no Top 10 pelo critério combinado adotado, a Caesb apresenta um dos indicadores financeiros mais impressionantes encontrados na pesquisa.

Em 2024, foram migradas as dez maiores unidades operacionais da companhia, que juntas representavam aproximadamente 75% de sua despesa com energia. Entre maio e novembro daquele ano, a empresa informou economia de R$ 17,3 milhões, equivalente a uma redução de 55,28% na despesa dessas unidades. (CAESB⁠)

Esse percentual não deve ser generalizado para todo o mercado nem interpretado como uma economia padrão disponível a qualquer companhia. Ele se refere às unidades e ao período específicos informados pela Caesb.

Ainda assim, demonstra por que a seleção correta das cargas pode produzir resultados muito relevantes mesmo antes de uma migração massiva.

Quanto uma companhia de saneamento realmente pode economizar?

Os casos analisados mostram economias bastante diferentes.

A Embasa informou R$ 45,4 milhões decorrentes da migração de cargas em 2022 e outros R$ 9 milhões no primeiro trimestre de 2025, quando a cobertura contratada no ACL alcançava 90%. A CASAN economizou quase R$ 20 milhões em 2025. A Saneago estimou R$ 31 milhões no mesmo ano. A Caesb registrou redução de 55,28% nas dez unidades analisadas durante parte de 2024. Já a Compesa projetou reduções de 26% a 30% em uma contratação específica. (Embasa⁠)

Entretanto, esses números não são diretamente comparáveis.

Alguns representam economia realizada; outros são projeções. Alguns abrangem toda a companhia; outros apenas determinadas unidades. Além disso, os contratos foram celebrados em anos diferentes, com condições hidrológicas, PLD, tarifas reguladas, fontes de energia e estruturas contratuais distintas.

Consequentemente, não existe um percentual universal de economia no Mercado Livre de Energia.

O cálculo correto deve comparar o custo total contrafactual no mercado regulado com o custo completo da operação no ACL, incluindo energia contratada, distribuição, encargos, gestão, garantias, exposição ao curto prazo e demais componentes aplicáveis.

Como o Mercado Livre de Energia funciona na prática

A primeira mudança de entendimento necessária é simples: a energia física não passa a chegar por um cabo diferente.

A estação continua conectada à rede da distribuidora local. A distribuidora continua responsável pela infraestrutura de distribuição e por componentes regulados da cobrança. O que muda é a forma de comprar a parcela de energia negociável.

Desde janeiro de 2024, todos os consumidores atendidos em média ou alta tensão, integrantes do Grupo A, podem migrar para o ACL. Para unidades com demanda igual ou superior a 0,5 MW, a participação pode ocorrer diretamente na CCEE ou por intermédio de um agente varejista. No modelo direto, o consumidor assume obrigações próprias perante a Câmara. (CCEE⁠)

Em termos simplificados, deixa de existir uma única contratação integral com a distribuidora. Passam a coexistir o pagamento pelo uso da rede e demais componentes regulados e a aquisição da energia propriamente dita conforme condições negociadas no Mercado Livre de Energia. (CCEE⁠)

É justamente nessa parcela negociável que podem ser definidos preço, prazo, quantidade, fonte, flexibilidades e outras condições comerciais.

A abertura ficará ainda maior a partir de 2027 e 2028

Uma mudança publicada em 12 de agosto de 2026 deve ampliar ainda mais a importância do tema.

O Decreto nº 13.097 regulamentou a abertura do mercado para consumidores atendidos em tensão inferior a 2,3 kV. Consumidores industriais e comerciais poderão escolher fornecedor a partir de 25 de novembro de 2027. Para os demais consumidores de baixa tensão, a abertura está prevista para 25 de novembro de 2028. (Planalto⁠)

Esses consumidores deverão ser representados por agentes varejistas. O decreto também estabelece, como regra, comunicação à distribuidora com antecedência mínima de 90 dias, embora a Aneel possa regulamentar procedimentos simplificados. (Planalto⁠)

Para o saneamento, isso abre uma nova fronteira.

Companhias possuem milhares de pequenas instalações que atualmente podem não estar no escopo tradicional do ACL. Escritórios, pequenos reservatórios, boosters, laboratórios e instalações descentralizadas poderão futuramente ser avaliados. Entretanto, a data aplicável dependerá da classificação regulatória de cada unidade, razão pela qual o enquadramento deverá ser verificado individualmente.

A digitalização já está preparando esse cenário. No primeiro trimestre de 2026, mais de 70% das 4.827 novas migrações ao mercado livre ocorreram pelo modelo simplificado de gestão do varejo implantado pela CCEE. Em abril, aproximadamente 75% das 1.213 migrações também ocorreram via varejista. (CCEE⁠)

Como implantar o Mercado Livre de Energia em uma companhia de saneamento

A implantação segura deve começar muito antes da assinatura de um contrato de energia.

1. Mapear todas as unidades consumidoras

O primeiro trabalho consiste em criar uma base energética corporativa completa.

Cada unidade deve conter, no mínimo, distribuidora, grupo e subgrupo tarifário, demanda contratada, histórico de demanda medida, consumo mensal, modalidade tarifária, tensão, horário de maior carga, multas, ultrapassagens, energia reativa, características do sistema e criticidade operacional.

Além disso, o cadastro deve identificar se a unidade é ETA, ETE, elevatória, captação, booster, reservatório, prédio administrativo ou outro ativo.

Essa etapa parece administrativa, porém é profundamente operacional.

2. Identificar as maiores cargas

O próximo passo consiste em aplicar uma curva ABC.

Normalmente, poucas estações respondem por grande parte do consumo total. O caso da Caesb é exemplar: apenas dez unidades representavam 75% da despesa energética analisada.

Consequentemente, não é necessário esperar a migração de centenas de unidades para começar a capturar benefícios. Grandes captações, elevatórias e ETEs podem formar a primeira onda.

3. Construir uma linha de base

Não basta comparar o preço da energia ofertada por uma comercializadora com a tarifa atual.

Deve-se calcular quanto a companhia efetivamente pagaria no mercado cativo durante o mesmo período e sob condições equivalentes.

A comparação precisa considerar consumo, demanda, TUSD, encargos, impostos, sazonalidade e demais custos relevantes. Dessa forma, evita-se apresentar como “economia do mercado livre” reduções que decorreriam de outros fatores.

4. Projetar a carga futura

Essa é uma das etapas em que os profissionais do saneamento são insubstituíveis.

Uma comercializadora pode modelar curvas de consumo, mas somente as equipes responsáveis pela operação conhecem a realidade dos sistemas.

Uma nova captação entrará em funcionamento? Uma ETE será ampliada? Haverá aumento de produção no verão? Determinada elevatória deixará de operar após uma obra? Existe risco de estiagem exigir bombeamento emergencial?

Todas essas informações precisam alimentar a contratação.

5. Escolher entre participação direta e varejista

Grandes consumidores podem avaliar a adesão direta à CCEE. Esse modelo oferece maior controle, mas aumenta a responsabilidade sobre processos de medição, contabilização, contratos, garantias e liquidação.

A representação varejista, por outro lado, transfere boa parte da complexidade operacional para um agente especializado.

Não existe uma escolha universalmente superior. Companhias grandes, com equipes próprias de energia e portfólio relevante, podem justificar estruturas mais sofisticadas. Já operações menores podem priorizar simplicidade.

6. Estruturar o produto de energia

O contrato deve ser compatível com o comportamento hidráulico e operacional da companhia.

Devem ser avaliados prazo, volume contratado, flexibilidade superior e inferior, sazonalização, modulação, fonte da energia, reajustes, garantias, tratamento de sobras e déficits e regras para expansão ou retirada de cargas.

Essa etapa é decisiva.

Comprar menos energia do que o necessário pode deixar a empresa exposta ao mercado de curto prazo. Comprar muito mais também pode gerar custos ou necessidade de administrar excedentes.

A experiência recente da Sanepar mostra por que esse risco não é teórico: alterações contratuais aumentaram a exposição da companhia aos preços de curto prazo no segundo trimestre de 2026. (Sanepar⁠)

7. Preparar medição e infraestrutura elétrica

A migração também pode exigir adequações técnicas e de medição conforme o enquadramento da unidade.

Consequentemente, devem ser avaliados medidores, comunicação, proteção, transformadores de instrumentos, painéis, subestações e requisitos da distribuidora e da CCEE.

A CASAN transformou essa etapa em oportunidade para modernizar equipamentos e aumentar a confiabilidade das instalações. (Casan⁠)

8. Contratar com governança

Companhias públicas e sociedades de economia mista precisam integrar a estratégia energética às regras de contratação, governança, gestão de riscos e regulamentos internos aplicáveis.

O edital ou instrumento de contratação deve impedir que a disputa fique limitada ao menor preço aparente de R$/MWh.

Flexibilidade, risco de contraparte, garantias, estrutura de preço, experiência do fornecedor, gestão das cargas, transparência e mecanismos de saída também podem gerar impactos financeiros relevantes.

9. Monitorar diariamente o portfólio

Depois da migração, a gestão não termina.

Consumo contratado e consumo realizado precisam ser acompanhados continuamente. Mudanças operacionais devem chegar rapidamente às equipes responsáveis pela energia.

O Mercado Livre de Energia transforma o consumo elétrico em uma variável que precisa ser prevista, monitorada e gerenciada.

Os principais riscos que não podem ser ignorados

O primeiro risco é o descasamento de volume. Se o consumo real ficar muito distante do contratado, a economia planejada pode diminuir.

O segundo é a exposição ao mercado de curto prazo. Em junho de 2026, por exemplo, o PLD médio ficou em R$ 188,15/MWh, mas esse preço varia conforme as condições do sistema elétrico. Portanto, decisões estruturais não devem depender da expectativa de que o mercado de curto prazo permanecerá barato. (CCEE⁠)

O terceiro risco está na contraparte. Preço baixo não deve ser o único critério na seleção de comercializadores e fornecedores. Solidez financeira, garantias, capacidade operacional e estrutura de gestão de risco ganham importância principalmente em contratos longos.

Outro risco está na própria operação do saneamento. Períodos de seca, aumento inesperado da demanda, rompimentos de adutoras, novos sistemas, mudanças no regime de reservação e acionamento extraordinário de bombas podem alterar drasticamente a curva de carga.

Portanto, um contrato de energia nunca deve dificultar a obrigação principal da companhia: manter água e esgoto funcionando com segurança e continuidade.

Mercado livre e eficiência energética precisam caminhar juntos

Existe uma diferença fundamental entre pagar menos pela energia e consumir menos energia para prestar o mesmo serviço.

O Mercado Livre de Energia atua principalmente na primeira dimensão.

Já a eficiência energética atua na segunda.

Por isso, o maior resultado surge quando as duas estratégias são integradas.

Uma companhia pode migrar para o ACL e, simultaneamente, substituir motores antigos por equipamentos de maior rendimento, instalar inversores de frequência, revisar curvas de bombas, reduzir perdas de carga, melhorar o fator de potência, automatizar reservatórios, otimizar pressões e programar bombeamentos de forma mais eficiente.

Além disso, reduzir perdas de água também pode representar economia energética. Água produzida e perdida já consumiu energia em captação, tratamento e, muitas vezes, bombeamento. Portanto, combater perdas reduz simultaneamente desperdício hídrico, químico e energético.

Os indicadores que deveriam chegar à diretoria

Uma política moderna de energia não deveria acompanhar apenas a conta mensal.

Entre os indicadores recomendados estão:

  • consumo específico em kWh por metro cúbico de água produzida;
  • consumo específico em kWh por metro cúbico de esgoto tratado;
  • custo total de energia por metro cúbico;
  • custo efetivo total em R$/MWh;
  • percentual da energia consumida no ACL;
  • percentual de energia renovável contratada;
  • diferença entre energia contratada e consumida;
  • exposição ao mercado de curto prazo;
  • economia acumulada em relação ao cenário de referência;
  • demanda contratada versus demanda medida;
  • desempenho energético das maiores instalações.

Esses indicadores aproximam as equipes de energia das áreas de operação, manutenção, engenharia e planejamento.

Por que o saneamento está se tornando protagonista

Os dados de 2026 confirmam que a expansão do setor no Mercado Livre de Energia deixou de ser fenômeno isolado.

Sanepar, Embasa e Sabesp lideram o país em capilaridade no levantamento baseado nos dados abertos da CCEE. Corsan e Cagece também aparecem entre os maiores agentes por número de unidades. Paralelamente, CASAN, Saneago, Compesa, Copasa e outras companhias demonstram economias, expansão e amadurecimento das estratégias energéticas. (Thunders⁠)

Além disso, a CCEE registrou crescimento de 34% nas cargas modeladas do ramo de saneamento em junho de 2026, maior avanço entre todos os setores acompanhados. (CCEE⁠)

Portanto, existe um movimento estrutural.

Por décadas, energia elétrica foi vista principalmente como despesa inevitável. Agora, ela passa a ser tratada como variável de engenharia, contratação, risco, sustentabilidade e eficiência.

E justamente por isso o profissional do saneamento se torna ainda mais relevante.

A tecnologia ajuda a prever cargas. Comercializadoras ajudam a estruturar contratos. Sistemas digitais ajudam a monitorar preços e consumo. Entretanto, nenhuma dessas ferramentas conhece o comportamento real de uma captação durante uma estiagem, a consequência de desligar uma elevatória crítica, o tempo necessário para recuperar um reservatório ou a demanda elétrica de uma ETE durante uma mudança de processo.

Esse conhecimento permanece dentro das companhias.

O verdadeiro avanço do Mercado Livre de Energia no saneamento acontece quando conhecimento hidráulico, eletromecânico, operacional, financeiro e contratual passam a trabalhar juntos.

Nesse cenário, economia de energia deixa de significar apenas reduzir uma despesa. Significa liberar recursos que podem ser utilizados na expansão dos sistemas, renovação de ativos, combate às perdas, automação, melhoria do tratamento e universalização.

Para um setor que precisa investir centenas de bilhões de reais nos próximos anos, cada ganho permanente de eficiência importa.

E os números mais recentes mostram que as companhias de saneamento brasileiras já compreenderam essa oportunidade.

Fontes