Os resultados da Sanepar no segundo trimestre de 2026 trazem uma daquelas situações em que olhar apenas para o lucro líquido pode levar a uma interpretação incompleta do desempenho de uma companhia de saneamento.

A Sanepar registrou prejuízo líquido contábil de R$ 505,2 milhões no 2T26, revertendo o lucro de R$ 263,8 milhões registrado no mesmo trimestre de 2025. Entretanto, quando são retirados os principais efeitos considerados não recorrentes, o cenário muda significativamente: o lucro líquido ajustado alcançou R$ 447,5 milhões, enquanto o EBITDA ajustado chegou a R$ 799,9 milhões, com margem de 42,1%. (Sanepar)
Além disso, a receita operacional líquida avançou 11,5%, passando de R$ 1,705 bilhão para R$ 1,901 bilhão. Portanto, apesar do prejuízo contábil expressivo, o negócio de água e esgoto continuou apresentando expansão operacional. (Sanepar)
Essa diferença entre resultado contábil e desempenho operacional é justamente o ponto central para compreender corretamente os resultados da Sanepar.
Precatório muda completamente a fotografia do trimestre
O principal fator responsável pelo prejuízo não nasceu na operação cotidiana de produzir água, tratar esgoto, faturar clientes ou manter redes.
O impacto veio do tratamento regulatório de recursos relacionados a um precatório decorrente de ação judicial envolvendo IRPJ.
A Agepar estabeleceu, por meio da Resolução nº 39, de 23 de junho de 2026, que a totalidade do valor líquido recebido pela Sanepar deveria beneficiar os usuários por meio da modicidade tarifária. A decisão regulatória prevê mecanismos como investimentos não onerosos e descontos nas tarifas. (Agepar)
Anteriormente, a Sanepar trabalhava contabilmente com uma divisão diferente desse benefício. Consequentemente, a decisão da agência levou ao reconhecimento complementar do passivo regulatório.
Somente no segundo trimestre, os itens associados ao passivo regulatório, honorários e ajustes alcançaram aproximadamente R$ 952,7 milhões entre os ajustes classificados pela companhia como não recorrentes. Desse total, cerca de R$ 259,6 milhões impactaram o resultado operacional e R$ 693,1 milhões apareceram no resultado financeiro. (Genial Analisa)
Por isso, os resultados da Sanepar mostram um prejuízo contábil expressivo sem necessariamente indicar uma deterioração equivalente da atividade operacional.
Receita cresce 11,5% com tarifas, volumes e novas ligações
Enquanto a discussão regulatória pressionou o resultado final, a atividade principal apresentou crescimento.
A receita operacional líquida atingiu R$ 1,901 bilhão no 2T26, crescimento de 11,5% sobre os R$ 1,705 bilhão registrados no segundo trimestre de 2025. No primeiro semestre, a receita alcançou aproximadamente R$ 3,85 bilhões, avanço de 9,6%. (Sanepar)
Segundo a companhia, quatro fatores contribuíram principalmente para esse desempenho: reajustes tarifários, aumento do volume faturado de água, expansão do volume faturado de esgoto e crescimento do número de ligações. (Sanepar)
O reajuste tarifário de 2,4993% aplicado a partir de maio de 2026 também passou a contribuir para a receita, além dos efeitos ainda presentes da revisão tarifária anterior.
Consequentemente, os resultados da Sanepar demonstram que crescimento tarifário e expansão física da base continuaram fortalecendo a receita recorrente.
Água e esgoto avançam em volume faturado
Outro indicador importante para profissionais do saneamento está nos volumes.
O volume faturado de água atingiu 149,1 milhões de metros cúbicos no trimestre, crescimento de aproximadamente 4,9% na comparação anual. Somente no segmento residencial, o volume passou de 120 milhões para 125,7 milhões de metros cúbicos. (Sanepar)
Também houve avanço significativo no esgotamento sanitário. Durante a teleconferência, a administração informou crescimento próximo de 5,9% no volume faturado de esgoto no trimestre. (Investing.com)
Esse ponto merece atenção porque o crescimento do esgoto possui efeito importante sobre a sustentabilidade econômica das companhias. À medida que novas economias passam a contar com coleta e tratamento, aumenta-se a base de faturamento ao mesmo tempo em que se avança na universalização.
Sanepar chega a 82,9% de cobertura de esgoto
Em junho de 2026, a companhia registrava aproximadamente 4,424 milhões de economias de água e 3,636 milhões de economias atendidas por rede coletora de esgoto.
O índice de atendimento com água tratada permaneceu em 100%, enquanto a cobertura urbana com rede coletora de esgoto alcançou 82,9%. Além disso, segundo os dados apresentados pela companhia, 100% do esgoto coletado é tratado. (Sanepar)
As economias atendidas com esgoto cresceram 3,1% em relação a junho de 2025. A extensão da rede coletora chegou a 44.941 quilômetros, aumento de 2,5% no período. (Sanepar)
Portanto, os resultados da Sanepar também revelam uma companhia que continua ampliando infraestrutura em direção às metas de universalização.
Perdas de faturamento apresentam melhora
Um dado particularmente relevante para profissionais responsáveis por perdas, faturamento e eficiência comercial foi a evolução do indicador de perdas no faturamento.
Em junho de 2026, as perdas no faturamento ficaram em 30,83%, contra 31,96% em junho de 2025. A redução foi de 1,13 ponto percentual. (Sanepar)
Na teleconferência, a administração também destacou indicador de aproximadamente 216 litros por ligação por dia, abaixo dos 223 litros observados em junho de 2025. (Investing.com)
Embora ainda exista amplo espaço para ganhos de eficiência, qualquer redução consistente de perdas representa água produzida que deixa de ser desperdiçada ou não contabilizada. Na prática, isso significa menor necessidade de expansão de produção, menor gasto energético por receita faturada e maior eficiência econômica dos ativos existentes.
É justamente nesse campo que profissionais de operação, engenharia, manutenção, automação e gestão comercial possuem papel decisivo.
Energia elétrica acende sinal de atenção
Nem todos os indicadores operacionais foram positivos.
A despesa com energia elétrica aumentou 24,4% no período. Entre as causas apontadas aparecem maior produção de água, crescimento do volume tratado de esgoto, ajustes operacionais e maior exposição temporária aos preços de curto prazo de energia. (Sanepar)
Ao mesmo tempo, a Sanepar ampliou de 779 para 800 o número de unidades consumidoras migradas para o Mercado Livre de Energia, movimento que ajudou a reduzir parcialmente a pressão dos custos. (Sanepar)
Para o setor de saneamento, essa informação é estratégica. Energia elétrica está entre os maiores componentes de custo operacional das companhias, principalmente em sistemas com grande quantidade de bombeamentos, estações elevatórias, captações e tratamento.
Assim, eficiência energética, otimização hidráulica, geração própria, mercado livre e melhor gestão das curvas de carga tendem a ganhar ainda mais importância.
PPP de esgoto já aparece com força nos custos
Outro componente que chama atenção nos resultados da Sanepar é a expansão das despesas associadas às Parcerias Público-Privadas de esgotamento sanitário.
O custo com serviços de operação de esgoto relacionados às PPPs apresentou crescimento elevado em razão do início das atividades nas microrregiões Centro-Leste e Oeste do Paraná. (Sanepar)
Esse avanço não deve ser interpretado isoladamente como perda de eficiência. Em modelos de PPP, a entrada das estruturas privadas em operação aumenta despesas contratadas ao mesmo tempo em que acelera investimentos, implantação de sistemas e cobertura.
Portanto, o indicador deverá ser acompanhado juntamente com crescimento de economias de esgoto, volume faturado, cobertura, qualidade do serviço e cumprimento das metas contratuais.
Investimentos permanecem acima de R$ 1,1 bilhão no semestre
A Sanepar investiu R$ 563,8 milhões no segundo trimestre, 7,9% abaixo do 2T25. Entretanto, no acumulado do primeiro semestre, os investimentos chegaram a R$ 1,152 bilhão, crescimento de 4,8%. (Sanepar)
Desse total semestral, aproximadamente R$ 679,7 milhões foram direcionados ao esgoto e R$ 364,9 milhões aos sistemas de água.
Ou seja, embora o investimento trimestral tenha recuado, o ciclo anual continua avançando.
Esse movimento é especialmente relevante porque a corrida pela universalização exige simultaneamente expansão de redes, estações de tratamento, reservação, segurança hídrica, automação, redução de perdas e modernização dos sistemas existentes.
Endividamento continua administrável
Outro ponto positivo nos resultados da Sanepar aparece na estrutura financeira.
A relação dívida líquida/EBITDA ficou próxima de 1,0 vez, contra 1,7 vez no mesmo período do ano anterior. A dívida líquida terminou o trimestre próxima de R$ 2,6 bilhões. (Sanepar)
Além disso, a dívida financeira possui vencimentos distribuídos por diversos anos, com financiamentos ligados à Caixa Econômica Federal, debêntures, Banco do Brasil, BNDES, KfW e outras fontes. (Sanepar)
Essa estrutura dá maior capacidade para financiar o enorme volume de investimentos necessário à expansão dos sistemas.
Afinal, a Sanepar realmente ficou abaixo da previsão de receita?
A reportagem do Investing.com afirma que a receita do trimestre foi de aproximadamente R$ 1,85 bilhão, abaixo da expectativa de R$ 1,89 bilhão dos analistas. (Investing.com)
Entretanto, o release oficial da companhia informa receita operacional líquida de R$ 1,9011 bilhão, alta de 11,5%. Esse mesmo valor de aproximadamente R$ 1,90 bilhão aparece em análises publicadas posteriormente por InfoMoney, BB Investimentos e outras casas de análise. (Sanepar)
Portanto, existe provavelmente uma diferença de critério, base de dados ou classificação utilizada pelo agregador financeiro.
Para uma análise técnica do setor de saneamento, o valor apresentado oficialmente pela companhia nas demonstrações financeiras oferece a referência mais adequada.
O que realmente deve ser acompanhado daqui para frente
Os resultados da Sanepar deixam cinco temas particularmente importantes para os próximos trimestres:
- Desfecho da disputa regulatória dos precatórios, porque poderá alterar a distribuição econômica dos recursos entre companhia e consumidores.
- Controle dos custos de energia e serviços de terceiros, principalmente diante da expansão dos sistemas.
- Crescimento da cobertura de esgoto, atualmente em 82,9%, rumo à universalização.
- Continuidade da redução das perdas, indicador fundamental para eficiência operacional e comercial.
- Execução dos investimentos e das PPPs, especialmente em esgotamento sanitário.
A administração informou durante a teleconferência que pretende continuar discutindo administrativa e judicialmente o tratamento dos precatórios. Além disso, a companhia segue trabalhando em expansão de infraestrutura, enchimento do reservatório Miringuava e preparação do planejamento empresarial 2027-2031. (Investing.com)
Profissionais do saneamento aparecem por trás dos números
Os balanços financeiros normalmente destacam receita, EBITDA, lucro e investimentos. Entretanto, cada indicador depende diretamente de milhares de decisões técnicas e operacionais.
Uma redução de perdas depende de equipes de pesquisa de vazamentos, manutenção, engenharia, automação, cadastro e gestão comercial. Uma nova ligação de esgoto depende de planejamento, projeto, obra, operação e relacionamento com clientes. Uma redução de energia exige engenharia hidráulica, gestão de contratos, telemetria e eficiência operacional.
Por isso, os resultados da Sanepar também demonstram como profissionais do saneamento possuem impacto direto na sustentabilidade financeira das empresas.
Universalização não ocorre somente com bilhões em investimentos. Ela depende da capacidade técnica de transformar recursos financeiros em redes funcionando, estações operando, água chegando com qualidade, esgoto sendo tratado, perdas diminuindo e clientes sendo adequadamente atendidos.
Conclusão
O prejuízo de R$ 505,2 milhões chama atenção, porém não resume os resultados da Sanepar no 2T26.
A receita cresceu 11,5%, os volumes faturados avançaram, novas economias foram conectadas, a cobertura de esgoto chegou a 82,9%, as perdas no faturamento diminuíram e o EBITDA ajustado alcançou R$ 799,9 milhões.
Por outro lado, energia elétrica, custos associados às PPPs e, principalmente, a disputa regulatória envolvendo os precatórios criam desafios que precisam ser acompanhados.
Assim, o trimestre oferece uma importante lição para profissionais e gestores do saneamento: resultado contábil, resultado operacional e resultado regulatório precisam ser analisados separadamente antes de qualquer conclusão sobre a saúde de uma companhia.
No caso da Sanepar, o prejuízo dominou a manchete. Entretanto, por trás dele existe uma operação que continuou crescendo — e uma disputa regulatória bilionária capaz de determinar parte relevante da fotografia financeira dos próximos trimestres.
Fontes
- Sanepar — Release oficial de resultados do 2T26
- Investing.com — Earnings Call Transcript Sanepar 2Q26
- Agepar — Audiências Públicas e tratamento regulatório do precatório
- Agepar — Leis e Atos / Resolução nº 39 de 2026
- BB Investimentos — Análise dos resultados da Sanepar no 2T26
- InfoMoney — Resultados da Sanepar no segundo trimestre de 2026
- Genial Investimentos — Análise operacional do 2T26 da Sanepar



