Os resultados da Cagece no segundo trimestre de 2026 apresentam um contraste que merece atenção de quem atua profissionalmente no saneamento: enquanto o lucro líquido caiu 55,5%, a operação da companhia avançou em praticamente todos os principais indicadores de geração operacional de resultado.

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará registrou lucro líquido de R$ 30,6 milhões no 2T26, contra R$ 68,7 milhões no mesmo período de 2025. Entretanto, a receita líquida cresceu 15,3%, alcançando R$ 731,9 milhões, enquanto o EBITDA avançou 21,9%, para R$ 228,6 milhões. Além disso, a margem EBITDA passou de 29,5% para 31,2%. (Mziq API)
Portanto, uma leitura limitada à queda do lucro poderia produzir uma interpretação incompleta dos resultados da Cagece. O principal fator de pressão ocorreu depois da operação: o resultado financeiro líquido negativo mais do que dobrou e alcançou R$ 110,4 milhões no trimestre. (Mziq API)
Ao mesmo tempo, a companhia acelerou investimentos, expandiu redes, aumentou o volume faturado de esgoto e reduziu indicadores de perdas de água. Para profissionais do saneamento, os números mostram como desempenho operacional, estrutura de capital, política energética, gestão comercial e universalização precisam ser analisados de maneira integrada.
Principais números da Cagece no 2T26
Os principais resultados da Cagece no segundo trimestre de 2026 foram:
- Receita líquida: R$ 731,9 milhões, alta de 15,3%;
- EBITDA: R$ 228,6 milhões, crescimento de 21,9%;
- Margem EBITDA: 31,2%, avanço de 1,7 ponto percentual;
- Lucro líquido: R$ 30,6 milhões, queda de 55,5%;
- Margem líquida: 4,2%, contra 10,8% no 2T25;
- CAPEX: R$ 327,4 milhões, crescimento de 36,9%;
- Dívida líquida: R$ 2,297 bilhões;
- Dívida líquida/EBITDA dos últimos 12 meses: 2,73 vezes. (Mziq API
)
A combinação é relevante. Embora o lucro tenha diminuído, a companhia aumentou receita, EBITDA, margem operacional e investimentos. Assim, o resultado trimestral sugere uma empresa atravessando um ciclo de forte expansão acompanhado de maior pressão financeira.
Por que a receita da Cagece cresceu 15,3%?
Um dos destaques dos resultados da Cagece foi o crescimento da receita.
A receita bruta de serviços, desconsiderando receitas de construção, alcançou aproximadamente R$ 806,6 milhões, avanço de 15,3%. Nos serviços de água, o crescimento foi de 11,7%. Já no esgotamento sanitário, a alta atingiu 23,8%. (Mziq API)
Três fatores contribuíram principalmente para esse movimento.
Primeiramente, ocorreu uma revisão tarifária de 9,73%, vigente desde 5 de novembro de 2025. Além disso, houve aumento de 3,9% no volume faturado consolidado. Por fim, a companhia registrou efeito positivo relacionado ao mix das categorias não residenciais. (Mziq API)
Esse ponto demonstra algo importante para gestores comerciais do saneamento: crescimento de receita não depende exclusivamente de reajustes tarifários.
Volume faturado, crescimento das economias, composição da carteira de consumidores, eficiência da medição, cadastro comercial e expansão do esgotamento também influenciam diretamente a sustentabilidade econômico-financeira.
Esgoto ganha importância dentro da operação
O crescimento do esgotamento sanitário aparece entre os indicadores mais relevantes do trimestre.
O volume faturado de esgoto passou de aproximadamente 29,5 milhões de m³ no 2T25 para 32,5 milhões de m³ no 2T26, alta de 10%. (Mziq API)
Ao mesmo tempo, as ligações ativas de esgoto cresceram 5%, atingindo aproximadamente 896 mil unidades, enquanto as economias ativas aumentaram 5,7%, alcançando cerca de 1,133 milhão.
A população coberta pelo serviço chegou a aproximadamente 3,077 milhões de habitantes, e o índice de cobertura de esgotamento sanitário avançou de 50,84% para 52,28%, aumento de 1,44 ponto percentual. A extensão da rede de esgoto aumentou 8,6%, chegando a aproximadamente 6.532 quilômetros. (Mziq API)
Esses números ajudam a explicar por que a receita de esgotamento cresceu acima da receita de água.
Além disso, existe uma relação direta entre universalização e desempenho comercial: cada nova rede precisa ser acompanhada por conexão efetiva, cadastro correto, medição, faturamento, cobrança e atendimento ao cliente.
Consequentemente, profissionais das áreas operacional, comercial, engenharia, regulação, planejamento e relacionamento com o cliente tornam-se decisivos para transformar infraestrutura instalada em serviço efetivamente prestado.
Perdas de água apresentam melhora
Outro ponto técnico relevante nos resultados da Cagece foi a evolução dos indicadores de perdas.
O Índice de Perdas na Distribuição, calculado segundo metodologia informada pela companhia como baseada na IWA, caiu de 43,13% para 41,68% na comparação entre junho de 2025 e junho de 2026.
O indicador de perdas em litros por ligação por dia também melhorou, recuando de 296 para 285 litros por ligação/dia, redução de aproximadamente 3,6%. (Mziq API)
Apesar do avanço, o nível de perdas continua representando um enorme campo de oportunidade operacional.
Redução de vazamentos, gestão de pressão, setorização, telemetria, combate a fraudes, atualização cadastral, substituição de hidrômetros e análise de balanços hídricos precisam avançar conjuntamente.
A hidrometração da Cagece, por sua vez, atingiu 99,97%, nível praticamente universalizado. (Mziq API)
Assim, o desafio passa cada vez mais da simples existência do hidrômetro para a qualidade da medição, idade do parque, dimensionamento dos medidores e capacidade de identificar perdas aparentes.
EBITDA cresce mesmo com aumento de custos
Os resultados da Cagece mostram também uma dinâmica interessante nos custos.
Os custos e despesas consolidados chegaram a aproximadamente R$ 587,7 milhões, crescimento de 15,8% sobre o 2T25. Entretanto, o EBITDA cresceu 21,9%, ritmo superior ao da receita, levando a margem EBITDA para 31,2%. (Mziq API)
Entre os principais componentes, os serviços representaram R$ 212,6 milhões, alta de 23,1%. Já as despesas com pessoal ficaram praticamente estáveis no trimestre, crescendo apenas 0,7%, para R$ 118,8 milhões.
Por outro lado, os insumos diminuíram 5,2%, para aproximadamente R$ 87 milhões. (Mziq API)
Um dos fatores dessa redução merece destaque: os gastos com energia diminuíram aproximadamente R$ 9,1 milhões devido à migração de unidades anteriormente atendidas no mercado livre para um modelo de autoprodução por meio das usinas Arapuá I e II. (Mziq API)
Para o saneamento, no qual bombeamento e tratamento tornam a energia um dos grandes componentes de custo operacional, iniciativas desse tipo podem ter impacto relevante na competitividade.
Ao mesmo tempo, porém, novos modelos energéticos também podem gerar efeitos contábeis e financeiros em outras linhas, como arrendamentos e depreciações. Portanto, a análise deve considerar o ciclo econômico completo do projeto.
Inadimplência merece atenção dos gestores comerciais
Outro indicador importante foi a PECLD — Perda Estimada com Créditos de Liquidação Duvidosa.
No segundo trimestre, essa despesa atingiu aproximadamente R$ 31,8 milhões, crescimento de 37,2% em relação ao mesmo período de 2025. A Cagece atribuiu a variação ao aumento da constituição da provisão em ritmo superior aos pagamentos e renegociações. (Mziq API)
Esse indicador merece atenção especial de gestores comerciais.
Em companhias de saneamento, crescimento de faturamento sem melhoria proporcional da arrecadação pode reduzir a conversão da receita contábil em caixa.
Por isso, segmentação de clientes inadimplentes, negociação digital, cobrança preventiva, atualização cadastral, melhoria dos canais de atendimento, políticas para grandes devedores e integração entre faturamento e cobrança tornam-se cada vez mais relevantes.
O verdadeiro motivo da queda de 55,5% no lucro
É justamente neste ponto que os resultados da Cagece precisam ser interpretados com mais profundidade.
O resultado financeiro líquido negativo passou de aproximadamente R$ 51,6 milhões no 2T25 para R$ 110,4 milhões no 2T26, aumento de 114,1%. (Mziq API)
As despesas financeiras atingiram aproximadamente R$ 158,4 milhões, contra R$ 75,2 milhões um ano antes.
Entre os principais impactos estiveram aproximadamente:
- R$ 32 milhões relacionados a despesas de swap de financiamento contratado junto à Agência Francesa de Desenvolvimento;
- R$ 24,7 milhões adicionais relacionados a juros da PPP;
- R$ 13,1 milhões adicionais em juros de arrendamento, principalmente ligados ao contrato de autoprodução de energia;
- R$ 11,1 milhões relacionados à variação cambial passiva. (Mziq API
)
Houve aumento das receitas financeiras, especialmente pelo efeito da variação cambial ativa, mas esse ganho não foi suficiente para compensar o crescimento das despesas.
Portanto, a queda do lucro não representa, isoladamente, piora da capacidade operacional da companhia.
Pelo contrário: EBITDA e margem operacional cresceram. O que ocorreu foi uma forte pressão abaixo da linha operacional provocada pela estrutura financeira associada ao ciclo de investimentos e a contratos de longo prazo.
Dívida aumenta, mas indicador dívida/EBITDA melhora no ano
A dívida líquida atingiu R$ 2,297 bilhões no encerramento do 2T26. Isso representa crescimento de 13,6% frente ao mesmo período de 2025 e alta de 5,8% sobre o trimestre imediatamente anterior. (Mziq API)
Entretanto, existe uma particularidade importante.
Como o EBITDA também cresceu, a relação dívida líquida/EBITDA dos últimos 12 meses caiu de 2,83 vezes para 2,73 vezes na comparação anual.
Além disso, aproximadamente 95,2% da dívida bruta estava classificada como não circulante, indicando perfil predominantemente de longo prazo. Em relação aos indexadores, aproximadamente 64% estavam vinculados ao CDI, 30,5% ao IPCA e 5,6% à TR. (Mziq API)
Consequentemente, embora o crescimento da dívida seja compatível com um ciclo mais intenso de investimentos, sua composição torna a gestão financeira particularmente importante.
A elevada participação de instrumentos indexados ao CDI, por exemplo, cria sensibilidade relevante às condições de juros. Trata-se de uma inferência financeira a partir da estrutura de endividamento divulgada pela companhia. (Mziq API)
Investimentos saltam 36,9%
O CAPEX é outro dos grandes destaques dos resultados da Cagece.
Os investimentos alcançaram R$ 327,4 milhões no segundo trimestre, alta de 36,9%. No primeiro semestre de 2026, o CAPEX acumulado atingiu R$ 550,2 milhões, crescimento de 23,3%. (Mziq API)
Somente em água foram investidos aproximadamente R$ 164,6 milhões, crescimento de 51,6%.
Dentro desse grupo, os investimentos relacionados à expansão chegaram a R$ 91,3 milhões, alta de impressionantes 120,5% frente ao 2T25.
No esgotamento sanitário, o CAPEX trimestral somou R$ 81,7 milhões. Além disso, os investimentos classificados como CAPEX da PPP atingiram aproximadamente R$ 60,8 milhões, contra R$ 7,8 milhões um ano antes. (Mziq API)
Portanto, parte importante da pressão financeira observada ocorre justamente em um período de aceleração de investimentos.
Esse é um dos grandes desafios da universalização do saneamento: construir rapidamente ativos de longa duração sem comprometer a sustentabilidade econômico-financeira da prestação.
Nova PPP pode mudar a velocidade da expansão do esgoto
Além dos investimentos já realizados, a Cagece avança com uma nova PPP voltada ao esgotamento sanitário.
Em 30 de junho de 2026, foi realizado na B3 o leilão de uma concessão administrativa envolvendo serviços de esgotamento sanitário em 127 municípios do Ceará, divididos inicialmente em cinco blocos. (Mziq API)
O Consórcio Ceará Saneamento venceu o Bloco 1, denominado Norte-Litorâneo, que envolve 23 municípios, com proposta de R$ 3,741 bilhões e prazo contratual de 28 anos.
Segundo a companhia, os demais quatro blocos não receberam propostas, e novos processos licitatórios deverão ser realizados. (Mziq API)
É importante observar que o valor da proposta divulgado no certame não deve ser automaticamente interpretado como CAPEX total do projeto, pois são conceitos financeiros distintos.
Ainda assim, a iniciativa demonstra a escala necessária para acelerar o esgotamento sanitário no estado.
Universalização transforma a gestão das companhias
A expansão do saneamento deixou de ser apenas um desafio de engenharia.
A legislação brasileira estabelece metas contratuais de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033, além de objetivos relacionados à redução de perdas e melhoria dos processos. (Planalto)
No caso da Cagece, a cobertura de água já estava em 99,18% no 2T26. Entretanto, a cobertura de esgotamento atingia 52,28%. (Mziq API)
Isso mostra a dimensão do desafio.
Será necessário expandir redes, estações elevatórias, sistemas de tratamento e ligações. Contudo, será igualmente necessário garantir adesão dos usuários, cadastro, faturamento, cobrança, regulação, operação eficiente e capacidade financeira.
Por essa razão, os profissionais de saneamento assumem uma posição cada vez mais estratégica.
Engenheiros, operadores, técnicos, equipes comerciais, analistas financeiros, especialistas em perdas, profissionais de tecnologia, gestores de contratos, reguladores e equipes de atendimento deixam de atuar apenas como áreas isoladas. A universalização exige integração entre todas essas competências.
O que os resultados da Cagece ensinam ao setor
Os resultados da Cagece mostram pelo menos cinco movimentos que precisam ser acompanhados nos próximos trimestres.
Primeiramente, será importante verificar se o crescimento do EBITDA continuará acima da expansão dos custos.
Em segundo lugar, o setor deverá observar se o resultado financeiro permanecerá pressionando significativamente o lucro líquido.
Além disso, o avanço da PECLD merece acompanhamento, principalmente sob a perspectiva da eficiência de arrecadação.
Outro indicador decisivo será a continuidade da redução das perdas de água.
Finalmente, será necessário acompanhar a execução dos investimentos e o desenvolvimento das PPPs de esgotamento sanitário.
Esses indicadores estão interligados. Investimentos ampliam cobertura; novas ligações aumentam faturamento; eficiência operacional protege margens; arrecadação transforma receita em caixa; e uma estrutura financeira sustentável permite continuar investindo.
Resultado operacional forte exige disciplina financeira
A principal mensagem deixada pelos resultados da Cagece no 2T26 não está simplesmente na queda de 55,5% do lucro.
A operação apresentou sinais positivos: receita cresceu 15,3%, EBITDA avançou 21,9%, margem EBITDA atingiu 31,2%, volume de esgoto faturado aumentou 10%, perdas de água recuaram e os investimentos cresceram 36,9%. (Mziq API)
Por outro lado, o aumento das despesas financeiras mostra que a universalização também traz um desafio de estruturação de capital.
A companhia precisa equilibrar investimentos elevados, dívida, PPPs, custos financeiros, eficiência operacional e crescimento da arrecadação.
Nesse cenário, ganha ainda mais importância o trabalho dos profissionais do saneamento. São as decisões tomadas diariamente nas áreas de operação, manutenção, comercial, engenharia, gestão energética, tecnologia, planejamento, finanças e regulação que transformarão bilhões de reais investidos em serviços efetivamente prestados à população.
Os números financeiros são, portanto, apenas a expressão final de uma operação extremamente complexa. E são os profissionais que fazem essa operação acontecer.



