R$ 3,4 bilhões e uma mudança profunda na operação do saneamento
A concessão de saneamento no Sertão pernambucano entra em uma das etapas mais importantes desde a realização do leilão. O contrato prevê R$ 3,4 bilhões em investimentos durante 35 anos, mas o dado que mais chama atenção está na velocidade prevista para a transformação: aproximadamente R$ 2,8 bilhões deverão ser aplicados nos primeiros oito anos, o equivalente a mais de 80% do investimento total anunciado.
A nova concessionária VITA Sertão deverá atender mais de 815 mil pessoas em 24 municípios e 229 localidades, assumindo distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto, gestão comercial e atendimento aos usuários. Entretanto, a produção da água continuará sob responsabilidade da Companhia Pernambucana de Saneamento, a Compesa.
Portanto, o projeto chama atenção não apenas pelo volume financeiro. A concessão de saneamento no Sertão cria um arranjo operacional no qual duas empresas passam a atuar em etapas diferentes do mesmo ciclo da água. Para engenheiros, técnicos, operadores, gestores comerciais, especialistas em perdas, automação, regulação e atendimento, essa divisão exigirá elevado nível de integração.
Os números que dimensionam o projeto
Entre as principais intervenções inicialmente previstas estão:
- mais de 450 quilômetros de adutoras novas ou revitalizadas;
- mais de 2.600 quilômetros de novas redes de água e esgoto;
- cerca de 270 mil novas ligações de água e esgoto;
- aproximadamente 1,2 milhão de hidrômetros novos ou substituídos;
- modernização e implantação de estações de tratamento de esgoto;
- execução de intervenções emergenciais identificadas durante o diagnóstico dos sistemas.
Somente nos primeiros oito anos estão previstos aproximadamente 1.700 quilômetros de redes, 130 mil novas ligações e 360 mil hidrômetros novos ou substituídos.
Esses números mostram que a concessão de saneamento no Sertão deverá combinar expansão de infraestrutura com recuperação de sistemas existentes. Isso é particularmente importante porque simplesmente ampliar redes sem melhorar medição, controle operacional e disponibilidade hídrica poderia aumentar a quantidade de água perdida e elevar custos.
Água: cobertura deverá chegar a 99%
Segundo números do edital divulgados pela concessionária para sua área de atuação, a cobertura de água parte de aproximadamente 91%, enquanto a meta estabelecida para oito anos é alcançar 99%.
No esgotamento sanitário, o salto previsto é ainda mais significativo: de aproximadamente 61% para 90% no mesmo horizonte divulgado pela empresa. Já o indicador de perdas deverá cair de aproximadamente 39% para 25%.
Na modelagem estadual mais ampla, elaborada com apoio do BNDES, o objetivo de universalização foi estruturado considerando 99% de atendimento com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto, além da redução das perdas de distribuição para 25%.
Dessa forma, a concessão de saneamento no Sertão deverá ser acompanhada não apenas pelo número de obras entregues, mas principalmente pelos resultados efetivamente produzidos para os usuários.
Reduzir perdas para 25% será um dos maiores desafios
A redução das perdas merece atenção especial.
Chegar a 25% de perdas de água exige muito mais do que trocar tubulações antigas. É necessário combinar engenharia hidráulica, gestão comercial, tecnologia e trabalho de campo.
Consequentemente, deverão ganhar importância ferramentas como macromedição, micromedição, setorização das redes, controle de pressão, pesquisa de vazamentos, telemetria, balanço hídrico, atualização cadastral e análise de consumo.
Além disso, perdas reais e aparentes precisam ser atacadas simultaneamente.
As perdas reais estão relacionadas principalmente a vazamentos em redes, ramais, reservatórios e estruturas operacionais. Já as perdas aparentes envolvem problemas como submedição dos hidrômetros, falhas cadastrais, fraudes, ligações clandestinas e inconsistências comerciais.
Por isso, a previsão de instalação ou substituição de aproximadamente 1,2 milhão de hidrômetros ao longo da concessão possui importância estratégica. Medir melhor significa conhecer melhor o sistema.
A concessão de saneamento no Sertão, portanto, poderá transformar o controle de perdas em uma das áreas mais relevantes da operação.
Compesa produzirá água e VITA fará a distribuição
Um dos aspectos tecnicamente mais interessantes do modelo está na separação das responsabilidades.
A Compesa continuará responsável pela captação, produção e tratamento da água. Depois disso, a água tratada será entregue à concessionária em pontos estabelecidos contratualmente.
A VITA Sertão ficará responsável pela distribuição até os consumidores, além do esgotamento sanitário e da gestão comercial.
Embora essa separação permita especialização das atividades, ela também cria importantes interfaces operacionais.
Será fundamental definir com precisão quanto de água foi entregue, em qual pressão, com qual qualidade e em qual horário. Da mesma maneira, interrupções na produção poderão refletir diretamente na distribuição.
Portanto, macromedidores confiáveis nos pontos de entrega, telemetria, comunicação entre centros de controle, protocolos de contingência e sistemas integrados de informação tornam-se essenciais.
Em outras palavras, a eficiência da concessão de saneamento no Sertão dependerá também da qualidade da relação operacional entre quem produz e quem distribui água.
Esgotamento sanitário poderá exigir a transformação mais visível
Enquanto parte considerável da infraestrutura de abastecimento já existe, a expansão do esgotamento sanitário deverá mobilizar obras de maior complexidade em diversas localidades.
Implantar esgoto envolve muito mais do que instalar tubulações.
São necessárias redes coletoras, interceptores, estações elevatórias, linhas de recalque, estações de tratamento, emissários e estruturas elétricas e de automação. Além disso, existem desafios relacionados ao licenciamento ambiental, disponibilidade de terrenos, interferências urbanas e operação futura dos sistemas.
Por isso, alcançar 90% de cobertura de esgoto representará um desafio simultaneamente de engenharia, planejamento, gestão de obras e operação.
Para os municípios envolvidos, entretanto, os benefícios podem ultrapassar a infraestrutura. Maior cobertura de esgoto tende a reduzir lançamento inadequado de efluentes e aumentar a proteção ambiental e sanitária.
R$ 2,8 bilhões nos primeiros oito anos mudam a lógica do investimento
A concentração de aproximadamente R$ 2,8 bilhões dos R$ 3,4 bilhões nos primeiros oito anos é outro aspecto estratégico da concessão de saneamento no Sertão.
Em concessões de longo prazo, distribuir investimentos durante 35 anos poderia retardar os benefícios para a população. Nesse caso, entretanto, grande parte do CAPEX está concentrada no começo do contrato.
Essa característica pressiona a concessionária a estruturar rapidamente projetos, licenciamentos, contratações, suprimentos, obras e equipes.
Por outro lado, investimentos elevados não significam automaticamente bons resultados. A execução precisa estar associada aos indicadores regulatórios.
No saneamento moderno, quilômetros de rede construídos representam apenas parte da avaliação. Continuidade do abastecimento, qualidade da água, eficiência, cobertura, tratamento do esgoto, redução de perdas e satisfação dos usuários também precisam ser acompanhados.
O próprio BNDES destacou que o modelo possui indicadores relacionados à qualidade, perdas e satisfação dos usuários, com reflexos sobre a remuneração das concessionárias.
Gestão comercial passa a ter papel estratégico
Existe ainda outro componente que merece atenção: a gestão comercial.
Após a transição, faturamento, atendimento, cadastro, medição e relacionamento com os consumidores passarão para a nova concessionária.
Isso significa que hidrômetros, cadastro técnico-comercial, leitura, faturamento e atendimento deixam de ser vistos apenas como funções administrativas.
Essas atividades passam a integrar diretamente a estratégia de eficiência da concessão.
Um cadastro incorreto pode gerar faturamento inadequado. Um hidrômetro subdimensionado ou envelhecido pode produzir submedição. Uma ligação clandestina pode representar perda aparente. Uma leitura inconsistente pode gerar reclamações e aumentar custos de atendimento.
Consequentemente, engenharia e gestão comercial precisarão trabalhar cada vez mais próximas.
Tarifas terão desconto e mecanismos sociais permanecem relevantes
No leilão do Bloco Sertão, o vencedor ofereceu R$ 720 milhões de outorga, além do desconto máximo permitido de 5% sobre as tarifas de referência. Com atualização monetária, informações divulgadas posteriormente apontaram elevação do valor nominal da outorga.
Além disso, a modelagem estruturada pelo BNDES incorporou mecanismos voltados à população de baixa renda.
A Tarifa Social Pernambucana foi estruturada com desconto de 55% na tarifa residencial para consumo de até 10 m³ mensais, enquanto a categoria destinada aos usuários considerados vulneráveis prevê desconto de 83%, também dentro dos critérios definidos para consumo.
Assim, expansão da cobertura e capacidade de pagamento precisam caminhar juntas.
Operação assistida termina em setembro
A concessão de saneamento no Sertão encontra-se, em agosto de 2026, na etapa de operação assistida.
Durante essa fase, equipes estão realizando levantamento de sistemas, cadastro, diagnóstico de campo, planejamento das primeiras intervenções, contratação e treinamento de profissionais.
O cronograma divulgado prevê manutenção da operação e do faturamento pela Compesa até 28 de setembro de 2026, com a nova concessionária assumindo integralmente seus serviços a partir do final de setembro.
Essa fase de transição é decisiva. Sistemas de saneamento carregam milhares de informações construídas durante décadas: cadastro de redes, válvulas, pressões, equipamentos, consumidores, históricos de manutenção, parâmetros de operação e situações que nem sempre estão integralmente documentadas.
Por isso, conhecimento de campo possui enorme valor.
Profissionais serão determinantes para o resultado
O projeto prevê a geração de mais de 500 empregos diretos e aproximadamente mil indiretos, com indicação de prioridade para trabalhadores da própria região.
Entretanto, existe um aspecto ainda mais importante.
Nenhum investimento bilionário universaliza saneamento sozinho.
São os profissionais que transformam recursos financeiros em redes funcionando, água chegando às residências, hidrômetros medindo corretamente, esgoto sendo tratado e consumidores sendo atendidos.
Engenheiros precisarão projetar e dimensionar sistemas. Técnicos deverão conhecer as redes. Operadores precisarão manter reservatórios, elevatórias e estações funcionando continuamente. Profissionais de perdas deverão interpretar dados e localizar desperdícios. Equipes comerciais precisarão garantir cadastro, medição e faturamento confiáveis. Especialistas em automação, tecnologia, laboratório, manutenção, meio ambiente e regulação também terão papel decisivo.
Nesse sentido, a concessão de saneamento no Sertão demonstra novamente que tecnologia e capital são fundamentais, mas o conhecimento acumulado dos profissionais permanece como um dos ativos mais importantes de qualquer operação de saneamento.
ARPE terá papel central na fiscalização
A concessão ficará submetida à fiscalização da Agência de Regulação de Pernambuco, a ARPE.
Em agosto de 2026, a agência publicou a Resolução nº 347, estabelecendo que as resoluções regulatórias anteriormente aplicáveis à Compesa também passam a ser aplicáveis às concessionárias responsáveis pela prestação regionalizada dos serviços nas microrregiões do Sertão e RMR-Pajeú, observadas as competências legais e contratuais.
Esse ponto é relevante porque a próxima fase será a da comprovação dos resultados.
Investimentos anunciados precisarão se transformar em indicadores verificáveis.
A regulação do saneamento brasileiro também avança para métricas cada vez mais padronizadas. Entre os indicadores tratados nas normas de referência da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico estão cobertura, atendimento, perdas, qualidade da água, desempenho do tratamento de esgoto e intermitência dos serviços.
O que deverá ser observado nos próximos anos
Para profissionais e gestores do saneamento, pelo menos seis pontos merecem acompanhamento na concessão de saneamento no Sertão:
- velocidade real da execução dos R$ 2,8 bilhões previstos nos primeiros oito anos;
- evolução da cobertura de água e esgoto;
- redução efetiva das perdas até a meta de 25%;
- integração operacional entre Compesa e concessionária;
- capacidade de implantação das novas redes sem comprometer a operação existente;
- evolução dos indicadores de qualidade, continuidade, atendimento e eficiência comercial.
O sucesso não poderá ser medido somente pelo valor investido.
Será necessário verificar se a população recebe água com maior regularidade, se as perdas diminuem, se o esgoto é efetivamente coletado e tratado e se os serviços comerciais se tornam mais eficientes.
Uma transformação que começa antes das obras
Os R$ 3,4 bilhões colocam o Sertão pernambucano diante de uma das maiores transformações recentes de sua infraestrutura de saneamento.
Entretanto, o verdadeiro teste começa agora.
O modelo precisa transformar planejamento em execução, recursos em ativos operacionais e metas contratuais em melhoria perceptível para os consumidores.
Ao mesmo tempo, a divisão entre produção pública de água e distribuição privada cria uma experiência que poderá fornecer importantes referências para outras concessões brasileiras.
Por fim, a concessão de saneamento no Sertão reforça uma realidade frequentemente esquecida nos grandes anúncios de infraestrutura: tubulações, estações, sensores, hidrômetros e sistemas digitais somente produzem resultados quando existem profissionais qualificados capazes de projetar, operar, manter, medir, fiscalizar e melhorar continuamente cada etapa do serviço.
Os bilhões atraem atenção. Porém, serão as pessoas do saneamento que determinarão se a universalização realmente chegará à população.
Fontes
Estadão / Engrenagens do Crescimento — publicação que originou a análise:
Concessão prevê R$ 3,4 bilhões para ampliar saneamento no Sertão de Pernambuco
BNDES — resultado oficial do leilão e estrutura da concessão:
Pátria e BRK-Acciona vencem leilão de saneamento em Pernambuco
BNDES — modelagem, metas e tarifas sociais:
Concessão prevê tarifas sociais e universalização em Pernambuco
BNDES Hub de Projetos — dados econômicos do Bloco Sertão:
Pernambuco Saneamento — Bloco 1
Governo de Pernambuco — estrutura oficial da concessão:
Universalização do Saneamento Básico em Pernambuco
VITA Sertão — contrato, investimentos e operação assistida:
Contrato de concessão de 35 anos do Sertão
VITA Sertão — obras, redes, ligações e metas operacionais:
Plano de obras e investimentos no Sertão
ARPE — Resolução nº 347, de agosto de 2026:
Regulação das novas concessionárias de Pernambuco
ANA — indicadores regulatórios dos serviços de saneamento:
Resolução ANA nº 211/2024



