Meta-descrição: Leilões de saneamento somam R$ 66,3 bi. Entenda por que modelagem, regulação, gestão comercial e execução definirão o próximo ciclo.
Palavra-chave principal: leilões de saneamento
Palavras-chave secundárias: concessões de saneamento, PPP de saneamento, investimentos em saneamento, Marco Legal do Saneamento, universalização do saneamento, BNDES saneamento, regulação ANA, gestão comercial no saneamento, redução de perdas, regionalização do saneamento
Os próximos leilões de saneamento já mapeados no Brasil envolvem 31 projetos, 631 municípios e R$ 66,3 bilhões em investimentos estimados. O número impressiona, mas esconde a questão mais importante para quem trabalha no setor: depois da expansão dos grandes leilões, o desafio começa a migrar da capacidade de estruturar concessões para a capacidade de transformá-las em redes implantadas, ligações efetivamente conectadas, redução de perdas, faturamento sustentável, qualidade do serviço e metas regulatórias comprováveis. (C-Level)
O levantamento da ABCON SINDCON divulgado pela Folha mostra que sete dos projetos previstos são regionais e outros 24 correspondem a iniciativas municipais. Somados, apenas os sete projetos regionais listados abrangem 607 municípios, o que demonstra o peso que a regionalização adquiriu na tentativa de levar escala econômica a áreas que, isoladamente, podem apresentar menor atratividade. (C-Level)
Mas existe uma mudança de fase. Alguns projetos recentes não encontraram a competição esperada. Goiás precisou voltar à modelagem de sua PPP de esgotamento sanitário, enquanto blocos previstos no Ceará também exigem nova rodada de estruturação. Isso sinaliza que os próximos leilões de saneamento tendem a exigir mais precisão na engenharia, na matriz de riscos, na projeção de receitas, nos custos operacionais e, sobretudo, na compreensão da realidade comercial de cada território. (C-Level)
Para gestores, engenheiros, reguladores e profissionais comerciais, a mensagem é direta: ganhar um leilão não universaliza o saneamento. Executar corretamente um contrato durante décadas é que faz isso.
R$ 66,3 bilhões: grande pipeline, mas ainda parte do desafio
A expansão dos leilões de saneamento desde a atualização do Marco Legal, em 2020, foi expressiva. O Panorama da Participação Privada no Saneamento 2025, da ABCON SINDCON, contabilizava, entre 2020 e 2025, 60 leilões e R$ 181,6 bilhões em investimentos contratados, com mais de 74 milhões de pessoas potencialmente beneficiadas em 1.556 municípios. O levantamento mais recente citado pela Folha atualiza para 70 o número de leilões realizados desde o novo marco, considerando um período maior. Portanto, os números não são contraditórios: possuem datas de corte diferentes. (AB Consultoria e Assessoria)
Também é necessário diferenciar esses dados da carteira do BNDES. O banco não estrutura todos os projetos existentes no país. Em seu próprio balanço, os projetos de saneamento já licitados ou em estruturação sob sua participação apresentam potencial de alcançar aproximadamente 63 milhões de pessoas e R$ 154 bilhões em investimentos. (BNDES Hub de Projetos)
Essa distinção é importante porque evita um erro frequente na leitura do mercado: somar ou comparar bases que representam universos diferentes.
Mesmo os R$ 66,3 bilhões anunciados para os próximos projetos precisam ser colocados em perspectiva. A ANA já estimou que a universalização brasileira pode demandar entre R$ 550 bilhões e R$ 900 bilhões até 2033. Os novos leilões representam, portanto, uma parcela relevante, mas não suficiente, do esforço financeiro necessário. (Serviços e Informações do Brasil)
Além disso, investimento privado e investimento público não são necessariamente caminhos concorrentes. O Ministério das Cidades informou que o Novo PAC selecionou R$ 22,1 bilhões para saneamento apenas em 2025 e aproximadamente R$ 61 bilhões desde 2023. O cenário brasileiro aponta, assim, para uma combinação de concessões, PPPs, recursos públicos, financiamento de longo prazo e investimentos diretos dos diferentes prestadores. (Serviços e Informações do Brasil)
A pressão do relógio aumentou
A Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020, determina metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. Os contratos também devem contemplar metas relacionadas à não intermitência do abastecimento, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento. (Planalto)
Os dados nacionais mais recentes divulgados pela ANA com base no SINISA 2025 mostram o tamanho da distância. O atendimento total por rede de abastecimento de água estava em 84,1%, enquanto 62,3% da população era atendida por rede coletora de esgoto. Na área rural, os percentuais eram muito menores: 22,9% para abastecimento de água e apenas 4,8% para rede de esgoto. (Serviços e Informações do Brasil)
No agregado nacional, portanto, ainda há uma diferença considerável em relação às metas de 2033. E a Norma de Referência nº 8/2024 da ANA torna a análise ainda mais rigorosa: a universalização deve ser acompanhada com indicadores de atendimento e cobertura, inclusive por município, e não simplesmente pelo volume total de obras realizadas. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso muda a lógica de gestão.
Não basta construir quilômetros de rede. Será preciso demonstrar que a infraestrutura resulta em acesso efetivo.
Não basta instalar uma rede de esgoto em frente ao imóvel. Será necessário aumentar a adesão, conectar economias, operar o sistema, tratar o efluente e comprovar o atendimento.
Não basta ampliar produção de água. Será necessário entregar continuidade, qualidade e reduzir perdas.
É justamente nesse ponto que áreas tradicionalmente vistas como “apoio” passam a ser estratégicas.
Goiás mostra o que pode dar errado antes mesmo do contrato
O caso de Goiás merece atenção porque oferece uma lição concreta aos estruturadores de futuros leilões de saneamento.
A PPP de esgotamento sanitário da Saneago foi estruturada inicialmente em blocos. Na sessão realizada em março de 2026, apenas o Consórcio Águas do Cerrado apresentou documentação para o Bloco 2, sem outros representantes credenciados. A documentação acabou sendo rejeitada porque faltava a garantia de proposta exigida no Envelope 1. A garantia encaminhada posteriormente havia sido emitida depois da sessão e foi considerada intempestiva. (Saneago)
É importante separar duas questões.
A desclassificação teve uma causa formal documentada. Já a ausência de propostas para outros blocos e a presença de apenas um interessado no Bloco 2 revelam baixa competição naquele desenho específico, mas não permitem atribuir a falta de interesse a uma única variável.
O projeto voltou à estruturação. Atualmente, o Hub de Projetos do BNDES apresenta a PPP de Goiás abrangendo 216 municípios, população total próxima de 3,4 milhões de habitantes e investimento estimado em aproximadamente R$ 6,2 bilhões, com leilão indicado para 2027. O valor ainda é uma estimativa sujeita à conclusão dos estudos. (BNDES Hub de Projetos)
Segundo a apuração da Folha, a revisão inclui questões como CAPEX, OPEX, custo de capital, efeitos tributários e gestão comercial. (C-Level)
Aqui aparece uma lição que vale para todo o setor: um projeto tecnicamente necessário não é automaticamente um projeto licitável, financiável e executável.
O risco comercial começa a ganhar o mesmo peso da engenharia
Durante décadas, muitos projetos de saneamento foram analisados principalmente pela ótica da engenharia: tamanho da rede, capacidade das estações, elevatórias, reservatórios, adutoras e cronograma físico.
Tudo isso continua fundamental. Entretanto, concessões de 25, 30 ou 35 anos precisam responder também a perguntas comerciais decisivas.
Quantas economias realmente existem? Quantos imóveis estão ativos? Quantos deveriam estar conectados ao esgoto e ainda não estão? Qual é a qualidade do cadastro? Quantos hidrômetros precisam ser substituídos? Qual é o índice de inadimplência? Qual parcela da perda aparente vem de submedição, fraude ou inconsistência cadastral? Quantos usuários estão enquadrados ou deveriam estar enquadrados na tarifa social?
Erros nessas variáveis podem contaminar projeções de receita durante décadas.
Por isso, a gestão comercial deixa de ser apenas a área que “emite contas” e passa a integrar a própria engenharia econômico-financeira da concessão.
A Norma de Referência nº 13/2025 da ANA reforça essa transformação. A norma disciplina estrutura tarifária e tarifa social e alcança temas como categorias de usuários, componentes tarifários, identificação de beneficiários, utilização de dados do CadÚnico e do BPC e critérios para contratos licitados. (Serviços e Informações do Brasil)
Para um novo operador, cadastro, medição, faturamento, arrecadação e relacionamento com o cliente passam a ser infraestrutura tão importante quanto tubulações e estações.
O Ceará mostra como operação e relacionamento precisam conversar
A experiência do Ceará oferece outro aprendizado.
No programa Ceará Saneado, o bloco Norte-Litorâneo apresentado pela Cagece envolve 23 municípios e prevê 1.029 quilômetros de novas redes de esgoto, 102 mil novas ligações domiciliares, 29 novas estações de tratamento, modernização de outras 12 unidades e 161 novas estações de bombeamento. O investimento anunciado para esse bloco é de R$ 1,08 bilhão. (Cagece)
Mas o desenho operacional é tão interessante quanto as obras.
Segundo a Cagece, a companhia continua responsável pela gestão, fiscalização e relacionamento direto com os clientes, enquanto o parceiro privado assume obras e operação dos serviços previstos no contrato. A remuneração está vinculada ao cumprimento de metas. (Cagece)
Esse arranjo cria uma interface que precisa funcionar todos os dias.
Uma reclamação registrada pelo cliente pode ter causa operacional sob responsabilidade do parceiro. Uma ligação nova pode depender de obra executada por outra empresa. Uma inconsistência de cadastro pode alterar faturamento e indicadores. Uma ocorrência de esgoto pode envolver atendimento, operação, fiscalização contratual e regulação simultaneamente.
Por isso, PPPs parciais exigem SLAs bem definidos, integração de sistemas, responsabilidades claras, rastreabilidade das ordens de serviço e governança operacional permanente.
A experiência cearense também mostra que bons projetos podem precisar de ajustes. Conforme relatado pela Folha, dos novos blocos levados ao mercado em 2026, apenas parte encontrou a resposta inicialmente esperada, levando à preparação de nova rodada para os demais. (C-Level)
Isso não significa fracasso da estratégia de PPP. Significa que modelagem e mercado precisam conversar.
Regionalização explica grande parte do próximo ciclo
Um dos dados menos óbvios do levantamento dos 31 futuros leilões de saneamento é que a maior parte dos municípios está concentrada em poucos projetos regionais.
Entre os exemplos estão Rondônia, Goiás, Rio Grande do Norte, Alagoas, Espírito Santo e o programa UniversalizaSP.
Em Rondônia, o projeto estruturado pelo BNDES prevê concessão dos serviços de água e esgoto em 40 municípios, para aproximadamente 1,07 milhão de pessoas, com investimento estimado em R$ 4,224 bilhões e contrato de 35 anos. (BNDES Hub de Projetos)
No Rio Grande do Norte, a PPP em estruturação envolve coleta e tratamento de esgoto em 48 municípios atendidos pela Caern, com investimento estimado atualmente em aproximadamente R$ 4,08 bilhões e cerca de 1,67 milhão de pessoas a serem atendidas. (BNDES Hub de Projetos)
Em Alagoas, o Bloco D de Arapiraca reúne 21 municípios e aproximadamente 550 mil habitantes, com previsão atual de R$ 2,157 bilhões em investimentos. O desenho mantém a Casal responsável pela captação, tratamento e fornecimento de água ao operador, enquanto o parceiro privado assume a distribuição e a totalidade dos sistemas de esgotamento sanitário. (BNDES Hub de Projetos)
Já o projeto em estruturação no Espírito Santo pode alcançar 32 municípios e cerca de 1,1 milhão de habitantes, com investimento inicialmente estimado em R$ 4,5 bilhões e leilão atualmente previsto pelo BNDES para 2028. (BNDES Hub de Projetos)
Cada desenho é diferente. E é justamente por isso que profissionais precisam evitar a ideia de que existe um único “modelo de concessão de saneamento”.
UniversalizaSP: dados e desempenho entram no contrato
O UniversalizaSP acrescenta outra dimensão relevante.
O programa paulista abrange 146 municípios. Em divulgação oficial de abril de 2026, o Governo de São Paulo informou expectativa de aproximadamente R$ 29 bilhões em movimentação financeira até 2033 e R$ 100 bilhões até 2060, com cerca de 6 milhões de pessoas beneficiadas. (Parcerias Sem Investimentos)
Há uma diferença em relação ao levantamento ABCON/Folha, que cita 7,8 milhões de pessoas para o projeto. Como as fontes consultadas não fornecem detalhamento suficiente para reconciliar as metodologias utilizadas nas duas estimativas, é mais prudente preservar os números atribuídos a cada fonte, sem tratá-los como equivalentes. (C-Level)
Essa divergência aparentemente pequena traz uma lição importante para gestores: qualidade de dados também é infraestrutura de concessão.
O caso de Araraquara, dentro do UniversalizaSP, mostra outra tendência. A modelagem prevê um painel digital interativo para acompanhamento em tempo real das obras e dos indicadores de desempenho, inclusive qualidade dos serviços e redução de perdas. (Governo do Estado de São Paulo)
Contratos de longa duração tendem, portanto, a exigir cada vez menos relatórios estáticos e cada vez mais evidências digitais e auditáveis sobre aquilo que efetivamente foi entregue.
A regulação será parte da operação diária
Os próximos leilões de saneamento encontram um ambiente regulatório diferente daquele do início da década.
A Norma de Referência nº 5/2024 da ANA estabelece diretrizes para matrizes de riscos em contratos de abastecimento de água e esgotamento sanitário. A lógica é que os eventos capazes de afetar o equilíbrio econômico-financeiro sejam descritos de maneira objetiva e alocados de forma coerente. (Serviços e Informações do Brasil)
A Norma nº 8/2024 trata das metas progressivas de universalização, dos indicadores de acesso e do sistema de avaliação. (Serviços e Informações do Brasil)
A Norma nº 13/2025 avança sobre estrutura tarifária e tarifa social. (Serviços e Informações do Brasil)
O efeito combinado é relevante.
Uma concessão precisa ser simultaneamente viável para financiar bilhões de reais, acessível para consumidores vulneráveis, capaz de cumprir metas físicas, transparente em seus indicadores e preparada para eventos que alterem custos ou receitas.
O equilíbrio entre esses objetivos não nasce depois da assinatura do contrato. Ele precisa estar incorporado à modelagem.
O que muda na prática dentro das companhias
Na operação, os contratos exigirão conhecimento detalhado dos ativos recebidos, capacidade real das unidades, condição das redes, histórico de falhas, disponibilidade energética, manutenção e velocidade de expansão.
Na engenharia, projetos básicos frágeis tendem a se transformar em aditivos, atrasos, conflitos sobre responsabilidades e pedidos de reequilíbrio. Investigações de campo, cadastro técnico confiável e estimativas realistas de CAPEX deixam de ser atividades preliminares e passam a representar proteção econômico-financeira.
Na área comercial, cadastro, micromedição, leitura, faturamento, inadimplência, perdas aparentes, tarifa social e conexão efetiva ao esgoto influenciam diretamente receita, indicadores e sustentabilidade contratual.
Na regulação, a discussão tende a migrar do simples acompanhamento do cronograma para a comprovação de resultados: quem efetivamente recebeu o serviço, qual qualidade foi entregue e se o indicador foi calculado de maneira confiável.
Na tecnologia, GIS, telemetria, sistemas comerciais, gestão de ativos, monitoramento de pressão, centros de controle, análise de dados e painéis regulatórios deixam de ser projetos isolados de inovação e passam a compor a infraestrutura necessária para administrar concessões de longo prazo.
Para o cliente, o teste continuará simples: água disponível, esgoto funcionando, conta compreensível, atendimento acessível e solução rápida quando algo dá errado.
Nenhum modelo financeiro substitui essa experiência.
O que o mundo ensina sobre PPPs de água e esgoto
A experiência internacional ajuda a evitar uma visão simplificada de que PPP significa apenas transferir investimentos ao setor privado.
O Banco Mundial destaca que PPPs de água e saneamento vêm sendo usadas internacionalmente para abastecimento em grande escala, tratamento de esgoto e incorporação de tecnologias como dessalinização, reúso, redução de água não faturada e gestão de pressão. Ao mesmo tempo, a própria instituição identifica a sustentabilidade tarifária como um dos maiores desafios do setor: receitas precisam ser suficientes para sustentar operação e investimentos, enquanto subsídios e aportes públicos continuam importantes em diferentes modelos. (Centro PPP)
Essa experiência reforça uma conclusão importante para o Brasil: PPP não elimina a necessidade de gestão pública, regulação ou planejamento. Ela muda a distribuição de responsabilidades.
Em sua orientação para parcerias em água e saneamento, o Banco Mundial destaca problemas recorrentes como governança deficiente, baixa responsabilização, infraestrutura envelhecida, capacidade gerencial insuficiente e escassez de recursos para operação e manutenção. A recomendação central é tratar a parceria como instrumento de reforma e melhoria do serviço, não simplesmente como mecanismo financeiro. (Centro PPP)
Na gestão de perdas, outra tendência internacional são contratos baseados em desempenho. Em vez de remunerar exclusivamente a quantidade de equipes, equipamentos ou intervenções, parte do pagamento pode estar vinculada aos resultados efetivamente alcançados. O Banco Mundial aponta que reduções de perdas comerciais podem gerar receitas capazes de ajudar a financiar intervenções subsequentes no próprio sistema. (Centro PPP)
Há ainda uma lição histórica da experiência chilena: a entrada de capital privado foi acompanhada por estrutura regulatória, metodologia tarifária e mecanismos especializados de resolução de conflitos. O próprio Banco Mundial registra, porém, que a transição para um sistema financeiramente sustentável também teve custos para os usuários. O caso demonstra por que eficiência, sustentabilidade econômico-financeira e acessibilidade tarifária precisam ser tratadas simultaneamente. (Centro PPP)
O que gestores devem observar antes dos próximos leilões
Para quem estrutura, fiscaliza, regula ou futuramente operará esses contratos, alguns pontos merecem acompanhamento especial:
- Confiabilidade da base de ativos: cadastro de redes, idade, materiais, condições operacionais, servidões, áreas não regularizadas e ativos críticos precisam ser conhecidos antes da transferência.
- Qualidade do cadastro comercial: economias, categorias tarifárias, hidrômetros, ligações inativas, grandes consumidores, usuários de fontes alternativas e beneficiários sociais precisam estar identificados.
- Conexão efetiva ao esgoto: construir rede sem transformar imóveis disponíveis em imóveis conectados pode gerar infraestrutura ociosa, frustração das metas e receita abaixo do projetado.
- Perdas de água: deve existir diagnóstico que separe perdas reais e aparentes, priorize setores e vincule investimentos a resultados mensuráveis.
- CAPEX e OPEX realistas: inflação de obras, energia, produtos químicos, pessoal, manutenção, tributos e custo de capital podem alterar substancialmente uma modelagem de décadas.
- Matriz de riscos executável: risco mal atribuído não desaparece. Ele reaparece na forma de preço mais alto, menor competição, disputa contratual ou pedido de reequilíbrio.
- Integração entre organizações: em concessões parciais e PPPs, interfaces entre companhia pública e parceiro privado precisam ter fluxos, sistemas, SLAs e responsáveis claramente definidos.
- Governança dos indicadores: a empresa precisa saber não apenas qual é a meta, mas de onde vem cada dado, quem o valida, como é auditado e como será apresentado ao regulador.
O que pode dar errado
O maior risco do próximo ciclo talvez seja confundir investimento contratado com resultado entregue.
Uma concessão pode prever bilhões de reais e ainda enfrentar atraso de licenciamento, dificuldade de desapropriação, inconsistência cadastral, imprevisibilidade geotécnica, baixa adesão ao esgoto, inadimplência, perdas elevadas, falhas de integração entre sistemas, aumento de custos e conflitos regulatórios.
Há também risco na pressa.
Com 2033 cada vez mais próximo, acelerar projetos é necessário. Entretanto, diminuir a qualidade dos estudos para ganhar tempo pode produzir o efeito contrário: menor competição, preços maiores, questionamentos de órgãos de controle ou contratos permanentemente submetidos a pedidos de reequilíbrio.
O caso de Goiás é útil justamente porque mostra que retornar à modelagem pode ser melhor do que insistir em um desenho que não produziu a competição pretendida.
Oportunidades que os R$ 66,3 bilhões criam além das obras
O novo pipeline abre uma enorme cadeia de oportunidades profissionais.
A universalização demandará engenheiros de projeto e operação, especialistas em tratamento, automação, instrumentação, geoprocessamento, ciência de dados, regulação, contratos, modelagem econômico-financeira, atendimento, recuperação de receitas, combate a perdas, micromedição, gestão de ativos e experiência do cliente.
Também deverá ampliar a demanda por tecnologias como sensores de pressão e vazão, telemetria, medição inteligente, detecção de vazamentos, modelagem hidráulica, monitoramento energético, inteligência artificial aplicada à manutenção e atendimento, GIS e plataformas integradas de gestão.
Entretanto, tecnologia sem processo não resolve o problema.
Um hidrômetro inteligente conectado a um cadastro errado produz um erro mais rápido. Um dashboard alimentado com informação inconsistente apenas digitaliza a inconsistência. Um algoritmo de manutenção preditiva não compensa um cadastro de ativos incompleto.
Por isso, qualificação profissional, conhecimento do processo e governança de dados serão tão importantes quanto equipamentos e software.
Lições para quem trabalha no saneamento
O novo ciclo dos leilões de saneamento deixa pelo menos uma mensagem central: o valor profissional está migrando da execução fragmentada para a capacidade de compreender o sistema inteiro.
O profissional comercial precisa entender operação.
O profissional de operação precisa compreender impacto regulatório e comercial.
A engenharia precisa conhecer a lógica econômico-financeira do contrato.
A tecnologia precisa compreender o processo antes de digitalizá-lo.
A regulação precisa conseguir transformar informações operacionais em indicadores auditáveis.
E a liderança precisa fazer todas essas áreas funcionarem como um sistema.
Essa integração talvez seja uma das competências mais valiosas para o saneamento brasileiro nos próximos anos.
Conclusão: depois do leilão começa o trabalho mais difícil
Os R$ 66,3 bilhões associados aos 31 leilões de saneamento previstos mostram que o mercado brasileiro continua com uma carteira relevante mesmo depois de grandes transações realizadas desde 2020. (C-Level)
Mas o próximo ciclo provavelmente será menos definido pelo anúncio de cifras e mais pela qualidade da execução.
O Brasil ainda precisa ampliar significativamente o atendimento de água e, sobretudo, de esgotamento sanitário. Precisa fazer isso preservando capacidade de pagamento dos usuários, sustentabilidade econômico-financeira, qualidade dos serviços e segurança regulatória.
As experiências de Goiás, Ceará, São Paulo e dos projetos estruturados pelo BNDES mostram que não existe solução única. Concessão plena, concessão parcial e PPP podem funcionar, desde que o modelo seja compatível com a realidade técnica, comercial e financeira do território.
A principal oportunidade está justamente aí.
Os próximos leilões de saneamento podem movimentar dezenas de bilhões de reais, mas o resultado será decidido por algo muito menos visível: a qualidade das informações, dos projetos, dos contratos, da regulação e das decisões tomadas diariamente por milhares de profissionais do setor.
2033 não será alcançado na bolsa de valores.
Será alcançado — ou não — em cada projeto executivo bem elaborado, cada estação operada corretamente, cada vazamento reduzido, cada hidrômetro confiável, cada ligação de esgoto efetivamente conectada, cada cadastro atualizado, cada cliente atendido e cada indicador comprovado.
É depois da assinatura do contrato que a universalização realmente começa.
Nota de apuração
Os números sobre leilões foram tratados de acordo com o universo de cada fonte. O Panorama ABCON 2025 registrava 60 leilões entre 2020 e 2025, enquanto o levantamento ABCON/Folha publicado em setembro de 2026 registra 70 desde o Marco Legal. O BNDES, por sua vez, contabiliza apenas projetos que tiveram participação do próprio banco na estruturação. Esses números, portanto, não devem ser somados nem tratados como bases equivalentes. (AB Consultoria e Assessoria)
Também existe divergência de população no UniversalizaSP: o levantamento ABCON/Folha informa 7,8 milhões de pessoas, enquanto a divulgação oficial do Governo de São Paulo cita cerca de 6 milhões. Como as metodologias das duas estimativas não foram detalhadas de forma suficiente para uma conciliação segura, ambos os números foram mantidos vinculados às respectivas fontes, dando-se preferência ao dado oficial paulista na análise específica do programa. (C-Level)
Fontes e referências
Folha C-Level
“Após grandes leilões, setor de saneamento ainda prevê 31 projetos, com R$ 66,3 bi de investimentos”
19 de setembro de 2026
Acessar reportagem da Folha C-Level
ABCON SINDCON
Panorama da Participação Privada no Saneamento 2025
2025
Acessar Panorama ABCON 2025
BNDES — Hub de Projetos
Visão geral dos projetos de saneamento estruturados pelo banco
Consulta em setembro de 2026
Acessar Hub de Saneamento do BNDES
BNDES — Hub de Projetos
Rondônia Saneamento
Consulta em setembro de 2026
Acessar projeto Rondônia
BNDES — Hub de Projetos
Goiás Saneamento
Consulta em setembro de 2026
Acessar projeto Goiás
BNDES — Hub de Projetos
Saneamento — Rio Grande do Norte
Consulta em setembro de 2026
Acessar projeto do Rio Grande do Norte
BNDES — Hub de Projetos
Arapiraca Saneamento — Bloco D
Consulta em setembro de 2026
Acessar projeto de Alagoas
BNDES — Hub de Projetos
Espírito Santo Saneamento
Consulta em setembro de 2026
Acessar projeto do Espírito Santo
Saneago
Ata de julgamento da Licitação Internacional nº 01/2025
24 de março de 2026
Acessar ata oficial da Saneago
Cagece
“Sobral recebe 2º encontro do Ceará Saneado sobre as novas PPPs de esgotamento sanitário”
26 de maio de 2026
Acessar publicação da Cagece
Governo do Estado de São Paulo
“UniversalizaSP: Governo abre consulta pública para programa que movimentará R$ 100 bilhões até 2060”
27 de abril de 2026
Acessar informações do UniversalizaSP
SEMIL — Governo de São Paulo
“UniversalizaSP: Araraquara terá R$ 1,9 bi em investimentos para atingir metas de saneamento e reduzir perdas de água”
Maio de 2026
Acessar caso de Araraquara
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
“Água e Desenvolvimento: o papel da ANA na universalização do saneamento”
2026
Acessar panorama atualizado da ANA
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução nº 178/2024 — Norma de Referência nº 5/2024, Matriz de Riscos
15 de janeiro de 2024
Acessar NR nº 5/2024
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução nº 192/2024 — Norma de Referência nº 8/2024, Universalização
8 de maio de 2024
Acessar NR nº 8/2024
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução nº 271/2025 — Norma de Referência nº 13/2025, Estrutura Tarifária e Tarifa Social
21 de novembro de 2025
Acessar NR nº 13/2025
Presidência da República
Lei nº 11.445/2007 — texto compilado com alterações do Marco Legal do Saneamento
Acessar Lei nº 11.445/2007
Ministério das Cidades
“Brasil tem ano de investimentos e avanços em saneamento básico”
14 de janeiro de 2026, atualizado em 8 de junho de 2026
Acessar dados do Novo PAC
Banco Mundial — Public-Private Partnership Resource Center
Water & Sanitation PPPs
Consulta em setembro de 2026
Acessar referência internacional sobre PPPs de saneamento
Banco Mundial
Delivering Universal and Sustainable Water Services: Partnering With the Private Sector
1º de março de 2016
Acessar estudo do Banco Mundial
Banco Mundial
Using Performance-Based Contracts to Reduce Non-Revenue Water
1º de junho de 2016
Acessar estudo sobre contratos para redução de perdas



