Um contrato de energia assinado pela Aegea ajuda a revelar uma transformação que tende a ganhar cada vez mais espaço dentro das companhias de água e esgoto: energia elétrica deixa de ser tratada apenas como uma conta mensal e passa a integrar a estratégia operacional, financeira e ambiental das empresas.

A Aegea e a Casa dos Ventos firmaram um acordo de longo prazo para o fornecimento de 13,89 MW médios de energia renovável, provenientes do Complexo Solar Seriemas, em Mato Grosso do Sul. O fornecimento deverá começar em 2027 e atenderá operações da Águas do Pará e da Águas do Piauí. (Canal Energia)
O modelo escolhido é ainda mais interessante para o profissional do saneamento: trata-se de autoprodução de energia por meio de arrendamento em consórcio, e não simplesmente da compra convencional de eletricidade de uma comercializadora. A estrutura permite integrar geração, consumo, planejamento financeiro e gestão energética. (CCEE)
Além disso, o volume contratado é expressivo. Considerando uma potência média de 13,89 MW durante as 8.760 horas de um ano, o contrato corresponde teoricamente a aproximadamente 121,7 GWh de energia por ano.
Mantido esse volume durante os 15 anos indicados pela Casa dos Ventos para a parceria, a energia associada ao acordo pode alcançar aproximadamente 1,83 TWh. O fornecimento está previsto para começar em 2027. (LinkedIn)
Portanto, a discussão sobre energia renovável no saneamento vai muito além da agenda ambiental. Ela envolve redução de exposição ao mercado, previsibilidade orçamentária, eficiência de bombeamento, perdas de água, planejamento operacional e até decisões sobre expansão dos sistemas.
Os principais números do acordo
A estrutura anunciada apresenta os seguintes pontos:
- Energia contratada: 13,89 MW médios;
- Fonte: solar fotovoltaica;
- Empreendimento: Complexo Solar Seriemas;
- Localização da geração: Mato Grosso do Sul;
- Capacidade instalada do complexo: aproximadamente 400 MW;
- Início previsto do fornecimento: 2027;
- Modelo: autoprodução por arrendamento em consórcio;
- Operações atendidas: Águas do Pará e Águas do Piauí;
- Horizonte informado pela Casa dos Ventos: 15 anos;
- Energia anual equivalente ao volume médio contratado: cerca de 121,7 GWh;
- Energia equivalente em 15 anos: aproximadamente 1,83 TWh.
Segundo as informações divulgadas sobre a operação, o contrato deverá atender todo o consumo atualmente negociado no Mercado Livre pelas duas concessionárias. Isso corresponde a aproximadamente 80% da demanda total da operação paraense e 60% da operação piauiense. (pv magazine Brasil)
Esse é um dado particularmente importante. Significa que a energia renovável no saneamento está sendo incorporada em uma parcela relevante do consumo necessário para colocar bombas, estações elevatórias, sistemas de tratamento e outras estruturas em funcionamento.
Por que energia elétrica é tão estratégica no saneamento?
Água não chega aos reservatórios apenas pela existência de tubulações. Da mesma forma, esgoto não chega às estações de tratamento apenas porque existe uma rede coletora.
Grande parte do ciclo depende de energia.
Motores acionam bombas de captação. Estações elevatórias vencem diferenças de cota. Boosters mantêm pressão nas redes. Sopradores fornecem oxigênio aos processos biológicos de tratamento. Bombas transportam lodo. Centrífugas realizam desaguamento. Equipamentos de mistura, automação, dosagem química e instrumentação permanecem continuamente em operação.
Consequentemente, energia e saneamento estão tecnicamente conectados.
Por isso, a ampliação da energia renovável no saneamento precisa ser analisada também como estratégia de produtividade.
Uma companhia que reduz o custo unitário da energia ou reduz a quantidade de kWh necessária para produzir e distribuir cada metro cúbico de água pode melhorar estruturalmente seu desempenho operacional.
A própria Aegea assumiu uma meta de reduzir em 15% seu consumo específico de energia, medido em kWh por metro cúbico, até 2030. Essa meta foi associada aos Sustainability-Linked Bonds emitidos pela companhia. (Aegea)
Portanto, existem duas frentes diferentes e complementares:
comprar ou produzir energia de maneira mais eficiente;
e
consumir menos energia para realizar o mesmo serviço de saneamento.
Essa diferença é fundamental.
Energia renovável não substitui eficiência energética.
Como funciona a autoprodução utilizada no acordo?
A autoprodução é uma estrutura em que a energia de determinado empreendimento de geração é destinada ao atendimento da própria demanda do consumidor.
A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a CCEE, define a Alocação de Geração Própria como o processo pelo qual um agente destina geração para atender sua própria demanda. A estrutura admite, entre outras configurações, consumidores participantes de SPEs e consórcios. (CCEE)
No caso anunciado pela Aegea, foi informado um modelo de arrendamento em consórcio.
De forma simplificada, o consumidor passa a participar de uma estrutura relacionada ao empreendimento de geração e uma parcela da energia gerada pode ser alocada para suas cargas conforme as regras aplicáveis.
Existe uma vantagem adicional importante.
A CCEE explica que a geração própria destinada exclusivamente às cargas pode ser considerada para abatimento de encargos relacionados à Conta de Desenvolvimento Energético — CDE — e ao Proinfa, presentes na TUSD ou na TUST, conforme as condições aplicáveis ao arranjo. (CCEE)
É justamente nesse ponto que a discussão sobre energia renovável no saneamento ganha dimensão financeira.
Não se trata necessariamente apenas de negociar um preço de megawatt-hora menor.
O resultado econômico depende da combinação entre:
- preço contratado da energia;
- estrutura de encargos;
- custos de transmissão ou distribuição;
- perfil horário de consumo;
- volume de energia contratado;
- consumo efetivamente realizado;
- exposição ao mercado de curto prazo;
- regras de reajuste;
- custos de gestão;
- garantias;
- condições regulatórias;
- duração contratual.
Portanto, somente comparar “tarifa atual” contra “preço da energia solar” produziria uma análise incompleta.
A energia sai de Mato Grosso do Sul e chega ao Pará?
Fisicamente, não existe uma espécie de linha elétrica exclusiva ligando o parque solar às bombas da concessionária no Pará ou no Piauí.
A eletricidade produzida é injetada no sistema elétrico, enquanto a contabilização e os mecanismos do mercado permitem associar determinadas parcelas de geração às cargas do consumidor.
Essa distinção é extremamente importante para compreender o Mercado Livre e a autoprodução.
Assim, quando se afirma que uma estação de bombeamento no Pará será atendida pela geração solar produzida em Mato Grosso do Sul, a relação é essencialmente energética, comercial e contábil dentro do sistema elétrico, e não o transporte de elétrons identificados individualmente entre os dois pontos.
A CCEE realiza justamente os processos necessários para contabilização e alocação da geração própria às cargas participantes desses modelos. (CCEE)
Energia solar combina com operações de água e esgoto?
Existe uma oportunidade importante, mas também um desafio técnico.
Uma planta solar produz mais eletricidade durante o período de incidência solar. Já sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário frequentemente funcionam durante 24 horas.
Consequentemente, geração e consumo nem sempre possuem exatamente a mesma curva horária.
Por isso, contratar energia renovável no saneamento exige muito mais do que avaliar a capacidade instalada da usina.
É necessário conhecer detalhadamente a curva de carga da concessionária.
Equipes de energia precisam identificar quanto cada estação consome a cada hora, quais unidades possuem flexibilidade operacional, quais reservatórios permitem armazenamento hidráulico e quais sistemas podem deslocar parcialmente o bombeamento para horários economicamente mais favoráveis.
Surge, portanto, uma integração interessante entre engenharia hidráulica e engenharia energética.
Reservatórios de água podem funcionar, dentro de determinados limites operacionais, como uma forma indireta de flexibilidade.
Em determinados sistemas, uma companhia pode bombear mais água durante determinadas janelas operacionais, armazená-la e reduzir o funcionamento de equipamentos em outros períodos.
Naturalmente, isso depende da disponibilidade hídrica, níveis dos reservatórios, pressões mínimas, capacidade das adutoras, demanda da população, segurança operacional e características específicas de cada sistema.
É justamente aqui que a experiência dos profissionais de saneamento permanece insubstituível.
Perdas de água também são perdas de energia
Existe ainda uma relação que frequentemente recebe menos atenção.
Quando água tratada é perdida antes de chegar ao consumidor, parte da energia utilizada para captar, tratar e bombear aquela água também foi desperdiçada.
Portanto, programas de redução de perdas possuem reflexos energéticos.
Se uma companhia produz 100 unidades de água, mas somente parte desse volume chega efetivamente aos consumidores, bombas trabalharam para transportar inclusive o volume perdido.
Nesse cenário, reduzir perdas pode permitir:
- diminuir vazões bombeadas;
- reduzir horas de operação;
- reduzir pressão excessiva;
- utilizar bombas mais próximas do ponto de melhor eficiência;
- reduzir consumo específico em kWh/m³;
- postergar ampliação de unidades;
- reduzir custos operacionais.
Dessa maneira, energia renovável no saneamento, eficiência energética e controle de perdas devem fazer parte de uma mesma estratégia.
A própria política ambiental da Aegea relaciona redução de perdas, eficiência energética, uso de energia renovável e gestão eficiente dos recursos hídricos. (Aegea)
O acordo realmente reduzirá custos?
Existe uma expectativa clara de maior previsibilidade e competitividade, mas é necessário fazer uma ressalva técnica importante.
O preço contratado pela Aegea não foi divulgado publicamente nas fontes consultadas.
Consequentemente, não seria tecnicamente correto afirmar quanto a companhia economizará em reais.
Também não é possível calcular uma redução percentual confiável apenas com o volume de 13,89 MW médios.
Para realizar essa análise seriam necessários, entre outros dados:
- preço contratual em R$/MWh;
- indexador e reajustes;
- duração exata das obrigações;
- encargos aplicáveis;
- custos de uso da rede;
- consumo horário das cargas;
- volume contratado versus volume realizado;
- exposição ao PLD;
- garantias e custos financeiros;
- benefícios regulatórios efetivamente aplicáveis;
- estrutura completa do consórcio.
Esse cuidado técnico é importante para os profissionais do saneamento.
Contratos de energia não devem ser avaliados somente pela diferença entre dois preços nominais.
É necessário comparar o custo total de energia entregue à operação.
Previsibilidade pode ser tão importante quanto economia
Uma das vantagens mais relevantes de contratos de longo prazo é reduzir a incerteza.
Companhias de saneamento trabalham com concessões que podem durar décadas. Além disso, possuem metas de expansão que exigem investimentos bilionários em estações, redes, adutoras, reservatórios, elevatórias e tratamento.
Nesse ambiente, forte volatilidade energética pode afetar o planejamento financeiro.
Por isso, transformar parte dos custos de energia em contratos previsíveis pode facilitar projeções de Opex, modelagens tarifárias e decisões de investimentos.
A Casa dos Ventos apresenta justamente previsibilidade de custos, proteção contra volatilidade e eficiência regulatória entre os benefícios de suas estruturas de contratos e autoprodução. (Casa dos Ventos)
Assim, energia renovável no saneamento pode funcionar também como instrumento de gestão de risco.
Energia limpa não significa licença para desperdiçar energia
Esse talvez seja o principal aprendizado técnico da operação.
Migrar para energia solar não elimina a necessidade de reduzir consumo.
Uma bomba funcionando fora do ponto de melhor eficiência continuará desperdiçando energia mesmo que toda a eletricidade utilizada tenha origem renovável.
Uma estação elevatória superdimensionada continuará sendo ineficiente.
Pressões excessivas continuarão aumentando perdas reais.
Motores antigos continuarão consumindo mais.
Aeradores operando sem controle adequado de oxigênio dissolvido continuarão elevando o consumo de uma ETE.
Por isso, uma estratégia moderna de energia renovável no saneamento deveria combinar contratação de energia com eficiência operacional.
Entre as ações possíveis estão:
- realizar diagnóstico energético por instalação;
- criar indicadores de kWh/m³;
- instalar medição elétrica individualizada;
- monitorar curvas de carga;
- avaliar rendimento de conjuntos motobomba;
- utilizar inversores de frequência quando tecnicamente adequados;
- automatizar bombeamentos;
- controlar pressões;
- combater perdas reais e aparentes;
- otimizar reservação;
- revisar demanda contratada;
- analisar energia reativa;
- integrar SCADA, dados hidráulicos e dados energéticos.
Esse é o caminho que transforma energia de assunto administrativo em variável de engenharia.
O que outras companhias podem aprender com a Aegea?
A experiência oferece um roteiro interessante para prestadores públicos e privados.
1. Mapear o consumo
O primeiro passo deveria ser conhecer exatamente onde, quando e quanto cada unidade consome.
2. Separar custo de consumo
Uma conta alta pode decorrer de consumo excessivo, tarifa inadequada, demanda mal contratada, encargos ou baixa eficiência operacional.
Cada problema exige uma solução diferente.
3. Construir indicadores energéticos
O indicador kWh/m³ permite comparar unidades e acompanhar tendências.
Entretanto, comparações precisam considerar altura manométrica, distância de bombeamento, topografia, tecnologia de tratamento e outras particularidades.
4. Avaliar o Mercado Livre
Grandes unidades consumidoras podem apresentar oportunidades diferentes das pequenas instalações.
5. Estudar autoprodução
Para cargas relevantes e previsíveis, estruturas de longo prazo podem ser economicamente interessantes.
6. Simular cenários
Devem ser construídos cenários de preço, consumo, geração, PLD, inflação, encargos e mudanças de demanda.
7. Integrar operação e finanças
A decisão não deveria permanecer exclusivamente na área financeira.
Engenharia, operação, regulação, jurídico, suprimentos, planejamento e gestão energética precisam trabalhar de forma integrada.
Aegea já possui uma matriz predominantemente renovável
O acordo não começa do zero.
A companhia informa institucionalmente que aproximadamente 98% da energia consumida em sua matriz é proveniente de fontes renováveis, enquanto informações divulgadas sobre o novo contrato mencionam percentual próximo de 99%, diferença que pode estar relacionada à base ou período de apuração. (Aegea)
Além disso, ampliar o uso de fontes renováveis aparece entre os objetivos estratégicos ambientais da companhia. (Aegea)
A estratégia ganha relevância diante do tamanho da organização. Atualmente, a Aegea informa atuação em mais de 890 cidades, atendendo mais de 39 milhões de pessoas em diferentes regiões brasileiras. (Aegea)
Portanto, pequenas melhorias percentuais aplicadas em escala podem representar impactos operacionais consideráveis.
O profissional de saneamento será cada vez mais um gestor de energia
A principal transformação talvez esteja nas competências exigidas dentro das empresas.
Durante décadas, energia poderia ser enxergada principalmente como despesa necessária para operar bombas e equipamentos.
Esse conceito está mudando.
O engenheiro que compreende hidráulica, automação, eficiência de motores, mercado de energia, curvas de carga e indicadores de consumo passa a enxergar oportunidades que não aparecem simplesmente na fatura da distribuidora.
Da mesma forma, operadores passam a ter papel fundamental.
São esses profissionais que conhecem os horários de maior demanda, limitações dos reservatórios, comportamento das bombas, pressão das redes, capacidade das estações e riscos associados a qualquer alteração operacional.
Nenhum contrato de energia substitui esse conhecimento.
Ao contrário, quanto mais sofisticada se torna a estratégia energética, maior se torna a importância do profissional que conhece o sistema real.
Energia renovável no saneamento tende a entrar na estratégia das companhias
O acordo entre Aegea e Casa dos Ventos representa mais do que a contratação de uma fonte solar.
Ele mostra uma possível mudança de abordagem.
A energia passa a integrar decisões de longo prazo sobre operação, investimentos, sustentabilidade e competitividade.
O Complexo Solar Seriemas possui aproximadamente 400 MW de capacidade instalada, enquanto 13,89 MW médios foram associados ao atendimento das operações da Aegea no acordo divulgado. (pv magazine Brasil)
A Casa dos Ventos também já estruturou contratos de autoprodução com outros grandes consumidores e informa que sua metodologia envolve diagnóstico do consumo, definição do modelo contratual, alocação da energia, gestão contínua, monitoramento e otimização. (Casa dos Ventos)
Para o setor de água e esgoto, essa lógica faz sentido.
A universalização exigirá mais infraestrutura. Mais infraestrutura tende a significar novas elevatórias, novas estações, novos sistemas de tratamento e, consequentemente, novas cargas elétricas.
Portanto, ampliar cobertura sem ampliar eficiência pode pressionar os custos operacionais.
A expansão da energia renovável no saneamento precisa acontecer paralelamente à redução de perdas, eficiência de bombeamento, automação e controle do consumo específico.
Essa combinação poderá separar empresas que simplesmente compram energia daquelas que efetivamente gerenciam energia.
E justamente nesse cenário o profissional do saneamento ganha ainda mais relevância.
Tecnologia, contratos e geração solar fornecem ferramentas. Entretanto, transformar essas ferramentas em eficiência, continuidade operacional, segurança hídrica e melhores serviços depende da capacidade técnica das pessoas responsáveis por operar, planejar e modernizar os sistemas de saneamento.
Fontes consultadas
CanalEnergia — Casa dos Ventos e Aegea firmam acordo para fornecimento de energia renovável. Fonte original que divulgou o acordo e o volume contratado de 13,89 MW médios. (Canal Energia)
Casa dos Ventos — Contratos de energia e autoprodução. Explica modelos de autoprodução, previsibilidade, gestão energética e estruturação dos projetos. (Casa dos Ventos)
Casa dos Ventos — divulgação institucional da parceria com a Aegea. Informa início em 2027 e horizonte de 15 anos. (LinkedIn)
CCEE — Alocação de Geração Própria. Referência técnica para funcionamento de consórcios, arrendamento, alocação de geração e tratamento de encargos na autoprodução. (CCEE)
Aegea — Estratégia ambiental e eficiência energética. Apresenta a participação de fontes renováveis na matriz e os objetivos ambientais da companhia. (Aegea)
Aegea RI — Sustainability-Linked Bonds. Fonte da meta de redução de 15% do consumo específico de energia até 2030. (Aegea)
Aegea — Quem Somos. Dados sobre abrangência das operações e população atendida. (Aegea)
PV Magazine Brasil — autoprodução solar Aegea/Casa dos Ventos. Fonte independente utilizada para conferência dos volumes, operações atendidas e características do Complexo Solar Seriemas. (pv magazine Brasil)



