O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltou ao centro do debate sobre saneamento no Brasil ao informar que está estruturando mais nove projetos de concessão e parceria público-privada (PPP) voltados a água e esgoto. Em conjunto, esses empreendimentos somam R$ 47,6 bilhões em investimentos estimados e podem beneficiar quase 20 milhões de pessoas, segundo informações repassadas à imprensa pelo diretor de Planejamento e Relações Institucionais do banco, Nelson Barbosa.
Esse conjunto de projetos entra em cena logo após um leilão de grande repercussão no Nordeste: o leilão da Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento). Assim, a movimentação sinaliza continuidade de uma estratégia de estruturar projetos de saneamento com modelagem técnica, econômica e jurídica para elevar a atratividade e reduzir riscos. Além disso, o portfólio anunciado indica que o cronograma ultrapassa 2026, o que, por consequência, sugere que os estudos não ficam “presos” ao ciclo eleitoral.
O que significa “o BNDES estrutura projetos” no saneamento
Estruturação é mais do que “financiar obra”
Quando se afirma que o BNDES “estrutura” projetos de saneamento, o foco está, principalmente, na preparação completa para viabilizar a concessão ou PPP. Na prática, isso envolve diagnósticos, estimativas de demanda, projeções de investimento, definição de metas de atendimento, desenho de matriz de riscos, elaboração de estudos de viabilidade e organização de minutas contratuais e regulatórias. Portanto, o objetivo não é apenas levantar recursos, mas também criar um modelo que seja executável e monitorável ao longo de décadas.
Convênios com estados e municípios
O banco informou que a estruturação ocorre mediante convênios firmados com estados e municípios. Isso é relevante porque, em saneamento, a titularidade e a governança variam conforme a organização local (municípios, regiões metropolitanas e blocos regionalizados). Consequentemente, o sucesso de uma concessão depende de alinhamento institucional, regras claras e capacidade de fiscalização para garantir que metas virem realidade.
Os nove projetos do portfólio e seus números
Os empreendimentos divulgados estão em diferentes fases de estudo e abrangem diversas regiões do país. Em termos operacionais, esse desenho favorece uma carteira “diversificada”, com realidades distintas de cobertura, capacidade de pagamento, desafios de engenharia e necessidades de investimento. A seguir, estão os projetos listados com valores estimados e população abrangida.
Paraíba
- Investimentos estimados: R$ 3,5 bilhões
- População abrangida: 2,3 milhões de pessoas
Rondônia
- Investimentos estimados: R$ 4,9 bilhões
- População abrangida: 1,3 milhão de pessoas
Porto Alegre (RS)
- Investimentos estimados: ainda em estudo
- População abrangida: 1,5 milhão de pessoas
Maranhão
- Investimentos estimados: R$ 18,7 bilhões
- População abrangida: 6,2 milhões de pessoas
Goiás
- Investimentos estimados: R$ 6,2 bilhões
- População abrangida: 3,4 milhões de pessoas
Minas Gerais (Copanor)
- Investimentos estimados: R$ 3,5 bilhões
- População abrangida: 1,7 milhão de pessoas
Rio Grande do Norte
- Investimentos estimados: R$ 4,1 bilhões
- População abrangida: 1,8 milhão de pessoas
Alagoas (Bloco D)
- Investimentos estimados: R$ 2,2 bilhões
- População abrangida: 550 mil pessoas
Espírito Santo
- Investimentos estimados: R$ 4,5 bilhões
- População abrangida: 1,1 milhão de pessoas
Somados, esses números reforçam um ponto: o saneamento tem escala e exige previsibilidade. Por isso, a fase de estudos é decisiva, porque define metas, CAPEX, OPEX, tarifas, indicadores de desempenho, cronograma de obras e mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro.
Porto Alegre: concessão com preservação de funções do DMAE
Cronograma vai até 2027
Entre os projetos destacados, Porto Alegre aparece como um exemplo de planejamento de médio prazo. A previsão divulgada aponta que os estudos conduzidos pelo banco devem ficar prontos no segundo semestre de 2026, enquanto o leilão está projetado para a primeira metade de 2027. Dessa forma, o processo explicita que o portfólio não termina em 2026 e, além disso, sinaliza que a modelagem está sendo desenhada para um ciclo longo de contratação e execução.
Captação e tratamento de água permanecem com o DMAE
Outro ponto técnico relevante é o desenho institucional do serviço. Foi informado que a lei sancionada pelo prefeito Sebastião Melo autoriza o processo, mantendo a responsabilidade pela captação e tratamento de água com o DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgotos). Em termos de modelagem, isso sugere uma concessão com divisão de responsabilidades, o que exige atenção extra à integração operacional, à medição de desempenho e ao desenho de interfaces entre os entes envolvidos.
Em saneamento, esse tipo de arranjo costuma demandar regras claras de qualidade da água, continuidade de abastecimento, padrões de manutenção, além de protocolos de emergência e de comunicação com a população. Consequentemente, o contrato precisa prever mecanismos de coordenação para que a experiência do usuário final seja consistente e para que não haja “zonas cinzentas” de responsabilidade.
Maranhão: o maior projeto e o retrato do déficit
Maior volume de investimento da carteira
O projeto do Maranhão foi apontado como o maior atualmente em estudo, com potencial de movimentar mais de R$ 18 bilhões em investimentos. Em termos estratégicos, esse volume revela a magnitude do desafio regional e, ao mesmo tempo, a possibilidade de salto rápido em cobertura, desde que o desenho regulatório e contratual seja robusto.
Indicadores que explicam a urgência do saneamento
Foram citados dados do Instituto Trata Brasil para caracterizar o déficit: no estado, quase 3 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e cerca de 6 milhões não possuem coleta de esgoto. Além disso, foi destacado que menos de 15% do esgoto gerado é efetivamente tratado. Para dar escala ao impacto ambiental, foi mencionado que esse cenário equivale ao despejo diário de 206 piscinas olímpicas de resíduos no meio ambiente.
Em linguagem simples, isso significa que grande parte do esgoto produzido no Maranhão ainda segue para rios, lagoas, solo e áreas costeiras sem tratamento adequado. E, como resultado, os efeitos aparecem em cadeia: piora da qualidade dos corpos d’água, pressão sobre sistemas de saúde por doenças relacionadas, impactos sobre turismo e economia local e aumento de custos futuros para recuperar áreas degradadas. Assim, o déficit de saneamento não é apenas um problema de infraestrutura; ele se transforma em um problema de desenvolvimento.
Mercado e tendência: mais participação privada no saneamento
Do “residual” para “relevante” em poucos anos
Uma leitura de mercado foi apresentada pela especialista em infraestrutura Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria. Foi citado que, em 2020 — ano em que foi sancionado o novo marco legal do saneamento — o setor privado respondia por apenas 7% dos serviços de água e esgoto. Hoje, segundo a avaliação divulgada, essa participação está passando de 40%. Essa mudança ajuda a explicar por que projetos estruturados com bom desenho econômico-financeiro têm atraído competição e mobilizado capital.
A lógica por trás desse movimento é direta: como as metas de universalização são ambiciosas e o volume de investimento é alto, modelos de concessão e PPP se tornaram caminhos para acelerar execução. Ainda assim, a eficiência depende de contratos bem desenhados e de regulação forte, porque o setor é essencial e possui monopólio natural em muitas localidades. Logo, o ganho real para a população ocorre quando o investimento vira obra, a obra vira serviço, e o serviço vira qualidade e continuidade.
“Mais investimentos” como síntese do debate
Também foi destacado um ponto objetivo: a necessidade central é elevar investimento em saneamento. Isso não elimina o papel do Estado, mas muda o foco da discussão para a capacidade de mobilizar recursos, planejar e fiscalizar. Em outras palavras, o resultado esperado é menos improviso e mais entrega mensurável.
Copasa entra no radar: privatização e o ponto-chave de Belo Horizonte
Um assunto fora da carteira do BNDES, mas central no setor
Além dos projetos estruturados pelo BNDES, foi apontado que “todos os olhos” do mercado se voltam para a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais). A privatização da estatal não é estruturada pelo banco, mas o tema tem grande peso, pois envolve uma das principais companhias estaduais do país.
Resultados financeiros e autorização legislativa
Foi informado que a Copasa já possui capital aberto e registrou lucro líquido de R$ 1,3 bilhão em 2024. Também foi mencionado que, na semana anterior à publicação, a Assembleia Legislativa aprovou em definitivo o projeto de lei que autoriza sua venda. Esses elementos ajudam a explicar o interesse do mercado e, ao mesmo tempo, aumentam a importância de como ficará a base contratual da empresa no futuro.
Contrato de Belo Horizonte: fluxo de caixa e horizonte de longo prazo
Um ponto técnico foi tratado como decisivo: a renovação contratual com Belo Horizonte. Segundo a avaliação publicada, um dos pontos mais importantes do ativo é se a capital mineira assinará contrato com a companhia para garantir fluxo de caixa. Foi registrado que o contrato atual vai até 2032 e que há tratativas finais para estender esse contrato até 2073. Em termos práticos, contratos longos ampliam previsibilidade de receita, o que impacta valuation, custo de capital e capacidade de investimento — e isso reverbera, direta ou indiretamente, na velocidade e na qualidade do saneamento entregue.
O que profissionais do saneamento devem observar nesses projetos
Metas, indicadores e governança: o “tripé” que decide o sucesso
Para profissionais do saneamento, a mensagem central é que concessões e PPPs não se sustentam apenas em números grandes. O que faz diferença, na rotina de operação e fiscalização, é o conjunto de metas e indicadores, a governança contratual e a capacidade regulatória. Portanto, a análise técnica deve olhar, de forma integrada, para:
- Metas de expansão de água e esgoto com marcos intermediários, e não apenas meta final.
- Qualidade do serviço (continuidade, pressão, qualidade da água, atendimento ao usuário, tempo de resposta a ocorrências).
- Tratamento de esgoto (evolução do percentual tratado, padrões de lançamento, eficiência de ETEs).
- Perdas e eficiência (redução de perdas físicas e comerciais, melhoria de micromedição, combate a fraudes).
- Regras de reequilíbrio e mecanismos de penalidade/bonificação baseados em desempenho.
- Transparência de dados operacionais, relatórios e auditorias.
O usuário final como “termômetro” do saneamento
Mesmo com modelagens sofisticadas, o que define a percepção pública é simples: água chega com qualidade? Falta água com frequência? Esgoto é coletado e tratado? Atendimento resolve? Assim, a comunicação com a população e a gestão de expectativas também entram como parte do desafio. Em saneamento, a credibilidade é construída com entrega consistente ao longo do tempo.
Por que esse anúncio importa para o Brasil até 2033
O anúncio do BNDES importa porque amplia a fila de projetos em preparação e, ao mesmo tempo, reforça que o saneamento está em uma fase de forte reorganização institucional. Como os empreendimentos citados estão em fases diferentes, o portfólio cria um “pipeline” de licitações que pode manter o setor aquecido com obras e melhorias ao longo dos próximos anos.
Além disso, ao incluir estados com grandes déficits e também capitais com desafios próprios, a carteira reforça que a universalização não será uniforme. Em algumas regiões, será necessário construir praticamente tudo; em outras, será preciso modernizar, reduzir perdas, aumentar tratamento e melhorar operação. Portanto, o planejamento setorial e a capacidade de execução serão tão importantes quanto o capital disponível.
Em síntese, o movimento de estruturação indica que o saneamento passou a ser tratado como agenda estruturante de país: com projetos de longo prazo, metas monitoráveis e busca por maior eficiência. E, ao final, o objetivo mais relevante permanece o mesmo: melhorar a vida da população com serviços básicos funcionando de forma segura, contínua e ambientalmente responsável.



