Falta d’água coloca a privatização da SABESP em xeque

A privatização da Sabesp continua enfrentando resistência entre os moradores do estado de São Paulo. Pesquisa Datafolha realizada entre os dias 1º e 3 de julho de 2026 apontou que 54% dos entrevistados são contrários à privatização da companhia, enquanto 31% apoiam a medida. O levantamento ouviu 1.608 pessoas em 71 municípios paulistas e possui margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. 

Além disso, 51% dos entrevistados afirmaram não perceber mudanças nos serviços de água e esgoto após a desestatização. Outros 28% disseram que o atendimento piorou, enquanto somente 14% identificaram melhora. Esses números ajudam a compreender por que o tema permanece sensível, especialmente quando episódios de falta de água atingem grandes áreas urbanas. 

Entretanto, a pesquisa mede a percepção da população, e não substitui uma auditoria técnica sobre o desempenho da companhia. Portanto, a avaliação do novo modelo de saneamento precisa considerar, ao mesmo tempo, a opinião dos usuários, a continuidade do abastecimento, os investimentos realizados, a expansão da cobertura, a qualidade da água, a eficiência operacional e o cumprimento das metas contratuais.

Falta de água atingiu São José dos Campos

A divulgação da pesquisa ocorreu em um momento de forte insatisfação em São José dos Campos. Moradores de diferentes regiões relataram falta de água após a Sabesp antecipar uma manutenção que estava inicialmente programada para começar no dia 21 de julho.

A intervenção envolveu a substituição de três válvulas de grande porte no sistema de captação de água bruta. Conforme as informações divulgadas, a manutenção poderia afetar aproximadamente 70% do município, alcançando cerca de 190 mil ligações de água. A previsão era de que a normalização ocorresse gradualmente ao longo do dia 22 de julho. 

A companhia informou que aproximadamente 50 profissionais foram mobilizados para a operação. Também foram disponibilizados caminhões-pipa, principalmente para hospitais, unidades de saúde e outros serviços essenciais. A intervenção integra a primeira etapa de um pacote de investimentos estimado em R$ 29 milhões para a modernização das instalações de saneamento em São José dos Campos. 

Segundo a Sabesp, a substituição dos equipamentos busca solucionar um problema histórico no sistema de captação, aumentar a confiabilidade operacional e reduzir o risco de falhas futuras. Portanto, a obra possui uma justificativa técnica relevante. Ainda assim, a forma como o serviço foi antecipado ampliou o impacto percebido pelos consumidores.

Por que três válvulas podem afetar 70% da cidade?

Embora a troca de três válvulas pareça uma intervenção pequena, esses equipamentos estavam instalados em uma etapa estratégica do abastecimento: a captação de água bruta.

A água bruta é retirada do manancial e conduzida até a estação de tratamento. Depois de tratada, ela segue para reservatórios e redes de distribuição. Assim, quando uma estrutura importante da captação precisa ser desligada, a entrada de água no sistema produtor é reduzida ou interrompida.

Durante algum tempo, os reservatórios conseguem manter parte do abastecimento. Contudo, conforme o volume armazenado diminui, bairros mais altos, regiões afastadas e pontos críticos da rede começam a apresentar baixa pressão ou falta de água.

Além disso, o retorno do abastecimento não acontece de maneira instantânea. Primeiramente, é necessário retomar a captação. Em seguida, as unidades de tratamento precisam recuperar sua produção, os reservatórios devem ser preenchidos e as redes precisam ser pressurizadas novamente.

Por esse motivo, mesmo depois da conclusão do serviço, determinadas regiões podem levar mais tempo para receber água. A normalização gradual é uma característica hidráulica do sistema e não significa necessariamente que a manutenção ainda esteja em execução.

A interrupção foi causada pela privatização?

Não existem elementos técnicos suficientes para afirmar que a falta de água em São José dos Campos tenha sido causada diretamente pela privatização da Sabesp.

A intervenção estava relacionada à troca de equipamentos existentes no sistema de captação. Além disso, a própria companhia classificou o problema como histórico, indicando que a necessidade de modernização da infraestrutura é anterior à alteração do controle acionário. 

A desestatização passou a produzir efeitos em 23 de julho de 2024, juntamente com o início da vigência do Contrato de Concessão nº 01/2024 da Unidade Regional de Serviços de Abastecimento de Água Potável e Esgotamento Sanitário Sudeste, a URAE 1. O contrato possui vigência prevista até outubro de 2060 e estabelece metas, obrigações, indicadores de desempenho e mecanismos de fiscalização pela Arsesp. 

Atualmente, o Governo do Estado de São Paulo possui 18% das ações da Sabesp e mantém uma ação especial, conhecida como golden share. A Equatorial possui 15%, enquanto os demais investidores concentram a maior parte das ações em circulação. Os dados são referentes a 7 de julho de 2026. 

Portanto, relacionar automaticamente qualquer interrupção à privatização produziria uma análise incompleta. Da mesma forma, utilizar o crescimento dos investimentos para afirmar que todos os problemas do saneamento foram solucionados também seria precipitado.

A avaliação adequada exige uma série histórica. É necessário comparar o desempenho anterior e posterior à mudança de controle, considerando interrupções, duração média do desabastecimento, pressão nas redes, reclamações, vazamentos, perdas de água, tempo de atendimento, investimentos e expansão da cobertura.

Comunicação antecipada aumentou a insatisfação

O aspecto mais crítico do episódio pode não ter sido apenas a necessidade da manutenção, mas a comunicação com os usuários.

A intervenção estava divulgada para os dias 21 e 22 de julho. Entretanto, a Sabesp decidiu antecipar o trabalho para o dia 20. Moradores relataram que o abastecimento foi interrompido antes da data informada inicialmente, atingindo bairros das regiões central, sul, norte, leste e sudeste. 

Em serviços de saneamento, uma manutenção tecnicamente necessária pode se transformar em crise de imagem quando o consumidor não recebe informações atualizadas. Famílias deixam de reservar água, estabelecimentos comerciais não conseguem reorganizar suas atividades e serviços essenciais precisam buscar soluções emergenciais.

Consequentemente, a comunicação operacional não deve ser tratada apenas como responsabilidade da assessoria de imprensa. Ela precisa fazer parte do planejamento da intervenção.

Quando um cronograma é alterado, a informação deve ser atualizada imediatamente em todos os canais disponíveis: mensagens aos consumidores, site, aplicativo, redes sociais, imprensa local, prefeituras, Defesa Civil e comunicação direta com hospitais, escolas e grandes usuários.

Também é necessário informar quais bairros serão afetados, o horário estimado da interrupção, o período provável de normalização, os canais de atendimento e a possibilidade de demora adicional em regiões elevadas ou localizadas nas extremidades da rede.

Como a continuidade do saneamento é medida

A Arsesp estabeleceu regras específicas para medir a continuidade do abastecimento de água. A Deliberação nº 1.621/2024 criou o Indicador de Continuidade, conhecido como IDC, que considera o percentual de tempo em que determinada área permanece operando dentro da faixa adequada de pressão. 

O monitoramento deve considerar medições em intervalos de 15 minutos. Pela classificação regulatória, um IDC entre 99% e 100% é considerado bom. Resultados entre 95% e 98,9% são classificados como regulares. Por sua vez, resultados inferiores a 95% são considerados ruins e podem representar não conformidade sujeita a penalidade. 

Entretanto, existe um detalhe importante. Interrupções necessárias para reparos, modificações ou melhorias podem ser justificadas pela prestadora. Caso a justificativa seja aceita pela Arsesp, o período pode ser considerado como tempo adequadamente operado para o cálculo do indicador. 

Isso não significa que uma manutenção programada esteja automaticamente livre de fiscalização. A agência precisa analisar a justificativa, a necessidade da intervenção, a duração, a abrangência, o planejamento, a comunicação e as medidas adotadas para reduzir os impactos.

Por isso, profissionais de saneamento devem diferenciar três situações: interrupção tecnicamente necessária, falha operacional evitável e intermitência recorrente. Cada caso exige tratamento regulatório e operacional diferente.

Investimentos aumentaram após a desestatização

Os dados divulgados pela Sabesp mostram aceleração dos investimentos. No primeiro trimestre de 2026, a companhia informou ter investido R$ 3,728 bilhões, crescimento de 30,8% em relação aos R$ 2,851 bilhões registrados no mesmo período de 2025.

Do total investido, aproximadamente R$ 1,243 bilhão foi destinado aos sistemas de água e R$ 2,485 bilhões aos sistemas de esgoto. O investimento em água apresentou crescimento de 102% na comparação anual, enquanto os recursos destinados ao esgoto aumentaram 11,2%. 

Os números são relevantes porque a universalização do saneamento exige grande capacidade de investimento. A companhia atende 376 municípios, fornecendo água para aproximadamente 30,4 milhões de pessoas e coleta de esgoto para cerca de 27,5 milhões. 

Além disso, o contrato antecipou para 2029 as metas de universalização previstas no marco legal do saneamento. A intenção é atingir 99% de atendimento com água e 90% de coleta e tratamento de esgoto, incluindo áreas urbanas, núcleos informais e localidades rurais abrangidas pelas obrigações contratuais. 

Contudo, investimento financeiro não deve ser confundido automaticamente com qualidade percebida. O consumidor não acompanha apenas o valor aplicado em obras. Ele observa se existe água na torneira, se a pressão está adequada, se o vazamento é reparado rapidamente e se recebe informações confiáveis durante uma ocorrência.

Portanto, a expansão do investimento precisa produzir resultados mensuráveis. Entre eles estão menos interrupções, redução das perdas, maior segurança hídrica, expansão da coleta e tratamento de esgoto, diminuição do tempo de atendimento e melhoria da experiência do usuário.

Metas divulgadas ainda exigem validação

A Sabesp informou, em sua página de acompanhamento da universalização, que superou determinadas metas urbanas de novas economias de água e ficou próxima do cumprimento das metas de esgoto urbano em 2025.

Por outro lado, os resultados referentes às áreas informais, rurais e ao tratamento de esgoto ainda apresentavam etapas relevantes a serem cumpridas. A própria companhia ressalta que os dados publicados precisam ser validados pela Arsesp e pelo órgão verificador independente. 

Essa observação é fundamental. Em contratos de saneamento, a verificação independente ajuda a impedir que o acompanhamento dependa exclusivamente das informações declaradas pela empresa.

Além da quantidade de novas ligações, deve-se confirmar se os sistemas estão efetivamente operando, se os imóveis recebem água com regularidade, se o esgoto é coletado e se o volume coletado chega a uma unidade de tratamento adequada.

Consequentemente, a fiscalização precisa acompanhar tanto a execução física das obras quanto o resultado entregue à população.

O que precisa ser fiscalizado

A discussão sobre privatização não deve ficar limitada à comparação entre gestão pública e gestão privada. Independentemente do controle acionário, o saneamento continua sendo um serviço público essencial, sujeito a contratos, metas, normas técnicas e fiscalização.

Assim, alguns indicadores merecem acompanhamento permanente:

  • continuidade do abastecimento;
  • quantidade e duração das interrupções;
  • pressão disponível nas redes;
  • perdas físicas e comerciais de água;
  • qualidade da água distribuída;
  • tempo de reparo de vazamentos;
  • índice de reclamações;
  • tempo médio de atendimento;
  • cobertura de água e esgoto;
  • volume de esgoto efetivamente tratado;
  • evolução das tarifas;
  • atendimento das áreas rurais e informais;
  • cumprimento dos investimentos contratados.

A transparência desses dados também influencia a confiança da população. Quando apenas os investimentos e resultados financeiros recebem destaque, enquanto os indicadores de serviço permanecem pouco acessíveis, cresce a percepção de distanciamento entre a empresa e o usuário.

Lições para gestores e profissionais de saneamento

O episódio de São José dos Campos oferece aprendizados importantes para empresas públicas, privadas e concessionárias.

Primeiramente, uma manutenção programada precisa ser tratada como operação integrada. Engenharia, operação, comunicação, atendimento comercial, logística e relacionamento institucional devem trabalhar com o mesmo cronograma.

Em segundo lugar, a alteração do planejamento exige nova comunicação imediata. Não basta ter avisado anteriormente quando a data ou o horário da intervenção foram modificados.

Além disso, o plano de contingência deve identificar consumidores prioritários, estimar o número de ligações afetadas, organizar caminhões-pipa, definir rotas alternativas e estabelecer uma sala de situação para acompanhar a recuperação do sistema.

Outro ponto importante é o monitoramento após a retomada. Reservatórios cheios não significam que todos os consumidores já estão abastecidos. É necessário acompanhar a pressão nos pontos críticos, as reclamações por bairro e a recuperação das áreas elevadas.

Finalmente, a análise de causa precisa gerar aprendizado. Depois da ocorrência, devem ser revisados o planejamento da obra, a precisão da estimativa de impacto, o funcionamento dos canais de comunicação e a velocidade da normalização.

Saneamento será avaliado pelo resultado entregue

A pesquisa Datafolha demonstra que a privatização da Sabesp ainda não conquistou a maioria da população paulista. Ao mesmo tempo, os dados divulgados pela companhia indicam crescimento relevante dos investimentos e aceleração de projetos relacionados à universalização.

As duas informações podem coexistir. Uma empresa pode aumentar os investimentos enquanto parte dos usuários ainda não percebe melhoria direta. Afinal, obras de saneamento possuem ciclos longos, mas ocorrências de falta de água geram impactos imediatos.

Por isso, a avaliação da desestatização não deve depender de um único episódio, de uma única pesquisa ou apenas dos resultados financeiros da companhia. O desempenho precisa ser acompanhado ao longo do tempo por indicadores públicos, comparáveis e fiscalizados.

No caso de São José dos Campos, a troca das válvulas pode melhorar a confiabilidade futura do sistema. Entretanto, a antecipação da intervenção e a comunicação insuficiente aumentaram a insatisfação dos moradores.

A principal conclusão é clara: para o usuário, a eficiência do saneamento é percebida diariamente. Investimentos, contratos e metas são fundamentais, porém a confiança depende de água disponível, pressão adequada, comunicação transparente e respostas rápidas quando o serviço é interrompido.

Fontes