Gestão sustentável da água: lições dos premiados

A gestão sustentável da água deixou de ser apenas um conceito ambiental para se tornar uma disciplina diretamente relacionada à eficiência operacional, segurança hídrica, redução de custos, resiliência climática e capacidade de expansão dos serviços de saneamento. Essa transformação ficou evidente na quinta edição do Water Sustainability Awards, realizada em agosto de 2026, em Nova Delhi, na Índia.

Promovida pelo The Energy and Resources Institute, a TERI, a premiação reconheceu organizações, instituições, empresas e profissionais envolvidos em projetos de conservação da água, eficiência hídrica, tratamento e reúso de efluentes, recuperação de mananciais, recarga de aquíferos, controle de poluição e inovação tecnológica. (teriin.org⁠)

Entre os reconhecidos aparecem organizações como Gramodaya Samajik Sansthan, Shree Cement Limited, Delhi International Airport Limited, NTPC North Karanpura, Lauritz Knudsen Electrical and Automation, DHAN Vayalagam Foundation, ABIS Foods and Proteins, Shriram Institute for Industrial Research, Power Grid Corporation of India e Arghyam. Além disso, Laxman, da organização Gram Vikas Navyuvak Mandal Laporiya, recebeu o reconhecimento individual de Water Champion. (teriin.org⁠)

Mais importante do que observar apenas os nomes dos premiados, entretanto, é entender quais práticas estão sendo consideradas referência internacional em gestão sustentável da água. Para os profissionais brasileiros de saneamento, essa análise revela tendências diretamente aplicáveis às companhias de água e esgoto, municípios, indústrias, operadores privados e prestadores regionais.

Sustentabilidade hídrica passa da teoria para a operação

Um dos principais sinais apresentados pela premiação é que a gestão sustentável da água está cada vez mais ligada à operação cotidiana.

Isso significa medir vazões, controlar consumo, identificar desperdícios, tratar e reutilizar efluentes, acompanhar a qualidade da água, recuperar estruturas hídricas e utilizar informações operacionais para tomar decisões.

Os critérios utilizados pelo Water Sustainability Awards deixam essa lógica bastante evidente.

Na categoria relacionada ao acesso à água, por exemplo, são considerados aspectos como expansão de redes, medição, sistemas de detecção de vazamentos e monitoramento da qualidade da água. Portanto, sustentabilidade passa também por temas conhecidos diariamente pelos profissionais das companhias de saneamento. (Prêmios de Sustentabilidade da Água⁠)

Consequentemente, combater perdas de água deixa de ser apenas uma estratégia financeira. Torna-se também uma política de segurança hídrica.

Cada metro cúbico produzido e perdido antes de chegar ao consumidor representa água captada, tratada, bombeada e transportada sem gerar o benefício esperado.

Reúso de água ganha posição estratégica

Outro ponto fortemente presente na premiação é o tratamento e reúso seguro de águas residuárias.

A lógica tradicional baseada em captar, utilizar, tratar e descartar gradualmente vem sendo substituída por sistemas mais circulares.

Na prática, uma estação de tratamento de esgoto deixa de ser vista apenas como uma instalação destinada ao controle ambiental. Ela passa a ser considerada também uma possível unidade produtora de água para usos compatíveis com a qualidade obtida.

A própria TERI destacou durante o evento que o modelo de simplesmente utilizar e descartar água precisa ser revisto, principalmente diante do crescimento da demanda e das pressões sobre os recursos hídricos. (teriin.org⁠)

Essa tendência está alinhada às metas internacionais do ODS 6, que incluem melhoria da qualidade da água, tratamento de águas residuárias, aumento do reúso seguro e maior eficiência na utilização dos recursos hídricos. (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável⁠)

Portanto, a gestão sustentável da água passa necessariamente pela capacidade de transformar efluente tratado em recurso.

Eficiência hídrica precisa começar pela medição

Uma das lições mais interessantes dos critérios da premiação aparece nas práticas de eficiência hídrica industrial.

Entre as ações avaliadas estão instalação de medidores de vazão em tubulações principais, definição de metas para redução do consumo, equipamentos economizadores, tratamento de efluentes, sistemas de osmose reversa e programas de conscientização dos trabalhadores. (Prêmios de Sustentabilidade da Água⁠)

Há uma conclusão operacional importante: dificilmente existe gestão eficiente sem medição.

Esse princípio também vale para as companhias de saneamento.

Macromedição, micromedição, setorização, telemetria, controle de pressão e balanço hídrico formam uma base fundamental para identificar onde a água está sendo utilizada, perdida ou desperdiçada.

Nesse cenário, os profissionais de saneamento assumem papel central.

São operadores, engenheiros, técnicos, laboratoristas, analistas, agentes comerciais, especialistas em automação, equipes de manutenção e gestores que transformam dados de campo em decisões capazes de proteger um recurso cada vez mais estratégico.

Perdas de água também são problema de sustentabilidade

Embora os programas de sustentabilidade muitas vezes concentrem a comunicação em grandes projetos ambientais, parte expressiva dos resultados pode estar escondida dentro das próprias redes de distribuição.

Vazamentos, pressões excessivas, extravasamentos de reservatórios, medidores inadequados e falhas operacionais reduzem a eficiência do sistema.

Por isso, uma política moderna de gestão sustentável da água deve integrar sustentabilidade e gestão de perdas.

Quanto menor a quantidade de água necessária para atender determinada população, menor tende a ser a pressão sobre mananciais, sistemas de tratamento, estações elevatórias e infraestrutura de transporte.

Além disso, reduzir perdas pode postergar investimentos necessários para ampliar produção e reservação.

Dessa forma, sustentabilidade também significa aproveitar melhor a infraestrutura existente.

Tecnologia aparece como ferramenta, não como objetivo

A premiação possui uma categoria específica destinada à inovação em tecnologias relacionadas à água.

Entretanto, os critérios deixam claro que inovação não deve ser confundida simplesmente com aquisição de equipamentos sofisticados.

As tecnologias devem contribuir para acesso à água segura, tratamento, tratamento de efluentes ou aumento da eficiência hídrica em setores industriais, agrícolas e domésticos. (Prêmios de Sustentabilidade da Água⁠)

Essa distinção é particularmente relevante para o saneamento brasileiro.

Sensores IoT, inteligência artificial, telemetria, modelos hidráulicos, medidores inteligentes e sistemas de análise de dados somente geram valor quando solucionam problemas reais.

Um sistema de telemetria que produz milhares de dados, mas não gera alarmes úteis ou decisões operacionais, tem impacto limitado.

Da mesma forma, inteligência artificial aplicada ao saneamento precisa reduzir perdas, antecipar falhas, melhorar manutenção, controlar processos ou apoiar decisões.

A tecnologia, portanto, deve servir ao profissional de saneamento — e não substituir o conhecimento acumulado pelas equipes que conhecem os sistemas.

Comunidade também faz parte da gestão da água

Outro diferencial do Water Sustainability Awards é considerar a participação social como elemento da gestão sustentável da água.

Entre os critérios aparecem fortalecimento de comitês locais, capacitação, desenvolvimento de recursos humanos, participação comunitária, estratégias de recarga de fontes hídricas e ampliação da liderança feminina. (Prêmios de Sustentabilidade da Água⁠)

Esse modelo mostra que infraestrutura isoladamente não resolve todos os desafios.

Um sistema tecnicamente bem projetado pode enfrentar dificuldades quando a população não entende restrições de abastecimento, programas de redução do consumo, obras, tarifas ou necessidade de proteção dos mananciais.

Por outro lado, comunicação adequada e participação dos usuários podem aumentar a eficiência das ações.

Governança passa a ser tão importante quanto infraestrutura

O debate realizado durante a premiação também destacou a necessidade de instituições fortes, políticas baseadas em evidências e decisões sustentadas por dados. (teriin.org⁠)

Essa visão acompanha movimentos recentes do governo indiano.

Em 2026, o Ministério de Jal Shakti passou a estimular reformas envolvendo governança da água, digitalização, acompanhamento de projetos, participação dos cidadãos e compartilhamento de boas práticas entre regiões. (Portal da Informação à Imprensa⁠)

Também foram colocados entre os temas estratégicos reutilização de águas residuárias, regulação das águas subterrâneas, planejamento de bacias hidrográficas, integração de dados e fortalecimento institucional. (Portal da Informação à Imprensa⁠)

Portanto, a gestão sustentável da água exige mais do que obras.

Exige processos.

Exige indicadores.

Exige pessoas qualificadas.

E, sobretudo, exige continuidade administrativa.

O que as companhias brasileiras podem aproveitar

As práticas destacadas pela TERI podem ser traduzidas em prioridades bastante objetivas para o saneamento brasileiro.

Uma companhia pode, por exemplo, aumentar a confiabilidade da macromedição, ampliar a setorização, acelerar programas de redução de perdas, desenvolver projetos de reúso, controlar melhor os consumos internos, automatizar estações, utilizar indicadores de eficiência hídrica e incorporar metas ambientais ao planejamento operacional.

Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer programas de capacitação.

Esse ponto merece atenção especial porque infraestrutura e tecnologia não funcionam de forma independente.

Uma válvula controladora precisa ser corretamente dimensionada e operada. Um sensor precisa ser calibrado. Um hidrômetro precisa ser instalado adequadamente. Uma estação de tratamento depende de controle operacional. Um algoritmo precisa receber dados confiáveis.

Em todos esses processos existe um profissional.

Por isso, a gestão sustentável da água depende diretamente da valorização e qualificação das pessoas responsáveis pela operação do saneamento.

O profissional de saneamento permanece no centro da transformação

Há uma tendência crescente de associar modernização do setor exclusivamente à digitalização.

Entretanto, as iniciativas reconhecidas internacionalmente mostram um cenário mais amplo.

Tecnologia, participação comunitária, gestão de recursos hídricos, eficiência, reúso e governança precisam trabalhar de forma integrada.

Nesse sistema, o profissional de saneamento ocupa a posição de ligação entre planejamento e execução.

É esse profissional que percebe alterações de pressão em uma rede, identifica comportamentos anormais em uma estação, interpreta indicadores de qualidade, encontra inconsistências na medição, acompanha equipamentos e toma decisões diante de situações que dificilmente podem ser completamente previstas por sistemas automáticos.

Portanto, investimentos em pessoas precisam acompanhar investimentos em equipamentos.

A própria estrutura do Water Sustainability Awards contempla capacitação e desenvolvimento de recursos humanos dentro das práticas relacionadas à gestão participativa da água. (Prêmios de Sustentabilidade da Água⁠)

Gestão sustentável da água tende a definir o saneamento do futuro

A quinta edição do Water Sustainability Awards oferece uma mensagem relevante para todo o setor.

As soluções consideradas referência já não estão concentradas somente na construção de grandes estruturas.

Elas incluem medição, eficiência, reúso, conservação, monitoramento, recuperação de ecossistemas, governança, inovação, participação social e qualificação profissional.

Além disso, o Ministério de Jal Shakti vem colocando eficiência, reúso de água tratada, digitalização e reformas institucionais entre seus temas prioritários, demonstrando que essas práticas começam a ultrapassar projetos isolados para integrar políticas públicas. (Portal da Informação à Imprensa⁠)

Para empresas brasileiras, a principal lição é clara: a gestão sustentável da água precisa entrar na rotina da operação.

Não basta criar uma área responsável por sustentabilidade enquanto produção, distribuição, manutenção, tratamento de esgoto, gestão comercial e planejamento funcionam separadamente.

A verdadeira transformação ocorre quando economia de água, redução de perdas, eficiência energética, reúso, qualidade e produtividade passam a fazer parte dos indicadores de desempenho do sistema.

Nesse ambiente, profissionais qualificados tornam-se ainda mais importantes.

A tecnologia pode ampliar capacidade de análise. A automação pode acelerar respostas. Os dados podem melhorar decisões.

Entretanto, são as equipes do saneamento que transformam essas ferramentas em água disponível, esgoto tratado, segurança operacional e proteção da saúde pública.

A gestão sustentável da água, portanto, não representa apenas uma agenda ambiental. Representa uma evolução da própria forma de operar, planejar e administrar o saneamento.

Fontes

TERI — 5th Water Sustainability Awards 2026

Water Sustainability Awards — categorias e critérios

Nações Unidas — Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6

Nações Unidas — Água e saneamento

Ministério de Jal Shakti — conferência nacional sobre gestão da água

Ministério de Jal Shakti — World Water Day Conclave 2026

Ministério de Jal Shakti — gestão e reúso de águas residuárias