Saneamento nas eleições 2026: Lula x Flávio

O saneamento entrou de forma objetiva nos programas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro para a eleição presidencial de 2026. Entretanto, embora ambos apresentem a universalização da água e do esgoto como prioridade, os caminhos destacados são diferentes. Lula enfatiza a continuidade dos investimentos federais, o Novo PAC, a atuação conjunta com estados e municípios, periferias e saneamento rural. Flávio Bolsonaro, por outro lado, coloca no centro da estratégia a plena aplicação do Marco Legal do Saneamento, a aceleração de concessões, as parcerias com a iniciativa privada e a expansão dos serviços em áreas rurais. (Divulga CandContas⁠)

A diferença, porém, é mais sofisticada do que simplesmente “público contra privado”. O próprio programa de Lula descreve o Novo PAC como instrumento capaz de articular investimentos públicos e privados. Ao mesmo tempo, concessões privadas podem utilizar linhas do FGTS, financiamentos bancários, BNDES, debêntures e outras estruturas de crédito. Portanto, o debate sobre saneamento nas eleições 2026 precisa ser analisado pela capacidade de transformar planejamento, financiamento, engenharia, regulação e operação em redes efetivamente funcionando. (Divulga CandContas⁠)

E existe um número que torna essa discussão especialmente relevante para os profissionais do setor: estudo divulgado em julho de 2026 pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, estima que ainda sejam necessários aproximadamente R$ 431 bilhões até 2033, o equivalente a cerca de R$ 48 bilhões por ano, para alcançar a universalização. Trata-se de uma estimativa baseada na segunda revisão do Plansab, e não de um orçamento oficial fechado do Governo Federal. Ainda assim, o valor ajuda a dimensionar a escala financeira do desafio. (Trata Brasil⁠)

O Brasil ainda está distante das metas de 2033

Antes de comparar os dois programas, é fundamental compreender o ponto de partida.

Os resultados mais recentes já consolidados pelo SINISA são referentes ao ano-base de 2024. A coleta do SINISA 2026, que reúne informações de 2025, ainda está em andamento e tem prazo até 3 de setembro de 2026. Portanto, para comparações nacionais consolidadas, os números de 2024 continuam sendo a referência disponível neste momento. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

No abastecimento de água, 84,1% da população total, equivalente a aproximadamente 174 milhões de habitantes, estava atendida por rede de abastecimento. Já no esgotamento sanitário, o atendimento por rede alcançava 62,3% da população considerada pelo indicador nacional, cerca de 117,3 milhões de habitantes. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

A Norma de Referência nº 8 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico estabelece que, até 31 de dezembro de 2033, a universalização somente será considerada alcançada quando os indicadores de atendimento e cobertura de água atingirem simultaneamente pelo menos 99% e os de esgotamento sanitário, pelo menos 90%. A ANA utiliza quatro indicadores principais: IAA, ICA, IAE e ICE. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Consequentemente, o saneamento nas eleições 2026 não envolve apenas decidir quem construirá redes ou estações. Envolve estabelecer quem financiará bilhões de reais em CAPEX, como as obras serão contratadas, quem assumirá riscos, como os municípios serão regionalizados, de que maneira os contratos serão regulados e quais sistemas tecnológicos permitirão acompanhar cada meta.

O que Lula propõe para o saneamento

O programa de governo registrado para Lula afirma que, desde 2023, foram destinados R$ 23,3 bilhões para novas obras de abastecimento de água, esgotamento sanitário e resíduos sólidos, além de R$ 3,5 bilhões para retomada e conclusão de obras anteriormente inacabadas. Para um novo mandato, o documento propõe continuar apoiando estados e municípios na busca pela universalização, com prioridade para periferias historicamente negligenciadas. Esses números são apresentados pelo próprio programa eleitoral e abrangem mais de um componente do saneamento. (Divulga CandContas⁠)

Além disso, o programa prevê ampliar a busca pela universalização da água potável no meio rural, aumentar investimentos em saneamento rural ecológico e ampliar o Programa Cisternas nas regiões submetidas a estresse hídrico. (Divulga CandContas⁠)

Outra frente relevante é o tratamento de esgoto associado à economia circular. O documento sinaliza continuidade do apoio federal ao tratamento de esgotos e estímulo a alternativas como produção de biogás e biometano. Para grandes ETEs, essa possibilidade é importante porque o lodo deixa de ser tratado apenas como passivo e passa a ser avaliado também como fonte potencial de energia. (Divulga CandContas⁠)

Assim, na análise do saneamento nas eleições 2026, a proposta de Lula apresenta uma lógica na qual a União permanece como importante indutora de investimentos, com programas federais, financiamento, apoio a estados e municípios e integração das obras a políticas urbanas.

Entretanto, seria impreciso classificar essa estratégia como exclusivamente estatal. O próprio programa afirma que o Novo PAC articulou recursos do orçamento federal, empresas estatais, setor privado e financiamentos. Além disso, prevê continuidade da articulação entre investimentos públicos e privados em infraestrutura. (Divulga CandContas⁠)

Como o Novo PAC funciona na prática

Para o profissional de saneamento, a parte mais interessante surge quando uma diretriz política precisa virar projeto.

No Novo PAC, existem recursos não onerosos, como aqueles provenientes do Orçamento Geral da União, e recursos onerosos, que precisam ser pagos pelo tomador.

Em uma das seleções de abastecimento de água, por exemplo, o Ministério das Cidades destinou R$ 4,4 bilhões, divididos igualmente entre OGU e financiamento com recursos do FGTS. Na modalidade financiada, podem participar estados, Distrito Federal, consórcios, municípios e também empresas privadas concessionárias, subconcessionárias ou autorizadas. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Portanto, novamente, não existe uma separação absoluta entre financiamento público e operação privada.

Na seleção de esgotamento sanitário de 2026, os projetos financiáveis podem contemplar ligação predial, coleta, transporte, tratamento e disposição final dos esgotos. Além disso, os recursos disponíveis nessa seleção são onerosos do FGTS, com possibilidade de amortização de até 20 anos e carência de até 48 meses. Prestadores públicos e concessionárias privadas podem apresentar propostas. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Para ingressar, não basta cadastrar uma ideia. São exigidos, entre outros elementos, projeto ou anteprojeto de engenharia, composição do investimento, comprovação sobre a área necessária e protocolo de licenciamento ambiental ou respectiva dispensa quando aplicável. É exatamente nessa etapa que o trabalho técnico dos profissionais de saneamento se torna decisivo. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O que Flávio Bolsonaro propõe para o saneamento

No outro eixo do saneamento nas eleições 2026, o programa de Flávio Bolsonaro apresenta uma estratégia mais explicitamente orientada à expansão de concessões e parcerias.

O documento atribui ao Marco Legal do Saneamento de 2020 papel central na atração do investimento privado e afirma que um eventual governo pretende garantir sua aplicação e acelerar concessões e parcerias para ampliar o acesso à água e ao esgotamento sanitário. O programa também menciona atenção especial ao saneamento rural. (Divulga CandContas⁠)

Além disso, aparece uma meta específica: nenhuma escola sem água até 2030. O programa também associa a política de saneamento ao encerramento de lixões, embora resíduos sólidos representem outro componente da política nacional de saneamento básico. (Divulga CandContas⁠)

Na prática, essa estratégia tende a depender fortemente da estruturação de contratos capazes de atrair capital de longo prazo, dar segurança ao investidor e, simultaneamente, assegurar metas de atendimento, qualidade, investimento e modicidade tarifária.

Por isso, uma concessão de saneamento não se resume à realização de um leilão. Antes dele, costuma existir uma extensa etapa de modelagem técnica, econômico-financeira, jurídica e regulatória.

São avaliados demanda, crescimento populacional, ativos existentes, necessidade de redes, capacidade das ETAs e ETEs, perdas de água, volume faturável, inadimplência, estrutura tarifária, investimentos obrigatórios, cronograma de universalização, risco ambiental, desapropriações e capacidade de geração de caixa.

Como funciona uma concessão de saneamento

Em um modelo de concessão, o poder público permanece titular do serviço, enquanto a operação é delegada por contrato durante determinado período. A concessionária assume obrigações de investimento, operação, manutenção e atendimento de metas.

Para financiar grandes projetos, pode ser utilizada uma estrutura conhecida como project finance. Nesse modelo, normalmente é criada uma Sociedade de Propósito Específico — SPE — para executar o projeto. A dívida é estruturada considerando principalmente a geração futura de caixa do próprio empreendimento, embora garantias adicionais e diferentes formas de recurso aos acionistas possam ser previstas conforme o contrato. O BNDES utiliza e estuda esse tipo de estrutura em projetos de infraestrutura. (Blog do Desenvolvimento BNDES⁠)

Além disso, concessionárias podem combinar capital próprio, bancos comerciais, BNDES, Caixa, recursos do FGTS, debêntures de infraestrutura e outros instrumentos.

Consequentemente, a discussão de saneamento nas eleições 2026 não deve produzir a falsa impressão de que uma concessão significa investimento integralmente financiado pelo caixa dos acionistas privados. O sistema financeiro é muito mais complexo e pode combinar diferentes fontes de recursos.

Quanto custa universalizar o saneamento brasileiro?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

O estudo divulgado pelo Trata Brasil estima R$ 525 bilhões como necessidade total para a universalização conforme referência utilizada da segunda revisão do Plansab. Depois de descontados os investimentos realizados entre 2021 e 2024, a estimativa apontou aproximadamente R$ 431 bilhões ainda necessários até 2033. O valor corresponde a cerca de R$ 48 bilhões anuais ou R$ 225 por habitante ao ano. (Trata Brasil⁠)

Para dimensionar o tamanho do esforço, o SINISA registrou, no ano-base de 2024, aproximadamente R$ 14,59 bilhões de investimentos em abastecimento de água. Desse montante, R$ 10,57 bilhões vieram de recursos próprios, R$ 3,59 bilhões de recursos onerosos e R$ 440 milhões de recursos não onerosos. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

No esgotamento sanitário, foram registrados aproximadamente R$ 13,68 bilhões, incluindo R$ 9,68 bilhões de recursos próprios, R$ 3,16 bilhões de recursos onerosos e R$ 850 milhões de recursos não onerosos. Dentro do destino dos investimentos, R$ 4,12 bilhões foram direcionados a coleta e transporte e R$ 2,58 bilhões ao tratamento, além de outras aplicações e despesas capitalizáveis. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Somados, os dois relatórios registram aproximadamente R$ 28,27 bilhões em investimentos em água e esgoto em 2024. A comparação precisa ser feita com cautela, porque o próprio SINISA informa que investimentos municipais passam a ser coletados separadamente no módulo de gestão municipal. Ainda assim, a distância entre o patamar observado e a estimativa de R$ 48 bilhões anuais dimensiona a necessidade de aceleração. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Não existe um “preço padrão” para universalizar um município

Apesar dos números nacionais, não existe custo fixo por município, quilômetro de rede ou habitante que possa ser aplicado de forma segura em qualquer localidade.

Uma rede de esgoto implantada em uma cidade plana, adensada e com solo favorável tem características completamente diferentes de uma rede instalada em terreno rochoso, com grandes profundidades, travessias, lençol freático elevado ou ocupações informais.

Da mesma forma, uma ETE pode utilizar lodos ativados, reatores anaeróbios, sistemas de aeração, membranas, wetlands ou combinações tecnológicas. Cada solução modifica CAPEX, consumo energético, área necessária, geração de lodo e OPEX.

Por isso, tanto a estratégia de investimento público quanto a de concessão privada precisam começar por engenharia bem feita. Sem estudos de concepção, cadastro confiável, levantamento topográfico, diagnóstico hidráulico e sanitário, disponibilidade de área, licenciamento e projeto adequadamente desenvolvido, bilhões de reais podem ser contratados sem produzir a eficiência esperada.

Como transformar um plano de governo em universalização

A implementação do saneamento nas eleições 2026 pode ser entendida em oito grandes etapas:

  1. Diagnóstico: consolidação de dados de atendimento, população, perdas, ativos, capacidade das unidades, demanda reprimida, qualidade, inadimplência e crescimento urbano.
  2. Planejamento: definição das áreas prioritárias, metas anuais e compatibilização com planos municipais ou regionais de saneamento. A NR 8 determina que a expansão também dialogue com ordenamento territorial, drenagem e mapeamento de risco. (Serviços e Informações do BrasilAttachment.png)
  3. Engenharia: estudos de concepção, alternativas tecnológicas, topografia, geotecnia, projetos, orçamento, cronograma e licenciamento.
  4. Estruturação financeira: definição da combinação entre recursos próprios, OGU, FGTS, bancos, BNDES, debêntures, capital privado ou outras fontes.
  5. Modelo de prestação: operação pública, concessão, PPP ou outra configuração permitida, sempre com responsabilidades e riscos claramente definidos.
  6. Regulação: estabelecimento de metas contratuais, indicadores, revisões, fiscalização, qualidade e mecanismos de acompanhamento.
  7. Execução: contratação das obras, gestão de fornecedores, fiscalização, controle físico-financeiro, segurança e comissionamento.
  8. Operação e monitoramento: acompanhamento permanente de cobertura, perdas, pressão, qualidade, energia, manutenção, faturamento e atendimento, transformando a obra construída em serviço efetivamente prestado.

Essa sequência demonstra por que a qualidade dos profissionais do setor é tão relevante quanto o volume de dinheiro disponível.

SINISA: a ferramenta nacional que muda a cobrança de resultados

Entre as ferramentas mais importantes para acompanhar o saneamento nas eleições 2026 está o SINISA.

O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico assumiu, a partir de 2024, o papel anteriormente desempenhado pelo SNIS e passou a reunir dados de água, esgoto, resíduos, drenagem e gestão municipal. O Ministério das Cidades o classifica como principal ferramenta nacional de coleta, organização e divulgação das informações do setor. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Esses dados deixam de ter função apenas estatística. Eles apoiam reguladores na avaliação do desempenho dos prestadores, permitem acompanhar metas e servem de base para políticas públicas. Além disso, o ciclo de coleta de 2026 é relevante para manter a adimplência e a possibilidade de acesso a recursos federais. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Portanto, cadastro técnico, medição, faturamento, controle de produção, população atendida e consistência dos dados ganharam importância estratégica.

As ferramentas que grandes companhias já utilizam

Enquanto a política discute modelos, as companhias de saneamento trabalham diariamente com instrumentos capazes de transformar metas em operação.

Um dos exemplos mais claros é a gestão de perdas. Relatórios da Sanepar registram a utilização do MASP-P — metodologia de análise e solução de problemas aplicada a perdas — em conjunto com balanço hídrico, monitoramento de pressão e vazão, macromedição e outras ferramentas para localizar causas e direcionar intervenções. (Sanepar⁠)

Na prática, esse tipo de gestão costuma ser associado a setorização, Distritos de Medição e Controle, macromedidores, telemetria, sensores de pressão, pesquisa ativa de vazamentos e modelagem hidráulica. A vantagem é simples: antes de ampliar indiscriminadamente a produção, torna-se possível identificar onde a água está sendo perdida e recuperar capacidade já instalada.

Outro exemplo aparece na Aegea. O AegeaHub mantém desafios voltados à gestão ativa de vazamentos, monitoramento de eventos climáticos extremos, digitalização da gestão de obras e aplicação de automação e inteligência artificial em processos regulatórios. Também foram desenvolvidos desafios envolvendo análise de dados de consumo e pagamentos para identificação de potenciais fraudes. (Aegea⁠)

Portanto, inteligência artificial no saneamento já não está restrita a apresentações conceituais. Ela começa a ser aplicada em perdas aparentes, fiscalização, operação, gestão de obras, análise regulatória e prevenção de riscos.

ERP, SAP e gestão econômico-financeira também fazem parte do saneamento

Outra ferramenta fundamental é o ERP.

As demonstrações financeiras da Embasa mostram, por exemplo, utilização do ERP SAP como fonte de dados de sua posição contratual. A companhia também apresenta um caso real de como o financiamento de saneamento pode combinar diferentes instrumentos. (Embasa⁠)

Em 2025, a empresa registrava contratos com Caixa utilizando recursos do FGTS, financiamento com BNDES e emissões de debêntures voltadas à ampliação e implantação de sistemas de água e esgoto. O relatório também informa recebimento de recursos não onerosos do OGU vinculados ao PAC. (Embasa⁠)

Esse exemplo é particularmente útil para compreender o saneamento nas eleições 2026: na realidade operacional, uma companhia pública pode utilizar recursos públicos, crédito bancário e mercado de capitais simultaneamente.

Da mesma maneira, uma empresa privada pode utilizar capital dos acionistas, financiamento bancário, FGTS e estruturas de project finance.

Por isso, o fator determinante não é apenas a origem societária do operador. Importam também capacidade de investimento, custo de capital, qualidade do contrato, produtividade, capacidade técnica, governança, regulação e eficiência operacional.

SCADA, GIS, BIM e gestão de ativos completam a infraestrutura digital

Além dos sistemas financeiros, grandes prestadores dependem cada vez mais de uma arquitetura tecnológica integrada.

O SCADA permite supervisão e controle de sistemas em tempo real. Vazão, pressão, nível de reservatório, operação de bombas e outras variáveis podem ser centralizadas em centros de controle.

Já os sistemas GIS organizam geograficamente redes, registros, válvulas, ligações, adutoras, interceptores e demais ativos. Um cadastro georreferenciado confiável reduz tempo de manutenção, aumenta a qualidade dos projetos e melhora o planejamento de expansão.

Ferramentas BIM podem apoiar projetos de ETAs, ETEs, estações elevatórias e instalações complexas, reduzindo conflitos entre disciplinas antes da construção.

Além disso, sistemas de gestão de ativos e manutenção ajudam a transformar a estratégia de “quebrou, consertou” em manutenção baseada em criticidade, condição do equipamento e risco.

Ou seja, independentemente do resultado eleitoral, a universalização deverá ser também digital.

O que a NR 8 muda para as companhias

A NR 8 da ANA merece atenção especial porque cria uma lógica de acompanhamento muito mais objetiva.

A universalização passa a ser avaliada por indicadores de atendimento e cobertura, e não simplesmente pela existência de determinada extensão de rede ou valor investido. Para água, são utilizados IAA e ICA. Para esgoto, IAE e ICE. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Além disso, a norma determina acompanhamento anual dos indicadores e estabelece que a avaliação seja realizada pelas entidades reguladoras em articulação com prestadores e titulares. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Isso muda profundamente a lógica de gestão.

Construir 100 quilômetros de rede deixa de ser, isoladamente, sinônimo de sucesso. Se a rede não gerar ligações, atendimento real e cobertura mensurável, o indicador pode não evoluir na proporção esperada.

Consequentemente, áreas comercial e operacional precisam trabalhar de forma cada vez mais integrada.

O comercial também será decisivo para a universalização

Existe um ponto frequentemente subestimado no debate de saneamento nas eleições 2026: universalização não termina quando a obra é entregue.

Depois de uma rede ser implantada, é necessário cadastrar imóveis, executar ligações, instalar medidores, identificar usuários, atualizar GIS, ajustar rotas de leitura, faturar corretamente e acompanhar ocupações.

Em esgotamento sanitário, o problema é ainda mais evidente. Uma rede disponível sem conexão efetiva do imóvel não produz todo o benefício ambiental, operacional e financeiro esperado.

Por isso, equipes comerciais, fiscais, cadastrais e de atendimento são partes estruturantes da política de universalização.

O mesmo vale para operadores de ETA e ETE, laboratoristas, eletromecânicos, técnicos de segurança, engenheiros, equipes de manutenção, profissionais de automação, especialistas em perdas, analistas regulatórios, gestores de contratos, equipes ambientais e profissionais de campo.

São esses profissionais que transformam quilômetros de tubulação, bilhões de reais e contratos em água chegando à torneira e esgoto sendo efetivamente coletado e tratado.

Onde os dois programas ainda precisam ser detalhados

Uma análise técnica do saneamento nas eleições 2026 também exige observar aquilo que ainda não aparece com profundidade nos documentos.

O programa de Lula apresenta valores aplicados desde 2023, descreve a continuidade do apoio federal, cita periferias, ruralidade, Novo PAC e investimentos públicos e privados. Entretanto, o documento eleitoral não apresenta uma carteira nacional completa de saneamento para 2027–2030 com CAPEX fechado por estado, projeto, cronograma físico e fonte de recursos de cada empreendimento. Essa conclusão decorre da análise do próprio programa registrado no TSE. (Divulga CandContas⁠)

O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, é explícito na defesa do Marco Legal, da aceleração de concessões e das parcerias, além das metas relacionadas ao saneamento rural e às escolas. Contudo, a seção de saneamento também não detalha uma carteira nacional completa de leilões, volume específico de CAPEX do setor, cronograma de cada concessão ou estrutura financeira individual de cada projeto. (Divulga CandContas⁠)

Portanto, nenhum dos dois documentos, isoladamente, permite calcular quanto exatamente cada eventual governo investiria em água e esgoto entre 2027 e 2030.

Essa limitação é importante porque programa eleitoral, planejamento setorial, orçamento, contrato de financiamento e projeto executivo são documentos completamente diferentes.

Público ou privado? A questão técnica é mais ampla

O debate político frequentemente tenta reduzir o saneamento a uma escolha binária. Entretanto, a operação real demonstra que o setor funciona com combinações muito mais complexas.

Uma companhia pública eficiente pode captar recursos, emitir debêntures, financiar obras, implementar telemetria, reduzir perdas e apresentar elevado desempenho.

Por outro lado, uma concessionária privada pode mobilizar capital, acelerar investimentos e incorporar tecnologias, mas também depende de regulação eficiente, contrato bem estruturado e capacidade operacional.

Da mesma forma, nenhuma das duas estruturas elimina riscos de obras atrasadas, perdas elevadas, projetos ruins, inadimplência, expansão urbana desordenada ou baixa conexão às redes.

Assim, para o profissional de saneamento, a pergunta tecnicamente mais útil não é apenas “quem opera?”. Também precisam ser respondidas questões como: quanto será investido, onde será investido, qual será a fonte do recurso, qual o custo do capital, quais metas serão contratadas, como serão medidas e quem responderá quando não forem cumpridas.

Saneamento nas eleições 2026 coloca o profissional no centro

Uma consequência importante do saneamento nas eleições 2026 é o aumento da pressão por capacidade de execução.

Se houver mais Novo PAC, serão necessários projetos maduros, fiscalização, planejamento, gestão de contratos e equipes capazes de transformar recursos em obras.

Se houver mais concessões, serão necessários profissionais para modelagem, regulação, engenharia, diligência técnica, operação, transição, fiscalização contratual e controle de desempenho.

Em ambos os cenários, serão necessários operadores, engenheiros, técnicos, analistas comerciais, laboratoristas, equipes de manutenção, especialistas em automação, profissionais ambientais e gestores.

Dinheiro não projeta uma estação. Contrato não opera uma bomba. Lei não encontra um vazamento. Meta regulatória não executa uma ligação de água.

A infraestrutura somente funciona quando profissionais qualificados transformam planejamento em operação.

O que realmente precisa ser acompanhado até 2033

O saneamento nas eleições 2026 apresenta duas ênfases políticas diferentes, porém o desafio técnico permanece praticamente o mesmo: elevar rapidamente a cobertura, manter a qualidade, controlar perdas, construir infraestrutura, ampliar capacidade de tratamento, conectar usuários e financiar dezenas de bilhões de reais todos os anos.

Lula apresenta uma estratégia com forte participação da União, Novo PAC, apoio federativo, atenção às periferias e saneamento rural, mas também reconhece participação privada e financiamentos na infraestrutura. (Divulga CandContas⁠)

Flávio Bolsonaro coloca maior ênfase na aplicação do Marco Legal, em concessões, parcerias e capital privado, além de saneamento rural e água nas escolas. (Divulga CandContas⁠)

Entretanto, independentemente do modelo político adotado, a universalização somente poderá ser comprovada pelos resultados. Até 2033, os indicadores regulatórios precisarão mostrar cobertura e atendimento de pelo menos 99% para água e 90% para esgotamento sanitário. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Por isso, o debate sobre saneamento nas eleições 2026 ganha qualidade quando deixa de observar apenas slogans e passa a acompanhar CAPEX, projetos, contratos, fontes de financiamento, perdas, ligações, tratamento, regulação e cumprimento anual das metas.

No fim, serão os dados, as obras funcionando e o trabalho diário dos profissionais do saneamento que mostrarão se as promessas conseguiram sair dos programas de governo e chegar às torneiras, redes coletoras, ETAs e ETEs do país.

Fontes