A transformação digital no setor de saneamento avançou de forma decisiva em 2025, impulsionada pela necessidade de tornar o tratamento de água mais eficiente, resiliente e econômico. Nesse cenário, uma das inovações mais relevantes é a implantação de Estações de Tratamento de Água (ETAs) autônomas com inteligência artificial operacional em tempo real. Essa tecnologia representa um salto estrutural na forma como o saneamento é operado, trazendo ganhos mensuráveis em eficiência, segurança e redução de custos.
Tradicionalmente, o saneamento dependeu de decisões operacionais baseadas em parâmetros fixos, experiência do operador e respostas reativas às mudanças na água bruta. Entretanto, o aumento da variabilidade climática, somado à pressão por eficiência operacional e sustentabilidade, evidenciou as limitações desse modelo. Assim, a ETA autônoma com IA surge como resposta madura e já comprovada em diversas cidades do mundo.
O que caracteriza uma ETA autônoma com inteligência artificial
Uma ETA autônoma com IA é um sistema de saneamento que integra sensores avançados, automação industrial e algoritmos de aprendizado de máquina. Diferentemente da automação convencional, que opera com regras pré-definidas, a inteligência artificial aprende continuamente com o comportamento da água bruta e com o desempenho do processo de tratamento.
No saneamento, isso significa que a estação passa a ajustar automaticamente parâmetros como dosagem de coagulantes, polímeros, alcalinizantes e desinfetantes, além de tempos de mistura, floculação, taxas de filtração e ciclos de lavagem de filtros. Todas essas decisões são tomadas em tempo real, com base em dados históricos e condições atuais da água.
Por que essa tecnologia ganhou força em 2025
O amadurecimento das ETAs autônomas está diretamente relacionado a três fatores principais. Em primeiro lugar, houve uma evolução significativa dos sensores de processo, que hoje permitem medições mais confiáveis e frequentes. Em segundo lugar, os custos de processamento e armazenamento de dados diminuíram, tornando viável a análise contínua de grandes volumes de informação. Por fim, os modelos de inteligência artificial tornaram-se mais robustos, explicáveis e confiáveis.
Além disso, eventos climáticos extremos passaram a impactar diretamente a operação do saneamento. Chuvas intensas aumentam rapidamente a turbidez e a matéria orgânica da água bruta, enquanto estiagens prolongadas alteram parâmetros como alcalinidade e concentração de algas. Nesse contexto, sistemas fixos se tornam ineficientes, reforçando a necessidade de soluções adaptativas.
Exemplos de cidades que já implantaram ETAs autônomas
Kwinana, Austrália
A cidade de Kwinana, na Austrália Ocidental, implantou um sistema de inteligência artificial em sua ETA principal para ajuste dinâmico da dosagem de produtos químicos. O sistema analisa variações súbitas de turbidez após eventos de chuva e ajusta automaticamente o processo de coagulação.
Os resultados incluem redução de aproximadamente 25% no consumo de produtos químicos, maior estabilidade da qualidade da água tratada e diminuição significativa das intervenções manuais. Esse caso se tornou referência para sistemas de saneamento sujeitos a grande variabilidade climática.
Singapura
Singapura é referência mundial em saneamento e gestão hídrica. O sistema de tratamento de água do país integra inteligência artificial à chamada “Smart Water Grid”, uma rede inteligente que conecta sensores distribuídos por todo o sistema.
A IA ajusta dosagens de tratamento, prevê padrões de consumo e identifica anomalias operacionais antes que causem impactos ao abastecimento. Esse modelo elevou o nível de eficiência operacional e reduziu perdas associadas ao tratamento e à distribuição.
Denver, Estados Unidos
Em Denver, nos Estados Unidos, unidades de tratamento de água passaram a operar com modelos preditivos baseados em inteligência artificial. Esses modelos correlacionam dados climáticos, qualidade da água bruta e desempenho histórico do processo.
Como resultado, o sistema de saneamento da cidade obteve maior eficiência na utilização de floculantes, redução do consumo energético e menor variabilidade na qualidade da água distribuída.
Varginha, Brasil
No Brasil, a ETA de Varginha, em Minas Gerais, foi uma das primeiras a testar inteligência artificial operacional em projetos-piloto iniciados em 2024 e ampliados em 2025. O sistema ajusta automaticamente dosagens e tempos de filtração com base em sensores e histórico de dados.
Os resultados indicaram redução de cerca de 20% no consumo de produtos químicos, maior estabilidade da turbidez da água tratada e ganhos operacionais relevantes. Esse exemplo demonstra que a tecnologia é viável no contexto do saneamento brasileiro.
Como a inteligência artificial atua no processo de tratamento
A inteligência artificial aplicada ao saneamento atua de forma preditiva e adaptativa. Ao analisar continuamente parâmetros da água bruta, o sistema antecipa comportamentos do processo e ajusta o tratamento antes que falhas ocorram.
Além disso, a IA aprende com os resultados obtidos, aprimorando seus modelos ao longo do tempo. Esse ciclo contínuo de aprendizado transforma a ETA em um sistema inteligente, capaz de se adaptar a diferentes cenários operacionais.
Benefícios econômicos e operacionais para o saneamento
Redução de produtos químicos
A dosagem precisa reduz desperdícios e elimina margens de segurança excessivas. Em experiências práticas, a economia varia entre 15% e 35% no consumo de coagulantes e outros insumos.
Eficiência energética
O ajuste dinâmico de bombas, misturadores e sistemas de filtração reduz picos de consumo energético, um dos maiores custos do saneamento.
Menor desgaste de equipamentos
Operações mais estáveis diminuem a frequência de lavagens de filtros, reduzem falhas mecânicas e prolongam a vida útil dos ativos.
Impactos na gestão e no papel do operador
A ETA autônoma não elimina o papel do operador, mas redefine suas atribuições. O profissional de saneamento passa a atuar de forma mais estratégica, focado em análise de dados, supervisão do sistema e planejamento de melhorias.
Esse novo perfil exige capacitação em leitura de indicadores, interpretação de modelos preditivos e integração entre tecnologia e processo operacional.
Integração com regulação e indicadores de desempenho
A operação baseada em dados estruturados facilita o atendimento a exigências regulatórias e a geração de relatórios de desempenho. Indicadores como custo por metro cúbico tratado, consumo de energia e eficiência química podem ser monitorados em tempo real.
No saneamento moderno, essa transparência se torna um diferencial competitivo e institucional.
Sustentabilidade e agenda ESG
A redução no uso de produtos químicos, energia e geração de lodo torna o saneamento mais sustentável. Além disso, a maior estabilidade da qualidade da água reforça o compromisso social do setor com a saúde pública.
Do ponto de vista de governança, a rastreabilidade das decisões operacionais fortalece a gestão institucional e reduz riscos operacionais.
Desafios para adoção em larga escala
Apesar dos benefícios, a adoção ampla de ETAs autônomas exige investimentos em instrumentação, qualidade de dados e capacitação de equipes. Além disso, a mudança cultural no saneamento é um fator relevante, pois envolve confiança em sistemas automatizados.
Outro desafio é a adequação regulatória, já que muitos marcos legais ainda não contemplam explicitamente a operação autônoma baseada em inteligência artificial.
Perspectivas para o saneamento brasileiro
No Brasil, a ETA autônoma com IA representa uma oportunidade estratégica para reduzir custos, aumentar a eficiência e melhorar a qualidade do serviço prestado. A tecnologia é especialmente promissora em ETAs médias e grandes, mas já começa a ser adaptada para sistemas menores.
À medida que a digitalização avança, espera-se que a inteligência artificial se torne parte integrante do padrão operacional do saneamento.
Conclusão
A ETA autônoma com inteligência artificial operacional em tempo real é uma das inovações mais relevantes de 2025 no saneamento. Com exemplos reais no Brasil e no exterior, a tecnologia demonstra capacidade de reduzir custos, aumentar eficiência e elevar o nível de segurança operacional.
Para os profissionais do setor, compreender e dominar essa inovação é essencial para acompanhar a evolução do saneamento e contribuir para um serviço mais eficiente, sustentável e confiável.
Fontes
- Relatórios técnicos de utilities australianas sobre ETA de Kwinana
- Publicações institucionais da gestão hídrica de Singapura
- Estudos técnicos do sistema de água de Denver
- Relatórios de projetos-piloto de inovação em saneamento no Brasil
- Publicações internacionais sobre IA aplicada ao tratamento de água



