>As substâncias per- e polifluoroalquiladas, conhecidas como PFAS, estão entre os contaminantes mais desafiadores da atualidade para o tratamento de água. O motivo é simples e preocupante: a estrutura química dessas moléculas é extremamente estável, o que dificulta sua degradação no ambiente e, ao mesmo tempo, reduz a eficácia de várias etapas tradicionais de remoção usadas em estações. Por isso, a presença de PFAS em mananciais, águas subterrâneas e até em sistemas de abastecimento tem colocado o tratamento de água sob pressão para adotar soluções mais seletivas e eficientes.
Além disso, a discussão vem se intensificando porque limites de referência e padrões regulatórios tendem a ficar mais rígidos à medida que surgem novas evidências científicas. Na prática, isso significa que companhias e serviços de saneamento precisam se preparar para cenários onde o tratamento de água exigirá maior controle de micropoluentes, com rastreabilidade, indicadores de desempenho, gestão de resíduos e escolhas tecnológicas bem fundamentadas.
Por que PFAS são tão difíceis no tratamento de água
Persistência e variedade de moléculas
O grupo PFAS não é uma única substância, mas uma família ampla com milhares de compostos. Alguns têm cadeias longas, outros cadeias curtas. Em geral, a ligação carbono-flúor é uma das mais fortes da química orgânica, o que torna essas moléculas altamente persistentes. Consequentemente, métodos convencionais de tratamento de água que funcionam bem para turbidez, matéria orgânica comum, microrganismos e alguns metais podem falhar para PFAS.
Concentrações baixas, impacto alto
Outro ponto crítico é que PFAS podem estar presentes em concentrações muito baixas (níveis de traço), porém com impacto relevante. Isso exige técnicas analíticas sensíveis e um tratamento de água capaz de trabalhar com alvos em micro e nanogramas por litro, mantendo estabilidade operacional e previsibilidade de desempenho.
O que as tecnologias tradicionais conseguem (e onde travam)
Historicamente, as soluções mais aplicadas para remoção de PFAS no tratamento de água envolvem adsorção e separação por membranas. Entretanto, há limitações importantes que precisam ser consideradas em decisões de engenharia e operação.
Carvão ativado granulado (CAG)
O carvão ativado é conhecido por sua capacidade de adsorção e costuma funcionar melhor para PFAS de cadeia longa. Porém, em muitos cenários, sua eficiência cai para PFAS de cadeia curta. Além disso, o desempenho pode ser afetado por competição com matéria orgânica natural, exigindo maior frequência de troca/reativação do meio filtrante. Isso eleva custos e aumenta a complexidade do tratamento de água, especialmente quando a qualidade da água bruta varia muito ao longo do ano.
Resinas de troca iônica
As resinas podem apresentar boa performance para determinados perfis de PFAS e, em alguns casos, resposta mais rápida que o carvão. Ainda assim, a saturação do meio e a necessidade de regeneração ou substituição trazem desafios logísticos e ambientais. Quando a resina é descartada, o problema se desloca para a destinação final. Assim, o tratamento de água precisa olhar não só a remoção, mas também o ciclo de vida do resíduo gerado.
Membranas (nanofiltração e osmose reversa)
Membranas de alta pressão tendem a reter uma ampla faixa de contaminantes, inclusive PFAS. Porém, o custo energético é elevado, a operação exige controle rigoroso e há geração de rejeito concentrado. Na prática, esse rejeito vira um “concentrado de PFAS”, o que exige estratégia segura de gestão. Portanto, para muitas realidades operacionais, a membrana resolve a separação, mas não elimina o passivo. Isso afeta o desenho do tratamento de água e pode impactar licenciamento, contratos e custos totais.
O salto de desempenho com adsorventes seletivos
Diante dessas limitações, cresce o interesse por materiais adsorventes mais seletivos para PFAS, projetados para reduzir interferências e ampliar a capacidade de captura, inclusive de cadeias curtas. Uma das abordagens destacadas no debate internacional é o uso de adsorventes avançados baseados em sílica e química de superfície desenhada para interagir com PFAS de forma mais eficiente. Esse tipo de estratégia reposiciona o tratamento de água para uma lógica de “captura direcionada”, em vez de depender apenas de adsorção genérica.
Como funciona, em linguagem simples
Em termos práticos, a ideia é criar um material com pontos de interação que “preferem” moléculas PFAS. Isso ajuda em duas frentes: (1) aumenta a taxa de remoção, porque a PFAS encontra mais facilmente um “local de captura”; e (2) reduz a perda de desempenho por competição com outras substâncias presentes na água, o que é essencial em tratamento de água real, onde a água bruta não é uma solução “pura” de laboratório.
Desempenho técnico: o que importa para o operador
Para o profissional de saneamento, o desempenho não é apenas “remove ou não remove”. O que importa é a combinação de eficiência, capacidade, robustez e custo total. Em tecnologias modernas de tratamento de água voltadas a PFAS, alguns critérios são decisivos:
- Eficiência em diferentes PFAS: capacidade de remover tanto PFAS de cadeia longa quanto cadeia curta.
- Resistência à competição: manter desempenho mesmo com matéria orgânica natural, sais e variações de qualidade da água.
- Capacidade do meio: volume de água tratado antes da saturação (parâmetro crítico para OPEX).
- Regeneração: possibilidade de recuperar o adsorvente e reduzir descarte.
- Operação simples: integração com sistemas existentes de tratamento de água, com mínima complexidade adicional.
Quando uma tecnologia consegue avançar nesses pontos ao mesmo tempo, o resultado costuma ser um sistema com maior previsibilidade, menor frequência de manutenção e redução do risco de ultrapassar limites de qualidade, o que é essencial para credibilidade do tratamento de água perante órgãos reguladores e população.
Regeneração do meio: impacto direto em custo e sustentabilidade
Um dos maiores custos em soluções de adsorção para PFAS é a substituição do meio filtrante. Por isso, materiais com possibilidade de regeneração local chamam atenção. Na prática, regenerar significa recuperar a capacidade do adsorvente sem precisar descartá-lo após cada ciclo. Essa característica pode reduzir custos recorrentes, diminuir o volume de resíduos e melhorar a sustentabilidade do tratamento de água.
Por que isso muda o jogo
No dia a dia, o operador sofre com paradas, logística de reposição, contratação de destinação e risco ambiental associado ao resíduo. Quando o meio é regenerável, parte desses problemas é minimizada. Além disso, em contratos com metas de desempenho, a estabilidade operacional do tratamento de água vira vantagem competitiva, porque reduz oscilações e retrabalhos.
Integração com o trem de tratamento existente
Em muitas estações, o desafio não é apenas inserir uma nova etapa, mas fazer isso sem “desarrumar” o que já funciona. Por isso, soluções avançadas para PFAS tendem a ser pensadas como módulos: um leito adsorvente pós-tratamento, por exemplo, pode ser instalado após clarificação e filtração, ou após carvão, dependendo do objetivo e da água bruta. Essa modularidade é relevante porque preserva a estrutura do tratamento de água e permite escalonamento por fases.
Arranjos típicos e raciocínio operacional
Alguns arranjos podem ser considerados conforme o diagnóstico local:
- Polimento final: usar adsorção seletiva como última barreira para reduzir PFAS antes da distribuição.
- Combinação com carvão: carvão para carga orgânica geral e adsorvente seletivo para PFAS mais críticos.
- Pré-tratamento para membranas: reduzir PFAS antes de membranas para diminuir risco de rejeitos muito concentrados (quando aplicável).
O ponto central é que o tratamento de água precisa ser desenhado para a realidade do manancial e para a capacidade de operação e manutenção da unidade, evitando soluções tecnicamente boas, mas impraticáveis no campo.
Gestão do resíduo: remover não é o mesmo que eliminar
Mesmo quando a remoção é alta, PFAS capturadas precisam de destinação adequada. Se a tecnologia apenas transfere PFAS para um meio saturado, o passivo permanece. Assim, qualquer decisão sobre tratamento de água para PFAS deve incluir, desde o início, o plano de manejo do material saturado e do efluente de regeneração, quando existir.
O que deve entrar no checklist técnico
- Rota de destinação final (coprocessamento, incineração especializada, aterro classe apropriada, conforme viabilidade e norma aplicável).
- Rastreabilidade e cadeia de custódia do resíduo.
- Análise de risco operacional e ambiental.
- Custos totais (CAPEX + OPEX + destinação).
Em outras palavras, o tratamento de água precisa contemplar a solução completa, não apenas a etapa de captura.
O que muda para o saneamento: operação, conformidade e reputação
Com padrões mais restritivos e maior cobrança social por qualidade, o tema PFAS tende a influenciar contratos, auditorias, relatórios e a própria reputação das operadoras. O tratamento de água passa a ser avaliado não só por indicadores clássicos (turbidez, cloro residual, coliformes), mas também pela capacidade de enfrentar micropoluentes persistentes.
Isso demanda uma abordagem mais profissionalizada, incluindo monitoramento direcionado, critérios claros de escolha de tecnologia, testes piloto e definição de metas operacionais. Além disso, tecnologias que entregam eficiência alta com operação simples podem acelerar a adoção em larga escala, principalmente onde existe restrição de equipe e de orçamento no tratamento de água.
Tendências e próximos passos para PFAS no tratamento de água
O cenário aponta para uma combinação de soluções: adsorventes seletivos com maior capacidade, melhorias em resinas, rotas de regeneração mais seguras e, em paralelo, tecnologias de destruição (não apenas remoção) em desenvolvimento. Para a realidade do saneamento, a tendência é que o tratamento de água avance por etapas: primeiro com barreiras adicionais de captura e, gradualmente, com soluções mais completas para gestão e eliminação do passivo.
Em síntese, o desafio PFAS está forçando o tratamento de água a evoluir. E essa evolução não é apenas tecnológica: é operacional, econômica e estratégica. Quem se prepara com dados, pilotos e escolhas bem justificadas tende a reduzir risco e aumentar eficiência ao longo do tempo.



