Por que o tema biocidas virou prioridade no saneamento brasileiro
A expansão do mercado global de biocidas não é apenas um fenômeno internacional distante. Ela impacta diretamente o tratamento de água realizado diariamente por companhias estaduais, municipais e autarquias de saneamento no Brasil. Para profissionais que atuam em ETA, reservatórios, redes de distribuição, controle de qualidade e gestão operacional, compreender esse mercado passou a ser parte essencial do dia a dia técnico.
Isso ocorre porque os sistemas de tratamento de água estão cada vez mais pressionados. Redes antigas, expansão urbana desordenada, intermitência no abastecimento, aumento das temperaturas médias, eventos climáticos extremos e maior rigor regulatório criam condições favoráveis ao crescimento microbiológico, à formação de biofilme e à perda de residual desinfetante.
Nesse contexto, o biocida deixa de ser apenas um insumo químico e passa a ser uma ferramenta estratégica de controle operacional, segurança sanitária e eficiência econômica.
O que são biocidas na prática do tratamento de água
No cotidiano das companhias de saneamento, biocidas são substâncias utilizadas para controlar ou eliminar microrganismos capazes de comprometer a potabilidade, a integridade dos ativos e a qualidade percebida pelo consumidor. No tratamento de água, eles estão diretamente associados à etapa de desinfecção e à manutenção do residual ao longo do sistema.
Biocidas oxidantes
São os mais utilizados no saneamento. Atuam por oxidação celular e incluem cloro, hipoclorito, dióxido de cloro, ozônio e derivados. Constituem a base do tratamento de água potável, sendo aplicados na saída da ETA, em reservatórios e, em alguns casos, em pontos estratégicos da rede.
Biocidas não oxidantes
São mais comuns em sistemas auxiliares das companhias de saneamento, como água de reúso, torres de resfriamento, estações elevatórias e circuitos fechados. Atuam por mecanismos específicos e são utilizados principalmente para controle de biofilme persistente.
O que o crescimento do mercado global sinaliza para o Brasil
Relatórios internacionais indicam crescimento consistente do mercado de biocidas aplicados ao tratamento de água, com taxas médias anuais superiores a 5%. Esse movimento reflete tendências que já fazem parte da realidade operacional brasileira.
Entre os principais fatores estão a ampliação das redes de distribuição, o aumento do reúso de água, a necessidade de maior segurança sanitária e a pressão por eficiência operacional. Para os profissionais de saneamento, isso significa maior diversidade de produtos disponíveis, mas também maior responsabilidade técnica na escolha, dosagem e controle.
Impactos diretos dos biocidas no dia a dia operacional
Manutenção do residual desinfetante
Manter residual adequado em toda a rede é um dos maiores desafios do tratamento de água. Redes extensas, reservatórios intermediários e baixo consumo em determinadas áreas favorecem a perda de desinfetante e o crescimento microbiológico.
Uma estratégia adequada de biocidas reduz reclamações de gosto e odor, recoletas de amostras fora do padrão e intervenções emergenciais na rede.
Controle de biofilme e eficiência hidráulica
O biofilme aumenta a rugosidade interna das tubulações, eleva perdas de carga, impacta o consumo de energia e protege microrganismos da ação do desinfetante. No tratamento de água, estratégias mal dimensionadas levam a ciclos repetitivos de aumento de dose, descargas corretivas e custos adicionais.
Redução de eventos críticos e reclamações
Eventos como água turva após manobras, alteração de cor ou cheiro e ausência de residual estão diretamente relacionados a falhas no controle microbiológico. O uso adequado de biocidas contribui para maior estabilidade do sistema e redução da pressão sobre equipes de campo e atendimento ao usuário.
Cloro, cloramina e dióxido de cloro: decisões operacionais
No tratamento de água brasileiro, o cloro permanece como principal desinfetante, porém cresce o debate técnico sobre o uso complementar ou alternado de outros agentes.
Cloro livre
Apresenta alta eficiência microbiológica, porém menor estabilidade em redes longas e maior potencial de formação de subprodutos.
Cloramina
Possui maior estabilidade ao longo da rede e menor intensidade de gosto e odor, exigindo controle rigoroso para evitar processos de nitrificação.
Dióxido de cloro
É eficaz no controle de gosto e odor e apresenta menor formação de alguns subprodutos, mas requer controle operacional cuidadoso.
No tratamento de água, a escolha da estratégia deve considerar qualidade da água bruta, hidráulica do sistema, tempo de residência e capacidade operacional.
Regulação: o mínimo legal não garante eficiência
A legislação brasileira estabelece parâmetros para desinfecção e manutenção de residual. Contudo, atender apenas ao mínimo legal não assegura eficiência operacional nem redução de riscos.
Oscilações de consumo, pontos com excesso ou ausência de residual e falta de integração entre operação e laboratório continuam sendo desafios cotidianos no tratamento de água.
Tendências operacionais que já impactam o saneamento
Monitoramento contínuo
Cresce o uso de sensores de cloro, ORP, turbidez e tempo de residência, permitindo ajustes mais rápidos, redução do consumo excessivo de biocidas e identificação precoce de pontos críticos.
Estratégias combinadas
Em vez de apenas aumentar doses, muitas companhias adotam aplicações localizadas, alternância programada de agentes e intervenções preventivas em reservatórios.
Visão de custo total
No tratamento de água, o custo do biocida deve ser avaliado considerando energia, manutenção, reclamações, riscos regulatórios e imagem institucional.
Boas práticas aplicáveis à realidade brasileira
Entre as práticas amplamente adotadas em utilities e já aplicáveis no Brasil destacam-se:
- Uso de desinfetante secundário para garantir residual em redes extensas
- Limpeza preventiva de reservatórios com reforço temporário de biocida
- Setorização hidráulica integrada ao controle microbiológico
- Monitoramento contínuo para reduzir descargas corretivas
O que o profissional de saneamento precisa dominar
Para melhorar o desempenho diário no tratamento de água, os profissionais precisam:
- Enxergar o biocida como ferramenta estratégica
- Conhecer a hidráulica e os tempos de residência da rede
- Atuar de forma integrada com o laboratório
- Tomar decisões baseadas em dados operacionais
- Avaliar impactos antes de elevar dosagens
- Considerar o custo total do sistema
- Manter capacitação contínua das equipes
Síntese operacional
A expansão do mercado global de biocidas reflete a maior complexidade do tratamento de água. Para as companhias de saneamento do Brasil, isso representa uma oportunidade de reduzir riscos, estabilizar sistemas e elevar eficiência operacional.
Quem adota uma visão estratégica sobre biocidas transforma o dia a dia operacional. Quem ignora essa evolução continua reagindo a crises.



