Resumo executivo
O El Niño de 2026 já está configurado e apresenta sinais de intensificação. O boletim mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, indica 81% de probabilidade de o fenômeno alcançar a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. Além disso, existe 97% de chance de permanência até o início de 2027.
Popularmente, um episódio dessa magnitude costuma ser chamado de “super El Niño”. Entretanto, essa expressão não representa uma classificação oficial independente. Tecnicamente, trata-se de um El Niño muito forte, associado a anomalias de temperatura iguais ou superiores a 2°C na região central do Pacífico Equatorial.
Para o saneamento brasileiro, o risco não se limita à falta de chuva. Ao contrário, o fenômeno pode provocar dois extremos simultâneos: escassez hídrica e calor no centro-norte do país, enquanto aumenta a probabilidade de chuvas intensas, inundações e deslizamentos na Região Sul.
Consequentemente, sistemas de abastecimento podem enfrentar redução de vazões, piora da qualidade da água bruta, aumento da demanda, maior consumo de produtos químicos e pressão sobre reservatórios. Paralelamente, redes de esgoto, elevatórias e estações de tratamento podem receber vazões muito superiores à capacidade de projeto durante tempestades.
O efeito final pode aparecer no aumento das despesas operacionais, na interrupção dos serviços, na elevação das perdas, na necessidade de carros-pipa, no pagamento de horas extras, no crescimento das reclamações e na redução da receita.

Portanto, a preparação não deve depender apenas de grandes obras. Telemetria, SCADA, Centros de Controle Operacional, modelos hidráulicos, sensores de qualidade da água, planos de contingência e integração com dados meteorológicos podem reduzir significativamente o tempo de reação.
O desafio central consiste em transformar previsão climática em decisão operacional.
O que está acontecendo com o El Niño de 2026
O El Niño é a fase quente do fenômeno conhecido como El Niño–Oscilação Sul, ou ENOS. Ele se desenvolve quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal e essa alteração passa a interagir de maneira consistente com a atmosfera.
Em condições normais, os ventos alísios empurram parte das águas superficiais quentes do Pacífico em direção à Ásia e à Oceania. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou mudam de comportamento. Como resultado, a água aquecida se desloca para as regiões central e leste do oceano.
Essa mudança altera a circulação de Walker, responsável por organizar grandes movimentos de ar entre diferentes áreas do Pacífico. Embora o aquecimento ocorra a milhares de quilômetros do Brasil, a reorganização atmosférica modifica o posicionamento de corredores de umidade, frentes frias, áreas de alta pressão e sistemas de tempestades.
Em 9 de julho de 2026, a NOAA informou que o índice semanal Niño 3.4 estava em aproximadamente 1,2°C acima da referência. Na região Niño 1+2, mais próxima da costa da América do Sul, a anomalia já alcançava cerca de 2,7°C. Além disso, os ventos e a convecção atmosférica apresentavam comportamento compatível com um El Niño em fortalecimento.
O Painel El Niño 2026–2027, elaborado conjuntamente por INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, também confirmou a configuração do fenômeno. Segundo o documento, existe alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre a primavera e o verão de 2026.
Ainda assim, a intensidade oceânica não determina automaticamente o impacto em cada município. Mesmo um El Niño muito forte não produz exatamente o mesmo resultado em todas as regiões. A temperatura do Atlântico, a posição das frentes frias, a umidade do solo, a topografia, a urbanização e os sistemas meteorológicos de menor escala continuam exercendo influência.
Por esse motivo, o saneamento não deve trabalhar com uma única previsão. É necessário adotar cenários operacionais.
Como o super El Niño tende a afetar cada região
A previsão oficial para julho, agosto e setembro de 2026 indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em boa parte do centro-norte do Brasil. Por outro lado, áreas da Região Sul apresentam tendência de precipitações acima do normal. As temperaturas também devem permanecer elevadas em grande parte do território nacional.
Região Sul
O principal risco está relacionado ao excesso de chuva. Tempestades repetidas podem elevar rapidamente os níveis dos rios, inundar captações, interromper o fornecimento de energia e dificultar o acesso a estações operacionais.

Ao mesmo tempo, o aumento da erosão nas bacias hidrográficas pode carregar solo, matéria orgânica, resíduos e contaminantes para os mananciais. A água bruta chega às estações com mais turbidez, cor e carga microbiológica.
No esgotamento sanitário, a entrada indevida de água de chuva nas redes pode sobrecarregar interceptores, elevatórias e estações de tratamento. Em situações críticas, surgem extravasamentos, refluxos e lançamento de esgoto parcialmente tratado.
Região Norte
A redução das chuvas pode diminuir níveis de rios, igarapés e reservatórios. Sistemas que dependem de captações flutuantes ou de grandes rios precisam acompanhar a cota mínima operacional, a distância entre a água e as bombas e a possibilidade de restrições à navegação.
Além disso, o calor favorece maior evaporação. Em alguns mananciais, a menor diluição pode elevar a concentração de matéria orgânica, nutrientes, sais e contaminantes.
O próprio boletim brasileiro destaca que o El Niño não é o único fator determinante para a seca no Norte, já que o Atlântico também possui grande influência sobre a precipitação regional. Ainda assim, a tendência exige acompanhamento preventivo.
Região Nordeste
O Nordeste, inclusive a Bahia, precisa observar a redução ou irregularidade das chuvas, o aumento da evaporação e o crescimento da demanda associado às temperaturas elevadas.
Mesmo quando os reservatórios começam o período em situação relativamente confortável, vários meses de precipitações abaixo da média podem reduzir rapidamente a segurança hídrica. Sistemas isolados, pequenas barragens, poços rasos e localidades rurais tendem a apresentar maior vulnerabilidade.
Portanto, o saneamento nordestino deve avaliar a autonomia de cada manancial, e não apenas a situação média de uma bacia ou de um estado.
Centro-Oeste
As principais preocupações são calor, aumento da demanda, maior evaporação e possibilidade de redução das vazões de pequenos cursos d’água.
Além disso, incêndios florestais podem atingir redes elétricas, estações remotas, adutoras e áreas de proteção de mananciais. Cinzas e sedimentos também podem chegar aos rios após as primeiras chuvas fortes.
Sudeste
O Sudeste pode enfrentar uma combinação complexa. Por um lado, temperaturas elevadas pressionam o consumo de água. Por outro, tempestades localizadas podem produzir alagamentos, quedas de energia e picos de turbidez.
Dessa forma, a região deve se preparar tanto para episódios de escassez quanto para eventos intensos de curta duração.
A primeira pressão aparece nos mananciais
A disponibilidade de água constitui a primeira linha de impacto do El Niño sobre o saneamento.
Quando a chuva fica abaixo da média, as vazões afluentes diminuem. No entanto, os efeitos nem sempre aparecem imediatamente. Grandes reservatórios conseguem amortecer uma sequência de semanas secas, enquanto pequenos mananciais podem perder capacidade rapidamente.
Por isso, a análise deve considerar:
- volume atual e volume útil do reservatório;
- vazão afluente observada;
- vazão captada;
- demanda projetada;
- evaporação;
- perdas no sistema produtor;
- restrições ambientais e de outorga;
- possibilidade de transferência entre sistemas;
- existência de fontes alternativas.
O indicador mais importante não é simplesmente o percentual armazenado. Deve-se calcular a quantidade de dias de autonomia em diferentes cenários.
Um reservatório com 50% de armazenamento pode estar seguro se possuir baixa demanda e grandes vazões afluentes. Entretanto, outro reservatório com o mesmo percentual pode estar próximo de uma crise caso atenda uma população maior e não tenha reposição de água.
O Atlas Águas da ANA já identificava a necessidade de aproximadamente R$ 110 bilhões em investimentos para reforçar a produção, a distribuição, a reposição de ativos, o controle de perdas e a gestão da segurança hídrica das cidades brasileiras até 2035. Sudeste e Nordeste concentravam 76% dessa necessidade estimada.
Portanto, o El Niño não cria todas as vulnerabilidades. Na maioria dos casos, ele expõe fragilidades já existentes.
A seca também piora a qualidade da água
A redução do nível de um manancial não provoca apenas diminuição da quantidade disponível. Ela pode alterar significativamente a qualidade da água bruta.
Com menos água para diluir os contaminantes, aumenta a concentração de matéria orgânica, nutrientes, sais e substâncias provenientes de lançamentos urbanos, atividades agrícolas ou processos naturais.
Além disso, temperaturas elevadas e maior disponibilidade de nutrientes podem favorecer florações de algas e cianobactérias. Dependendo das espécies presentes, podem surgir problemas de gosto, odor, cor e produção de toxinas.
Em reservatórios estratificados, a água das camadas inferiores pode apresentar pouco oxigênio, maior concentração de ferro e manganês e características mais difíceis de tratar. Caso a captação precise ser rebaixada, a estação pode passar a receber uma água diferente daquela considerada no projeto original.
Em sistemas costeiros ou estuarinos, vazões reduzidas também podem favorecer o avanço da salinidade.
Consequentemente, a companhia pode enfrentar:
- aumento do consumo de coagulante;
- necessidade de carvão ativado;
- maior dosagem de oxidantes;
- redução da duração das carreiras de filtração;
- crescimento do volume de lodo;
- aumento das lavagens dos filtros;
- maior consumo de água dentro da própria estação;
- elevação dos custos laboratoriais;
- risco de paralisações preventivas.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que os riscos climáticos sejam incorporados aos Planos de Segurança da Água, considerando toda a cadeia, desde a bacia hidrográfica até o consumidor. A metodologia inclui secas, inundações, alterações sazonais da qualidade da água, falhas de energia e limitações dos processos de tratamento.
Chuvas extremas podem paralisar uma ETA
Enquanto a seca reduz a disponibilidade hídrica, uma chuva intensa pode elevar a turbidez de um rio em poucas horas.
O escoamento superficial carrega argila, areia, matéria orgânica, fezes de animais, lixo, fertilizantes, combustíveis e outros contaminantes. Dessa maneira, a água que chega à estação pode ultrapassar rapidamente a capacidade de tratamento.
Os efeitos operacionais mais comuns incluem:
- obstrução das grades de captação;
- entrada de troncos e resíduos;
- assoreamento de canais;
- aumento brusco da turbidez;
- elevação do consumo de coagulante;
- sobrecarga dos decantadores;
- passagem de flocos para os filtros;
- redução das carreiras de filtração;
- produção excessiva de lodo;
- interrupção por falta de energia;
- inundação de painéis e motores;
- dificuldade de acesso das equipes.
O problema se torna mais grave quando o estoque de produtos químicos é pequeno ou quando as estradas utilizadas pelos fornecedores ficam interrompidas.
Por esse motivo, as estações precisam manter planos específicos para períodos críticos. Entre as medidas possíveis estão o reforço do estoque de insumos, a contratação de fornecedores alternativos, a proteção física de painéis, a instalação de geradores e a elevação de equipamentos sensíveis acima da cota de inundação.
Guias internacionais de resiliência recomendam que cada ativo seja analisado conforme a profundidade provável da inundação, a velocidade da água, o risco de detritos, a dependência de energia e as consequências de sua falha para todo o sistema.
O calor pressiona a produção e a distribuição
Temperaturas elevadas normalmente aumentam o consumo de água. Banhos mais frequentes, maior uso em jardins, lavagem de áreas e refrigeração contribuem para elevar a demanda.
Entretanto, o crescimento não ocorre de maneira uniforme. Bairros com maior renda, zonas turísticas, áreas comerciais e localidades litorâneas podem apresentar aumentos mais fortes.
Quando a demanda supera a capacidade instantânea de produção ou de transporte, os reservatórios de distribuição começam a esvaziar. Em seguida, as áreas altas e as pontas de rede perdem pressão.
A redução excessiva da pressão aumenta as reclamações e pode exigir manobras. Além disso, pressões muito baixas elevam o risco de entrada de contaminantes por falhas, juntas ou conexões irregulares.
Por outro lado, simplesmente aumentar a pressão não resolve o problema. Pressões elevadas aumentam vazamentos, rompimentos e perdas reais.
Assim, o saneamento precisa combinar previsão de demanda, gestão de pressão, controle de perdas e monitoramento dos reservatórios.
Os indicadores prioritários incluem:
- vazão produzida por hora;
- nível de cada reservatório;
- pressão mínima e máxima nos setores;
- consumo por categoria;
- perdas aparentes e reais;
- número de vazamentos;
- tempo médio de reparo;
- reclamações por falta d’água;
- energia consumida por metro cúbico;
- autonomia dos reservatórios.
Perdas de água viram risco climático
Uma companhia com perdas elevadas entra em qualquer crise hídrica em desvantagem.
Quando parte relevante da água captada, tratada e bombeada não chega de forma regular aos consumidores, torna-se necessário retirar mais água do manancial para atender a mesma população.
Portanto, reduzir perdas pode funcionar como a criação de uma nova fonte de abastecimento, sem necessidade imediata de construir outra barragem.
Durante um super El Niño, devem ganhar prioridade:
- pesquisa ativa de vazamentos;
- macromedição;
- setorização;
- Distritos de Medição e Controle;
- válvulas redutoras de pressão;
- troca de redes críticas;
- substituição de hidrômetros parados;
- combate a fraudes;
- balanço hídrico por setor;
- análise de consumo noturno;
- correlação entre pressão e rompimentos.
A seleção dos setores deve ser orientada pelo risco. Sistemas com baixa autonomia, grandes volumes perdidos e alta incidência de interrupções precisam ser tratados primeiro.
O esgotamento sanitário sofre com a chuva excessiva
Mesmo quando o município adota redes separadoras, destinadas exclusivamente ao esgoto, é comum ocorrer entrada indevida de água de chuva.
Essa entrada pode acontecer por tampas danificadas, ligações clandestinas de drenagem, redes quebradas, poços de visita inundados e infiltração do lençol freático.
Como resultado, a vazão que chega às elevatórias e estações de tratamento aumenta rapidamente.
Uma estação projetada para determinada vazão média pode receber picos várias vezes superiores durante uma tempestade. Consequentemente, surgem riscos de:
- extravasamento em poços de sucção;
- inundação das casas de bombas;
- desligamento de motores;
- retorno de esgoto para imóveis;
- sobrecarga de interceptores;
- redução do tempo de detenção na ETE;
- perda de sólidos biológicos;
- piora da eficiência do tratamento;
- lançamento de efluente fora do padrão;
- aumento do consumo de energia;
- transporte de resíduos para grades e peneiras.
Em processos biológicos, o excesso de vazão pode diluir o esgoto, alterar a relação entre carga orgânica e biomassa e arrastar sólidos importantes para o tratamento.
Por outro lado, períodos muito secos também criam problemas. Com menor infiltração e menor consumo em determinadas localidades, o esgoto pode ficar mais concentrado. Isso favorece odores, corrosão, formação de sulfeto e deposição de sólidos em trechos com baixa velocidade.
Portanto, as redes de esgoto precisam ser avaliadas tanto para grandes vazões quanto para períodos prolongados de baixa vazão.
Enchentes transformam saneamento em problema de saúde pública
Quando uma inundação alcança redes de esgoto, fossas, estações elevatórias, áreas de disposição de resíduos ou sistemas de drenagem contaminados, a água passa a transportar microrganismos e substâncias perigosas.
O risco não termina quando a chuva para. A lama pode permanecer contaminada, enquanto redes danificadas continuam lançando esgoto.
Entre os problemas associados estão doenças gastrointestinais, dermatites, hepatite A e leptospirose. A Fundação Oswaldo Cruz destaca que a contaminação da água, do solo e dos alimentos constitui um dos principais mecanismos de impacto sanitário das enchentes.
Consequentemente, a resposta deve envolver companhia de saneamento, vigilância sanitária, saúde, Defesa Civil, prefeituras, órgãos ambientais e reguladores.
A Portaria GM/MS nº 888 estabelece os procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano. Em situações críticas, a frequência de amostragem, o acompanhamento da desinfecção e a comunicação de riscos precisam ser reforçados.
O impacto financeiro pode superar o dano físico
Nem sempre o maior custo de um evento climático corresponde ao reparo de um equipamento.
Em muitos casos, as despesas se acumulam em diversas áreas:
- energia elétrica;
- produtos químicos;
- combustível;
- locação de geradores;
- horas extras;
- transporte de equipes;
- carros-pipa;
- análises laboratoriais;
- destinação de lodo;
- contratação emergencial;
- reposição de motores e painéis;
- atendimento ao cliente;
- recuperação de vias;
- indenizações;
- multas e compensações.
Além disso, o faturamento pode ser afetado. Sistemas em rodízio ou com interrupções prolongadas vendem menos água. Ao mesmo tempo, aumentam as contestações de contas, as reclamações de consumo e os pedidos de revisão.
A inadimplência também pode crescer em localidades atingidas por enchentes ou perdas econômicas.
Portanto, o plano para o super El Niño deve incluir uma projeção financeira com três cenários:
- Cenário moderado: alterações operacionais administráveis com recursos próprios.
- Cenário severo: necessidade de contratos emergenciais, reforço de equipes e restrições temporárias.
- Cenário extremo: perda de ativos, interrupções prolongadas e necessidade de apoio externo.
A avaliação deve separar despesas operacionais, investimentos emergenciais e perda potencial de receita.
Ferramentas gratuitas que devem entrar na sala de controle
A companhia não precisa adquirir uma plataforma climática complexa para iniciar o monitoramento. Diversas bases oficiais podem ser utilizadas gratuitamente.
Painel El Niño 2026–2027
O painel reúne informações do INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil. Ele apresenta a evolução do fenômeno, previsões sazonais, situação das secas, rios e reservatórios.
Seu uso permite atualizar mensalmente os cenários corporativos.
Monitor de Secas da ANA
O Monitor de Secas acompanha continuamente a severidade da seca em todo o Brasil, considerando indicadores climáticos e impactos observados.
Ele ajuda a identificar a expansão espacial do problema, mas não substitui o acompanhamento local de mananciais.
HidroWeb e Hidro-Telemetria
O HidroWeb disponibiliza dados de chuva, níveis, vazões, qualidade da água e sedimentos coletados pela Rede Hidrometeorológica Nacional.
Já o Hidro-Telemetria oferece dados transmitidos em tempo quase real. Essas informações podem ser comparadas com as medições internas da companhia.
Avisos do INMET e do Cemaden
Os avisos meteorológicos e os alertas de risco ajudam a antecipar tempestades, inundações e movimentos de massa.
A utilidade aumenta quando os alertas são incorporados às escalas de operação. Um aviso de chuva intensa, por exemplo, deve acionar inspeções preventivas em elevatórias e captações vulneráveis.
A tecnologia usada pelas grandes companhias
Não existe uma única ferramenta capaz de proteger todo o saneamento. As empresas mais estruturadas utilizam um conjunto integrado de tecnologias.
Telemetria
A telemetria coleta dados de locais remotos e transmite essas informações para uma central.
Pode acompanhar:
- nível de reservatórios;
- vazão;
- pressão;
- funcionamento de bombas;
- consumo de energia;
- turbidez;
- cloro;
- condutividade;
- pH;
- chuva;
- nível de rios;
- extravasamentos.
SCADA
O SCADA é o sistema de supervisão, controle e aquisição de dados. Ele mostra graficamente o estado das unidades e permite emitir alarmes ou realizar comandos remotos.
A Sanepar possui diretrizes públicas que preveem IHM, SCADA, telemetria, telecomando, integração com Centros de Controle Operacional, comunicação por modem celular ou VPN e futura consolidação das informações em PIMS.
Centro de Controle Operacional
O Centro de Controle Operacional, ou CCO, concentra dados, operadores e procedimentos.
Um CCO eficiente não funciona apenas como uma sala cheia de telas. Ele precisa possuir alarmes priorizados, regras claras de escalonamento, equipes treinadas e autonomia para mobilizar manutenção.
Especificações técnicas vinculadas à Copasa preveem Centros de Controle Operacional funcionando 24 horas, recebendo dados de sensores, utilizando telemetria, modelagens online, alarmes e telecomando.
Sistema Integrado de Supervisão
A Copasa desenvolveu o Copasis, plataforma destinada ao monitoramento remoto de redes, reservatórios, bombeamentos e estruturas de esgoto.
Em 2024, a companhia informava que a ferramenta estava em funcionamento em quase duas mil unidades operacionais, distribuídas em aproximadamente 300 localidades. O sistema permite acompanhar reservatórios, identificar falhas de bombeamento e analisar perfis de consumo.
Modelos hidráulicos e gêmeos digitais
Os modelos hidráulicos simulam o comportamento de redes, reservatórios, bombas e válvulas.
Com eles, é possível testar situações como:
- perda de uma captação;
- aumento de 20% na demanda;
- rompimento de uma adutora;
- fechamento de uma válvula;
- paralisação de uma elevatória;
- redução da pressão;
- funcionamento em rodízio.
Quando o modelo recebe dados contínuos de sensores e é atualizado com a operação real, aproxima-se do conceito de gêmeo digital.
Entretanto, um gêmeo digital não corrige cadastro ruim. Antes da contratação, devem ser revisados os mapas de rede, os diâmetros, as cotas, as válvulas, os consumos e as curvas das bombas.
GIS e inteligência de negócios
O sistema de informações geográficas, ou GIS, permite mapear ativos, clientes, mananciais e áreas sujeitas a inundações.
Já as ferramentas de inteligência de negócios transformam os dados em painéis para acompanhamento da diretoria, operação, manutenção, área comercial e regulação.
Quanto custa implantar monitoramento e controle
Os custos variam conforme a quantidade de pontos, as variáveis medidas, a distância entre unidades, a disponibilidade de energia, a conectividade, a necessidade de obras e o nível de redundância.
Como referência pública, o DAE de Bauru estimou, em licitação de junho de 2026, R$ 35,75 milhões para um contrato de 60 meses envolvendo telemetria, videomonitoramento, conectividade, manutenção, operação e equipamentos em comodato.
No mesmo processo, a infraestrutura de videomonitoramento e telemetria foi estimada em aproximadamente R$ 21.978 por unidade, enquanto a infraestrutura de conectividade ficou próxima de R$ 14.977 por unidade. Esses números não representam somente sensores, pois incluem materiais, instalação e uma solução mais abrangente.
A partir de projetos públicos e da prática de mercado, podem ser consideradas as seguintes ordens de grandeza para planejamento preliminar:
Projeto básico com dados existentes
Faixa indicativa: R$ 100 mil a R$ 500 mil.
Pode incluir integração de bases gratuitas, criação de painéis, protocolos operacionais, matriz de risco, treinamento e sala de crise sem grandes intervenções de campo.
Piloto com 10 a 20 pontos críticos
Faixa indicativa: R$ 400 mil a R$ 2 milhões.
Pode envolver sensores de nível, pressão, vazão, chuva, turbidez, comunicação, plataforma, instalação, calibração e suporte.
Rede regional com 50 a 150 pontos
Faixa indicativa: R$ 2 milhões a R$ 10 milhões.
O valor depende principalmente da necessidade de painéis, CLPs, energia, telecomunicações, redundância e adequações civis.
CCO corporativo e automação completa
Faixa indicativa: R$ 8 milhões a R$ 30 milhões ou mais.
Pode incluir SCADA redundante, servidores, cibersegurança, videowall, estações de trabalho, telecomando, integração de ETAs, ETEs, elevatórias, reservatórios, laboratório e sistemas comerciais.
Modelo hidráulico ou gêmeo digital
Faixa indicativa: R$ 300 mil a R$ 2 milhões para pilotos e de R$ 3 milhões a mais de R$ 20 milhões para implantação corporativa.
Esses valores são estimativas de ordem de grandeza, e não preços de referência para licitação. Cada sistema precisa de projeto básico, levantamento de ativos e pesquisa formal de preços.
Como implantar um programa de preparação
Primeiros sete dias: criar a governança
Deve-se instituir um comitê específico com representantes de operação, manutenção, planejamento, meio ambiente, laboratório, comercial, comunicação, suprimentos, tecnologia, segurança e regulação.
Também deve ser definido um responsável por cada sistema de abastecimento e esgotamento.
Até 30 dias: mapear os ativos críticos
Cada ativo precisa ser classificado conforme:
- probabilidade de falha;
- consequência da falha;
- população afetada;
- tempo de recuperação;
- existência de redundância;
- exposição à seca;
- exposição à inundação;
- dependência de energia;
- acesso durante emergências.
Captações, adutoras únicas, reservatórios estratégicos, elevatórias e painéis localizados em áreas inundáveis devem receber prioridade.
Entre 30 e 60 dias: definir indicadores e gatilhos
Não basta acompanhar dados. É necessário definir quando agir.
Podem ser criados três níveis:
Atenção: tendência de piora, mas sem impacto imediato.
Alerta: redução relevante da autonomia, chuva extrema prevista, aumento anormal da turbidez ou reservatórios próximos do nível crítico.
Emergência: risco de paralisação, qualidade da água fora do controle operacional, extravasamentos generalizados ou perda de ativos.
Os limites devem ser calibrados para cada sistema.
Entre 60 e 90 dias: instalar o monitoramento prioritário
A primeira etapa deve concentrar sensores nos pontos cuja falha provoca maior impacto.
É preferível monitorar corretamente 20 ativos críticos do que instalar centenas de equipamentos sem manutenção, calibração ou processo de resposta.
Entre três e seis meses: testar os planos
Devem ser realizadas simulações de:
- perda de energia;
- inundação de uma elevatória;
- turbidez extrema;
- ruptura de adutora;
- redução de 30% da produção;
- indisponibilidade de produto químico;
- falha de comunicação;
- necessidade de rodízio;
- contaminação do manancial.
O teste revela falhas que normalmente não aparecem em documentos.
Entre seis e 24 meses: executar obras de resiliência
As intervenções podem incluir:
- elevação de painéis elétricos;
- construção de barreiras contra inundação;
- impermeabilização;
- drenagem de unidades;
- geradores;
- duplicação de adutoras;
- novas interligações;
- reservação adicional;
- fontes alternativas;
- recuperação de mananciais;
- redução de perdas;
- automação;
- proteção de captações;
- ampliação hidráulica de ETEs e elevatórias.
A área comercial também precisa entrar no plano
A resposta ao super El Niño não pode ficar restrita à engenharia.
A área comercial possui dados fundamentais sobre consumo, reclamações, inadimplência, grandes usuários e comportamento por região.
Entre as ações recomendadas estão:
- identificar hospitais, escolas e serviços essenciais;
- mapear consumidores de grande porte;
- analisar aumentos anormais de consumo;
- segmentar campanhas de economia;
- acompanhar reclamações por bairro;
- antecipar comunicação sobre manobras;
- preparar regras para revisão de contas;
- organizar canais de atendimento;
- monitorar perdas aparentes;
- reforçar teleleitura em áreas críticas.
A comunicação precisa ser rápida, objetiva e transparente. Mensagens vagas aumentam a insatisfação. Por outro lado, informar o motivo, a área afetada e a previsão de normalização reduz a pressão sobre os canais.
A Norma de Referência ANA nº 11/2024 estabelece condições gerais para a prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, incluindo aspectos da relação entre usuários, prestadores e interrupções. Já a Norma nº 9/2024 estabelece indicadores operacionais para avaliação da prestação.
Indicadores que precisam chegar diariamente à diretoria
Um painel executivo para o saneamento deve conter, no mínimo:
- volume útil dos reservatórios;
- dias de autonomia;
- vazão afluente;
- vazão captada e produzida;
- demanda máxima diária;
- turbidez da água bruta;
- cloro, pH e turbidez na saída;
- consumo de produtos químicos;
- produção de lodo;
- energia por metro cúbico;
- nível dos reservatórios de distribuição;
- pressões críticas;
- perdas estimadas;
- vazamentos pendentes;
- disponibilidade de bombas;
- vazão afluente às ETEs;
- extravasamentos;
- unidades sem energia;
- reclamações;
- clientes afetados;
- carros-pipa mobilizados;
- despesas emergenciais.
O painel deve mostrar tendência, e não somente o valor do dia. Uma curva de deterioração permite agir antes da crise.
O super El Niño precisa ser tratado como risco empresarial
A previsão de um El Niño muito forte não significa que todos os piores impactos ocorrerão. Entretanto, a probabilidade é suficientemente elevada para justificar preparação imediata.
A ausência de ação pode resultar em decisões emergenciais mais caras, contratos apressados, perda de ativos, interrupções prolongadas e desgaste institucional.
Por outro lado, várias medidas produzem benefícios mesmo que o cenário extremo não se confirme. Redução de perdas, automação, manutenção preventiva, gestão de estoques, melhoria cadastral e integração de dados aumentam a eficiência em qualquer condição climática.
Portanto, a estratégia mais racional não consiste em investir indiscriminadamente. Deve-se priorizar medidas úteis em diferentes cenários.
O Banco Mundial recomenda que prestadores de água e esgoto incorporem riscos climáticos às decisões de investimento, operação, manutenção e continuidade dos negócios. A abordagem deve identificar vulnerabilidades, consequências das falhas e opções de adaptação, considerando também as incertezas das projeções.
Conclusão
O super El Niño pode atingir o saneamento por caminhos aparentemente opostos.
A seca reduz a disponibilidade hídrica, piora a qualidade dos mananciais, aumenta a evaporação e pressiona o consumo. Ao mesmo tempo, as chuvas extremas podem inundar instalações, elevar a turbidez, interromper a energia e sobrecarregar redes e estações de esgoto.
Consequentemente, o risco precisa ser analisado de maneira integrada.
A resposta mais eficiente combina monitoramento climático, conhecimento dos mananciais, telemetria, SCADA, Centro de Controle Operacional, gestão de pressão, redução de perdas, segurança da água, planejamento financeiro e comunicação com os usuários.
Também é fundamental reconhecer que tecnologia sem governança não produz resiliência. Sensores precisam estar calibrados. Alarmes precisam gerar ações. Modelos precisam refletir a rede real. Equipes precisam conhecer os procedimentos.
O El Niño de 2026 já está configurado e pode se tornar um dos mais intensos do registro histórico moderno. Portanto, o saneamento brasileiro não deve esperar que reservatórios baixem, estações sejam inundadas ou elevatórias entrem em colapso para iniciar a preparação.
A antecipação custa menos do que a emergência.
Fontes consultadas
- NOAA — ENSO Diagnostic Discussion de julho de 2026
- NOAA — Evolução e previsão do ENSO
- Painel El Niño 2026–2027 — INPE, INMET, ANA, Cemaden, SGB e Defesa Civil
- INMET — Monitoramento e impactos do El Niño 2026
- Organização Meteorológica Mundial — El Niño 2026
- ANA — Monitor de Secas
- ANA — HidroWeb
- ANA — Hidro-Telemetria
- ANA — Atlas Águas e investimentos em segurança hídrica
- OMS — Planos de Segurança da Água resilientes ao clima
- Banco Mundial — Resiliência de prestadores de água e esgoto
- Banco Mundial — Projeto de infraestrutura hídrica resiliente
- EPA — Guia de resiliência a inundações
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 888/2021
- ANA — Norma de Referência nº 11/2024
- ANA — Norma de Referência nº 9/2024
- Sanepar — Diretrizes de automação, SCADA, telemetria e CCO
- Copasa — Sistema Integrado de Supervisão Copasis
- DAE Bauru — Licitação de telemetria e monitoramento de 2026



