A Companhia de Saneamento de Minas Gerais, a Copasa, homologou o evaporador de cloro Série 200, desenvolvido e fabricado no Brasil pela Fluid Feeder. A decisão ocorreu depois de um acordo de cooperação técnica e de um período de testes realizado na Estação de Tratamento de Água Serra Azul, em Juatuba, entre novembro de 2023 e março de 2024.

A homologação representa um avanço relevante para o saneamento porque permite que o equipamento passe a integrar o conjunto de tecnologias reconhecidas pela companhia mineira. Na prática, isso amplia a possibilidade de participação do modelo em futuros processos de aquisição, ao lado de alternativas já consolidadas, inclusive equipamentos importados.
Entretanto, a homologação não deve ser confundida com uma compra imediata, uma preferência automática ou uma garantia de desempenho em qualquer instalação. Cada estação de tratamento possui condições próprias de vazão, demanda de cloro, pressão, automação, infraestrutura, segurança e manutenção. Portanto, a decisão de aplicação precisa considerar o projeto completo do sistema de cloração e o custo ao longo de toda a vida útil.

O que a Copasa homologou
O equipamento homologado é um evaporador de cloro destinado a instalações que utilizam cloro liquefeito e necessitam disponibilizá-lo na fase gasosa para o sistema de dosagem. Conforme informações divulgadas pelo fabricante, o Série 200 foi projetado para grandes estações de tratamento de água e de efluentes, nas quais a demanda pelo desinfetante é elevada.
A tecnologia utiliza uma serpentina totalmente submersa em um banho aquecido e controlado. O cloro líquido circula internamente pela serpentina, recebe calor de forma indireta e passa para a fase gasosa. Depois disso, o gás segue para os demais componentes do sistema de cloração, responsáveis pelo controle e pela aplicação no processo.
Em linguagem simples, o evaporador não é o equipamento que decide sozinho quanto cloro será aplicado na água. Ele funciona como uma etapa de preparação do produto, transformando o cloro líquido em gás de maneira controlada para que o conjunto de dosagem possa trabalhar de forma estável.
Essa distinção é importante para o saneamento. Um evaporador eficiente não substitui cloradores, reguladores, injetores, analisadores, sistemas de detecção, automação, ventilação, contenção ou resposta a emergências. O desempenho final depende da integração entre todos esses elementos.
Por que evaporadores são usados em grandes ETAs
Em instalações de menor porte, a retirada natural de gás dos recipientes de cloro pode ser suficiente para atender à demanda. Entretanto, quando a vazão necessária aumenta, a evaporação natural pode não acompanhar o consumo do processo. Além disso, uma retirada excessiva pode provocar queda de temperatura, perda de estabilidade e dificuldades operacionais.
Por esse motivo, grandes sistemas podem utilizar evaporadores. O equipamento fornece energia térmica de forma controlada para converter o cloro líquido em gás na quantidade exigida pelo sistema. Assim, torna-se possível alimentar unidades de dosagem de maior capacidade sem depender apenas da evaporação natural.
No saneamento, essa solução costuma ser avaliada em instalações com produção elevada de água, forte variação de demanda ou necessidade de dosagem contínua. Ainda assim, a seleção deve ser feita por engenharia especializada, com análise de riscos e atendimento às normas aplicáveis.
Dados técnicos divulgados sobre o Série 200
De acordo com os materiais técnicos publicados pelo fabricante, o evaporador possui capacidade declarada de conversão de até 230 quilos de cloro por hora, equivalente a aproximadamente 12 mil libras por dia. Essa é uma capacidade elevada, compatível com aplicações de grande porte.
O projeto utiliza uma serpentina submersa em banho-maria com temperatura controlada. O fabricante também informa que o equipamento possui isolamento térmico, painel de controle integrado, alarmes e recursos para monitoramento de parâmetros críticos por contatos elétricos ou transmissores.
Outro ponto divulgado é a maior área de troca térmica da serpentina em comparação com determinados modelos tradicionais do tipo vaso. Segundo a empresa, essa configuração pode melhorar a transferência de calor e favorecer uma temperatura mais uniforme no banho.
O fabricante informa ainda que o sistema pode gerar uma margem de superaquecimento do vapor. Em termos simples, isso significa elevar a temperatura do gás acima do ponto mínimo de vaporização, reduzindo o risco de que parte do cloro volte à fase líquida no trajeto imediatamente posterior ao evaporador.
Esses dados são relevantes, mas precisam ser interpretados corretamente. Eles correspondem a características e declarações do fabricante. A homologação da Copasa demonstra que o equipamento passou por avaliação e testes no contexto definido pela companhia, porém não substitui a verificação de projeto, o dimensionamento e a validação para cada nova aplicação.
O que significa a homologação no saneamento
A homologação técnica é uma etapa usada por companhias de saneamento para verificar se produtos, materiais ou fornecedores atendem a requisitos previamente definidos. A Copasa mantém procedimentos de pré-qualificação e de homologação para avaliar documentação, especificações, amostras, capacidade técnica e conformidade.
Portanto, a entrada do evaporador em um código específico da companhia possui um efeito prático importante: o produto deixa de enfrentar uma barreira técnica inicial que poderia impedir sua participação em futuras disputas. Isso tende a ampliar o universo de soluções disponíveis para os setores de engenharia, operação e suprimentos.
Para o saneamento brasileiro, o caso também chama atenção para a importância de testes controlados. Em vez de aceitar ou rejeitar uma tecnologia apenas pela origem da marca, a companhia pode avaliar o desempenho em condições reais, registrar resultados e comparar requisitos.
Esse modelo favorece a inovação com responsabilidade. Ao mesmo tempo, evita que uma novidade seja incorporada sem comprovação mínima ou que uma solução nacional seja excluída apenas porque editais anteriores foram construídos com referência em equipamentos já conhecidos.
Tecnologia nacional pode reduzir dependências
A fabricação no Brasil pode trazer vantagens potenciais para o saneamento, especialmente em peças de reposição, assistência técnica, prazos logísticos e comunicação com a equipe de engenharia. Também pode reduzir parte da exposição a variações cambiais e a atrasos internacionais.
Entretanto, não se deve concluir automaticamente que todo equipamento nacional será mais barato ou melhor em qualquer situação. O preço de aquisição representa apenas uma parcela do custo total. Energia elétrica, manutenção, disponibilidade de componentes, treinamento, inspeções, paradas, confiabilidade e vida útil também precisam entrar na conta.
O ganho mais evidente, neste momento, é o aumento da concorrência. Quando mais fornecedores tecnicamente aptos participam de uma contratação, a companhia amplia sua capacidade de comparar propostas, negociar condições e evitar dependência excessiva de uma única marca.
No saneamento, a diversificação de fornecedores também pode reduzir riscos de descontinuidade. Isso se torna particularmente relevante em equipamentos críticos, cuja falha pode afetar a produção de água ou exigir redução temporária da capacidade da estação.
Segurança deve permanecer no centro da decisão
O cloro é amplamente usado na desinfecção de água porque possui elevada eficiência microbiológica e permite a manutenção de residual na rede de distribuição. Ao mesmo tempo, o cloro gasoso é tóxico, corrosivo e exige rigoroso controle de engenharia, operação, manutenção e emergência.
Por isso, a análise de um evaporador não pode ficar limitada à capacidade nominal ou ao preço. O projeto deve considerar detecção de vazamentos, alarmes, bloqueios automáticos, ventilação adequada, sistemas de neutralização quando aplicáveis, integridade das linhas, compatibilidade de materiais, treinamento e plano de resposta a emergências.
Não se trata de um cuidado opcional. Uma inovação só gera valor para o saneamento quando melhora o processo sem aumentar o risco para trabalhadores, comunidades vizinhas, meio ambiente e continuidade operacional.
Além disso, a automação precisa ser tratada como uma camada de proteção, e não como substituta da gestão de riscos. Sensores e alarmes devem ser acompanhados por inspeções, testes funcionais, manutenção preventiva e procedimentos institucionais claramente definidos.
Relação com a qualidade da água
A Portaria GM/MS nº 888/2021 determina a manutenção de, no mínimo, 0,2 miligrama por litro de cloro residual livre em toda a extensão do sistema de distribuição e nos pontos de consumo, quando esse é o desinfetante utilizado.
O evaporador pode contribuir indiretamente para esse objetivo ao favorecer a disponibilidade estável de cloro gasoso em instalações de grande porte. Contudo, a qualidade da água não depende apenas da capacidade de vaporização.
A eficiência da desinfecção é influenciada pela qualidade da água bruta, turbidez, pH, temperatura, tempo de contato, demanda de cloro, mistura e controle da dosagem. Além disso, o excesso de aplicação deve ser evitado porque pode elevar custos, causar reclamações de gosto e odor e favorecer a formação de subprodutos da desinfecção em determinadas condições.
Portanto, o melhor sistema não é aquele que simplesmente aplica mais cloro. É aquele que entrega a dose necessária, mantém o residual adequado e responde às variações do processo com segurança e precisão.
Potenciais impactos operacionais
A homologação pode produzir impactos relevantes para a operação das ETAs. O primeiro é a possibilidade de ampliar a disponibilidade de equipamentos compatíveis com grandes demandas de cloro. O segundo é a chance de reduzir prazos de assistência e reposição, caso a cadeia nacional confirme capacidade de atendimento.
Também existe potencial de redução de paradas para limpeza e manutenção, considerando o desenho de serpentina divulgado pelo fabricante. Entretanto, esse benefício deve ser acompanhado por indicadores reais, como horas de indisponibilidade, frequência de intervenções, consumo de energia e custo de peças.
Para gestores operacionais, a principal lição é objetiva: inovação precisa ser medida. O saneamento deve transformar promessas técnicas em indicadores comparáveis antes e depois da implantação.
Potenciais impactos financeiros
No campo financeiro, a entrada de um novo fornecedor homologado pode aumentar a competição em licitações e reduzir a dependência de equipamentos importados. Também pode diminuir custos associados a frete internacional, câmbio, estoque elevado de componentes e longos prazos de entrega.
Por outro lado, uma análise econômica madura deve considerar o custo total de propriedade. Esse cálculo inclui aquisição, instalação, adequações civis e elétricas, integração com automação, energia, manutenção, inspeções, treinamento, peças, disponibilidade e descarte ao final da vida útil.
Um equipamento mais barato na compra pode se tornar mais caro se apresentar baixa confiabilidade ou exigir adaptações frequentes. Da mesma forma, um investimento inicial maior pode ser justificável quando reduz paradas, aumenta a eficiência e oferece suporte técnico mais rápido.
O que gestores devem avaliar antes de contratar
A homologação é um filtro importante, mas não elimina a necessidade de avaliação local. Entre os pontos que merecem atenção estão a compatibilidade com o sistema existente, a capacidade necessária, a faixa de operação, a redundância, a integração com o supervisório e a disponibilidade de assistência técnica.
Também devem ser avaliados o histórico de falhas, o plano de manutenção, a garantia, a disponibilidade de peças, o consumo energético, os requisitos de inspeção e a resposta do fornecedor em situações críticas.
Outro ponto essencial é o desempenho comprovado. Sempre que possível, os gestores devem solicitar relatórios de testes, referências de instalações, indicadores de confiabilidade e evidências de operação em condições semelhantes.
Para o setor de suprimentos, a especificação deve ser funcional e tecnicamente justificável. Editais excessivamente vinculados a um único desenho ou marca podem reduzir a concorrência. Ao mesmo tempo, especificações genéricas demais podem permitir produtos incompatíveis com os riscos e as exigências da instalação.
Homologação abre caminho, mas acompanhamento define o resultado
A aprovação do Série 200 pela Copasa é uma notícia positiva para a indústria nacional e para o saneamento. Ela mostra que tecnologias brasileiras podem passar por testes em grandes companhias e conquistar espaço em um mercado tradicionalmente dependente de referências internacionais.
Ainda assim, o valor real da homologação será medido ao longo do tempo. Será necessário acompanhar confiabilidade, disponibilidade, segurança, custo de manutenção, eficiência energética e suporte pós-venda.
A principal contribuição do caso está no método: cooperação técnica, teste em campo, avaliação e reconhecimento formal. Esse caminho pode ajudar o saneamento a incorporar inovação sem abrir mão da segurança e da responsabilidade técnica.
Com mais alternativas homologadas, as companhias ganham poder de comparação. Com dados operacionais consistentes, ganham capacidade de escolher melhor. E, com especificações mais abertas à inovação, o setor pode estimular a indústria nacional sem comprometer a qualidade da água.
Fontes consultadas
- Saneamento Ambiental — Copasa homologa evaporador de cloro após período de testes
(Saneamento Ambiental
)
- Copasa — Portal do Fornecedor e procedimentos de homologação técnica
(Copasa
)
- Copasa — Pré-qualificação de fornecedores
(Notícias Copasa
)
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 888/2021
(BVS Saúde
)
- Ministério da Saúde — Plano de Segurança da Água
(Serviços e Informações do Brasil
)
- Organização Mundial da Saúde — princípios e práticas de cloração da água
(iris.who.int
)
- Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos — desinfecção com cloro
(nepis.epa.gov
)
- CDC — informações de segurança sobre cloro
(cdc.gov
)
- Revista TAE — dados técnicos e histórico do evaporador Série 200
(revistatae.com.br
)



