ONU lança curso grátis sobre gestão dos recursos hídricos

Instituições vinculadas ao sistema das Nações Unidas lançaram a edição 2026 do curso online Integrated Water Resources Management for Climate Resilience, ou Gestão Integrada dos Recursos Hídricos para Resiliência Climática.

A capacitação foi desenvolvida pela UNEP-DHI em parceria com a Cap-Net UNDP, o UNEP Copenhagen Climate Centre, a ONU-Habitat, a Global Water Partnership e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O conteúdo está disponível gratuitamente no Campus Virtual da Cap-Net UNDP. 

O curso trata da gestão integrada dos recursos hídricos aplicada à resiliência climática. Em termos simples, a formação demonstra como decisões sobre abastecimento, agricultura, geração de energia, drenagem urbana, meio ambiente, ocupação do solo e desenvolvimento econômico precisam ser planejadas de maneira coordenada.

As inscrições permanecem abertas até 15 de novembro de 2026. A formação é realizada em inglês, possui nível intermediário e pode ser concluída no ritmo de cada participante. 

A oportunidade é especialmente relevante para profissionais de companhias de saneamento, órgãos gestores, agências reguladoras, comitês de bacia, prefeituras, consultorias, universidades e empresas que trabalham com infraestrutura hídrica.

O que significa gestão integrada dos recursos hídricos

A gestão integrada dos recursos hídricos é uma abordagem que considera a água como um recurso limitado, compartilhado e conectado a diferentes atividades econômicas, sociais e ambientais.

Em vez de cada setor tomar decisões de forma isolada, procura-se coordenar os usos da água, as prioridades públicas, os investimentos, os mecanismos de participação e as medidas de proteção dos ecossistemas.

A Global Water Partnership define essa abordagem como um processo de desenvolvimento e gerenciamento coordenado da água, da terra e dos recursos relacionados. O objetivo é ampliar o bem-estar econômico e social de maneira justa, sem comprometer a sustentabilidade dos ecossistemas essenciais. 

Na prática, isso significa reconhecer que a retirada de água para abastecimento interfere na disponibilidade para irrigação, indústria, geração de energia e manutenção dos ecossistemas.

Da mesma maneira, o lançamento de esgoto sem tratamento compromete os mananciais, aumenta o custo do tratamento de água, reduz a disponibilidade hídrica e amplia os riscos para a saúde pública.

Portanto, a gestão integrada dos recursos hídricos não se limita ao controle de rios e reservatórios. Ela envolve:

  • Governança e participação social;
  • Planejamento por bacia hidrográfica;
  • Monitoramento de quantidade e qualidade;
  • Outorga e fiscalização dos usos;
  • Gestão de conflitos;
  • Instrumentos econômicos;
  • Proteção de mananciais;
  • Segurança hídrica;
  • Integração entre políticas públicas.

Por que a resiliência climática entrou no centro do debate

As mudanças climáticas podem modificar a frequência, a intensidade e a distribuição das chuvas, das secas, das enchentes e das ondas de calor. Consequentemente, sistemas de abastecimento projetados a partir de condições históricas podem deixar de responder adequadamente aos novos padrões hidrológicos.

A própria estrutura técnica utilizada pelo curso destaca que a água é um dos principais meios pelos quais os impactos climáticos atingem as sociedades. Por esse motivo, melhorar a gestão atual dos recursos hídricos é considerado essencial para aumentar a capacidade de adaptação futura. 

Para o saneamento, os impactos podem surgir de diferentes formas. A redução das vazões pode limitar a captação e piorar a qualidade da água bruta. Por outro lado, chuvas intensas podem elevar a turbidez, transportar contaminantes, sobrecarregar os sistemas de drenagem e comprometer instalações de tratamento.

Além disso, eventos extremos podem interromper o fornecimento de energia, bloquear acessos, danificar adutoras, prejudicar telecomunicações e dificultar o transporte de produtos químicos e equipamentos.

Nesse contexto, a gestão integrada dos recursos hídricos funciona como instrumento de adaptação. Ela permite combinar dados climáticos, disponibilidade hídrica, demanda, qualidade da água, vulnerabilidade operacional e prioridades sociais antes da tomada de decisão.

Como o curso gratuito está organizado

A formação possui carga horária estimada de 20 horas, nível intermediário e período recomendado de dedicação entre cinco e seis semanas.

O participante estuda no próprio ritmo, utilizando leituras obrigatórias e complementares, vídeos, páginas recomendadas e fóruns de discussão. O conteúdo está dividido em cinco módulos. 

Módulo 1 — Água, adaptação e mitigação climática

O primeiro módulo apresenta a gestão dos recursos hídricos relacionada à adaptação e à mitigação das mudanças climáticas.

Adaptação significa preparar sistemas, cidades e comunidades para os efeitos climáticos que já estão ocorrendo ou que poderão ocorrer. Mitigação, por sua vez, envolve reduzir emissões de gases de efeito estufa ou ampliar sua remoção da atmosfera.

Módulo 2 — Dos acordos globais às políticas nacionais

O segundo módulo explica como compromissos internacionais, políticas nacionais, instituições e instrumentos regulatórios se relacionam.

Esse conhecimento é importante porque projetos de saneamento e segurança hídrica podem depender de licenciamento ambiental, outorga, planejamento de bacia, regulação, prioridades governamentais e critérios de financiamento.

Módulo 3 — Planejamento integrado da água

O terceiro módulo aprofunda a gestão integrada dos recursos hídricos como método de planejamento.

Isso exige considerar a bacia hidrográfica como unidade de decisão, avaliar conflitos entre usuários, identificar riscos acumulados e estabelecer mecanismos de participação entre diferentes instituições.

Módulo 4 — Tecnologias para aumentar a resiliência

O quarto módulo apresenta tecnologias e respostas práticas que podem ampliar a capacidade de adaptação do setor hídrico.

Entre as possibilidades relacionadas ao tema estão monitoramento hidrometeorológico, sistemas de alerta, modelagem, reúso, eficiência operacional, soluções baseadas na natureza, drenagem sustentável e infraestrutura preparada para eventos extremos.

Módulo 5 — Financiamento climático

O último módulo aborda fontes de financiamento para projetos de resiliência climática.

Esse assunto é decisivo porque medidas de adaptação exigem estudos, obras, modernização tecnológica, capacitação institucional e manutenção de longo prazo.

Os cinco módulos oficialmente apresentados pelos organizadores abrangem planejamento, tecnologias, instrumentos de gestão e mecanismos financeiros para intervenções equilibradas entre segurança hídrica, desenvolvimento e gestão dos riscos climáticos. 

Como funciona a aprovação

Ao final de cada módulo, o participante deve responder a um questionário de múltipla escolha.

Para avançar, é necessário alcançar pelo menos 60% de acertos. Cada participante possui até três tentativas por módulo. A plataforma também informa as respostas incorretas, permitindo que o conteúdo seja revisado.

Depois da conclusão dos cinco módulos e do preenchimento da avaliação final, o certificado pode ser emitido gratuitamente. Tanto a participação quanto a certificação não possuem custo. 

Aplicações para as companhias de saneamento

A gestão integrada dos recursos hídricos pode ser incorporada ao planejamento estratégico das companhias por meio de ações concretas.

A primeira delas é relacionar projeções climáticas aos planos de expansão. Não basta estimar apenas o crescimento populacional e o aumento do consumo. Também é necessário avaliar se os mananciais continuarão oferecendo água em quantidade e qualidade adequadas.

Outra aplicação está na integração entre áreas que normalmente trabalham de maneira separada. Operação, engenharia, meio ambiente, manutenção, regulação, comercial, tecnologia da informação e comunicação institucional precisam compartilhar dados e cenários.

Uma crise hídrica, por exemplo, não provoca somente impacto operacional. Ela pode afetar simultaneamente:

  • Produção e distribuição de água;
  • Faturamento e arrecadação;
  • Atendimento ao cliente;
  • Custos de energia;
  • Perdas reais e aparentes;
  • Qualidade da água distribuída;
  • Imagem institucional;
  • Relação com agências reguladoras;
  • Confiança da população.

Além disso, a gestão integrada dos recursos hídricos favorece a priorização de investimentos. Sistemas com captação vulnerável, pequena capacidade de reservação, perdas elevadas, alto consumo energético ou dependência de uma única fonte podem receber atenção prioritária.

Medidas práticas de adaptação para o saneamento

Entre as medidas que podem ser analisadas pelas empresas estão a diversificação dos mananciais, a ampliação da reservação, a redução de perdas, o reúso de água, a proteção das captações e a revisão dos planos de contingência.

Também podem ser considerados o aumento da eficiência energética, a geração de energia solar, o aproveitamento do biogás, o monitoramento remoto, a automação operacional e a utilização de previsões climáticas na programação dos sistemas.

No campo ambiental, podem ser adotadas ações de recuperação de nascentes, proteção de áreas de recarga, restauração de vegetação ciliar e implantação de soluções baseadas na natureza.

Essas medidas precisam ser selecionadas de acordo com as características de cada sistema. Afinal, uma solução eficiente em uma bacia sujeita a secas prolongadas pode não ser suficiente para uma cidade vulnerável a enchentes rápidas.

Por que o assunto é estratégico para o Brasil

A estrutura brasileira de gestão das águas está baseada em bacias hidrográficas, usos múltiplos, descentralização e participação de governos, usuários e sociedade civil.

Os planos de recursos hídricos devem estabelecer metas relacionadas à quantidade e à qualidade da água, além de articular a gestão hídrica com políticas ambientais, territoriais e de uso do solo. 

O Plano Nacional de Recursos Hídricos 2022–2040 também reforça a necessidade de integração entre políticas, setores e escalas territoriais. Entre os assuntos considerados estão crises hídricas, fontes alternativas, eventos extremos, gestão transfronteiriça e impactos climáticos. 

Ao mesmo tempo, estudos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico mostram que a mudança do clima pode alterar a disponibilidade hídrica nas diferentes regiões brasileiras.

Essas informações podem apoiar decisões relacionadas à gestão dos mananciais, diversificação das fontes, uso racional da água e adaptação da infraestrutura. 

O Plano Clima brasileiro, com horizonte até 2035, também possui um eixo específico de adaptação para recursos hídricos. Dessa maneira, profissionais capazes de conectar saneamento, clima, gestão de riscos e financiamento tendem a ocupar funções cada vez mais estratégicas. 

Indicador global mostra que o avanço ainda é lento

A meta 6.5 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável prevê a implementação da gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis até 2030.

Entretanto, o acompanhamento internacional mostra que o avanço permanece abaixo do necessário. A média global do indicador aumentou de 49% em 2017 para 57% em 2023

O resultado demonstra que ainda existem lacunas relacionadas a instituições, participação, instrumentos de gestão, coordenação e financiamento.

Cursos de capacitação não substituem reformas institucionais, investimentos ou decisões públicas. Contudo, ajudam a formar profissionais preparados para planejar e implementar mudanças com maior qualidade técnica.

Quem pode participar

A formação é aberta a participantes de qualquer país e direcionada especialmente a:

  • Profissionais da gestão de recursos hídricos;
  • Trabalhadores do setor de saneamento;
  • Representantes de órgãos públicos;
  • Gestores e formuladores de políticas;
  • Integrantes de comitês de bacia;
  • Organizações da sociedade civil;
  • Representantes do setor privado;
  • Profissionais de clima e sustentabilidade;
  • Desenvolvedores de capacitação.

É recomendável possuir conhecimentos básicos sobre ciência climática e seus impactos sobre a água. Como o curso é ministrado em inglês e classificado como intermediário, será necessário acompanhar leituras e questionários técnicos nesse idioma. 

O certificado comprova a conclusão da capacitação oferecida pelos organizadores. Entretanto, não deve ser confundido com diploma de graduação, pós-graduação ou habilitação profissional regulamentada no Brasil.

Serviço do curso

Nome: Integrated Water Resources Management for Climate Resilience
Modalidade: online e autoinstrucional
Custo: gratuito
Idioma: inglês
Nível: intermediário
Carga horária estimada: 20 horas
Dedicação recomendada: cinco a seis semanas
Estrutura: cinco módulos
Aprovação: mínimo de 60% em cada questionário
Tentativas: até três por módulo
Certificado: gratuito após a conclusão
Inscrições: até 15 de novembro de 2026

As informações sobre prazo, conteúdo e organizações responsáveis foram confirmadas na página oficial da edição 2026 publicada pela UNEP-DHI. 

Capacitação pode transformar planejamento em prevenção

A gestão integrada dos recursos hídricos ganha importância à medida que os eventos extremos deixam de ser tratados como ocorrências excepcionais.

Para o setor de saneamento, preparar-se significa identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em desabastecimento, danos aos ativos, aumento dos custos ou perda de confiança da população.

A formação oferece uma visão ampla sobre planejamento, tecnologias, governança e financiamento. Dessa forma, pode contribuir para que profissionais compreendam melhor a relação entre bacia hidrográfica, infraestrutura, clima, serviços públicos e desenvolvimento.

Mais do que acumular um certificado, o principal valor está em transformar o aprendizado em revisão de processos, integração de equipes, melhoria de projetos e decisões baseadas em riscos.

Afinal, a gestão integrada dos recursos hídricos somente produz resultados quando deixa o campo conceitual e passa a orientar investimentos, prioridades e decisões reais.

Fontes