Fraudes no saneamento: como recuperar receita

O combate às fraudes deixou de ser uma atividade restrita à fiscalização de hidrômetros. Nas companhias modernas de saneamento, o processo envolve inteligência de dados, gestão do parque de medidores, análise cadastral, inspeção em campo, produção de evidências, regularização da ligação, faturamento, cobrança e acompanhamento da reincidência.

Essa visão integrada é necessária porque nem toda água não faturada desapareceu em vazamentos. Parte do volume foi consumida, porém não foi corretamente registrada ou cobrada. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico considera que as perdas aparentes são formadas pela submedição causada por imprecisões e pelo consumo não autorizado, que inclui fraudes em medidores e ligações clandestinas. 

Portanto, uma companhia pode melhorar redes, controlar pressões e reparar vazamentos, mas continuar perdendo receita se mantiver cadastros desatualizados, hidrômetros inadequados, leitura deficiente e baixo controle sobre irregularidades comerciais.

Além disso, as perdas permanecem elevadas no país. Os dados do SINISA 2025, referentes a 2024, indicam perdas totais na distribuição entre 32,4% no Centro-Oeste e 49,4% no Norte. Já as perdas de faturamento variaram de 34,5% no Sul a 58,6% no Norte. Embora essas perdas não sejam causadas apenas por fraude, os números demonstram o tamanho do espaço disponível para aumentar a eficiência operacional e comercial do saneamento brasileiro. 

O que deve ser considerado fraude

Fraude é uma ação intencional destinada a impedir, reduzir ou distorcer a medição e o faturamento do consumo real. Entre as ocorrências mais comuns estão:

  • ligações clandestinas diretamente na rede;
  • desvios executados antes do hidrômetro;
  • religação realizada sem autorização após interrupção;
  • violação ou retirada de lacres;
  • manipulação, inversão ou dano proposital ao medidor;
  • derivação para abastecimento de outro imóvel;
  • uso de água por imóvel não cadastrado;
  • alteração irregular de instalações sob responsabilidade da prestadora.

Entretanto, o processo comercial precisa separar fraude de falha técnica. Um hidrômetro antigo que passou a registrar menos água pode gerar perda aparente, mas não comprova, por si só, uma ação intencional do usuário. Da mesma maneira, consumo baixo, leitura zerada ou lacre rompido são indícios que justificam uma inspeção, porém não substituem a comprovação da irregularidade.

Essa distinção é essencial para a segurança jurídica. A Resolução Arsae-MG nº 149 define o Termo de Ocorrência de Irregularidade como o documento emitido durante a fiscalização que deve conter os elementos necessários à apuração e à caracterização da conduta. Em outras palavras, não basta afirmar que existia uma suspeita: é necessário demonstrar o que ocorreu, onde ocorreu e como a medição ou o faturamento foram afetados. 

No caso do saneamento baiano, a Resolução Agersa nº 002/2017 estabelece que compete à prestadora realizar a ligação, a medição, a apuração dos consumos, o faturamento, a cobrança e o monitoramento dos serviços. A norma também trata da utilização irregular por imóvel não cadastrado e das situações que podem levar à interrupção do fornecimento, respeitados os procedimentos de notificação. 

Por que a fraude custa mais do que o volume não faturado

A consequência mais visível é a perda de receita. Contudo, o prejuízo é mais amplo.

Primeiramente, toda água consumida de forma irregular precisou ser captada, tratada, bombeada e distribuída. Assim, mesmo sem faturamento, houve gastos com energia, produtos químicos, pessoal, manutenção e infraestrutura.

Além disso, ligações clandestinas podem causar vazamentos, queda de pressão, entrada de contaminantes e danos à rede. Consequentemente, clientes regulares podem enfrentar intermitência mesmo quando a produção de água seria suficiente para atender o setor.

Outro efeito aparece nos indicadores. Quando o volume distribuído aumenta, mas o volume medido ou faturado não acompanha esse crescimento, os índices de perdas pioram. Dessa forma, uma fraude localizada em um imóvel produz reflexos no desempenho do distrito de medição, da unidade operacional e da companhia.

Por fim, o custo tende a ser compartilhado. Uma empresa de saneamento que perde receita precisa sustentar seus investimentos com uma base faturada menor. Isso pressiona a capacidade de expansão, renovação de ativos e manutenção do serviço. Portanto, combater fraudes também significa preservar a justiça tarifária entre os usuários.

Como funciona o processo completo de combate à fraude

1. Organização e qualidade dos dados

A primeira ferramenta não é o veículo de fiscalização. É o banco de dados comercial.

O sistema precisa reunir, no mínimo:

  • histórico de leituras;
  • volumes medidos e faturados;
  • categoria e número de economias;
  • atividade exercida no imóvel;
  • idade, capacidade e tecnologia do hidrômetro;
  • registros de cortes e religações;
  • ordens de serviço anteriores;
  • alterações cadastrais;
  • ocorrências de impedimento de leitura;
  • inspeções, denúncias e irregularidades anteriores;
  • localização geográfica da ligação.

Antes de aplicar inteligência artificial, deve-se verificar a qualidade dessas informações. Endereços duplicados, hidrômetros associados à matrícula errada, categorias comerciais cadastradas como residenciais e ordens de serviço não encerradas geram falsos alertas.

Assim, a implantação deve começar pela higienização cadastral. Sem essa etapa, o sistema pode indicar uma suposta fraude quando, na realidade, existe um erro de cadastro, uma troca de medidor não registrada ou uma leitura lançada incorretamente.

2. Criação de uma matriz de risco

Depois da organização dos dados, cada ligação recebe uma pontuação de risco.

Os principais sinais são:

  • queda abrupta de consumo;
  • consumo zerado em ligação ativa;
  • consumo inferior ao de imóveis semelhantes;
  • leituras repetidas durante vários ciclos;
  • consumo incompatível com a atividade econômica;
  • redução logo após corte, cobrança ou troca cadastral;
  • hidrômetro constantemente parado;
  • religação identificada sem ordem concluída;
  • histórico de violação ou reincidência;
  • denúncia acompanhada de informações verificáveis.

Contudo, o modelo não deve analisar apenas um indicador. Um restaurante pode reduzir o consumo porque encerrou as atividades. Uma escola pode apresentar queda durante as férias. Uma indústria pode mudar seu processo produtivo. Por isso, a análise deve combinar comportamento histórico, sazonalidade, cadastro, localização e comparação com grupos semelhantes.

A Copasa informou que utiliza inteligência artificial para cruzar o perfil de consumo com o porte dos estabelecimentos. Essa análise foi usada para identificar locais posteriormente fiscalizados em operação conjunta com as polícias Civil e Militar. A companhia também oferece um canal de autodenúncia para que ligações irregulares sejam regularizadas. 

3. Priorização das inspeções

Nem todo alerta deve gerar uma visita. A fiscalização precisa priorizar as ligações com maior probabilidade de irregularidade e maior potencial de recuperação.

Uma ligação residencial com pequena variação possui impacto diferente de um grande consumidor que reduziu drasticamente o consumo sem mudança aparente na atividade. Portanto, recomenda-se considerar três dimensões:

Probabilidade: chance de a anomalia estar relacionada a uma irregularidade.

Impacto: volume e receita potencialmente não registrados.

Urgência: risco operacional, sanitário, reincidência ou possibilidade de alteração das evidências.

Dessa forma, as ordens de serviço são distribuídas de maneira mais eficiente. A produtividade não deve ser medida apenas pelo número de inspeções, mas principalmente pela proporção de inspeções que resultaram em irregularidades comprovadas.

4. Fiscalização em campo

A equipe deve chegar ao imóvel com as informações cadastrais, o histórico de consumo, a identificação do hidrômetro e o motivo da inspeção.

Durante a atividade, devem ser registrados:

  • data, horário e localização;
  • identificação dos fiscais;
  • situação do padrão;
  • número e leitura do hidrômetro;
  • identificação dos lacres;
  • fotografias gerais e aproximadas;
  • descrição objetiva do que foi encontrado;
  • peças ou equipamentos retirados;
  • providências realizadas;
  • presença ou ausência do responsável;
  • recusa de assinatura, quando ocorrer;
  • nova configuração da ligação após a regularização.

Os aplicativos de mobilidade de campo são fundamentais porque registram fotos, coordenadas, assinatura, horário e formulários padronizados. Além disso, reduzem a digitação posterior e permitem que o processo seja enviado rapidamente para análise.

Entretanto, fotografias isoladas não são suficientes. A imagem precisa estar associada à matrícula, ao endereço, à ordem de serviço, ao medidor e à descrição técnica. Caso contrário, torna-se difícil demonstrar que aquela evidência pertence à ligação analisada.

5. Análise técnica e comercial

Após a inspeção, uma área responsável deve verificar se as evidências realmente caracterizam irregularidade.

Uma boa prática consiste em separar quem realizou a fiscalização de quem aprova a cobrança. Essa divisão reduz decisões automáticas, conflitos e erros de interpretação.

A análise deve responder:

  • qual irregularidade foi comprovada;
  • qual dispositivo regulatório foi descumprido;
  • como a irregularidade afetou a medição;
  • qual período pode ser considerado;
  • qual método de cálculo será aplicado;
  • quais custos podem ser cobrados;
  • como o usuário será notificado;
  • quais canais de defesa estarão disponíveis.

A Iguá, por meio da operação Sanessol, informa que as denúncias são investigadas pela fiscalização e que, quando a fraude é constatada, é emitido um Termo de Ocorrência de Irregularidade. O procedimento divulgado também prevê atuação jurídica, registro de ocorrência, custos administrativos, substituição de equipamentos danificados e apuração retroativa conforme a regulação local. 

6. Regularização física

A prioridade deve ser interromper a irregularidade e restabelecer uma medição confiável.

Dependendo da ocorrência, podem ser necessários:

  • retirada da ligação clandestina;
  • reconstrução do ramal;
  • reinstalação do padrão;
  • substituição do hidrômetro;
  • instalação de novo lacre;
  • mudança da posição do medidor;
  • redimensionamento do equipamento;
  • atualização cadastral;
  • nova ligação regular.

Em áreas de vulnerabilidade social, a regularização precisa ser integrada às políticas comerciais e sociais da companhia. A repressão sem alternativa de entrada no sistema regular pode gerar novas ligações clandestinas. Portanto, parcelamento, tarifa social, campanhas de regularização e atendimento comunitário são instrumentos complementares.

Quais ferramentas são utilizadas pelas companhias

Sistema comercial e faturamento

O sistema comercial é o núcleo do processo. Ele controla matrículas, leituras, faturamento, débitos, cortes, religações, serviços e histórico do cliente.

Para combater fraudes, o sistema deve permitir regras automáticas, como:

  • queda superior a determinado percentual;
  • leitura atual igual à anterior;
  • consumo incompatível com a categoria;
  • religação sem ordem;
  • medidor com vida útil ou desempenho crítico;
  • ligação inativa que voltou a apresentar consumo;
  • repetição de impedimentos de acesso.

Além disso, o sistema precisa receber o resultado da inspeção e manter todo o histórico da irregularidade.

Business Intelligence e inteligência artificial

As ferramentas de BI transformam milhões de leituras em painéis, mapas e listas de risco. Já os modelos de machine learning identificam padrões que seriam difíceis de perceber manualmente.

Um trabalho técnico apresentado no Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental descreveu a gestão de grandes consumidores da Compesa com telemetria, monitoramentos horários, diários e mensais, técnicas de machine learning e cerca de 23 tipos de relatórios. Entre eles estão comparação sazonal, calibração da telemetria, dimensionamento do hidrômetro e controle do abastecimento em tempo real. 

Contudo, a inteligência artificial deve apoiar a decisão, e não condenar automaticamente o usuário. O resultado é uma indicação de risco que precisa ser validada por dados, inspeção e procedimento regulatório.

Geoprocessamento

O GIS permite visualizar ligações suspeitas, setores com aumento de perdas, concentração de ocorrências e proximidade entre fraudes.

Essa visão territorial ajuda a identificar:

  • ruas com muitas ligações clandestinas;
  • áreas ocupadas sem cadastro;
  • imóveis abastecidos por redes não mapeadas;
  • setores onde o volume distribuído não corresponde ao faturado;
  • reincidência organizada;
  • necessidade de ações sociais e cadastrais.

Além disso, o mapa facilita a roteirização das equipes, reduzindo deslocamentos e aumentando a quantidade de inspeções produtivas.

Telemetria, AMR e AMI

A leitura remota amplia significativamente a capacidade de detectar anomalias. Em vez de uma leitura mensal, passa a ser possível observar perfis diários ou horários.

Os principais modelos são:

AMR: leitura remota coletada por aproximação, veículo ou dispositivo móvel.

AMI: infraestrutura que transmite dados automaticamente para a companhia.

Telemetria de grandes consumidores: monitoramento contínuo de imóveis com elevado consumo ou importância financeira.

A Sanepar estabelece, em seu manual de automação, que dados de medição podem ser armazenados e enviados diariamente ou por exceção quando ultrapassam valores definidos. Para situações de controle, a transmissão pode ocorrer em tempo real. O documento admite comunicação celular por 3G ou 4G, além de fibra óptica ou rádio, conforme a necessidade operacional. 

Já a Sanepar também anunciou testes de telemetria de consumo para hidrômetros de baixo custo e projetos de detecção inteligente de perdas, demonstrando que a digitalização tende a chegar gradualmente às ligações menores. 

Gestão do parque de hidrômetros

Uma companhia não consegue medir corretamente se o hidrômetro estiver velho, superdimensionado, subdimensionado ou inadequado ao perfil de consumo.

Por isso, a gestão deve considerar:

  • idade;
  • volume total registrado;
  • classe metrológica;
  • diâmetro;
  • vazão mínima;
  • perfil horário;
  • posição de instalação;
  • histórico de manutenção;
  • tendência de submedição;
  • criticidade financeira.

A troca indiscriminada por idade pode desperdiçar recursos. Por outro lado, manter medidores com desempenho degradado gera perda contínua. Portanto, o planejamento deve combinar idade, volume acumulado, perfil do cliente e testes de desempenho.

Canais de denúncia e autodenúncia

Os canais de denúncia ajudam a localizar ocorrências que os dados ainda não identificaram. Entretanto, toda denúncia precisa ser tratada como informação inicial, e não como prova.

Em julho de 2026, a Copasa informou ter desconectado cerca de 60 ligações clandestinas em Conceição do Mato Dentro após monitoramentos e averiguações. A ação contou com apoio da Polícia Militar e da Guarda Municipal. A empresa também manteve canal sigiloso para recebimento de denúncias. 

Por outro lado, a autodenúncia pode reduzir custos de fiscalização e acelerar a regularização. Quando bem regulamentada, pode prever isenção ou redução de penalidades, desde que a ligação seja corrigida e cadastrada.

Como atuam algumas das principais empresas de saneamento

Sabesp

A Sabesp classifica fraudes e submedição de hidrômetros como perdas aparentes. Além disso, a companhia vem apresentando estratégias integradas de redução de perdas e tecnologias com sensores e inteligência artificial para identificação de anomalias. Embora parte dessas tecnologias tenha foco em vazamentos, a integração entre dados operacionais e comerciais fortalece a seleção das áreas de fiscalização. 

Copasa

A Copasa combina inteligência de dados, inteligência artificial, fiscalização, comunicação social, autodenúncia e operações com forças de segurança. Em 2024, a empresa informou que cerca de 40% de seu índice de perdas estaria relacionado às fraudes nas ligações, segundo a metodologia e os dados divulgados pela própria companhia. 

Sanepar

A Sanepar atua com recadastramento, combate a ligações clandestinas, gestão do parque de hidrômetros, telemetria e monitoramento de pressão e vazão. Além disso, a autoleitura compara o valor informado com o histórico do imóvel e pode gerar verificação em campo quando existe divergência. 

Compesa

A Compesa investiu em monitoramento de grandes consumidores, telemetria, comunicação segura, substituição de medidores e análise de dados. O modelo demonstra como grandes clientes podem ser tratados como uma carteira específica, com acompanhamento mais frequente e medidores dimensionados de acordo com o perfil real. 

Iguá

As operações da Iguá divulgam campanhas educativas, inspeção ativa, recebimento de denúncias, TOI, regularização e cobrança conforme a regulação local. O modelo mostra a importância de integrar fiscalização e jurídico, principalmente nos casos em que há necessidade de registro de ocorrência ou contestação administrativa. 

Embasa

Na Bahia, a Embasa desenvolve sua atuação comercial sob as regras da Agersa. A regulação atribui à prestadora a responsabilidade pela medição, apuração, faturamento, cobrança e monitoramento, além de estabelecer obrigações dos usuários e medidas aplicáveis às utilizações irregulares. Portanto, o combate à fraude precisa estar alinhado não apenas aos procedimentos internos, mas também à Resolução Agersa nº 002/2017. 

Quanto custa implantar um programa antifraude

Não existe um preço único. O custo depende do número de ligações, da qualidade do cadastro, da tecnologia escolhida e do nível de digitalização da empresa de saneamento.

Os principais componentes são:

Custos de tecnologia

  • licenças de BI e analytics;
  • desenvolvimento do modelo de risco;
  • integração com o sistema comercial;
  • plataforma GIS;
  • armazenamento em nuvem ou servidores;
  • dispositivos de telemetria;
  • conectividade;
  • segurança cibernética;
  • tablets, câmeras e aplicativos de campo.

Custos operacionais

  • fiscais;
  • analistas comerciais;
  • veículos;
  • combustível;
  • materiais para regularização;
  • hidrômetros;
  • caixas, lacres e conexões;
  • treinamento;
  • laboratório de medidores;
  • atendimento e análise de recursos.

Custos de sustentação

  • manutenção de dispositivos;
  • transmissão de dados;
  • renovação de licenças;
  • suporte;
  • substituição de baterias;
  • recalibração;
  • auditoria da qualidade dos dados.

Como referência pública, a Compesa celebrou contrato de R$ 1.919.077,85 para 12 meses de implantação, manutenção e operação de uma solução de telemetria para grandes consumidores. O escopo incluiu comunicação segura, instalação e substituição de medidores. Esse valor não deve ser aplicado diretamente a outra companhia, pois a quantidade de pontos, a arquitetura e os serviços contratados podem ser diferentes. Entretanto, demonstra que um projeto corporativo de telemetria pode alcançar investimentos de sete dígitos. 

Como calcular o retorno financeiro

O retorno deve considerar a receita incremental efetivamente recebida, e não apenas o valor lançado em fatura.

Uma fórmula simplificada é:

Resultado anual = receita adicional recebida + custos operacionais evitados – custo anual do programa

O SINISA 2025 apontou receita operacional direta média de água de R$ 5,74 por metro cúbico. Assim, a recuperação de 100 mil metros cúbicos anuais representaria, como referência nacional aproximada, R$ 574 mil em receita direta de água. O valor real depende da estrutura tarifária, da categoria dos clientes, das faixas de consumo, do faturamento de esgoto e da arrecadação. 

Além disso, o cálculo deve incluir:

  • aumento permanente do consumo medido após a regularização;
  • cobrança retroativa permitida pela regulação;
  • recuperação de custos de equipamentos danificados;
  • redução de deslocamentos improdutivos;
  • economia na leitura de grandes consumidores;
  • diminuição de reclamações e retrabalhos;
  • prevenção de novas irregularidades.

Por isso, a melhor métrica não é apenas “valor cobrado”. A companhia deve acompanhar o valor arrecadado e o aumento sustentável do faturamento nos ciclos posteriores.

Como implantar o programa em etapas

Etapa 1 — Governança

Deve-se criar uma equipe com representantes do comercial, operação, tecnologia, jurídico, regulação, atendimento e auditoria.

Também é necessário definir quem:

  • gera os alertas;
  • autoriza inspeções;
  • realiza a fiscalização;
  • analisa evidências;
  • aprova cobranças;
  • julga contestações;
  • acompanha a arrecadação;
  • monitora reincidências.

Etapa 2 — Diagnóstico

O diagnóstico deve avaliar cadastro, sistemas, hidrômetros, processos, contratos, normas regulatórias e capacidade das equipes.

Além disso, recomenda-se elaborar um balanço hídrico por setor para separar perdas reais de aparentes. Sem essa divisão, a empresa pode enviar fiscais para uma área cujo problema principal é vazamento ou falta de macromedição.

Etapa 3 — Piloto

O piloto deve ser implantado em um setor com:

  • macromedição confiável;
  • cadastro razoavelmente atualizado;
  • histórico de consumo;
  • concentração de grandes consumidores;
  • indícios de perdas aparentes;
  • capacidade de fiscalização.

O objetivo não é começar pelo maior território, mas por uma área onde o resultado possa ser medido.

Etapa 4 — Padronização

Antes de ampliar o projeto, devem ser padronizados:

  • regras de risco;
  • modelos de ordem;
  • roteiro de inspeção;
  • fotografias obrigatórias;
  • TOI;
  • memória de cálculo;
  • notificação;
  • recurso;
  • encerramento da ocorrência;
  • monitoramento pós-regularização.

Etapa 5 — Expansão

A expansão deve priorizar os grupos com melhor retorno:

  1. grandes consumidores;
  2. ligações com consumo zerado;
  3. imóveis com queda anormal;
  4. reincidentes;
  5. setores com alto desequilíbrio;
  6. áreas com crescimento sem aumento correspondente de matrículas.

Indicadores que precisam ser acompanhados

Um programa de combate à fraude no saneamento deve medir:

  • percentual de inspeções positivas;
  • custo por inspeção;
  • custo por fraude comprovada;
  • volume recuperado;
  • receita faturada;
  • receita arrecadada;
  • aumento médio após regularização;
  • prazo entre alerta e inspeção;
  • prazo entre inspeção e cobrança;
  • percentual de contestações;
  • percentual de cobranças canceladas;
  • reincidência;
  • fraudes por mil ligações;
  • retorno sobre o investimento;
  • tempo de retorno do projeto.

Também é recomendável acompanhar a precisão do modelo de risco. Caso muitas inspeções não encontrem irregularidade, os critérios precisam ser ajustados.

Erros que fragilizam o combate às fraudes

O primeiro erro é confundir suspeita com comprovação.

O segundo é fiscalizar sem histórico cadastral e sem informação suficiente.

O terceiro é produzir fotos sem vinculação clara com o imóvel.

O quarto é cobrar sem memória de cálculo compreensível.

O quinto é não oferecer canal de contestação.

O sexto é considerar encerrado o caso logo após a regularização.

Além disso, a meta baseada apenas em número de multas pode criar distorções. O objetivo deve ser recuperar medição, regularizar clientes e proteger a receita do saneamento, e não simplesmente aumentar autuações.

O futuro será baseado em prevenção

A tendência é que as companhias avancem da fiscalização reativa para a detecção contínua.

Com hidrômetros inteligentes, será possível identificar:

  • interrupção súbita do registro;
  • fluxo incompatível com o histórico;
  • consumo durante períodos incomuns;
  • retorno de abastecimento sem ordem;
  • alteração do comportamento após intervenção;
  • sinais de manipulação em dispositivos compatíveis;
  • grandes diferenças entre macromedição e micromedição.

Entretanto, tecnologia sem processo continuará produzindo resultados limitados. O dado precisa gerar alerta, o alerta precisa gerar análise, a análise precisa gerar inspeção e a inspeção precisa resultar em decisão tecnicamente sustentada.

Portanto, o programa mais eficiente de combate à fraude no saneamento não é necessariamente aquele que possui mais equipamentos. É aquele que integra dados confiáveis, profissionais capacitados, procedimentos objetivos, regulação, atendimento e monitoramento permanente.

Quando essa integração ocorre, a companhia reduz perdas aparentes, amplia o faturamento, melhora a arrecadação e protege os clientes regulares. Ao mesmo tempo, fortalece a capacidade de investir em abastecimento, esgotamento sanitário e universalização.

Fontes