7 ferramentas de TI que transformam o saneamento

A tecnologia da informação deixou de ocupar apenas uma posição de suporte administrativo. Em uma companhia moderna de saneamento, os sistemas digitais passaram a interferir diretamente no abastecimento de água, no tratamento de esgoto, no controle de perdas, na manutenção dos ativos, no faturamento e no relacionamento com os clientes.

Entretanto, a transformação digital não acontece simplesmente com a aquisição de softwares. O resultado surge quando processos, equipamentos, pessoas e dados são integrados em uma arquitetura coerente. Portanto, o verdadeiro desafio não está em possuir muitas ferramentas, mas em evitar ilhas tecnológicas que não compartilham informações.

Uma companhia pode ter um bom sistema comercial, por exemplo, mas continuar apresentando dificuldades se o cadastro do cliente não estiver conectado ao hidrômetro, ao imóvel, à rede de distribuição e às ordens de serviço. Da mesma forma, uma central de controle pode receber milhares de alarmes e, ainda assim, não conseguir priorizar as ocorrências críticas.

Em 2026, sete grupos de ferramentas se destacam como base da digitalização do saneamento: GIS, SCADA e telemetria, medição inteligente, gestão de ativos, sistemas corporativos e comerciais integrados, plataformas de dados com inteligência artificial e cibersegurança de TI e OT.

Por que a TI passou a ser essencial para o saneamento

Uma companhia de água e esgoto administra milhares ou milhões de ativos espalhados por uma área extensa. Redes subterrâneas, ramais, válvulas, bombas, reservatórios, estações elevatórias, hidrômetros, laboratórios, imóveis e clientes precisam funcionar como partes de um mesmo sistema.

Além disso, as operações ocorrem durante 24 horas por dia. Uma bomba pode falhar durante a madrugada, a pressão pode cair em determinado setor, um reservatório pode atingir um nível crítico e um vazamento pode permanecer oculto durante semanas.

Consequentemente, uma operação baseada apenas em inspeções manuais, planilhas e sistemas isolados tende a reagir depois que o problema já ocorreu. Por outro lado, uma operação digitalizada consegue detectar comportamentos anormais, gerar alertas, comparar históricos e orientar as equipes antes que a falha provoque desabastecimento ou extravasamento.

A Sanepar, por exemplo, estabelece em seu manual de automação a utilização de controladores programáveis, protocolos como Modbus e Profinet e sistemas de telemetria conectados a estruturas de supervisão. A companhia diferencia as arquiteturas conforme o número de ligações e o porte do sistema de abastecimento. (Sanepar⁠)

1. GIS e cadastro técnico: o mapa inteligente da companhia

O GIS, ou Sistema de Informação Geográfica, organiza informações dentro de mapas digitais. Entretanto, um GIS voltado ao saneamento não deve ser tratado apenas como um desenho das tubulações.

A ferramenta precisa representar os ativos, suas características e suas conexões. Uma rede deve possuir informações como material, diâmetro, profundidade, data de implantação, condição, setor de abastecimento e histórico de manutenção.

Além disso, válvulas, registros, hidrantes, poços de visita, ligações, reservatórios e estações precisam receber uma identificação única. Dessa forma, o mesmo ativo pode ser consultado pelo setor de projetos, pela operação, pela manutenção, pelo atendimento e pelo sistema de gestão patrimonial.

O ArcGIS Utility Network, por exemplo, permite modelar tubulações, válvulas, equipamentos e zonas de pressão, além de analisar a conectividade da rede. Em uma ocorrência de rompimento, a solução pode ajudar a identificar os registros que devem ser fechados e os clientes potencialmente afetados. (ArcGIS⁠)

Como o GIS funciona no saneamento

Primeiramente, as redes e os ativos são cadastrados em uma base geográfica. Em seguida, regras de conectividade são aplicadas para impedir situações tecnicamente impossíveis, como uma tubulação conectada a um componente de diâmetro incompatível.

Posteriormente, equipes de campo passam a consultar e atualizar as informações por tablets ou celulares. Assim, uma válvula localizada durante uma manutenção pode ter sua posição corrigida diretamente no mapa.

O GIS também pode ser integrado ao sistema comercial. Com isso, torna-se possível identificar quais clientes estão conectados a determinado trecho de rede, qual rota de leitura percorre uma área e quais imóveis serão afetados por uma interrupção.

Benefícios esperados

Um cadastro técnico confiável reduz o tempo gasto para localizar redes, melhora o planejamento de obras, apoia manobras operacionais e evita escavações desnecessárias.

Além disso, o GIS constitui a base para modelagem hidráulica, gêmeos digitais, gestão de perdas e priorização da substituição de redes.

Principais ferramentas

Entre as soluções encontradas no mercado estão ArcGIS Utility Network, QGIS com bancos espaciais, Hexagon, Bentley, Smallworld e plataformas desenvolvidas internamente.

A escolha deve considerar a capacidade de integração, a quantidade de usuários, a necessidade de trabalho em campo e a qualidade do cadastro já existente.

2. SCADA, telemetria e IoT: operação em tempo real

O SCADA é o sistema de supervisão, controle e aquisição de dados. Ele recebe informações de sensores e equipamentos instalados em estações, reservatórios, redes e unidades operacionais.

Em uma arquitetura típica, sensores medem pressão, vazão, nível, turbidez, temperatura, corrente elétrica e outros parâmetros. Em seguida, os sinais são processados por controladores lógicos programáveis, as chamadas CLPs, ou por unidades remotas de telemetria.

Os dados são enviados por fibra óptica, rádio, rede celular, satélite ou outra infraestrutura de comunicação. Finalmente, as informações chegam ao SCADA e são apresentadas em telas operacionais.

A Sanepar documenta o uso de controladores das famílias Siemens S7 e Schneider Modicon, além de protocolos Modbus RTU, Modbus TCP e Profinet. A companhia também registra uma base relevante de sistemas de supervisão na plataforma GE Proficy iFIX. (Sanepar⁠)

O que o SCADA pode controlar

A ferramenta pode acompanhar níveis de reservatórios, acionar bombas, alterar referências de pressão, controlar válvulas e emitir alarmes.

Entretanto, a automação deve ser cuidadosamente projetada. Um alarme sem prioridade, por exemplo, pode se perder entre centenas de notificações. Por isso, cada alerta precisa possuir limite, severidade, responsável e procedimento de resposta.

Além disso, os dados históricos devem ser armazenados em um historiador. Dessa maneira, torna-se possível comparar o comportamento atual com dias anteriores e descobrir tendências de desgaste ou redução de desempenho.

SCADA não é apenas uma tela

O valor do SCADA depende dos instrumentos de campo, da confiabilidade da comunicação, da lógica dos controladores e da qualidade das informações.

Portanto, a implantação precisa incluir calibração dos sensores, padronização de telas, gestão de alarmes, redundância, energia de emergência e capacitação dos operadores.

Além do GE Proficy iFIX, são utilizadas soluções como AVEVA System Platform, Siemens WinCC, Schneider EcoStruxure, Rockwell FactoryTalk e Ignition. A plataforma Ignition, por exemplo, adota arquitetura baseada em servidor, integração com bancos SQL e comunicação com diferentes equipamentos industriais. (Inductive Automation⁠)

3. Medição inteligente: o hidrômetro como fonte de dados

A medição inteligente muda a função tradicional do hidrômetro. Em vez de fornecer apenas uma leitura mensal, o equipamento passa a registrar e transmitir consumos em intervalos menores.

Uma arquitetura completa possui quatro componentes principais: hidrômetro ou módulo de comunicação, rede de transmissão, plataforma de recebimento e sistema de gestão dos dados de medição.

No modelo AMR, geralmente ocorre a leitura remota em um sentido. Já no modelo AMI, existe uma infraestrutura mais ampla, com comunicação frequente, gestão dos dispositivos e possibilidade de interação com outros sistemas.

A Sabesp informa que seus hidrômetros inteligentes combinam Internet das Coisas, inteligência artificial e integração de sistemas. A tecnologia permite leitura remota, monitoramento do consumo e geração de informações para a companhia e para o cliente. (Sabesp⁠)

O que pode ser identificado

Quando o consumo permanece constante durante toda a madrugada, por exemplo, pode existir um vazamento interno. Da mesma forma, uma interrupção repentina na transmissão pode indicar falha, violação ou problema de comunicação.

A medição inteligente também ajuda a identificar consumo reverso, submedição, tentativa de fraude, hidrômetro parado, perfil incompatível e mudança repentina no comportamento do usuário.

A BRK informou a utilização de telemetria em 12 mil hidrômetros distribuídos por cinco estados. Em um ano, a companhia monitorou remotamente 21,7 bilhões de litros. A solução também foi utilizada para indicar suspeitas de vazamentos, irregularidades e ocorrências de falta de água. (BRK Ambiental⁠)

Integração com o processo comercial

Os dados precisam chegar ao sistema comercial e ao sistema de atendimento. Assim, uma ocorrência de consumo atípico pode gerar análise preventiva antes da emissão da conta.

Além disso, grandes consumidores podem receber acompanhamento mais próximo, enquanto áreas com elevado número de impedimentos de leitura podem ser priorizadas.

Porém, a implantação em massa exige cuidado com a vida útil das baterias, cobertura de comunicação, proteção contra violação, homologação metrológica, interoperabilidade e custo de reposição.

4. Gestão de ativos e manutenção preditiva

Uma companhia de saneamento administra ativos de diferentes idades, fabricantes e condições. Sem um sistema estruturado, as informações ficam espalhadas em planilhas, documentos e na memória dos profissionais.

O EAM, ou sistema de gestão de ativos empresariais, cria um cadastro único para bombas, motores, transformadores, painéis, válvulas, redes, veículos, estações e demais equipamentos.

Cada ativo pode receber informações sobre localização, criticidade, custo, fabricante, garantia, peças, inspeções, falhas, horas de funcionamento e ordens de serviço.

O IBM Maximo, por exemplo, reúne gestão de ativos, manutenção, inspeções e serviço de campo. A plataforma pode integrar dados históricos e em tempo próximo do real para apoiar manutenção baseada na condição e identificação de anomalias. (IBM⁠)

Da manutenção corretiva para a preditiva

Na manutenção corretiva, a equipe atua depois da falha. Na preventiva, as intervenções seguem períodos previamente definidos. Já a manutenção preditiva considera a condição real do equipamento.

Uma bomba pode ser monitorada por vibração, temperatura, pressão, corrente e rendimento. Caso os indicadores apresentem deterioração, o sistema pode recomendar uma inspeção.

Consequentemente, a companhia ganha tempo para planejar a parada, separar peças, contratar apoio e evitar uma emergência.

Entretanto, a manutenção preditiva não elimina a análise técnica. Algoritmos podem indicar um risco, mas a decisão precisa considerar criticidade, redundância, impacto no abastecimento e disponibilidade de equipes.

Elementos necessários

A implantação exige cadastro patrimonial confiável, hierarquia dos ativos, matriz de criticidade, planos de manutenção, gestão de materiais e aplicativo para equipes de campo.

Também é importante integrar o EAM ao ERP, ao GIS e ao SCADA. Dessa maneira, o sistema consegue relacionar custo, localização, condição e histórico operacional.

5. ERP, CIS e CRM: integração da gestão ao cliente

Esses três sistemas possuem funções diferentes, embora precisem trabalhar de forma integrada.

O ERP gerencia processos corporativos, como contabilidade, finanças, contratos, compras, estoque, patrimônio e recursos humanos.

O CIS, por sua vez, é o sistema de informação do cliente específico para utilities. Ele controla cadastro, ligação, hidrômetro, leitura, consumo, tarifa, faturamento, arrecadação, cobrança e serviços comerciais.

Já o CRM organiza os canais de relacionamento, as solicitações, as reclamações e o histórico de contato.

O Oracle Utilities Customer Care and Billing, por exemplo, contempla cadastro, dispositivos, atividades de campo, leitura, faturamento, tarifas, pagamentos e cobrança. A plataforma também oferece modelos analíticos voltados às operações comerciais das utilities. (Oracle Docs⁠)

O exemplo da Aegea

A Aegea implantou o SAP S/4HANA em um projeto que envolveu dezenas de empresas, usuários-chave, parceiros, consultores e mais de 800 usuários finais treinados.

Além do SAP, a arquitetura apresentada pela companhia incluiu ferramentas de geoprocessamento, gestão documental, eficiência energética, eventos em redes de distribuição e análise de ativos. O objetivo era integrar informações dentro de uma estrutura denominada Infra Inteligente. (Aegea⁠)

Esse exemplo demonstra que o ERP não deve ser visto isoladamente. Para gerar valor no saneamento, ele precisa trocar informações com sistemas de engenharia, operação, manutenção e clientes.

A visão única do cliente

Quando os sistemas estão integrados, o atendente consegue visualizar o imóvel, o hidrômetro, as leituras, as contas, os serviços executados e as ocorrências operacionais.

Assim, o cliente não precisa repetir a mesma informação em diferentes canais. Além disso, a equipe de campo recebe uma ordem de serviço completa e devolve o resultado imediatamente ao sistema.

Um estudo de caso divulgado pela Oracle e pela Wipro descreve a transformação de uma companhia brasileira de água por meio de módulos Oracle Fusion Cloud. O projeto integrou ERP, suprimentos, frota, orçamento, planejamento e analytics, registrando melhora de 15% na velocidade das decisões e de 20% na precisão da previsão de peças. A companhia não foi identificada na publicação. (Oracle⁠)

6. Dados, BI, inteligência artificial e gêmeo digital

Uma plataforma de dados reúne informações produzidas por diferentes sistemas. SCADA, GIS, ERP, CIS, CRM, laboratório, meteorologia e gestão de ativos passam a alimentar um ambiente comum.

Esse ambiente pode assumir a forma de data warehouse, data lake ou lakehouse. Posteriormente, ferramentas de BI transformam os dados em indicadores e painéis.

O Power BI, por exemplo, possui licenciamento por usuário, além de opções baseadas em capacidade. Em 2026, o preço público divulgado no Brasil era de R$ 80,20 mensais por usuário para o plano Pro e R$ 137,40 para o Premium por usuário, sem impostos. Entretanto, em um projeto de saneamento, a maior parcela do investimento normalmente está na integração, organização e governança dos dados, e não na tela do painel. (Microsoft⁠)

Onde a inteligência artificial ajuda

A IA pode detectar anomalias de pressão, estimar risco de rompimento, prever demanda, classificar reclamações, identificar contas fora do padrão e priorizar inspeções.

A Iguá informa a utilização da plataforma Smartmetric Sentinel, que combina machine learning e regras operacionais para detectar e priorizar anomalias de consumo. A companhia também relata o uso de software para detectar vazamentos, falhas e desvios hidráulicos a partir da integração entre telemetria e macromedição. (Iguá SA⁠)

Além disso, a empresa utiliza aplicativo georreferenciado para pesquisa de vazamentos e ferramenta móvel para registrar rotinas de estações de tratamento, inclusive em locais sem conexão.

O que é um gêmeo digital

Um gêmeo digital é uma representação virtual de um ativo, processo ou sistema real. Ele não se resume a um modelo tridimensional.

Para funcionar, o gêmeo precisa receber dados atualizados e representar relações entre ativos. Assim, torna-se possível testar cenários, analisar riscos e comparar decisões antes de aplicá-las na operação.

O Azure Digital Twins, por exemplo, utiliza modelos e grafos para representar ambientes conectados. A plataforma pode receber dados de IoT, manter históricos e integrar-se a ferramentas de armazenamento e análise. (Microsoft Learn⁠)

Entretanto, um gêmeo digital não deve ser o primeiro passo. Sem cadastro técnico, sensores confiáveis, integração e governança, a ferramenta se transforma apenas em uma visualização sofisticada.

7. Cibersegurança de TI e OT

Quanto mais conectada se torna uma companhia, maior é a necessidade de proteção.

A TI corporativa reúne e-mails, servidores, sistemas comerciais, ERP, bancos de dados e estações de trabalho. Já a OT, ou tecnologia operacional, inclui SCADA, CLPs, IHMs, sensores e sistemas que controlam processos físicos.

No saneamento, um incidente de cibersegurança pode ultrapassar o ambiente administrativo. Um acesso indevido a uma interface de operação pode alterar referências, interromper equipamentos ou comprometer o processo de tratamento.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e a CISA alertam para vulnerabilidades em interfaces homem-máquina expostas sem proteção adequada. Segundo os órgãos, acessos remotos não autorizados podem permitir a visualização e alteração de configurações em tempo real. (US EPA⁠)

Controles prioritários

A primeira medida consiste em inventariar os ativos de TI e OT. Afinal, não é possível proteger um equipamento desconhecido.

Em seguida, devem ser implantados segmentação de redes, autenticação multifator, controle de privilégios, acesso remoto seguro, monitoramento, cópias de segurança, gestão de vulnerabilidades e plano de resposta.

Além disso, as cópias de segurança precisam ser testadas. Manter um arquivo de backup sem verificar sua restauração cria uma falsa sensação de segurança.

O NIST destaca quatro áreas técnicas importantes para companhias de água e esgoto: acesso remoto seguro, segmentação, gestão de ativos e integridade dos dados. (NCCoE⁠)

Quanto custa implantar essas tecnologias

O custo para implantar ferramentas de tecnologia em uma companhia de saneamento varia bastante. Afinal, o investimento depende do porte da empresa, da quantidade de usuários, do número de ativos, da extensão da área atendida, do volume de dados, das integrações necessárias e da qualidade dos cadastros existentes.

Além disso, os grandes fornecedores normalmente não trabalham com preços fixos. As propostas são elaboradas conforme o escopo de cada projeto, a quantidade de licenças, o nível de personalização, a infraestrutura necessária e os serviços de implantação, treinamento e suporte.

Por essa razão, os valores apresentados a seguir devem ser tratados como faixas referenciais para planejamento. Eles não substituem cotações formais e podem variar significativamente de acordo com a realidade de cada companhia de saneamento.

Custo de implantação de GIS e cadastro técnico

Um projeto localizado de GIS, destinado a um município, unidade regional ou setor operacional, pode exigir investimentos entre R$ 400 mil e R$ 2 milhões.

Esse valor pode incluir licenças, configuração do sistema, implantação do banco de dados geográfico, migração de informações, treinamento e aplicativos para equipes de campo.

Por outro lado, um programa corporativo de GIS, envolvendo toda a área de concessão de uma companhia, pode variar entre R$ 5 milhões e R$ 30 milhões.

Entretanto, o custo pode aumentar quando existe a necessidade de realizar levantamento de campo, georreferenciamento, atualização de redes, localização de válvulas, cadastramento de ramais e correção de informações antigas.

Em muitos casos, o levantamento e a atualização do cadastro técnico custam mais do que o próprio software.

Custo de SCADA, telemetria e IoT

A implantação de SCADA e telemetria pode variar entre R$ 15 mil e R$ 80 mil por ponto automatizado.

Um ponto pode representar um reservatório, uma estação elevatória, um medidor de vazão, uma válvula controlada ou uma unidade de tratamento.

Esse investimento pode envolver sensores, controladores, painéis elétricos, equipamentos de comunicação, instalação, programação, infraestrutura de energia e integração com a central de controle.

Em projetos corporativos, envolvendo dezenas ou centenas de unidades operacionais, o investimento pode ficar entre R$ 5 milhões e R$ 50 milhões.

Todavia, sistemas de maior complexidade podem ultrapassar essas faixas, principalmente quando exigem modernização elétrica, substituição de equipamentos antigos, redundância de comunicação, servidores, centros de controle e proteção cibernética.

O custo da licença do SCADA representa apenas uma parte do projeto. Em muitos casos, os instrumentos, os painéis, os controladores e a instalação em campo concentram a maior parcela do investimento.

Custo da medição inteligente

A implantação de medição inteligente pode variar entre R$ 500 e R$ 2 mil por ligação.

Essa faixa pode incluir o hidrômetro, o módulo de comunicação, a instalação, a infraestrutura de transmissão, a plataforma de dados e a integração com o sistema comercial.

Em um projeto com 100 mil ligações, por exemplo, o investimento pode ficar entre R$ 50 milhões e R$ 200 milhões.

Entretanto, o custo depende do modelo de hidrômetro, da tecnologia de comunicação, da necessidade de concentradores, da cobertura de rede e das condições físicas das ligações existentes.

Também devem ser considerados os custos recorrentes com conectividade, substituição de baterias, manutenção dos equipamentos, licenciamento da plataforma, armazenamento dos dados e reposição de dispositivos.

Por isso, a companhia deve analisar não apenas o custo de aquisição, mas o custo total durante toda a vida útil da solução.

Custo de gestão de ativos e manutenção

Um projeto localizado de gestão de ativos pode exigir investimento entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões.

Essa implantação pode abranger cadastro de equipamentos, criação da hierarquia de ativos, planos de manutenção, matriz de criticidade, ordens de serviço e aplicativos para equipes de campo.

Já um programa corporativo, envolvendo todas as unidades operacionais e milhares de ativos, pode variar entre R$ 8 milhões e R$ 40 milhões.

O custo aumenta quando existe necessidade de integrar a ferramenta ao ERP, ao GIS, ao SCADA, ao estoque e aos sistemas de compras.

Além disso, a instalação de sensores para manutenção preditiva representa uma parcela adicional. Equipamentos críticos podem exigir sensores de vibração, temperatura, corrente, pressão e desempenho energético.

Portanto, o projeto não deve ser tratado apenas como implantação de software. Ele envolve revisão de processos, organização do cadastro e mudança na forma de trabalho das equipes de manutenção.

Custo de ERP, CIS e CRM

Projetos localizados de ERP, CIS ou CRM podem variar entre R$ 2 milhões e R$ 10 milhões.

No entanto, uma transformação corporativa envolvendo processos financeiros, comerciais, logísticos, patrimoniais e de relacionamento com o cliente pode exigir investimentos entre R$ 20 milhões e R$ 150 milhões.

Em companhias de grande porte, o valor pode ser ainda maior, principalmente quando o projeto envolve milhões de clientes, migração de sistemas antigos, desenvolvimento de regras tarifárias, integração com bancos, aplicativos, canais digitais, cobrança e atendimento.

Além das licenças, devem ser considerados os custos de consultoria, desenvolvimento, testes, migração de dados, treinamento, infraestrutura, suporte e operação assistida.

Projetos dessa natureza também exigem forte participação das áreas de negócio. Afinal, falhas no sistema comercial podem afetar diretamente faturamento, arrecadação, atendimento e imagem da companhia.

Custo de plataformas de dados, BI, IA e gêmeo digital

Um projeto inicial de dados e inteligência analítica pode variar entre R$ 500 mil e R$ 3 milhões.

Esse investimento pode contemplar integração de bases, criação de painéis, construção de indicadores, armazenamento em nuvem e desenvolvimento de modelos analíticos.

Por outro lado, um programa corporativo envolvendo data lake, inteligência artificial, análise preditiva e gêmeo digital pode variar entre R$ 5 milhões e R$ 30 milhões.

O custo do software de visualização costuma representar apenas uma pequena parte do investimento. O maior esforço normalmente está na integração, limpeza, padronização e governança dos dados.

Também devem ser considerados os custos com processamento em nuvem, armazenamento, especialistas, treinamento de modelos, atualização das integrações e monitoramento dos resultados.

Um projeto de inteligência artificial pode parecer barato na fase de teste. Entretanto, sua expansão exige dados confiáveis, manutenção contínua e integração com os processos reais da companhia.

Custo de cibersegurança

Um diagnóstico inicial de cibersegurança, acompanhado das primeiras medidas de proteção, pode variar entre R$ 300 mil e R$ 1,5 milhão.

Esse trabalho pode incluir inventário de ativos, análise de riscos, testes de vulnerabilidade, revisão de acessos, criação de políticas e implantação de autenticação multifator.

Em um programa corporativo, envolvendo sistemas administrativos, redes operacionais, SCADA, centros de controle e unidades remotas, o investimento pode variar entre R$ 3 milhões e R$ 25 milhões.

Entretanto, a cibersegurança deve ser tratada como uma despesa permanente. A companhia precisa manter monitoramento, atualização de sistemas, cópias de segurança, testes, treinamento e resposta a incidentes.

Também pode ser necessário contratar um centro de operações de segurança, conhecido como SOC, além de ferramentas de proteção de rede, identidade, dispositivos e ambientes industriais.

Portanto, o custo não termina com a implantação inicial.

Custos que costumam ser esquecidos

Ao elaborar o orçamento, algumas companhias consideram apenas o preço do software. Contudo, vários custos adicionais podem representar parcela significativa do projeto.

Entre eles estão levantamento de campo, atualização de cadastro, substituição de equipamentos, adequação elétrica, comunicação de dados, integração com sistemas antigos e migração das informações.

Também devem ser incluídos treinamento, suporte técnico, infraestrutura de servidores, armazenamento, licenças anuais, manutenção, baterias, chips de comunicação e atualização de versões.

Além disso, a implantação pode exigir equipes internas dedicadas ao projeto. Mesmo quando esse trabalho não aparece diretamente no contrato, ele representa um custo para a companhia.

Como calcular o retorno do investimento

O investimento em tecnologia deve estar relacionado a resultados mensuráveis.

Em um projeto de medição inteligente, por exemplo, podem ser avaliados a redução de leituras estimadas, o aumento do faturamento, a identificação de vazamentos e a diminuição dos impedimentos de leitura.

Em um projeto de gestão de ativos, podem ser medidos a redução de falhas, o aumento da disponibilidade dos equipamentos, a diminuição das horas extras e a redução dos atendimentos emergenciais.

Já no GIS, podem ser avaliados o tempo para localizar redes, a redução de escavações indevidas, a produtividade das equipes e a melhoria no planejamento de obras.

No SCADA, os indicadores podem incluir redução do consumo de energia, prevenção de extravasamentos, melhoria no controle dos reservatórios e redução do tempo de resposta.

Portanto, a análise não deve considerar apenas quanto custa implantar. Também deve demonstrar quanto a companhia perde por não possuir a tecnologia.

A implantação por etapas reduz riscos

A forma mais segura de implantar essas tecnologias é começar com projetos-piloto.

Uma companhia pode escolher uma estação, um setor de abastecimento, uma unidade regional ou um grupo de clientes para validar a solução.

Depois disso, os resultados devem ser medidos e comparados com a situação anterior.

Caso o piloto demonstre ganhos operacionais, comerciais ou financeiros, a solução pode ser expandida gradualmente.

Essa abordagem reduz riscos, evita investimentos excessivos e permite corrigir falhas antes da implantação em larga escala.

No saneamento, o melhor projeto não é necessariamente o mais caro. O melhor investimento é aquele que resolve um problema relevante, integra-se aos processos existentes e gera resultados que podem ser comprovados.

Como implantar sem transformar a tecnologia em problema

1. Começar pelo resultado esperado

A companhia deve definir problemas concretos, como reduzir perdas, diminuir falhas de bombas, melhorar a leitura ou reduzir o prazo das ordens de serviço.

Uma aquisição sem objetivo mensurável tende a gerar uma plataforma pouco utilizada.

2. Criar uma arquitetura corporativa

Os papéis de GIS, SCADA, EAM, ERP, CIS, CRM e plataforma de dados precisam ser definidos antes das integrações.

Cada informação deve possuir um sistema responsável. O cadastro do ativo, por exemplo, não pode apresentar valores diferentes em quatro bancos de dados.

3. Padronizar os identificadores

Reservatórios, bombas, redes, hidrômetros, imóveis e clientes precisam possuir identificadores únicos.

Essa medida parece simples, porém é uma das bases mais importantes para integrar o saneamento físico ao ambiente digital.

4. Implantar projetos-piloto

Um setor de abastecimento, uma estação ou um grupo de grandes consumidores pode ser utilizado para validar a solução.

O piloto deve medir disponibilidade dos dados, redução do tempo de resposta, economia, aceitação das equipes e estabilidade da integração.

5. Implantar segurança desde o início

A cibersegurança não deve ser acrescentada depois da automação. A arquitetura precisa nascer com segmentação, controle de acesso, registros de eventos e planos de contingência.

6. Capacitar profissionais do saneamento

A transformação digital depende de profissionais que entendam redes, tratamento, medição, faturamento e manutenção.

Consequentemente, a equipe de TI não deve trabalhar isolada. Operação, comercial, engenharia, manutenção e atendimento precisam participar do desenho dos processos.

7. Expandir apenas depois de comprovar valor

A expansão deve ocorrer por etapas, acompanhada por indicadores técnicos e financeiros.

A Sanepar informou investimento de R$ 14,8 milhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação em 2025, incluindo monitoramento inteligente, detecção de perdas e testes de telemetria de baixo custo. O exemplo mostra que a digitalização deve ser tratada como programa contínuo, e não como compra isolada. (Sanepar⁠)

Os erros mais frequentes

O primeiro erro é digitalizar dados ruins. Um mapa incorreto continuará incorreto depois de migrado para uma plataforma moderna.

O segundo é comprar tecnologia antes de revisar o processo. Dessa forma, práticas ineficientes são apenas reproduzidas dentro de um novo sistema.

O terceiro é ignorar a integração. Quando cada área adquire sua própria solução, os profissionais passam a digitar os mesmos dados repetidamente.

O quarto é medir o projeto apenas pela entrega técnica. Um sistema instalado não significa um sistema utilizado. Por isso, os indicadores devem mostrar redução de perdas, produtividade, disponibilidade, receita recuperada ou melhora no atendimento.

Finalmente, outro erro relevante é subestimar o custo recorrente. Licenças, telecomunicação, baterias, suporte, armazenamento, cibersegurança e atualização dos equipamentos precisam fazer parte do planejamento.

A integração será o principal diferencial

As sete ferramentas não competem entre si. Na realidade, elas precisam formar um ecossistema.

O GIS informa onde o ativo está. O SCADA mostra como ele está funcionando. O EAM registra sua condição e sua manutenção. O ERP controla custos e materiais. O CIS relaciona o ativo ao cliente e à receita. A plataforma de dados cruza as informações. Por fim, a cibersegurança protege toda a estrutura.

Assim, a melhor tecnologia para o saneamento não é necessariamente a ferramenta com maior quantidade de recursos. É aquela que se integra aos processos, resolve um problema operacional e entrega informação confiável no momento da decisão.

Em 2026, companhias que organizarem seus dados, modernizarem seus ativos e aproximarem TI das áreas operacionais e comerciais estarão mais preparadas para reduzir perdas, aumentar produtividade e melhorar a experiência dos clientes.

Portanto, a transformação digital do saneamento não depende apenas de inteligência artificial ou de equipamentos sofisticados. Ela começa com cadastro confiável, processos claros, equipes capacitadas e integração. A tecnologia amplia o conhecimento dos profissionais, mas não substitui a experiência necessária para operar sistemas essenciais à população.

Fontes consultadas