Monitoramento contínuo da qualidade da água na prática

A qualidade da água pode mudar em poucos minutos

Uma análise laboratorial representa as condições da água no local, no horário e nas circunstâncias em que a amostra foi coletada. Entretanto, depois que o frasco segue para o laboratório, a captação, o tratamento, a reservação e a distribuição continuam operando.

Nesse intervalo, uma chuva intensa pode elevar a turbidez do manancial. Além disso, a vazão da estação pode variar, a demanda de coagulante pode mudar, um filtro pode iniciar um processo de transpasse e o cloro residual pode diminuir em determinados pontos da rede.

Por essa razão, o monitoramento contínuo da qualidade da água tornou-se uma camada adicional de proteção para os sistemas de abastecimento. A tecnologia permite acompanhar variáveis importantes em tempo real ou em intervalos muito curtos, ajudando as equipes a identificar tendências, anormalidades e falhas operacionais.

Esse acompanhamento não substitui o laboratório. Pelo contrário, cria uma relação complementar. Enquanto a análise laboratorial oferece profundidade, rastreabilidade e confirmação, os instrumentos em linha oferecem frequência, velocidade e visão operacional.

A segurança da água, portanto, depende da integração entre equipamentos confiáveis e profissionais capacitados. Sensores produzem dados, mas são operadores, técnicos, químicos, biólogos, engenheiros, analistas de automação e gestores que transformam esses dados em decisões.

O laboratório continua sendo indispensável

O avanço do monitoramento contínuo da qualidade da água não reduz a importância dos laboratórios. Diversos parâmetros microbiológicos, químicos e toxicológicos ainda exigem coleta, preparação da amostra, reagentes, equipamentos especializados e métodos analíticos reconhecidos.

Metais, agrotóxicos, compostos orgânicos, cianotoxinas, subprodutos da desinfecção e microrganismos específicos, por exemplo, não são completamente controlados por um painel comum de sensores.

Além disso, o laboratório é essencial para:

  • confirmar resultados dos analisadores em linha;
  • verificar possíveis desvios dos sensores;
  • realizar calibrações e comparações;
  • investigar alarmes operacionais;
  • comprovar o atendimento ao padrão de potabilidade;
  • produzir resultados rastreáveis;
  • apoiar decisões sanitárias e regulatórias.

Portanto, o modelo mais seguro não coloca laboratório e automação em lados opostos. O modelo mais avançado integra ambos.

Quais equipamentos podem ser utilizados?

Uma solução de monitoramento contínuo da qualidade da água não é formada por um único aparelho. Na prática, ela combina sensores, analisadores, painéis hidráulicos, controladores, equipamentos de comunicação, softwares e estruturas de proteção.

A configuração depende do objetivo, do ponto de instalação, da qualidade da água, da faixa de medição e da capacidade de manutenção da companhia.

Turbidímetro em linha

O turbidímetro em linha mede continuamente o nível de partículas que interferem na passagem da luz pela água. A medição é especialmente importante na água bruta, na saída dos decantadores, nos filtros e na saída final da ETA.

Na saída individual de cada filtro, o equipamento pode identificar o início de um transpasse antes que a alteração seja claramente percebida em uma amostra coletiva.

Entre os modelos disponíveis no mercado estão equipamentos com tecnologia nefelométrica, óptica ou a laser. Alguns utilizam células de fluxo, enquanto outros realizam medições diretamente no processo.

A Hexis, representante da Hach no Brasil, oferece turbidímetros de processo, como a linha TU5, além de sensores para aplicações com maiores concentrações de sólidos. A empresa informa que os equipamentos podem trabalhar de forma contínua e em conjunto com instrumentos laboratoriais para verificação e calibração. 

A ProMinent também disponibiliza equipamentos para medição de baixa turbidez, incluindo sistemas montados em painel. Segundo a empresa, alguns modelos incorporam compensação de bolhas, autolimpeza e células de fluxo de pequeno volume. 

Analisador de cloro residual

O analisador de cloro residual pode utilizar métodos colorimétricos ou amperométricos.

No método colorimétrico, o equipamento coleta pequenas amostras e realiza automaticamente uma reação semelhante àquela executada em laboratório. Em seguida, a concentração é calculada por leitura óptica.

Já o sensor amperométrico realiza uma medição eletroquímica. Em algumas aplicações, ele reduz o consumo de reagentes, porém pode exigir condições hidráulicas e controles auxiliares específicos.

A Hexis comercializa no Brasil analisadores Hach para cloro livre ou total. Entre as soluções apresentadas pela empresa estão analisadores colorimétricos que utilizam o método DPD e modelos amperométricos sem reagentes. 

A ProMinent oferece sensores, controladores, painéis e sistemas de medição voltados ao acompanhamento e à regulagem do processo de desinfecção. A empresa também disponibiliza sensores de cloro total em diferentes faixas de medição. 

O acompanhamento contínuo do cloro ajuda a reconhecer falhas de dosagem, consumo elevado do desinfetante, mudanças na qualidade da água e perda de residual ao longo da distribuição.

Entretanto, a leitura precisa ser comparada periodicamente com o método de referência definido pela companhia.

Sensores de pH e potencial de oxirredução

Os sensores de pH utilizam eletrodos para medir a atividade dos íons de hidrogênio. Embora o princípio seja conhecido, a aplicação contínua exige atenção ao tipo de eletrodo, à temperatura, à vazão, à condutividade da água e ao posicionamento.

O pH afeta a coagulação, a desinfecção, a correção final, a corrosividade e outras reações químicas. Dessa maneira, alterações relativamente pequenas podem exigir ajustes operacionais.

O potencial de oxirredução, ou ORP, funciona como um indicador complementar das condições oxidantes ou redutoras da água. Ele pode ajudar na avaliação de processos de desinfecção, embora não deva ser interpretado isoladamente.

A Endress+Hauser Brasil oferece sensores digitais com tecnologia Memosens e transmissores que podem receber até oito parâmetros. A solução pode integrar medições de pH, ORP, condutividade, turbidez, oxigênio dissolvido e desinfetantes. 

A ProMinent e a Hexis também possuem sensores e controladores aplicáveis ao acompanhamento contínuo do pH em sistemas de tratamento de água. 

Condutivímetro em linha

A condutividade elétrica está relacionada à presença de íons dissolvidos na água. Portanto, uma mudança inesperada pode indicar alteração da fonte de abastecimento, mistura de águas, entrada de substâncias ou modificação significativa do processo.

Entretanto, a condutividade não identifica qual substância está presente. Ela demonstra que o comportamento da água mudou e que a situação pode exigir investigação.

Existem sensores de contato e sensores indutivos. Os modelos indutivos tendem a ser utilizados em aplicações mais agressivas ou sujeitas a incrustações, enquanto os modelos de contato são comuns em águas de menor condutividade.

Endress+Hauser, ProMinent e Hexis estão entre as empresas com atuação no Brasil que oferecem sensores, transmissores e controladores aplicáveis a esse parâmetro. 

Sondas multiparamétricas

As sondas multiparamétricas reúnem diferentes sensores em um mesmo conjunto. Elas podem medir temperatura, pH, condutividade, oxigênio dissolvido, turbidez, sólidos dissolvidos e outros parâmetros, conforme a configuração.

Essas sondas podem ser instaladas em mananciais, reservatórios, estações de tratamento, pontos de captação ou unidades móveis.

A Alfakit, empresa brasileira sediada em Santa Catarina, disponibiliza equipamentos e soluções para monitoramento ambiental e da qualidade da água, incluindo sondas e instrumentos para medições físico-químicas. A própria empresa destaca a utilização de sondas multiparamétricas para pH, oxigênio dissolvido, condutividade, turbidez e temperatura. 

Embora as sondas sejam versáteis, o profissional responsável deve avaliar o risco de incrustação, biofilme, sedimentação e danos físicos. Em mananciais, uma sonda instalada sem proteção ou sem rotina de limpeza pode apresentar deriva ou perda de resposta.

Analisadores de amônia, nitrato, fluoreto e matéria orgânica

Alguns sistemas necessitam acompanhar parâmetros mais específicos.

A amônia pode afetar o consumo de cloro e, em sistemas que utilizam cloramina, pode indicar risco de nitrificação. O nitrato pode ser monitorado por sensores ópticos ou eletrodos seletivos. O fluoreto pode ser acompanhado com analisadores automáticos, principalmente quando a fluoretação integra o processo.

Além disso, analisadores de carbono orgânico total, conhecidos como TOC, e sensores de absorbância ultravioleta podem ajudar a acompanhar mudanças na matéria orgânica.

A Hexis apresenta ao mercado brasileiro equipamentos Hach para monitoramento de amônia, nitrato, fluoreto, carbono orgânico total, pH, ORP, turbidez e cloro. 

A Endress+Hauser também disponibiliza painéis capazes de integrar sensores para amônio, nitrato, parâmetros associados à matéria orgânica, metais e outras variáveis de processo. 

Esses equipamentos ampliam a capacidade de controle, porém normalmente apresentam custos e exigências de manutenção superiores aos sensores mais simples. Por isso, a aplicação deve estar associada a um risco ou objetivo operacional claramente definido.

Painel de amostragem e condicionamento

Muitos sensores não devem ser colocados diretamente dentro de uma tubulação pressurizada. Nesse caso, uma pequena vazão é desviada para um painel de amostragem.

Esse painel pode conter:

  • regulador de pressão;
  • válvula de controle;
  • rotâmetro;
  • filtro de proteção;
  • câmara de fluxo;
  • sensores;
  • dreno;
  • pontos para coleta manual;
  • recipiente para verificação;
  • proteção elétrica e hidráulica.

O condicionamento correto é tão importante quanto o próprio instrumento. Pressão excessiva, falta de vazão, bolhas de ar, sedimentos ou temperatura inadequada podem comprometer a medição.

Soluções montadas em painel são oferecidas no Brasil por empresas como Endress+Hauser e ProMinent. Esses sistemas podem reunir sensores, transmissores e acessórios em conjuntos preparados para instalação. 

Controladores lógicos programáveis

O controlador lógico programável, conhecido como CLP, recebe os sinais dos instrumentos, executa regras de controle e envia comandos para bombas, válvulas e outros equipamentos.

Por exemplo, o CLP pode:

  1. receber o valor do cloro residual;
  2. comparar a leitura com a faixa operacional;
  3. verificar vazão e condição da bomba;
  4. ajustar a dosagem dentro de limites seguros;
  5. registrar a alteração;
  6. gerar um alarme quando a resposta não for adequada.

Entretanto, o controle automático não deve ser implantado sem intertravamentos. Uma leitura incorreta não pode provocar uma dosagem descontrolada.

A WEG, empresa brasileira com atuação internacional, fornece CLPs, inversores, partidas eletrônicas, sistemas de automação e plataformas digitais aplicáveis ao saneamento. Suas soluções também permitem monitoramento de motores e sistemas de bombeamento. 

Telemetria e sistema supervisório

A telemetria transmite os dados do ponto de medição para uma central. Essa comunicação pode ocorrer por fibra óptica, rádio, rede móvel, rede industrial, LoRaWAN ou outras tecnologias.

O sistema supervisório, frequentemente chamado de SCADA, apresenta as informações em telas operacionais. Ele pode mostrar tendências, alarmes, estado dos equipamentos, níveis, vazões, pressões e parâmetros de qualidade.

Entretanto, colocar um dado na tela não significa que ele esteja sendo bem gerenciado. Para produzir resultado, a companhia precisa definir:

  • limites de alerta;
  • limites de ação;
  • níveis de prioridade;
  • responsáveis pelo atendimento;
  • procedimentos de resposta;
  • tempo máximo para verificação;
  • regras para retirada do sensor de serviço;
  • registros das providências adotadas.

O monitoramento contínuo da qualidade da água somente se transforma em segurança quando o alarme gera uma ação organizada.

Historiadores de dados, LIMS e plataformas analíticas

O historiador armazena dados de processo em alta frequência. Dessa maneira, torna-se possível analisar tendências, comparar períodos e investigar ocorrências.

Já o LIMS gerencia o fluxo de trabalho do laboratório, incluindo amostras, métodos, resultados, aprovações e rastreabilidade.

Uma arquitetura avançada pode integrar:

  • sensores em linha;
  • CLPs;
  • sistema supervisório;
  • historiador;
  • LIMS;
  • sistema de manutenção;
  • plataforma de gestão;
  • painéis de indicadores.

Dessa maneira, quando um sensor identifica uma alteração, a equipe pode relacionar o evento às análises laboratoriais, às manobras executadas, às ordens de manutenção e às reclamações dos usuários.

Fornecedores que podem apoiar companhias brasileiras

O mercado possui fabricantes, representantes, integradores e empresas de automação capazes de participar de projetos de monitoramento contínuo da qualidade da água.

Entre os fornecedores com presença no Brasil, destacam-se:

Hexis e Hach

A Hexis disponibiliza instrumentos laboratoriais e analisadores Hach para turbidez, cloro, fluoreto, amônia, nitrato, sólidos, pH, ORP e carbono orgânico total.

A combinação entre instrumentos laboratoriais e equipamentos de processo permite aproximar as rotinas de verificação e acompanhamento contínuo. 

Endress+Hauser Brasil

A Endress+Hauser oferece sensores, transmissores, painéis multiparamétricos e tecnologias digitais aplicáveis ao tratamento de água e esgoto.

Os transmissores da linha Liquiline podem receber diferentes parâmetros e concentrar as medições em uma única arquitetura. 

ProMinent Brasil

A ProMinent atua com sensores, controladores, painéis, bombas dosadoras e plataformas digitais. Essa integração permite unir medição, controle e dosagem.

A empresa oferece soluções para turbidez, pH, cloro e outros parâmetros importantes no tratamento. 

Alfakit

A Alfakit é uma empresa brasileira que atua com equipamentos para análises e monitoramento ambiental.

Suas soluções podem apoiar medições de campo, sondas multiparamétricas, análises físico-químicas e projetos que exijam equipamentos nacionais e suporte técnico no país. 

WEG

A WEG pode participar principalmente da camada de automação, acionamento, supervisão e monitoramento dos ativos.

Em um projeto completo, sensores de qualidade podem ser conectados aos CLPs, painéis, sistemas de comunicação e plataformas digitais da automação. A companhia também possui experiências documentadas de monitoramento remoto de motores em sistemas de saneamento. 

A escolha de um fornecedor, entretanto, não deve considerar apenas o preço de aquisição. Devem ser avaliados suporte local, disponibilidade de peças, capacidade de calibração, consumo de reagentes, vida útil das membranas, treinamento, protocolos de comunicação, segurança digital e custo total do ciclo de vida.

Companhias que já avançaram no monitoramento contínuo

Cagece monitora ETAs móveis em tempo real

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará implantou acompanhamento remoto em tempo real nas ETAs móveis instaladas em Paracuru, Trairi, Pacujá e Forquilha.

Segundo a Cagece, o sistema supervisório permite visualizar variáveis como pressão, vazão, turbidez e pH, além das condições dos equipamentos de bombeamento.

Antes da implantação, os dados eram consultados por meio de fichas preenchidas pelos operadores. Com o novo sistema, as informações passaram a ser exportadas e comparadas com os registros de campo, aumentando a agilidade e a confiabilidade.

A iniciativa valoriza o trabalho dos profissionais que atuaram na automação, na operação e na gestão dessas unidades. A experiência também demonstra que a digitalização não retira a importância do operador. Ao contrário, oferece instrumentos melhores para que ele acompanhe o processo e aja com rapidez. 

A Cagece também implantou automação e monitoramento em tempo real no sistema de abastecimento de Lavras da Mangabeira, acompanhando etapas desde a captação até a distribuição. 

BRK acompanha qualidade e operação em Cachoeiro

A BRK mantém um Centro de Controle Operacional em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo.

O centro acompanha continuamente a captação, as etapas do tratamento, os parâmetros de qualidade, os reservatórios, a distribuição e o sistema de esgotamento sanitário.

A estrutura funciona 24 horas por dia e conta com profissionais responsáveis pela interpretação de vazões, pressões, níveis e indicadores de qualidade da água.

Esse modelo evidencia a importância da união entre tecnologia e equipe técnica. Um centro de controle não é apenas uma sala com telas. Ele representa processos, conhecimento operacional, disciplina de resposta e profissionais preparados para tomar decisões. 

Em Caçador, Santa Catarina, a BRK também informa que monitora a água tratada em tempo real e por meio de análises laboratoriais. A companhia destaca a participação de profissionais qualificados e o acompanhamento da saída do tratamento, dos reservatórios e da rede de distribuição. 

BRK utiliza telemetria em Limeira e Sumaré

Em Limeira, a BRK utiliza sensores e telemetria para acompanhar níveis dos mananciais e transmitir as informações ao sistema supervisório do Centro de Controle Operacional.

Em Sumaré, a concessionária utiliza telemetria para registrar dados de vazão e da água captada, permitindo o acesso às informações em tempo real sem deslocamentos contínuos até os pontos de medição.

As iniciativas valorizam engenheiros, operadores, técnicos de automação e equipes de campo que estruturaram a coleta, a transmissão e o uso das informações. 

Sabesp aplica sensores no monitoramento de córregos

A Sabesp informou possuir sensores de nível em poços de visita e sensores voltados ao monitoramento da qualidade da água em córregos.

Embora essa aplicação esteja relacionada principalmente à vigilância ambiental e ao saneamento integrado, ela demonstra como sensores podem ampliar a capacidade de observação dos corpos hídricos e apoiar respostas mais rápidas. 

A companhia também utiliza sistemas de monitoramento de mananciais e ferramentas digitais para acompanhar as condições dos sistemas produtores. 

Copasa amplia supervisão em tempo real

A Copasa desenvolveu o Sistema Integrado de Supervisão, denominado Copasis. A plataforma acompanha redes de distribuição, unidades de esgoto, níveis de reservatórios e equipamentos de bombeamento.

Embora o sistema tenha forte foco operacional, sua arquitetura representa a base necessária para integrar parâmetros de qualidade, alarmes e informações de processo.

Em Matias Barbosa, a Copasa também modernizou a infraestrutura para permitir o monitoramento remoto das unidades de produção e bombeamento. A companhia destacou que as equipes passaram a visualizar falhas online, reduzindo a dependência de inspeções exclusivamente presenciais. 

Sanepar estrutura monitoramento e gestão de riscos

A Sanepar mantém programas permanentes de monitoramento da qualidade da água e possui diretrizes técnicas para automação, instrumentação e acompanhamento dos sistemas.

O Plano Estratégico Água Segura da companhia também apresenta iniciativas envolvendo sensores, IoT, qualidade da água bruta, monitoramento contínuo e gestão preventiva dos riscos.

O trabalho da Sanepar demonstra que a instrumentação deve estar inserida em uma estratégia maior de segurança da água, e não apenas em aquisições isoladas de equipamentos. 

Aegea e suas concessionárias adotam controle em tempo real

A Águas de Teresina automatizou ativos como poços, reservatórios, elevatórias e unidades de bombeamento. A operação passou a acompanhar os sistemas em tempo real por meio de um Centro de Controle Operacional.

A Aegea também informa utilizar sistemas integrados para monitorar remotamente a distribuição desde a saída do tratamento até os clientes em diferentes operações.

Na Águas Guariroba, em Campo Grande, tecnologias de análise em tempo real, inteligência artificial e ferramentas de detecção foram incorporadas às estratégias de redução de perdas.

Embora parte dessas tecnologias esteja concentrada na eficiência hidráulica, a mesma estrutura de comunicação, supervisão e gestão de dados pode apoiar o acompanhamento da qualidade e da continuidade do abastecimento. 

Como estruturar um projeto de monitoramento contínuo

A implantação deve começar por um problema real, e não pela escolha de uma marca.

A companhia pode iniciar com uma pergunta objetiva:

  • Existe variação frequente de turbidez na água bruta?
  • Os filtros apresentam comportamento desigual?
  • Há dificuldade para controlar o cloro na saída da ETA?
  • O residual diminui excessivamente em setores distantes?
  • Existem reclamações recorrentes de cor, gosto ou odor?
  • A dosagem química permanece fixa apesar das mudanças do processo?

Depois disso, a implantação pode seguir as seguintes etapas:

1. Definição do objetivo

O projeto deve estabelecer o que se pretende melhorar. Um sensor sem objetivo tende a se transformar apenas em um ponto adicional de manutenção.

2. Seleção dos parâmetros

Nem todos os parâmetros precisam ser medidos em todos os pontos. A escolha deve considerar o risco, a utilidade operacional e a capacidade de resposta.

3. Escolha dos locais

A água bruta, a saída dos decantadores, os filtros, a saída da ETA, os reservatórios e os pontos críticos da distribuição possuem objetivos diferentes.

4. Teste de representatividade

O ponto precisa fornecer uma amostra que represente o processo. Linhas com baixa circulação, pressão instável ou acúmulo de sedimentos podem comprometer o resultado.

5. Integração com o laboratório

O laboratório deve participar desde a especificação. Ele ajudará a definir métodos de comparação, tolerâncias, calibrações e procedimentos de confirmação.

6. Definição dos alarmes

É necessário estabelecer limites de atenção, ação e emergência. Também deve existir um procedimento para cada situação.

7. Capacitação

Operadores, técnicos, manutenção, automação e laboratório precisam conhecer o funcionamento e as limitações dos equipamentos.

8. Avaliação dos resultados

Indicadores como disponibilidade do sensor, quantidade de alarmes válidos, tempo de resposta, consumo químico e redução da variabilidade devem ser acompanhados.

Manutenção é parte da medição

Um dos maiores riscos do monitoramento contínuo da qualidade da água é confiar em um sensor que deixou de representar a realidade.

Entre os principais problemas estão:

  • incrustação;
  • biofilme;
  • bolhas;
  • falta de vazão;
  • membrana danificada;
  • reagente vencido;
  • tubulação obstruída;
  • deriva do eletrodo;
  • descalibração;
  • perda de comunicação;
  • falha de energia;
  • alteração indevida da configuração.

Por isso, cada instrumento precisa de um plano de manutenção com frequência de limpeza, verificação, calibração, substituição de componentes e comparação laboratorial.

Também deve existir um indicador de disponibilidade. Um sensor instalado, mas indisponível durante grande parte do tempo, não entrega o benefício esperado.

A automação precisa ser segura

Quando a leitura é utilizada apenas para acompanhamento, uma falha pode gerar perda de informação. Entretanto, quando a medição controla automaticamente a dosagem química, o risco aumenta.

Assim, devem existir:

  • limites máximos e mínimos;
  • intertravamentos;
  • validação por outras variáveis;
  • modo manual seguro;
  • controle de acesso;
  • registro de alterações;
  • alarmes de falha do sensor;
  • lógica para perda de comunicação;
  • procedimentos de contingência.

A segurança digital também precisa ser considerada. Sensores, CLPs, sistemas supervisórios e conexões remotas devem possuir controle de acesso, segmentação de rede, cópias de segurança e atualização controlada.

O maior valor está nas pessoas

O monitoramento contínuo da qualidade da água não é apenas uma pauta de equipamentos. Trata-se, principalmente, de uma evolução na forma como o conhecimento profissional é aplicado.

O operador reconhece alterações que um algoritmo pode não compreender. O técnico de laboratório confirma se a medição é confiável. A manutenção identifica falhas físicas. A automação garante que os sinais sejam transmitidos corretamente. O engenheiro avalia o processo. O gestor organiza recursos, responsabilidades e respostas.

As experiências da Cagece, BRK, Sabesp, Copasa, Sanepar e das concessionárias da Aegea mostram que a inovação acontece quando profissionais de diferentes áreas trabalham de forma integrada.

Por isso, as empresas e equipes que implantam essas soluções devem ser reconhecidas. São elas que transformam instrumentos, cabos, painéis e softwares em proteção sanitária.

Uma nova camada de segurança para o abastecimento

O monitoramento contínuo da qualidade da água permite observar o que acontece entre duas coletas. Ele não identifica automaticamente todos os contaminantes e não elimina a necessidade do laboratório.

Contudo, quando bem projetado, ajuda a reconhecer mudanças mais cedo, reduzir o tempo de resposta, controlar melhor os produtos químicos e compreender o comportamento da ETA e da rede.

A tecnologia mais avançada não é necessariamente aquela que possui o maior número de sensores. A melhor solução é aquela que produz dados confiáveis, recebe manutenção adequada e gera decisões operacionais claras.

Consequentemente, o futuro do controle da qualidade da água será cada vez mais integrado. Laboratório, sensores, automação, telemetria, inteligência de dados e conhecimento profissional funcionarão como partes de uma mesma estrutura.

Nesse processo, o principal investimento continuará sendo a valorização dos profissionais de saneamento. Afinal, são essas pessoas que garantem que cada leitura se transforme em uma ação de proteção à saúde pública.

Fontes consultadas