Mais de 100 mil pessoas de quatro municípios do Sul Fluminense passam a ter seus sistemas de abastecimento acompanhados remotamente, durante 24 horas por dia, a partir de uma nova estrutura instalada em Piraí. O Centro de Controle Operacional da Rio+Saneamento monitora Piraí, Rio Claro, Vassouras e Pinheiral e representa muito mais do que a instalação de computadores e telas: trata-se de uma nova camada de inteligência sobre a operação da água.

Sensores instalados em pontos estratégicos acompanham informações como níveis de reservatórios, pressão das redes e funcionamento de unidades operacionais, incluindo estações de bombeamento. Dessa forma, situações anormais podem ser percebidas mais rapidamente, permitindo que operadores, técnicos, engenheiros e equipes de manutenção direcionem a resposta com informações mais precisas.
Esse detalhe é fundamental.
A tecnologia não substitui o profissional do saneamento. Pelo contrário, aumenta sua capacidade de enxergar o sistema, interpretar comportamentos hidráulicos e tomar decisões antes que determinados problemas ganhem maiores proporções.
Além disso, a implantação ocorre em um momento estratégico. A nova regulação nacional de perdas de água passou a reconhecer formalmente ferramentas como telemetria, sensores de pressão e vazão, modelos de previsão de vazamentos, georreferenciamento e medição inteligente como tecnologias que podem apoiar a redução e o controle de perdas.
Portanto, o novo CCO do Sul Fluminense também ajuda a mostrar para onde está caminhando a operação dos sistemas de abastecimento de água no Brasil.
CCO de Piraí monitora quatro municípios 24 horas por dia
O Centro de Controle Operacional foi instalado em Piraí e passou a concentrar informações relacionadas ao abastecimento do próprio município e também de Rio Claro, Vassouras e Pinheiral.
Esses municípios integram a Regional Metropolitana da Rio+Saneamento juntamente com Itaguaí, Seropédica e Paracambi.
Antes da nova estrutura, as operações agora centralizadas em Piraí eram acompanhadas pelo CCO da concessionária em Itaguaí. Com a regionalização do monitoramento, a expectativa apresentada pela empresa é ampliar o controle do abastecimento e proporcionar maior agilidade às equipes responsáveis pela operação.
Essa proximidade operacional pode ser particularmente importante porque sistemas de abastecimento possuem características locais.
Topografia, extensão das redes, posição dos reservatórios, quantidade de estações elevatórias, distribuição da população, horários de maior consumo e comportamento das pressões podem variar significativamente entre municípios.
Consequentemente, quanto maior o conhecimento sobre essas particularidades, mais qualificada tende a ser a tomada de decisão.
O que o Centro de Controle Operacional realmente monitora?
O funcionamento pode ser explicado de maneira simples.
Em pontos previamente definidos do sistema existem equipamentos capazes de medir determinadas variáveis. Esses dados são transmitidos para o Centro de Controle Operacional, onde ficam disponíveis para acompanhamento pelas equipes.
No caso da estrutura de Piraí, foram divulgados três grupos principais de informações:
- níveis dos reservatórios;
- pressão da água na rede;
- funcionamento de unidades operacionais, como estações de bombeamento.
Cada informação conta uma parte da história do abastecimento.
Quando analisadas conjuntamente, entretanto, elas podem oferecer uma visão muito mais completa do comportamento hidráulico.
Por exemplo, uma redução no nível de um reservatório não significa necessariamente que existe um vazamento.
Ela pode estar relacionada ao aumento do consumo, à redução da vazão de entrada, a uma parada de bombeamento, a uma manobra operacional ou a outras condições do sistema.
Por isso, monitorar é somente a primeira etapa.
É a interpretação realizada pelos profissionais que transforma números em diagnóstico.
Pressão passa a ser observada como variável estratégica
Entre os dados monitorados pelo Centro de Controle Operacional, a pressão possui enorme importância para a gestão da distribuição.
Quando há pressão insuficiente, áreas mais elevadas ou hidráulicamente desfavoráveis podem enfrentar dificuldades de abastecimento.
Por outro lado, pressões excessivas ou mal controladas podem aumentar os esforços sobre tubulações, conexões e demais componentes das redes.
Além disso, mudanças inesperadas no comportamento da pressão podem funcionar como sinais para uma investigação operacional.
Entretanto, novamente, um valor isolado não conta toda a história.
O profissional precisa analisar horário, localização, histórico daquele setor, funcionamento de bombeamentos, níveis dos reservatórios, eventuais manobras e comportamento esperado da rede.
Portanto, a evolução tecnológica valoriza ainda mais profissionais capazes de combinar experiência prática com análise de dados.
Reservatórios deixam de ser pontos praticamente isolados
Outro ganho relevante está no acompanhamento remoto da reservação.
Os reservatórios possuem função fundamental na regularização dos sistemas de abastecimento. Eles ajudam a equilibrar diferenças entre a produção de água e a variação do consumo ao longo do dia.
Consequentemente, seu nível funciona como um importante indicador operacional.
Imagine que determinado reservatório normalmente apresente redução gradual durante o período de maior consumo e recuperação ao longo da madrugada.
Se, em determinado dia, essa recuperação não ocorrer conforme esperado, o comportamento pode acender um alerta.
O problema pode não estar no próprio reservatório.
A causa pode estar na alimentação, no bombeamento, em uma válvula, em uma ocorrência na rede ou em outra parte do sistema.
Com o Centro de Controle Operacional, o valor dessa informação aumenta porque deixa de ser apenas uma leitura pontual.
A tendência passa a importar.
Não basta saber quanto existe de água naquele momento. Torna-se possível avaliar se o volume está subindo, diminuindo ou permanecendo estável.
Para a operação, essa diferença pode representar horas preciosas.
Estações de bombeamento entram na visão integrada
O acompanhamento das estações de bombeamento também possui papel estratégico.
Em sistemas que dependem dessas unidades, uma falha pode se propagar rapidamente.
Primeiro, pode ocorrer redução da vazão bombeada.
Posteriormente, determinado reservatório pode deixar de receber o volume necessário.
Depois, seu nível começa a cair.
Finalmente, regiões abastecidas por aquele reservatório podem sentir redução de pressão ou interrupção do fornecimento.
Esse encadeamento mostra por que rapidez na identificação é tão importante.
Um Centro de Controle Operacional permite perceber parte dessas alterações antes que todo o efeito seja percebido pelo consumidor.
Ainda assim, tecnologia de supervisão não executa sozinha a manutenção de uma bomba.
É necessário mobilizar profissionais.
Eletricistas, mecânicos, técnicos de manutenção, operadores, engenheiros e equipes de campo continuam essenciais para transformar o alerta digital em solução real.
Tecnologia pode ajudar na manutenção preventiva
Um dos benefícios destacados para o novo CCO está justamente na possibilidade de aumentar a eficiência das manutenções preventivas. A estrutura também é associada pela concessionária à redução dos riscos operacionais e da intermitência do abastecimento.
Essa abordagem possui uma diferença importante em relação à manutenção puramente corretiva.
Na corretiva, geralmente existe uma falha e posteriormente ocorre a intervenção.
Na preventiva, procura-se atuar antes da falha.
Quando históricos operacionais começam a ser acumulados, torna-se possível identificar comportamentos recorrentes e equipamentos que exigem maior atenção.
Assim, o Centro de Controle Operacional pode gerar valor não apenas no momento de uma emergência, mas também na preparação da manutenção.
Essa é uma evolução importante na gestão de ativos.
Centro de Controle Operacional e redução de perdas
Outro ponto estratégico do projeto está na redução das perdas de água.
A Rio+Saneamento relaciona a implantação do CCO à redução de perdas, otimização dos recursos hídricos e aumento da segurança operacional.
Entretanto, é importante compreender tecnicamente essa relação.
Um Centro de Controle Operacional não reduz perdas simplesmente por existir.
A redução depende de diversas ações integradas.
Entre elas estão:
- setorização das redes;
- macromedição;
- controle de pressão;
- pesquisa ativa de vazamentos;
- rapidez nos reparos;
- atualização cadastral;
- manutenção de redes e ramais;
- qualidade da micromedição;
- combate a irregularidades;
- análise dos balanços hídricos.
Contudo, existe um elemento comum a praticamente todas essas estratégias: informação.
E é justamente aí que automação, sensores e centros de controle ganham relevância.
ANA reforça papel de sensores e telemetria nas perdas
A conexão entre digitalização e gestão de perdas ganhou ainda mais força regulatória.
A Resolução ANA nº 275, de dezembro de 2025, aprovou a Norma de Referência nº 15/2025, dedicada à redução progressiva e ao controle de perdas nos subsistemas de distribuição de água potável.
A norma estabelece que o diagnóstico de perdas deve trabalhar com balanço hídrico padronizado e indicadores relacionados, entre outros pontos, às perdas por ligação, intermitência e macromedição. Também determina a estruturação de Planos de Gestão de Redução e Controle de Perdas.
Um aspecto merece especial atenção dos profissionais.
A norma menciona expressamente como tecnologias inovadoras os sistemas de telemetria, sensores de pressão, vazão ou ruído, modelos de previsão de vazamentos, softwares de georreferenciamento de perdas e medição inteligente.
Isso significa que tecnologias semelhantes às que sustentam centros de controle estão deixando de ser vistas apenas como modernização desejável.
Elas passam a integrar uma visão regulatória cada vez mais estruturada sobre eficiência e perdas.
Macromedição será cada vez mais importante
A própria Norma de Referência nº 15/2025 define macromedição como a medição dos volumes de água em pontos estratégicos da distribuição, incluindo adutoras, áreas próximas aos reservatórios e distritos de medição e controle.
Seu objetivo inclui subsidiar o balanço hídrico e a identificação de perdas.
Além disso, a Norma de Referência nº 9/2024 da ANA estabelece o índice de macromedição relativo ao volume disponibilizado como um dos indicadores operacionais de Nível II. A mesma norma inclui entre os indicadores principais o índice de perdas de água na distribuição por ligação e o índice de intermitência do abastecimento.
Para os profissionais do setor, a mensagem é relevante.
Medir melhor deixa de ser somente uma iniciativa operacional.
Passa também a integrar uma estrutura nacional de avaliação de desempenho.
Da operação reativa para uma operação antecipatória
Talvez a transformação mais importante proporcionada por um Centro de Controle Operacional esteja no tempo de resposta.
Em um sistema predominantemente reativo, muitas situações seguem uma sequência conhecida:
o problema acontece;
o consumidor percebe;
a reclamação chega;
a equipe investiga;
a causa é localizada;
e, finalmente, inicia-se a intervenção.
Com monitoramento remoto, parte dessa sequência pode começar antes.
Uma redução anormal no nível de um reservatório pode gerar investigação.
Uma alteração relevante de pressão pode chamar atenção dos operadores.
Uma parada em uma unidade de bombeamento pode aparecer no sistema antes que os efeitos avancem sobre toda a região abastecida.
Assim, o objetivo maior não é simplesmente possuir mais tecnologia.
É aumentar o tempo disponível para agir.
E, no abastecimento de água, poucos recursos são tão importantes quanto o tempo.
Eventos climáticos extremos aumentam importância dos CCOs
A concessionária também aponta maior capacidade de resposta diante de ocorrências críticas e eventos climáticos extremos como uma das aplicações da nova estrutura.
Essa função tende a ganhar importância.
Eventos severos podem afetar energia elétrica, captações, instalações operacionais, acessos, redes e diferentes componentes simultaneamente.
Quando várias ocorrências aparecem ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades da gestão é estabelecer prioridades.
Nesse cenário, o Centro de Controle Operacional pode fornecer uma visão consolidada.
Assim, os profissionais conseguem analisar quais reservatórios estão em situação mais crítica, quais regiões apresentam alterações e quais unidades operacionais precisam ser priorizadas.
Isso transforma informação em capacidade de coordenação.
Um CCO precisa produzir conhecimento, não apenas alarmes
Existe, entretanto, um desafio que merece atenção das companhias de saneamento.
Implantar sensores e sistemas supervisórios é apenas o começo.
Um centro moderno não deve se transformar em uma sala repleta de alarmes que aparecem continuamente.
É necessário transformar esses registros em inteligência operacional.
Entre os dados que podem ser utilizados para formar indicadores estão:
- quantidade de ocorrências por setor;
- frequência de alarmes;
- tempo entre identificação e atendimento;
- comportamento histórico das pressões;
- velocidade de recuperação dos reservatórios;
- disponibilidade dos bombeamentos;
- recorrência de falhas;
- duração de intermitências;
- tempo médio de reparo;
- comportamento das perdas.
Com histórico suficiente, a companhia deixa de olhar somente para o que está acontecendo agora.
Ela começa a identificar padrões.
Esse é um dos passos necessários para evoluir da simples supervisão para uma gestão orientada por dados.
Operação e área comercial também podem trabalhar mais próximas
Existe ainda um benefício indireto muitas vezes pouco discutido: a integração entre operação e atendimento ao consumidor.
Quando ocorre um problema no abastecimento, uma das primeiras necessidades dos canais comerciais é compreender o que está acontecendo.
Sem informação operacional atualizada, o atendimento pode receber dezenas ou centenas de manifestações antes de entender a origem da ocorrência.
Um Centro de Controle Operacional bem integrado aos demais processos da companhia pode reduzir essa distância.
Assim, informações sobre áreas afetadas, evolução de reservatórios, intervenções operacionais e recuperação do sistema podem alimentar uma comunicação mais objetiva.
Isso não significa que todos os dados técnicos devam chegar diretamente ao consumidor.
Significa que a companhia passa a ter melhores condições para transformar informação técnica em comunicação útil.
Profissionais do saneamento são o verdadeiro centro do CCO
A inauguração de um Centro de Controle Operacional costuma chamar atenção pelas telas, sensores, computadores e sistemas de automação.
Entretanto, a tecnologia representa apenas uma parte da estrutura.
Quando um nível de reservatório cai de maneira inesperada, alguém precisa interpretar a informação.
Quando a pressão muda, alguém precisa analisar se aquilo representa uma condição normal ou uma anomalia.
Quando uma estação de bombeamento apresenta problema, profissionais precisam avaliar equipamentos, eletricidade, automação e condições hidráulicas.
Quando uma rede rompe, equipes precisam chegar ao local.
Quando acontece uma emergência, gestores precisam priorizar recursos.
Portanto, por trás de cada gráfico existe conhecimento humano.
Quanto mais digitalizado se torna o saneamento, maior tende a ser a necessidade de profissionais preparados para interpretar dados e transformar informação em decisão.
O que o projeto de Piraí sinaliza para o saneamento brasileiro
A implantação do CCO em Piraí demonstra uma tendência que deve ganhar cada vez mais espaço.
A infraestrutura física continuará sendo indispensável.
Redes, adutoras, reservatórios, elevatórias e estações de tratamento permanecem no centro do abastecimento.
Porém, sobre essa infraestrutura física surge uma nova camada: a infraestrutura digital.
Sensores, telecomunicações, sistemas supervisórios, bancos de dados, georreferenciamento, inteligência analítica e sistemas de apoio à decisão tornam-se ferramentas importantes para utilizar melhor os ativos existentes.
Nesse cenário, o Centro de Controle Operacional deixa de ser simplesmente uma sala de comando.
Ele se torna um ponto de convergência entre hidráulica, manutenção, automação, tecnologia da informação, planejamento, operação e atendimento.
Para Piraí, Rio Claro, Vassouras e Pinheiral, a estrutura representa a possibilidade de acompanhar o abastecimento com maior proximidade e rapidez.
Para profissionais de outras companhias, entretanto, existe uma mensagem ainda maior.
A transformação digital no saneamento não acontece quando uma tela é instalada.
Ela acontece quando dados confiáveis chegam às pessoas certas, no momento certo, e permitem que profissionais capacitados tomem decisões melhores.
No final, sensores não abastecem cidades.
Softwares não reparam tubulações.
Sistemas supervisórios não substituem equipes de manutenção.
São os profissionais do saneamento que, utilizando essas ferramentas, fazem o sistema funcionar diariamente.
E justamente por isso a modernização do setor precisa caminhar em duas direções ao mesmo tempo: mais tecnologia e ainda mais valorização, treinamento e desenvolvimento das pessoas responsáveis por transformar essa tecnologia em água chegando à população.
Fontes consultadas
Vale Paraibano RJ — Piraí passa a sediar Centro de Controle Operacional da Rio+Saneamento
Rio+Saneamento — Perfil institucional e municípios atendidos



