Quando o melhor operador de uma companhia de saneamento sai da escala, se aposenta ou muda de função, o risco não está apenas na vaga que ficou aberta. O risco maior está no conhecimento que vai embora com ele. Vai embora a memória de uma manobra crítica. Vai embora a sensibilidade para interpretar um alarme estranho de madrugada. Vai embora a experiência de quem sabe que uma bomba “aparentemente normal” pode estar perto de falhar. Vai embora, sobretudo, o julgamento técnico que manteve o sistema funcionando em situações que nenhum manual explicava por completo.

Por isso, sucessão operacional no saneamento precisa deixar de ser tratada como assunto secundário de gestão de pessoas. Na prática, trata-se de uma agenda estratégica de segurança operacional, continuidade do abastecimento, eficiência financeira, qualidade da água, conformidade regulatória e proteção da saúde pública. Afinal, companhias de saneamento não operam apenas redes, estações, reservatórios e sistemas automatizados. Elas operam riscos. E grande parte desses riscos é controlada diariamente por profissionais experientes, muitas vezes invisíveis para a sociedade, mas essenciais para que a cidade não perceba o problema.
A discussão ganhou força a partir de um alerta publicado pela Water Online, em artigo de Mike Karl, que resume bem o dilema: uma companhia consegue preencher uma vaga, mas não consegue “recontratar” o julgamento que manteve um sistema estável às duas da manhã. O texto apresenta exemplos reais de perda de conhecimento operacional: um alarme de nível alto que apareceu em tela, mas não acionou resposta adequada; uma ocorrência de água suja em que o hidrante certo continha o problema, enquanto o errado poderia espalhá-lo; e um procedimento existente, mas enterrado em documentação que não apareceu no momento crítico. A mensagem é direta: dado sem significado não resolve operação.
Esse ponto é decisivo. Um sistema SCADA informa pressão, vazão, nível, status de bomba, cloro residual, turbidez, pH, alarme e tendência. Um GIS mostra rede, setor, cadastro, válvulas e ativos. Um sistema de manutenção registra ordens de serviço, inspeções e histórico de falhas. Entretanto, nenhum desses sistemas, isoladamente, explica por que um operador experiente ignora vinte alarmes repetitivos e corre para investigar o vigésimo primeiro. Também não explica por que determinada válvula não deve ser fechada em horário de pico, por que um reservatório não pode operar abaixo de certo nível antes de uma manobra, ou por que uma elevatória apresenta risco maior em período chuvoso. A tecnologia mostra o que está acontecendo. O profissional de saneamento interpreta o que aquilo significa.
É exatamente nesse espaço entre dado e decisão que a sucessão operacional no saneamento se torna indispensável. O operador experiente não sabe apenas “apertar botão”. Ele conhece o comportamento do sistema. Sabe quando a água bruta muda de característica antes de chover forte na bacia. Sabe quando a dosagem de coagulante precisa ser ajustada com cautela. Sabe quando uma rede antiga tende a desprender material após alteração brusca de fluxo. Sabe quando o cliente está reclamando de um sintoma que, na verdade, revela um problema hidráulico maior. Portanto, o conhecimento desse profissional é um ativo operacional, não uma memória informal.
O problema é que esse ativo raramente aparece no balanço, no plano de investimentos ou no orçamento anual. Obras entram no CAPEX. Equipamentos entram no patrimônio. Sistemas digitais entram em contratos de tecnologia. Porém, a experiência acumulada por operadores, encanadores, eletromecânicos, laboratoristas, técnicos de manutenção, fiscais, supervisores e equipes comerciais muitas vezes permanece sem método de captura, validação e transmissão. Como resultado, a companhia corre o risco de perder conhecimento crítico justamente quando mais precisa dele.
No Brasil, esse alerta ganha ainda mais relevância porque o setor vive pressão intensa por universalização. O Marco Legal do Saneamento estabelece metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Além disso, a Norma de Referência nº 08/2024 da ANA reforça a necessidade de indicadores, comprovação de metas e avaliação progressiva do atendimento. Ou seja, as companhias terão de expandir sistemas, operar mais ativos, atender mais usuários, reduzir perdas, melhorar processos de tratamento e comprovar desempenho. Entretanto, infraestrutura nova não opera sozinha. Rede nova, ETA nova, ETE ampliada, automação moderna e telemetria avançada continuam dependendo de gente preparada.
A falta de sucessão operacional no saneamento gera custos que nem sempre aparecem com esse nome. O primeiro custo é o retrabalho técnico. Quando o conhecimento não foi preservado, engenheiros e equipes precisam reconstruir a lógica operacional do passado: por que aquele setpoint foi definido, qual condição hidráulica justificava determinada regra, por que uma bomba alterna de certo modo, por que uma manobra foi proibida ou por que uma descarga deve seguir determinada sequência. Esse trabalho consome horas de engenharia, supervisão, operação e manutenção. Além disso, enquanto a resposta não vem, o sistema opera com incerteza.
O segundo custo é o custo da resposta lenta. Em saneamento, minutos e horas importam. Uma falha de recalque pode comprometer reservação. Uma dosagem inadequada pode gerar instabilidade no tratamento. Uma manobra errada pode aumentar a turbidez na rede. Uma elevatória parada pode provocar extravasamento. Uma válvula operada sem contexto pode reduzir pressão em área sensível. Quanto maior o tempo para diagnosticar corretamente, maior a chance de ampliar o impacto. Consequentemente, a ausência de conhecimento operacional pode gerar mais deslocamentos, mais equipes mobilizadas, mais horas extras, mais reclamações, mais desgaste institucional e maior risco regulatório.
O terceiro custo está na energia e nos produtos químicos. Operadores experientes conhecem o ponto de equilíbrio entre segurança, eficiência e qualidade. Em uma ETA, pequenas decisões sobre coagulação, floculação, filtração, lavagem de filtros, carreira de filtração, alcalinidade e desinfecção podem afetar consumo de produto químico e estabilidade do processo. Em sistemas de bombeamento, decisões sobre horário de operação, nível de reservatório, partida de bombas e controle de pressão podem impactar diretamente o consumo de energia. Portanto, quando a companhia perde julgamento operacional, ela também pode perder eficiência econômica.
O quarto custo envolve perdas de água. Em redes de distribuição, a operação qualificada influencia pressões, manobras, setorização, continuidade, resposta a vazamentos, comunicação com campo e proteção de áreas críticas. Uma equipe sem memória operacional pode repetir manobras inadequadas, não reconhecer padrões de rompimento, demorar a isolar setores ou não associar reclamações a eventos hidráulicos. Assim, a sucessão operacional no saneamento também se conecta à redução de perdas reais e aparentes, porque conhecimento de campo ajuda a transformar dado em ação.
O quinto custo é reputacional. A população raramente enxerga a complexidade da operação. Quando abre a torneira e falta água, quando recebe água turva, quando há extravasamento de esgoto ou quando uma obra demora a resolver o problema, a percepção pública recai sobre a companhia. Entretanto, por trás de muitos eventos há uma cadeia de decisões técnicas, algumas acertadas e outras fragilizadas por falta de informação. Dessa forma, preservar conhecimento operacional também é preservar confiança social.
Há ainda um custo humano. Quando a sucessão é mal planejada, o operador novo entra pressionado, inseguro e dependente de tentativa e erro. O veterano, por sua vez, pode ser acionado informalmente o tempo todo, mesmo fora da escala, porque “só ele sabe”. Esse modelo é injusto com os dois. O profissional experiente deveria ser reconhecido, ouvido e valorizado como referência técnica. O profissional mais novo deveria receber mentoria, contexto e ferramentas para aprender com segurança. Logo, sucessão operacional no saneamento não é retirar importância dos veteranos; é transformar sua experiência em legado institucional.
A experiência internacional confirma a urgência. Relatório da EPA sobre força de trabalho no setor de água aponta envelhecimento da mão de obra, dificuldade de recrutamento, desafios de retenção e risco de perda de conhecimento institucional. O documento destaca que parte expressiva dos operadores de utilidades de água nos Estados Unidos estará elegível para aposentadoria na próxima década e que a perda de sobreposição entre profissionais experientes e novos reduz a capacidade de transmissão de conhecimento específico do sistema. Embora o contexto brasileiro seja diferente, o problema é extremamente parecido: saneamento depende de conhecimento local, e conhecimento local não se importa de um sistema para outro como se fosse peça de reposição.
Além disso, a APQC, referência em gestão do conhecimento, mostra que muitas organizações reconhecem o risco da perda de conhecimento, mas poucas têm processos consistentes para capturá-lo. A pesquisa indica que apenas pequena parcela das organizações captura conhecimento de aposentados de forma consistente. Esse dado é especialmente preocupante para o saneamento, porque a operação de água e esgoto combina infraestrutura envelhecida, risco ambiental, saúde pública, ativos dispersos, atendimento contínuo e decisões em tempo real. Portanto, se uma indústria comum já sofre com perda de conhecimento, uma companhia de saneamento pode sofrer ainda mais.
A AWWA também reforça o cenário de pressão. O relatório State of the Water Industry 2026 aponta desafios simultâneos: renovação de infraestrutura, financiamento, disponibilidade de força de trabalho, novas exigências, emergentes preocupações regulatórias e adoção de tecnologias como IA. A entidade também destaca que profissionais de água continuam entregando serviço seguro e confiável mesmo diante de sistemas envelhecidos e demandas crescentes. Essa frase merece atenção: o setor se mantém funcionando porque há profissionais sustentando a operação todos os dias.
Diante disso, o caminho não é romantizar a experiência nem demonizar a tecnologia. O caminho é integrar experiência, método e ferramenta. A sucessão operacional no saneamento precisa capturar o conhecimento onde ele nasce: na passagem de turno, no atendimento emergencial, na ocorrência crítica, na reunião de análise de falha, na partida de uma elevatória, na lavagem de filtro, na manutenção corretiva, no laboratório, no CCO e na conversa entre operador novo e operador veterano. O erro comum é pedir ao profissional experiente: “escreva tudo que você sabe”. Isso não funciona bem, porque muito do que ele sabe já virou instinto. Ele não percebe que aquilo é raro.
Por isso, a captura deve ser guiada por situações concretas. Em vez de perguntar “o que você sabe sobre essa ETA?”, a companhia deve perguntar: “quando esse alarme aparece, o que deve ser verificado primeiro?”, “o que muda sua decisão?”, “qual manobra nunca deve ser feita?”, “qual histórico desse ativo precisa ser lembrado?”, “qual erro já aconteceu antes?”, “qual sinal fraco antecipa uma falha?”, “qual cliente ou área sensível pode ser impactada?”. Assim, a experiência vira conhecimento aplicável.
Esse conhecimento precisa ser organizado em camadas. A primeira camada é o procedimento validado: POP, instrução operacional, plano de contingência, norma interna, regra de segurança. A segunda camada é a experiência operacional: observações dos operadores, histórico de ocorrências, boas práticas locais, cuidados específicos, alertas de campo. A terceira camada é o dado: tendência de SCADA, histórico de manutenção, mapa de rede, telemetria, qualidade da água, reclamações, consumo e pressão. A quarta camada é a inteligência analítica: painéis, alertas, modelos preditivos e IA. Quando essas camadas conversam, o operador recebe contexto. Quando ficam separadas, ele recebe ruído.
A inteligência artificial pode ser uma grande aliada, desde que seja usada com responsabilidade. Ela pode transcrever áudios de operadores, organizar relatos de ocorrência, sugerir relação entre falhas semelhantes, localizar procedimentos, resumir histórico de ativo, criar trilhas de treinamento e entregar contexto no momento do alarme. Também pode apoiar o operador novo a fazer perguntas melhores e ajudar o operador experiente a registrar orientação sem virar redator técnico. Entretanto, a IA não deve assumir a autoridade operacional. No saneamento, uma resposta bonita e confiante pode estar errada, desatualizada ou fora da condição real do sistema.
Portanto, a regra de ouro deve ser clara: a IA apoia; o operador decide. Toda recomendação precisa mostrar fonte, data, responsável, nível de validação e limite de aplicação. Deve ficar claro se a orientação veio de procedimento oficial, experiência registrada, histórico operacional ou inferência automatizada. Caso contrário, a companhia pode trocar conhecimento tácito por falsa confiança digital. E falsa confiança, em operação de água e esgoto, custa caro.
Um programa maduro de sucessão operacional no saneamento pode começar pequeno. Não é necessário contratar uma plataforma gigantesca no primeiro mês. O primeiro passo pode ser escolher dez ativos críticos ou dez alarmes recorrentes. Em seguida, reunir operadores experientes, técnicos de manutenção, engenharia, CCO e supervisão. Depois, registrar as perguntas essenciais: o que verificar, o que não fazer, quando escalar, qual histórico importa, qual procedimento se aplica, qual risco existe para o cliente, qual risco existe para o ambiente e qual decisão exige autorização superior.
Na sequência, esse material deve ser validado por outro profissional experiente e vinculado ao ativo correto. Também deve ser revisado periodicamente, porque sistemas mudam. Uma rede setorizada hoje pode não ter o mesmo comportamento após uma obra. Uma elevatória reformada pode ter nova lógica de automação. Uma ETA pode receber água bruta com características diferentes após alteração de captação. Assim, sucessão não é arquivo estático. É conhecimento vivo.
Para medir resultado, a companhia pode acompanhar indicadores simples: tempo médio de diagnóstico de falhas, reincidência de ocorrências, número de chamados escalados para especialistas, tempo de integração de novos operadores, quantidade de procedimentos revisados, redução de manobras incorretas, diminuição de reclamações repetitivas e melhoria na padronização de resposta. Além disso, pode medir participação dos veteranos como mentores, valorizando oficialmente quem contribui para formar a próxima geração.
Essa valorização precisa ser concreta. O profissional que compartilha conhecimento não está apenas “ajudando”. Ele está protegendo o sistema, reduzindo risco e deixando legado. Portanto, companhias devem criar reconhecimento técnico, trilhas de especialista, programas de mentoria, participação em comitês operacionais, remuneração por qualificação quando possível, certificações internas e espaços reais de escuta. Operadores, encanadores, laboratoristas, eletromecânicos e técnicos de campo precisam ser tratados como inteligência viva da companhia, porque é exatamente isso que são.
A sucessão operacional no saneamento também deve dialogar com a gestão comercial. Muitas ocorrências operacionais chegam primeiro como reclamações: falta d’água, baixa pressão, água turva, extravasamento, mau cheiro, conta atípica ou religação problemática. Quando atendimento, campo e operação não compartilham conhecimento, a companhia perde tempo e o cliente perde confiança. Por outro lado, quando o histórico operacional alimenta o atendimento, a resposta melhora. O cliente percebe organização. A equipe comercial entende a causa provável. A operação recebe informação mais qualificada. E a gestão consegue transformar reclamação em diagnóstico.
Por fim, é preciso afirmar com firmeza: o futuro do saneamento será digital, mas não será desumanizado. Centros de controle mais modernos, sensores, telemetria, IA, modelos hidráulicos, automação e gêmeos digitais serão cada vez mais importantes. Porém, a qualidade da decisão continuará dependendo de profissionais capazes de interpretar contexto, reconhecer anomalias, agir com responsabilidade e proteger a população. Tecnologia sem operador preparado vira painel bonito. Operador preparado sem sistema de conhecimento vira herói sobrecarregado. A combinação correta é tecnologia forte, governança clara e profissional valorizado.
A maior ameaça não é apenas a aposentadoria de um bom operador. A maior ameaça é a companhia descobrir tarde demais que dependia dele para entender o próprio sistema. Por isso, sucessão operacional no saneamento deve entrar na agenda de diretorias, gerências, coordenações, supervisões, CCOs, manutenção, qualidade, engenharia, comercial e recursos humanos. Não como projeto burocrático, mas como estratégia de sobrevivência operacional.
Em um setor responsável por abastecimento, esgotamento sanitário, saúde pública, meio ambiente e dignidade humana, preservar conhecimento não é luxo. É obrigação. E valorizar quem opera o saneamento todos os dias é reconhecer que cada decisão correta, muitas vezes tomada longe dos holofotes, evita crises que a sociedade nem chega a perceber.
Fontes técnicas consultadas
Water Online — “Who Will Replace Your Best Operator?”, de Mike Karl, publicado em 8 de agosto de 2026. O artigo analisa perda de conhecimento tácito, julgamento operacional, SCADA, IA e sucessão de operadores em sistemas de água e esgoto. (Water Online)
EPA — “Interagency Water Workforce Working Group Report to Congress”, relatório de agosto de 2024 sobre envelhecimento da força de trabalho, aposentadoria de operadores, dificuldade de recrutamento, treinamento, retenção e risco à infraestrutura crítica de água. (US EPA)
APQC — “Navigating the Great Retirement with KM & AI”, pesquisa sobre perda de conhecimento institucional, aposentadoria de profissionais experientes, gestão do conhecimento e uso de IA para captura e transferência de experiência. (APQC)
AWWA — “2026 State of the Water Industry Report”, relatório que destaca renovação de infraestrutura, financiamento, disponibilidade de força de trabalho, IA, cibersegurança, sustentabilidade financeira e pressão crescente sobre os profissionais do setor. (American Water Works Association)
Ministério das Cidades — Página oficial do Marco Legal do Saneamento, com referência às metas de universalização até 2033: 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto. (Serviços e Informações do Brasil)
ANA — Notícia oficial sobre a Norma de Referência nº 08/2024, que trata de diretrizes para metas progressivas, indicadores de acesso, avaliação e comprovação da universalização dos serviços de água e esgoto. (Serviços e Informações do Brasil)
ABES-SP — Curso de Operação e Manutenção de Sistemas de Água e Esgoto, referência nacional sobre capacitação prática de equipes operacionais, manutenção, identificação de falhas, controle de perdas e boas práticas no saneamento. (ABES SP)



