Qualificação no saneamento: o novo gargalo do setor

O saneamento brasileiro pode investir bilhões de reais em novas redes, estações, automação, sensores e equipamentos. Entretanto, existe uma infraestrutura que não pode ser comprada pronta: profissionais preparados para instalar, operar, manter e interpretar tudo isso.

Essa realidade começa a ganhar maior importância à medida que o setor acelera investimentos para ampliar os serviços de água e esgoto. Em Cuiabá, uma iniciativa da Águas Cuiabá, operação da Iguá Saneamento, ajuda a mostrar como a qualificação no saneamento pode deixar de ser apenas uma política de recursos humanos e passar a integrar a própria estratégia operacional das empresas.

Em parceria com o Senai-MT, a concessionária desenvolve cursos voltados para duas atividades bastante práticas: instalação de tubulações para interligações prediais de esgoto e identificação de vazamentos hidráulicos utilizando geofone. As duas capacitações possuem duração de 40 horas. (Iguá SA⁠)

Embora pareçam atividades relativamente específicas, elas estão diretamente relacionadas a dois dos maiores desafios enfrentados pelas prestadoras brasileiras: ampliar efetivamente o acesso ao esgotamento sanitário e controlar as perdas de água.

Além disso, existe outro aspecto estratégico. O Brasil tem até 31 de dezembro de 2033 para buscar as metas legais de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Portanto, não bastará construir infraestrutura. Será necessário formar pessoas capazes de colocar essa infraestrutura em funcionamento e mantê-la operando adequadamente. (ANA⁠)

O saneamento começa a enfrentar um novo tipo de gargalo

Durante décadas, as discussões sobre universalização estiveram concentradas principalmente em financiamento, obras, projetos, licenciamento, contratos e regulação.

Todos esses fatores continuam fundamentais.

Entretanto, conforme os investimentos avançam, outro desafio começa a ocupar espaço: quem executará todo esse trabalho?

Redes precisam ser assentadas. Ramais precisam ser executados. Ligações domiciliares precisam ser feitas. Vazamentos precisam ser encontrados. Bombas precisam ser mantidas. ETAs e ETEs precisam ser operadas. Sistemas de automação precisam ser acompanhados. Medidores precisam ser instalados e substituídos.

Consequentemente, a qualificação no saneamento passa a ser um elemento diretamente relacionado à capacidade de expansão das companhias.

Esse problema não é exclusivo do saneamento.

O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027 estima que o Brasil precisará qualificar aproximadamente 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2027. Desse total, cerca de 2,2 milhões correspondem à formação inicial, enquanto aproximadamente 11,8 milhões representam necessidades de treinamento e desenvolvimento de trabalhadores que já estão no mercado. (SENAI RN⁠)

Embora esses números compreendam diversas atividades econômicas, eles ajudam a demonstrar a dimensão da disputa por profissionais técnicos.

Para as empresas de saneamento, portanto, esperar encontrar toda a mão de obra pronta no mercado pode deixar de ser uma estratégia suficiente.

O que está sendo feito em Cuiabá

O Programa Impulso, desenvolvido pela Águas Cuiabá, oferece capacitação profissional gratuita em parceria com o Senai-MT.

Na edição de 2026 foram disponibilizadas 40 vagas, divididas igualmente entre dois cursos. Além das aulas, os participantes receberam bolsa-auxílio de R$ 150 e alimentação durante a capacitação. As aulas foram realizadas presencialmente no Senai do Distrito Industrial de Cuiabá. (Iguá SA⁠)

Um dos cursos foi direcionado à instalação de tubulações, inclusive com especialização relacionada às ligações de soleira negativa. O outro foi destinado à detecção de vazamentos hidráulicos.

Além disso, os participantes tiveram contato com informações sobre o mercado de trabalho, oportunidades profissionais e cadastramento no Instituto Euvaldo Lodi, ampliando a conexão entre formação e empregabilidade. (Iguá SA⁠)

Esse último ponto merece atenção.

Um programa de qualificação no saneamento produz mais resultados quando não termina com a entrega do certificado. A formação ganha maior valor quando existe uma ponte entre o profissional capacitado, empresas prestadoras, concessionárias, empreiteiras e oportunidades disponíveis.

Por que aprender a instalar ligações de esgoto é estratégico?

Uma rede coletora construída não significa automaticamente que todo imóvel esteja efetivamente conectado ao sistema.

Entre a tubulação instalada na rua e o esgoto produzido dentro de uma residência existe uma etapa essencial: a ligação predial.

Portanto, ampliar a cobertura física da rede precisa ser acompanhado pela capacidade de realizar corretamente as interligações dos imóveis.

Esse trabalho exige conhecimento técnico.

Declividade inadequada, conexões incorretas, interferências, problemas construtivos ou ligações feitas sem os cuidados necessários podem produzir retorno de esgoto, obstruções, infiltração de água indevida na rede e diversas ocorrências posteriores.

Consequentemente, o instalador não representa apenas mão de obra de uma obra.

Esse profissional participa diretamente da qualidade futura da operação.

Por isso, programas de qualificação no saneamento precisam valorizar instaladores, encanadores, operadores, técnicos e equipes de campo como componentes essenciais da infraestrutura sanitária.

A Águas Cuiabá informa que Cuiabá já universalizou a coleta de esgoto e, justamente por isso, existe crescente necessidade de profissionais capazes de executar as conexões dos imóveis à rede coletora. (Iguá SA⁠)

Esse exemplo demonstra um aprendizado relevante para outras cidades: construir quilômetros de tubulações é apenas uma parte do desafio. A infraestrutura precisa chegar efetivamente às residências e funcionar adequadamente.

Detecção de vazamentos: quando experiência e tecnologia trabalham juntas

A segunda capacitação aborda uma atividade igualmente estratégica: a localização de vazamentos utilizando geofone.

O geofone é um equipamento utilizado para identificar ruídos produzidos pelo escape de água pressurizada em tubulações.

Em termos simples, funciona como uma ferramenta de escuta.

Quando existe um vazamento subterrâneo, a água escapando da tubulação gera vibrações e ruídos que podem se propagar pela rede e pelo solo. O equipamento auxilia o profissional a perceber essas alterações e delimitar a região onde o problema provavelmente está localizado.

Entretanto, o equipamento sozinho não resolve o vazamento.

É o profissional que precisa interpretar o comportamento do som, analisar as características da rede, considerar material e diâmetro da tubulação, avaliar pressão, profundidade e interferências externas e, finalmente, indicar o ponto provável para intervenção.

Esse detalhe é essencial para compreender a importância da qualificação no saneamento.

Digitalização e equipamentos modernos não eliminam a necessidade do trabalhador qualificado. Pelo contrário, frequentemente tornam a experiência humana ainda mais valiosa.

Um profissional experiente consegue transformar sinais produzidos pelos equipamentos em decisões operacionais.

Encontrar melhor o vazamento significa abrir menos o pavimento

A detecção precisa de vazamentos também possui consequências econômicas.

Sem localização adequada, uma equipe pode realizar escavações maiores do que o necessário ou até abrir o pavimento no local errado.

Como resultado, aumentam as horas trabalhadas, uso de máquinas, recomposição de pavimento, mobilização das equipes, interferência no trânsito e tempo necessário para eliminar a ocorrência.

Quando a localização é mais precisa, a intervenção pode se tornar mais direcionada.

Consequentemente, equipamentos de detecção associados a profissionais treinados podem contribuir para melhorar a produtividade das equipes de manutenção.

A qualificação no saneamento, portanto, não deve ser observada apenas como despesa de treinamento.

Ela pode estar associada à eficiência operacional.

Formação também pode reduzir retrabalho

Existe uma conta que dificilmente aparece de maneira clara nos demonstrativos de uma companhia: o custo da execução inadequada.

Uma conexão instalada incorretamente pode gerar manutenção.

Um reparo mal executado pode provocar novo vazamento.

Uma tubulação assentada inadequadamente pode apresentar problemas posteriores.

Uma válvula operada sem conhecimento pode produzir consequências hidráulicas no sistema.

Além disso, erros podem gerar desperdício de materiais, horas extras, novas mobilizações, reclamações dos usuários e necessidade de refazer serviços.

Por essa razão, investir em qualificação no saneamento pode atuar preventivamente sobre o retrabalho.

Quanto maior a padronização técnica e o domínio dos procedimentos, maior tende a ser a capacidade de executar corretamente o serviço já na primeira intervenção.

Cuiabá já possui histórico de formação profissional

A iniciativa atual também não aparece de maneira isolada.

Em outubro de 2025, outra parceria entre Águas Cuiabá e Senai-MT resultou na formação de 35 alunos em cursos de Elétrica Básica e Instalador de Tubulação. Segundo a empresa, a metodologia combinou conteúdo teórico e atividades práticas. (Iguá SA⁠)

Isso demonstra a construção gradual de um modelo de formação associado às necessidades operacionais existentes no território.

A repetição dessas iniciativas pode produzir um resultado importante: formar um ecossistema local de profissionais familiarizados com atividades relacionadas ao saneamento.

Esses trabalhadores podem atuar diretamente nas prestadoras, nas empresas terceirizadas, na construção civil, em serviços hidráulicos ou como profissionais especializados.

Assim, a qualificação no saneamento também pode movimentar a economia local.

A universalização será uma corrida por infraestrutura e pessoas

As metas brasileiras são ambiciosas.

A legislação determina que os contratos de prestação dos serviços devem estabelecer objetivos que garantam atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. Além disso, existem metas relacionadas à redução de perdas, melhoria dos processos de tratamento e não intermitência do abastecimento. (Palácio do Planalto⁠)

Tudo isso amplia a complexidade operacional.

Para aumentar cobertura será necessário construir.

Para manter os novos ativos será necessário operar.

Para reduzir perdas será necessário detectar problemas.

Para melhorar o tratamento será necessário controlar processos.

Para incorporar automação será necessário compreender tecnologia.

Portanto, cada novo investimento físico cria também uma necessidade correspondente de conhecimento técnico.

Essa relação precisa entrar definitivamente no planejamento das companhias.

Tecnologia não substitui conhecimento de campo

O saneamento está entrando em uma fase de transformação tecnológica.

Telemetria, sensores, inteligência artificial, medidores inteligentes, modelagem hidráulica e sistemas avançados de controle já modificam diversas operações.

Entretanto, ainda existe uma enorme quantidade de decisões que dependem da capacidade dos profissionais.

Um sistema pode apontar uma anomalia de vazão.

Porém, alguém precisará interpretar o alerta.

Um correlacionador pode indicar uma região provável de vazamento.

Entretanto, alguém precisará validar a ocorrência.

Um sistema supervisório pode indicar comportamento anormal em uma estação.

Contudo, um operador precisa compreender o processo antes de decidir como agir.

Por isso, a modernização das companhias precisa caminhar juntamente com a qualificação no saneamento.

Quanto mais sofisticados se tornam os ativos, maior passa a ser a necessidade de profissionais preparados para utilizá-los corretamente.

Experiência profissional continua sendo um ativo estratégico

Também existe conhecimento que não pode ser adquirido apenas em sala de aula.

Profissionais que atuam durante anos em determinada rede passam a conhecer comportamentos hidráulicos, regiões críticas, equipamentos, históricos de manutenção e características que nem sempre estão registradas nos sistemas corporativos.

Esse conhecimento de campo possui enorme valor.

Por isso, formar novos trabalhadores não deveria significar desvalorizar os profissionais experientes.

Ao contrário.

Uma estratégia madura de qualificação no saneamento deveria aproximar gerações.

Cursos estruturados podem oferecer fundamentos técnicos, enquanto profissionais experientes podem transmitir conhecimento operacional acumulado.

Dessa combinação nasce uma mão de obra muito mais preparada.

O que outras companhias podem aprender com o modelo?

O caso de Cuiabá apresenta uma lógica relativamente simples que pode ser adaptada para outras realidades.

Primeiramente, identifica-se um gargalo operacional concreto.

Depois, define-se quais competências estão faltando.

Em seguida, uma instituição especializada desenvolve a capacitação.

Posteriormente, os participantes têm contato com o mercado de trabalho.

Finalmente, cria-se uma base local de profissionais capazes de atender à demanda existente.

Esse modelo também pode ser aplicado em outras áreas, como operação de ETA, operação de ETE, eletromecânica, manutenção de bombas, automação, leitura e medição, redes de distribuição, redes coletoras, segurança do trabalho e controle de perdas.

Assim, treinamento deixa de ser uma atividade genérica e passa a responder diretamente aos problemas encontrados pela operação.

Profissionais são parte da infraestrutura do saneamento

Existe uma tendência de medir o avanço do saneamento por quilômetros de rede construídos, capacidade das estações, número de ligações e valores investidos.

Esses indicadores são fundamentais.

Entretanto, nenhum deles funciona sozinho.

Por trás de uma ETA existem operadores, técnicos, químicos, engenheiros, eletricistas, mecânicos e profissionais de laboratório.

Por trás das redes existem equipes de manutenção, encanadores, fiscais, projetistas e operadores.

Por trás da redução das perdas existem profissionais analisando dados, utilizando equipamentos, percorrendo redes e tomando decisões diariamente.

Por trás do faturamento existem equipes de leitura, cadastro, medição, atendimento e gestão comercial.

Consequentemente, a qualificação no saneamento precisa ocupar posição tão estratégica quanto tecnologia e infraestrutura.

Máquinas podem ser adquiridas. Sistemas podem ser contratados. Tubulações podem ser compradas.

Conhecimento, entretanto, precisa ser construído.

O próximo grande ativo do saneamento pode ser humano

A corrida pela universalização provavelmente produzirá uma das maiores transformações da história do saneamento brasileiro.

Bilhões serão direcionados para redes, estações, sistemas de abastecimento, esgotamento sanitário e modernização operacional.

Porém, a capacidade de transformar investimentos em serviços eficientes dependerá diretamente das pessoas que estarão no campo, nas estações, nos centros de controle, nos laboratórios e nas áreas comerciais.

O Programa Impulso, em Cuiabá, representa uma experiência relativamente pequena diante da dimensão nacional do desafio. Entretanto, apresenta uma ideia poderosa: em vez de apenas disputar profissionais já qualificados, o próprio setor pode ajudar a formar os trabalhadores de que necessita.

Essa estratégia tende a ganhar relevância conforme 2033 se aproxima.

Afinal, uma rede de esgoto sem profissionais preparados para conectá-la corretamente aos imóveis não entrega todo o seu potencial. Um equipamento de pesquisa de vazamentos sem alguém capacitado para interpretar seus sinais também não produz sozinho eficiência operacional.

O saneamento depende de infraestrutura.

Depende de tecnologia.

Depende de investimentos.

Mas, sobretudo, depende de pessoas.

E valorizar, formar e desenvolver essas pessoas pode ser uma das decisões mais importantes para o futuro do setor.

Fontes

Águas Cuiabá – Qualificação de mão de obra para o setor de saneamento

Águas Cuiabá – Programa Impulso e cursos profissionalizantes

Águas Cuiabá – Formação de profissionais em parceria com Senai-MT

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – Universalização

Ministério das Cidades – Marco Legal do Saneamento

Planalto – Lei Federal nº 14.026/2020

SENAI – Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027