O saneamento brasileiro está passando por uma transformação de escala histórica. Em 2024, o investimento em saneamento chegou a R$ 29,1 bilhões, estabelecendo o terceiro recorde anual consecutivo. Ao mesmo tempo, até junho de 2026, operadores privados já estavam presentes em 2.720 municípios, equivalentes a 48,8% das cidades brasileiras.
Entretanto, existe um número que impede qualquer interpretação excessivamente otimista dessa transformação: apenas 51,8% de todo o esgoto gerado no país foi tratado em 2024.
Portanto, o Brasil vive uma situação aparentemente contraditória. Nunca se investiu tanto, dezenas de concessões foram realizadas, grandes companhias públicas ampliam seus programas de investimentos e novos operadores privados avançam pelo território nacional. Porém, praticamente metade do esgoto gerado ainda não recebe tratamento.
É justamente nessa diferença entre dinheiro contratado, infraestrutura construída e serviço efetivamente entregue que estará uma das maiores batalhas do saneamento brasileiro até 2033.
E serão os profissionais do saneamento que transformarão essa enorme carteira de investimentos em água chegando às torneiras, redes funcionando, esgoto coletado, estações operando, perdas reduzidas e atendimento adequado à população.
Os números que mostram a transformação do saneamento
O Panorama da Universalização do Saneamento 2026 aponta uma combinação de números que ajuda a compreender rapidamente o tamanho da mudança em andamento.
Em 2024, foram investidos R$ 29,1 bilhões em abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Até junho de 2026, a iniciativa privada já possuía atuação em 2.720 municípios.
Entre 2020 e junho de 2026, foram realizados 70 leilões de saneamento.
Esses projetos representam mais de R$ 227 bilhões em investimentos contratualizados.
Além disso, outros 31 projetos estavam em estruturação, com aproximadamente R$ 32 bilhões previstos.
Enquanto isso, o acesso à rede de abastecimento de água alcançou 68,3 milhões de domicílios em 2025, enquanto 56,4 milhões possuíam acesso à rede de esgoto.
Apesar dessa expansão, somente 51,8% do esgoto gerado no Brasil era tratado em 2024.
Portanto, o avanço financeiro e institucional é evidente. Entretanto, os números mostram também que aumentar o investimento em saneamento não garante automaticamente a universalização.
Recorde de R$ 29,1 bilhões precisa ser colocado em perspectiva
O volume aplicado em 2024 representa o terceiro recorde anual consecutivo de investimentos no setor.
Considerando os dados do SINISA apresentados pelo Instituto Trata Brasil, aproximadamente R$ 15,07 bilhões foram destinados ao abastecimento de água, enquanto R$ 14,06 bilhões foram direcionados ao esgotamento sanitário.
Isso mostra uma divisão relativamente equilibrada dos recursos entre os dois serviços.
Além disso, significa que o saneamento brasileiro finalmente começa a movimentar volumes financeiros compatíveis com sua relevância para saúde pública, meio ambiente e desenvolvimento econômico.
No entanto, ainda existe uma distância significativa entre o investimento atual e aquilo que será necessário para universalizar os serviços.
Por isso, um recorde de investimento em saneamento precisa ser interpretado como aceleração, e não como conclusão do processo.
Setor privado chega a 48,8% dos municípios brasileiros
Talvez o número mais surpreendente do Panorama de 2026 seja a extensão da participação privada.
Até junho de 2026, operadores privados já estavam presentes em 2.720 municípios brasileiros, correspondentes a 48,8% das cidades do país.
Isso representa uma mudança profunda na estrutura empresarial do saneamento brasileiro.
Entretanto, é importante compreender corretamente esse indicador.
A presença privada em praticamente metade dos municípios não significa que metade das cidades brasileiras tenha simplesmente transferido integralmente seus sistemas de saneamento para empresas privadas.
Existem diferentes modelos de participação.
Entre os municípios com atuação privada, aproximadamente 84% estão associados a contratos de concessão plena de água e esgoto.
Outros aproximadamente 14% operam por meio de Parcerias Público-Privadas, as PPPs.
Já cerca de 2% possuem concessões parciais, nas quais determinadas etapas ou serviços permanecem sob responsabilidade pública enquanto outras são transferidas ao parceiro privado.
Portanto, o novo mapa brasileiro é muito mais complexo do que uma simples divisão entre empresas públicas e privadas.
O que é uma concessão plena
Na concessão plena, o operador privado recebe a responsabilidade por grande parte ou pela totalidade dos serviços previstos no contrato.
Isso pode incluir captação de água, tratamento, reservação, distribuição, coleta de esgoto, transporte, tratamento e disposição final adequada.
Além disso, normalmente envolve atendimento aos clientes, expansão das redes, gestão comercial e investimentos de longo prazo.
O modelo possui metas contratuais e indicadores regulatórios que precisam ser acompanhados ao longo da concessão.
Consequentemente, o desafio não termina na realização do leilão.
Na verdade, ele começa justamente depois da assinatura do contrato.
PPP não significa transferência completa do serviço
Nas Parcerias Público-Privadas, as responsabilidades podem ser divididas entre operador público e parceiro privado.
Um exemplo clássico ocorre quando uma companhia pública permanece responsável pelo abastecimento de água e pelo relacionamento comercial, enquanto a empresa privada assume etapas relacionadas ao esgotamento sanitário.
Também existem diferentes estruturas contratuais adaptadas às características de cada projeto.
Esse modelo pode ser especialmente relevante em empreendimentos de grande porte, investimentos de maturação longa ou situações em que os riscos precisam ser compartilhados.
Portanto, PPP e concessão plena não devem ser tratadas como sinônimos.
Essa diferença é fundamental para profissionais que acompanham o processo de transformação institucional do setor.
R$ 227 bilhões já foram contratualizados
Entre 2020 e junho de 2026, foram realizados 70 leilões de saneamento.
Segundo o Panorama da ABCON, os projetos representam aproximadamente R$ 227,5 bilhões em investimentos contratualizados.
Além disso, atingem aproximadamente 100 milhões de pessoas e envolvem 2.480 municípios.
Outros 31 projetos estavam em estruturação, com previsão adicional de aproximadamente R$ 32 bilhões e abrangência de 636 municípios.
Esses números demonstram que o volume de investimento em saneamento pode permanecer elevado durante vários anos.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre investimento contratualizado e investimento realizado.
O primeiro representa aquilo que deverá ser aplicado durante a vigência dos contratos.
O segundo corresponde ao dinheiro efetivamente transformado em projetos, obras, equipamentos, redes e sistemas.
Confundir esses conceitos pode levar a uma interpretação equivocada sobre o estágio atual da universalização.
O verdadeiro desafio agora é transformar contratos em obras
Bilhões de reais assinados em contratos não tratam água ou esgoto por si mesmos.
Para transformar esses recursos em serviço público efetivo, uma longa cadeia precisa funcionar.
Primeiramente, são necessários estudos e projetos de engenharia.
Posteriormente, precisam ser realizadas licenças, desapropriações, contratações e aquisições.
Depois disso, começam obras de adutoras, reservatórios, redes de distribuição, coletores, interceptores, estações elevatórias, ETAs e ETEs.
Paralelamente, precisam ser compradas bombas, equipamentos eletromecânicos, painéis, sistemas de automação, sensores, medidores e tecnologias de controle.
Finalmente, toda essa infraestrutura precisa entrar em operação.
É justamente nesse ponto que a experiência dos profissionais se torna decisiva.
Apenas 51,8% do esgoto é tratado
O número mais preocupante permanece sendo o esgotamento sanitário.
Mesmo com aumento de aproximadamente 5% no volume tratado entre 2023 e 2024, apenas 51,8% do esgoto gerado no Brasil recebeu tratamento em 2024.
Na prática, significa que praticamente metade do esgoto produzido ainda permanece fora do tratamento adequado.
Esse indicador mostra por que os próximos anos deverão exigir forte investimento em saneamento, especialmente em coleta e tratamento de esgoto.
Entretanto, construir uma Estação de Tratamento de Esgoto não é suficiente.
Uma ETE depende de uma extensa infraestrutura a montante.
São necessárias redes coletoras, ligações domiciliares, coletores-tronco, interceptores e, frequentemente, estações elevatórias.
Além disso, os imóveis precisam estar efetivamente conectados.
Por isso, uma estação pode possuir capacidade disponível e, ainda assim, receber menos esgoto do que poderia tratar.
Rede disponível não é sinônimo de usuário conectado
Essa questão merece atenção especial.
No abastecimento de água, quando uma rede é implantada, o imóvel precisa receber uma ligação, cadastro comercial e medição.
No esgotamento sanitário ocorre processo semelhante, porém com desafios adicionais.
A rede pode passar em frente ao imóvel sem que a ligação interna seja realizada.
Consequentemente, possuir infraestrutura disponível não significa que todo o esgoto daquela área esteja sendo coletado.
Esse é um dos motivos pelos quais programas de conexão intradomiciliar ganharam importância no Brasil.
Portanto, o desafio da universalização passa pela engenharia, mas também pelas áreas comerciais, sociais, jurídicas e de relacionamento com o cliente.
Gestão comercial será cada vez mais importante
Uma das mudanças menos discutidas na expansão do investimento em saneamento está acontecendo nas áreas comerciais.
À medida que bilhões são aplicados em expansão das redes, será necessário transformar essa infraestrutura em novas economias efetivamente cadastradas.
Isso envolve atualização cadastral, novas ligações, medição, faturamento, cobrança, tarifa social, atendimento, combate às irregularidades e gestão de inadimplência.
Além disso, no esgotamento sanitário será necessário identificar imóveis com rede disponível que ainda não estejam conectados.
Consequentemente, a universalização não poderá ser conduzida exclusivamente pelas áreas de engenharia.
Comercial, operação, manutenção, tecnologia, regulação e atendimento precisarão trabalhar de forma integrada.
O Brasil ainda perde 39,5% da água
Existe outro enorme desafio operacional.
Dados do SINISA referentes a 2024, compilados pelo Instituto Trata Brasil, indicam que aproximadamente 39,5% da água potável é perdida antes de chegar adequadamente aos consumidores ou ser contabilizada pelo sistema.
Esse volume representa água que precisou ser captada, tratada e transportada.
Consequentemente, perdas elevadas pressionam custos de energia, produtos químicos, manutenção e infraestrutura.
Também podem exigir ampliação da capacidade de produção que poderia ser adiada caso o sistema fosse mais eficiente.
Por isso, parte relevante do futuro investimento em saneamento terá que ser direcionada para eficiência.
Redução de perdas será uma das maiores oportunidades
Reduzir perdas exige muito mais do que reparar vazamentos visíveis.
São necessárias ações combinadas.
A setorização das redes permite entender melhor o comportamento hidráulico.
O controle de pressão reduz rompimentos e vazamentos.
A macromedição melhora o balanço hídrico.
A pesquisa ativa identifica vazamentos ocultos.
A substituição de redes reduz falhas recorrentes.
A telemetria permite acompanhar sistemas praticamente em tempo real.
Ao mesmo tempo, as perdas aparentes exigem melhoria da micromedição, substituição de hidrômetros, atualização cadastral, combate a irregularidades e análise de dados comerciais.
Isso demonstra novamente a importância dos profissionais.
Tecnologia sozinha não reduz perdas.
É necessário conhecimento técnico para transformar dados em decisões operacionais.
2033 está cada vez mais próximo
O Marco Legal estabeleceu uma referência clara para a universalização.
Até 31 de dezembro de 2033, os contratos devem buscar assegurar atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto, observadas as regras aplicáveis.
Além disso, a Norma de Referência nº 8/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico estabeleceu parâmetros relacionados às metas progressivas de universalização, indicadores de acesso e sistemas de avaliação.
Portanto, a universalização deixou de ser apenas uma intenção genérica.
Existem indicadores, metas e um prazo definido.
Isso muda completamente a pressão sobre prestadores, municípios, estados e reguladores.
Apenas 321 municípios alcançaram o patamar do esgoto
O Panorama da Universalização mostra uma diferença significativa entre água e esgoto.
Segundo o levantamento, 780 municípios já alcançaram o patamar de universalização do abastecimento de água, representando aproximadamente 32% da população estimada no estudo.
Quando se observa coleta e tratamento de esgoto, porém, somente 321 municípios teriam atingido o patamar de 90%.
Esses municípios representam aproximadamente 20% da população considerada.
Portanto, existe uma enorme distância entre a realidade atual do esgoto e aquilo que deverá ser alcançado.
Esse será provavelmente um dos maiores direcionadores de investimento em saneamento até 2033.
Existe também um problema de informação
Universalização depende de obras, porém também depende de dados confiáveis.
O Panorama aponta que 1.107 municípios não possuíam informações suficientes sobre a capacidade de atingir as metas de água, enquanto 1.431 apresentavam ausência equivalente em relação ao esgoto.
Entre municípios sem metas contratualizadas, o levantamento apontou ainda ausência de planos municipais de saneamento em parte deles e falta de resposta ao SINISA em parcela significativa.
Isso representa um problema sério.
Sem dados adequados, torna-se difícil planejar investimentos, fiscalizar contratos e definir prioridades.
O SINISA, que entrou em atividade a partir de 2024 como sucessor do SNIS, torna-se, portanto, uma ferramenta estratégica para a gestão do setor.
Nordeste recebeu aproximadamente R$ 5 bilhões
O Nordeste ocupa posição central nessa transformação.
Em 2024, aproximadamente R$ 5 bilhões foram investidos nos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário da região.
Além disso, segundo o Panorama, 705 municípios nordestinos já possuíam operadores privados, número equivalente a aproximadamente 39% das cidades da região.
Concessões e PPPs avançaram em estados como Alagoas, Pernambuco, Piauí, Sergipe, Ceará e Paraíba.
Consequentemente, a região está passando por uma das maiores reorganizações institucionais de sua história no saneamento.
Entretanto, companhias estaduais continuam desempenhando funções importantes em diferentes estados e modelos.
O saneamento brasileiro deixou de ter um modelo único
O mapa do setor está se tornando mais diversificado.
Atualmente convivem companhias estaduais, empresas privadas, serviços municipais, autarquias, concessões plenas, concessões parciais e PPPs.
Entre as companhias de grande relevância nacional ou regional estão Sabesp, Sanepar, Copasa, Embasa, Cagece, Compesa e Cesan, entre outras.
No setor privado, grupos como Aegea, BRK Ambiental, Iguá e Águas do Brasil ampliaram presença ao longo dos últimos anos.
Portanto, o futuro do saneamento brasileiro dificilmente poderá ser explicado apenas pela oposição entre público e privado.
O elemento decisivo deverá ser a capacidade de cada modelo entregar expansão, qualidade, eficiência operacional, modicidade tarifária, sustentabilidade financeira e cumprimento das metas regulatórias.
Sabesp entrou em uma nova escala de investimentos
A transformação da Sabesp merece destaque devido ao tamanho de sua operação e ao impacto potencial sobre os indicadores nacionais.
A companhia informou investimento recorde de R$ 15,2 bilhões em 2025, contra R$ 6,9 bilhões no ano anterior.
Além disso, informou uma estratégia que envolve mais de R$ 70 bilhões em investimentos ao longo de cinco anos.
Somente no primeiro trimestre de 2026, os investimentos atingiram aproximadamente R$ 3,7 bilhões.
Portanto, São Paulo tornou-se um dos maiores laboratórios brasileiros para acompanhar se aceleração de capital conseguirá produzir aceleração equivalente na universalização.
Para os profissionais do setor, essa experiência também deverá gerar conhecimento sobre planejamento de obras, produtividade, gestão contratual, expansão de redes, novas ligações, tecnologia, perdas e operação em grande escala.
Aegea mostra a consolidação dos grandes operadores privados
Entre os operadores privados, a Aegea representa uma das maiores expansões do mercado brasileiro.
Em informações corporativas atualizadas, o grupo informa presença em 893 municípios de 15 estados, atendendo mais de 39 milhões de pessoas.
A escala demonstra como o saneamento privado deixou de ser composto apenas por concessões municipais isoladas e passou a operar grandes sistemas regionais.
Outros grupos privados, como BRK Ambiental, Iguá e Águas do Brasil, também possuem operações importantes em diferentes regiões.
Consequentemente, a competição por eficiência, mão de obra qualificada, tecnologia e capacidade de execução deverá aumentar.
Embasa permanece estratégica no Nordeste
Na Bahia, a Embasa continua sendo uma das grandes companhias estaduais brasileiras e possui papel especialmente relevante por operar em um estado territorialmente extenso e com realidades muito diferentes.
Existem grandes regiões metropolitanas, cidades médias, pequenos municípios e localidades com baixa densidade populacional.
Consequentemente, universalizar sistemas nesse cenário exige soluções técnicas e econômicas diferentes.
A companhia precisa conciliar expansão do abastecimento, segurança hídrica, redução de perdas, ampliação do esgotamento sanitário, modernização comercial e eficiência operacional.
Esse contexto demonstra por que companhias públicas bem estruturadas continuam sendo fundamentais para o futuro do setor.
Sanepar, Copasa, Cagece e Compesa também passam por transformação
O cenário das demais grandes companhias estaduais também merece acompanhamento.
A Sanepar opera no Paraná e possui uma estrutura consolidada de água e esgotamento sanitário.
A Copasa possui uma das maiores operações territoriais do país em Minas Gerais, atendendo municípios de perfis econômicos e populacionais muito diferentes.
A Cagece enfrenta o desafio adicional da segurança hídrica em um estado marcado historicamente pela escassez de água.
Já Pernambuco passa por uma profunda reorganização da prestação dos serviços, enquanto a Compesa permanece inserida em uma nova configuração institucional do saneamento estadual.
Portanto, cada companhia enfrentará a universalização a partir de condições diferentes.
Público e privado enfrentarão os mesmos problemas técnicos
Independentemente do controle societário, a água continuará obedecendo às mesmas leis da hidráulica.
As redes continuarão rompendo quando submetidas a condições inadequadas.
Bombas continuarão precisando de manutenção.
ETEs continuarão dependendo de processos biológicos, químicos e físicos controlados.
Hidrômetros continuarão envelhecendo.
Cadastros desatualizados continuarão prejudicando a gestão.
Vazamentos continuarão exigindo equipes capacitadas.
Clientes continuarão precisando de atendimento.
Por isso, o debate sobre modelos de prestação não pode esconder um fato fundamental: no final, qualquer operador precisará dominar a operação real dos sistemas.
Profissionais qualificados podem se tornar o próximo gargalo
A velocidade do investimento em saneamento cria outro desafio pouco discutido: disponibilidade de profissionais qualificados.
Se dezenas de bilhões de reais forem executados simultaneamente, haverá demanda crescente por engenheiros, operadores, técnicos, eletricistas, mecânicos, profissionais de automação, analistas de dados, gestores comerciais, especialistas ambientais e gestores de contratos.
Também crescerá a necessidade de empresas projetistas, construtoras, fabricantes e fornecedores especializados.
Consequentemente, não será suficiente possuir recursos financeiros.
Será necessário possuir capacidade humana e institucional para executar os projetos.
Esse ponto coloca os profissionais do saneamento no centro da transformação.
Tecnologia aumentará a importância das pessoas, não o contrário
Automação, inteligência artificial, telemetria, sensores, digital twins, hidrômetros inteligentes e análise avançada de dados deverão ganhar cada vez mais espaço.
Entretanto, essas tecnologias não eliminam a necessidade de conhecimento técnico.
Elas mudam o tipo de conhecimento necessário.
Um centro de controle pode receber milhares de informações por minuto, mas alguém precisa compreender quais variáveis representam um risco real.
Um algoritmo pode apontar possibilidade de vazamento, porém uma equipe precisa localizar, confirmar e reparar o problema.
Um hidrômetro inteligente pode transmitir consumo diariamente, mas gestores precisam interpretar padrões e transformar informações em ações comerciais.
Portanto, quanto mais tecnológico se tornar o setor, mais valiosos serão profissionais capazes de unir experiência operacional, conhecimento técnico e capacidade analítica.
O próximo desafio é produtividade do investimento
O debate dos próximos anos deverá evoluir do simples valor investido para a produtividade desse investimento.
Duas empresas podem investir R$ 1 bilhão e produzir resultados completamente diferentes.
Uma pode direcionar recursos para projetos com baixo impacto operacional.
Outra pode ampliar significativamente cobertura, reduzir perdas e aumentar tratamento.
Consequentemente, indicadores como investimento por nova economia atendida, custo por quilômetro implantado, custo por ligação, aumento do volume tratado e redução das perdas poderão ganhar importância.
O objetivo não deve ser apenas gastar mais.
O objetivo deve ser transformar cada real de investimento em saneamento no maior benefício possível para a sociedade.
Saneamento precisa ser analisado como sistema
Uma das maiores lições desse novo momento é a necessidade de abandonar análises fragmentadas.
Produção de água, distribuição, esgoto, comercial, manutenção, atendimento, tecnologia e regulação estão conectados.
Uma falha cadastral pode afetar perdas aparentes.
Uma pressão excessiva pode elevar perdas reais.
Perdas elevadas podem exigir maior produção de água.
Maior produção aumenta consumo de energia e produtos químicos.
Uma ligação de esgoto não realizada pode deixar capacidade ociosa em uma ETE.
Consequentemente, decisões tomadas em uma área podem alterar indicadores de várias outras.
É justamente essa visão sistêmica que deverá diferenciar os operadores mais eficientes.
R$ 29 bilhões são recorde, mas 51,8% explica a urgência
O saneamento brasileiro está claramente avançando.
O investimento alcançou um recorde histórico de R$ 29,1 bilhões em 2024.
A presença privada atingiu 48,8% dos municípios brasileiros até junho de 2026.
Mais de R$ 227 bilhões estão contratualizados em projetos decorrentes de dezenas de leilões.
Grandes companhias públicas e privadas ampliam investimentos.
O Nordeste recebeu aproximadamente R$ 5 bilhões em apenas um ano.
Entretanto, 51,8% do esgoto tratado continua sendo o número que melhor traduz a dimensão do desafio.
O país pode estabelecer novos recordes financeiros nos próximos anos. Porém, o verdadeiro sucesso será medido quando os recordes começarem a aparecer também nos indicadores operacionais.
Mais água precisa chegar à população.
Mais imóveis precisam ser conectados.
Mais esgoto precisa ser coletado.
Mais esgoto precisa ser efetivamente tratado.
Menos água precisa ser perdida.
Mais sistemas precisam operar com eficiência.
O maior ativo do saneamento continuará sendo humano
Bilhões de reais podem construir estações, redes, reservatórios, elevatórias e centros de controle.
Entretanto, nenhuma dessas estruturas funciona sozinha.
São operadores que controlam os processos das estações.
São equipes de manutenção que recuperam equipamentos.
São técnicos que identificam vazamentos.
São laboratoristas que acompanham a qualidade.
São engenheiros que dimensionam os sistemas.
São profissionais comerciais que transformam redes disponíveis em clientes efetivamente conectados.
São atendentes que representam a companhia diante da população.
São analistas que transformam dados em informação.
São gestores que precisam decidir onde os recursos produzirão maior resultado.
Portanto, a expansão do investimento em saneamento não diminui a importância das pessoas.
Ao contrário, aumenta a responsabilidade e o valor dos profissionais capazes de garantir que bilhões de reais sejam convertidos em serviços seguros e eficientes.
O Brasil está construindo um novo mapa do saneamento.
A presença de diferentes operadores deverá continuar aumentando, assim como o volume de investimentos e a pressão pela universalização.
Entretanto, público ou privado, o resultado continuará dependendo da mesma variável essencial: gente qualificada para fazer o saneamento funcionar todos os dias.
Porque investimento constrói infraestrutura.
Profissionais do saneamento transformam infraestrutura em saúde pública, proteção ambiental, segurança hídrica e qualidade de vida.
Fontes
- Folha de S.Paulo — Atuação privada no saneamento cresce e chega a quase metade dos municípios
- BOL/UOL — Investimento em saneamento bate recorde, mas esgoto tratado segue em 52%
- Jornal do Commercio — Investimento bate recorde e Nordeste teve R$ 5 bilhões
- Instituto Trata Brasil — Indicadores de saneamento e metas de universalização
- Ministério das Cidades — SINISA
- ANA — Resolução nº 192/2024 e Norma de Referência nº 8/2024
- Sabesp — investimentos e universalização
- Aegea — perfil corporativo e abrangência das operações



