Dessalinização de água: aprenda todo o processo

A dessalinização de água está deixando de ser uma tecnologia associada apenas a países desérticos para entrar definitivamente no planejamento de segurança hídrica de grandes sistemas de abastecimento. No Brasil, esse movimento ganhou dimensão inédita em julho de 2026, quando a Cagece autorizou o início das obras da planta de dessalinização de Fortaleza, projetada para produzir 1.000 litros de água potável por segundo e atender aproximadamente 720 mil pessoas. O empreendimento utilizará osmose reversa e deverá representar cerca de 12% da demanda de água da Região Metropolitana de Fortaleza. (AESBE⁠)

Entretanto, existe uma diferença importante entre conhecer o conceito e compreender uma planta de dessalinização como profissional do saneamento. Retirar o sal é apenas uma das etapas. Antes das membranas existem captação, gradeamento, pré-tratamento e condicionamento químico. Depois delas existem remineralização, correção de pH, desinfecção, controle de qualidade e integração com o sistema de distribuição. Paralelamente, ainda precisam ser administrados energia, pressão, membranas, limpeza química, corrosão, salmoura, automação, manutenção e impacto ambiental.

Por isso, a dessalinização de água deve ser entendida como uma nova ETA de alta complexidade tecnológica. A osmose reversa está no centro do processo, porém o desempenho real depende de toda a engenharia construída ao redor dela.

Por que a dessalinização começa a ganhar espaço no saneamento

A principal vantagem estratégica da água do mar é a sua baixa dependência do regime de chuvas. Reservatórios podem atravessar períodos críticos, rios podem apresentar redução de vazão e aquíferos podem sofrer superexploração. O oceano, por outro lado, representa uma fonte extremamente abundante para regiões costeiras.

Isso não significa que a dessalinização de água deva substituir mananciais convencionais. Em geral, ela funciona melhor como parte de uma matriz diversificada, juntamente com reservatórios, rios, águas subterrâneas, reúso, redução de perdas e gestão de demanda.

É exatamente essa lógica que aparece no projeto cearense. A planta de Fortaleza foi estruturada para ampliar a segurança hídrica e reduzir a pressão sobre sistemas dependentes dos reservatórios que abastecem a Região Metropolitana. O projeto possui valor global contratual de aproximadamente R$ 3,142 bilhões, prazo de 30 anos e envolve projeto, construção, operação, manutenção, entrega da água potável e gestão dos rejeitos. Portanto, esse valor não deve ser confundido simplesmente com o custo físico da construção da usina. (PAPP⁠)

Como funciona a dessalinização de água na prática

1. Tudo começa pela qualidade da água captada

Uma planta eficiente não começa na bomba de alta pressão. Começa no estudo oceanográfico.

Temperatura, salinidade, matéria orgânica, algas, sólidos suspensos, turbidez, correntes marítimas e variações sazonais influenciam diretamente o tratamento. Consequentemente, a posição da captação pode alterar consumo químico, frequência de limpeza das membranas e disponibilidade da planta.

Existem captações abertas, nas quais a água é retirada diretamente do oceano, e soluções subterrâneas, como poços costeiros, quando as condições hidrogeológicas permitem. Sistemas subterrâneos podem oferecer uma espécie de filtração natural, reduzindo matéria orgânica e potencial de biofouling antes mesmo da água chegar à estação. (HERO⁠)

Portanto, uma decisão aparentemente civil ou hidráulica interfere diretamente no custo operacional da dessalinização de água.

2. O pré-tratamento protege o ativo mais sensível

Após a captação, sólidos grosseiros precisam ser removidos. Entretanto, apenas gradear a água está muito longe de ser suficiente.

Algas, partículas coloidais, matéria orgânica e microrganismos podem aderir às membranas. Esse fenômeno é chamado de fouling. Além disso, sais pouco solúveis podem precipitar sobre as superfícies, causando scaling ou incrustação.

Por isso, uma planta pode utilizar coagulação, flotação por ar dissolvido, filtros de mídia, microfiltração ou ultrafiltração, dependendo da água bruta.

O exemplo de Singapura é particularmente interessante. A PUB opera cinco plantas de dessalinização. Na Tuas Desalination Plant, o pré-tratamento combina flotação por ar dissolvido e ultrafiltração justamente para reduzir fouling e melhorar a eficiência operacional. Já a Tuas South utiliza ultrafiltração associada à osmose reversa. (Pub Singapore⁠)

A lição operacional é clara: economizar excessivamente no pré-tratamento pode significar gastar muito mais posteriormente com energia, produtos químicos, limpezas e substituição de membranas.

3. Condicionamento químico: poucos miligramas podem proteger milhões em ativos

Antes da osmose reversa, normalmente são executados ajustes químicos.

Dependendo da composição da água e da configuração da planta, podem ser aplicados corretores de pH, coagulantes, anti-incrustantes e produtos relacionados ao controle biológico e à remoção de oxidantes.

Esse ponto exige atenção especial porque muitas membranas de osmose reversa utilizam poliamida, material sensível a oxidantes como o cloro livre. Assim, uma estratégia de desinfecção inadequadamente integrada à osmose pode causar danos irreversíveis.

Também não basta instalar bombas dosadoras. Uma companhia de saneamento precisa correlacionar dosagem com vazão, pH, condutividade, potencial de oxirredução, qualidade microbiológica e tendência de incrustação.

Nesse ponto, o conhecimento do operador, do químico e do engenheiro de processo passa a ter enorme valor. A dessalinização de água moderna depende de automação, mas continua dependendo profundamente de julgamento técnico.

4. A alta pressão cria as condições para separar água e sal

Depois de devidamente preparada, a água chega às bombas de alta pressão.

Na osmose natural, a água tende a atravessar uma membrana em direção ao lado mais concentrado. Na osmose reversa, acontece o contrário: aplica-se pressão suficiente para superar a pressão osmótica e forçar moléculas de água através da membrana, deixando grande parte dos sais do outro lado. O Departamento de Energia dos Estados Unidos descreve justamente essa utilização de bombas de alta energia para inverter o processo osmótico natural. (The Department of Energy’s Energy.gov⁠)

A pressão necessária varia conforme salinidade, temperatura, recuperação, tipo de membrana e projeto hidráulico. Como referência tecnológica, determinadas membranas comerciais para SWRO — Seawater Reverse Osmosis — são ensaiadas com água contendo cerca de 32.000 mg/L de NaCl a aproximadamente 55 bar. Alguns modelos apresentam rejeição estabilizada de sais próxima de 99,9% nas condições padronizadas de ensaio. Esses valores servem como referência de desempenho da membrana e não devem ser tratados automaticamente como a condição operacional de qualquer planta. (LG Water Solutions⁠)

5. A osmose reversa finalmente separa os dois fluxos

Quando a água pressurizada chega aos vasos de pressão, encontra os elementos de membrana.

A partir desse momento surgem dois fluxos.

O primeiro é o permeado, que atravessou a membrana e contém concentração muito menor de sais.

O segundo é o concentrado, também chamado de rejeito ou salmoura, que carrega os sais retidos.

Esse balanço precisa ser dominado por quem opera a dessalinização de água. Quanto maior a recuperação, maior é a produção de permeado para determinada vazão captada. Entretanto, aumentar excessivamente a recuperação também aumenta a concentração de sais na corrente rejeitada e pode elevar o risco de incrustação.

O projeto da Cagece oferece um exemplo fácil de visualizar: segundo as informações divulgadas em 2026, aproximadamente 2.300 litros de água do oceano serão captados para gerar 1.000 litros de água potável. Isso corresponde, por cálculo, a uma recuperação de aproximadamente 43,5%, enquanto o restante segue predominantemente para a corrente de concentrado e demais perdas do processo. (AESBE⁠)

6. Recuperação de energia: uma das grandes evoluções da tecnologia

Durante décadas, o grande obstáculo econômico da dessalinização de água foi a energia.

A osmose reversa de água do mar precisa operar sob pressões elevadas. Entretanto, o concentrado deixa os vasos ainda carregando uma quantidade significativa dessa energia hidráulica.

Os sistemas modernos usam dispositivos de recuperação para transferir parte dessa pressão de volta à alimentação. Dessa forma, a bomba principal precisa fornecer menos energia nova.

O resultado aparece nos números internacionais. A PUB informa consumo de aproximadamente 3,5 kWh por metro cúbico para a dessalinização por osmose reversa em Singapura. Já a Saudi Water Authority divulga sistemas que atingiram aproximadamente 2,271 kWh/m³, demonstrando até onde projetos altamente otimizados podem chegar. (Pub Singapore⁠)

A diferença entre esses números também mostra por que não existe um consumo universal. Temperatura da água, salinidade, pressão, recuperação, eficiência de bombas, pré-tratamento, idade das membranas e recuperação de energia modificam o indicador.

7. Depois da membrana, a água ainda não está pronta

Esse é um dos pontos frequentemente simplificados quando se fala em dessalinização de água.

A água produzida pela osmose reversa possui baixa mineralização. Além disso, dependendo do sistema, pode apresentar características incompatíveis com a estabilidade necessária à rede.

Consequentemente, entra o pós-tratamento.

Nessa etapa podem ser realizadas remineralização, correção de pH, ajuste de alcalinidade, estabilização e desinfecção.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que sistemas de dessalinização sejam tratados dentro de uma estrutura de gestão de risco da fonte ao consumidor, incluindo riscos químicos, microbiológicos, tratamento e eventual mistura da água produzida com outras fontes. (Organização Mundial da Saúde⁠)

No Brasil, a água entregue à população precisa atender ao padrão nacional de potabilidade. O Ministério da Saúde informa que permanece vigente o Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, atualizado pelas Portarias GM/MS nº 888/2021 e nº 2.472/2021. Portanto, produzir água de baixa salinidade não encerra a responsabilidade da companhia. A água precisa ser segura para consumo e permanecer adequada até chegar ao usuário. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Quanto custa a dessalinização de água?

Essa talvez seja a pergunta mais importante — e também uma das que mais exigem cautela.

Não existe um preço único por metro cúbico.

O custo depende da capacidade da planta, salinidade, qualidade da água bruta, tipo de captação, extensão das adutoras, preço local da energia, financiamento, pré-tratamento, distância até o sistema de distribuição, exigências ambientais e estrutura contratual.

O Banco Mundial utiliza, em uma análise recente, um exemplo de tarifa estimada de aproximadamente US$ 0,84/m³ para uma planta SWRO de 150 mil m³/dia, considerando eletricidade a US$ 0,08/kWh e outras premissas econômico-financeiras. Além disso, outro estudo recente do Banco Mundial aponta que energia pode representar aproximadamente 37% a 75% do OPEX de projetos de dessalinização, dependendo das condições consideradas. (World Bank⁠)

Dubai demonstra o impacto da escala e da competição. A DEWA recebeu no projeto Hassyan proposta com tarifa nivelada de aproximadamente US$ 0,365 por metro cúbico para a alternativa de 180 milhões de galões imperiais por dia. Entretanto, essa tarifa de um contrato IWP não deve ser comparada diretamente com uma tarifa residencial de água ou com o custo de uma pequena unidade brasileira. São estruturas financeiras completamente diferentes. (Dewa⁠)

Portanto, comparar somente “R$/m³” sem compreender CAPEX, OPEX, energia, financiamento, prazo e riscos contratuais pode levar a decisões equivocadas.

O caso Cagece: a dessalinização de água entra em escala no Brasil

O maior laboratório brasileiro dos próximos anos será Fortaleza.

Em julho de 2026, foi autorizado o início das obras da Dessal do Ceará. O prazo divulgado para execução é de cerca de 24 meses, com operação comercial prevista para a segunda metade de 2028. A capacidade será de 1 m³/s, ou 86.400 m³/dia caso a produção nominal seja mantida durante 24 horas. (AESBE⁠)

A planta será operada dentro de uma PPP de 30 anos pela Águas de Fortaleza. O contrato envolve não apenas a usina, mas também sistemas físicos e operacionais de entrega da água potável e disposição dos rejeitos. O valor global divulgado pelo Programa de Parcerias do Ceará é de R$ 3,1418 bilhões. (PAPP⁠)

Além disso, o projeto utilizará osmose reversa, recuperação de energia e pós-tratamento com remineralização e ajuste de pH. A salmoura será conduzida a um sistema de dispersão no mar, projetado para promover diluição e reduzir impactos ambientais. (AESBE⁠)

Para o profissional brasileiro do saneamento, portanto, essa implantação merece acompanhamento próximo. Ela deverá produzir conhecimento nacional sobre manutenção, energia, qualidade da água, ambiente marinho, contratos de longo prazo e integração de grandes plantas SWRO com sistemas públicos existentes.

O que as grandes companhias estão fazendo no mundo

PUB: ultrafiltração, flotação e plantas flexíveis

Singapura representa uma das referências mais completas.

A PUB possui cinco plantas de dessalinização. A Tuas combina flotação por ar dissolvido com ultrafiltração. A Tuas South utiliza ultrafiltração e osmose reversa. Já a Keppel Marina East consegue alternar entre água do mar e água doce do reservatório Marina, de acordo com as condições disponíveis. (Pub Singapore⁠)

Além disso, a Keppel Marina East utiliza acoplamento direto entre ultrafiltração e osmose reversa, eliminando tanques intermediários e etapas adicionais de bombeamento. Segundo a PUB, essa arquitetura pode tornar o processo até 15% mais eficiente energeticamente, além de reduzir espaço físico. A unidade também utilizou BIM 3D, 4D e 6D no desenvolvimento do empreendimento. (Pub Singapore⁠)

DEWA: Dubai acelera a migração para SWRO

Dubai historicamente utilizou forte participação de processos térmicos. Entretanto, a DEWA está ampliando rapidamente a participação da osmose reversa.

No primeiro trimestre de 2026, a companhia colocou em serviço o primeiro bloco de 60 MIGD da planta SWRO de Hassyan. Com isso, sua capacidade instalada total de dessalinização chegou a 555 MIGD e a participação de SWRO alcançou 23% da matriz de produção de água. A companhia indicou ainda expectativa de adicionar outros 120 MIGD de SWRO ao longo de 2026. (Dewa⁠)

Ou seja, até mesmo sistemas tradicionalmente associados à dessalinização térmica estão aumentando o uso das membranas.

Arábia Saudita: escala, eficiência e substituição tecnológica

A Saudi Water Authority também está intensificando a migração de tecnologias térmicas, como MSF, para osmose reversa. Em 2025, foi anunciado financiamento de US$ 650 milhões para conversão de instalações de Jubail Fase I e Khobar Fase II para RO. A autoridade também registrou desempenho energético de 2,271 kWh/m³ em sistemas de osmose reversa. (SWA⁠)

A mensagem para o setor é importante: a tendência mundial não está apenas em construir mais dessalinização, mas em produzir cada metro cúbico com menos energia.

Como uma companhia de saneamento deveria implantar uma planta

A implantação de dessalinização de água precisa começar muito antes da compra das membranas.

Primeiramente, deve ser definida a necessidade hídrica: quanto precisa ser produzido, em quais períodos, para qual população e com que nível de garantia.

Em seguida, torna-se necessário caracterizar a água bruta durante diferentes épocas do ano. Uma campanha curta pode esconder florações de algas, variações de matéria orgânica, alterações de temperatura ou eventos de elevada turbidez.

Depois, diferentes alternativas de captação precisam ser comparadas. Paralelamente, deve-se estudar o ponto de entrega da água e a energia disponível.

Na fase de concepção, é recomendável avaliar diferentes sequências de pré-tratamento em escala piloto. Esse cuidado reduz o risco de projetar milhões em equipamentos com base apenas em análises pontuais.

Posteriormente, devem ser simuladas as membranas, taxas de recuperação, quantidade de passes, consumo específico de energia, concentração da salmoura e frequência esperada de limpeza.

Ao mesmo tempo, o projeto ambiental precisa considerar captação e descarte. A salmoura não pode ser tratada como detalhe de final de projeto.

Finalmente, vêm contratação, projeto executivo, aquisição, construção, comissionamento e operação assistida.

O ponto decisivo é que a companhia deve formar sua equipe própria desde o início. Se todo o conhecimento ficar exclusivamente com projetistas, fabricantes e operadores contratados, cria-se dependência tecnológica. O ativo pode durar décadas; portanto, a memória operacional precisa permanecer dentro da organização.

Quais indicadores precisam estar no painel da operação

Uma planta moderna de dessalinização de água precisa transformar dados em decisões.

Entre os indicadores fundamentais estão vazão captada, produção de permeado, recuperação global, pressão de alimentação, pressão diferencial dos estágios, condutividade da alimentação, condutividade do permeado, rejeição de sais, temperatura, pH, turbidez, SDI, consumo específico de energia e desempenho dos dispositivos de recuperação.

Também precisam ser acompanhados consumo químico por metro cúbico, frequência de CIP, disponibilidade dos trens, integridade das membranas, idade dos elementos e custo total por metro cúbico produzido.

O acompanhamento de tendências é especialmente importante. Um aumento progressivo da pressão necessária para produzir a mesma vazão pode indicar fouling. Uma elevação da passagem de sais pode indicar deterioração de membrana. Um aumento de pressão diferencial pode apontar obstrução do canal de alimentação.

Consequentemente, o profissional deixa de atuar apenas quando ocorre uma falha e passa a antecipar a perda de desempenho.

A salmoura será a próxima grande fronteira tecnológica

Quanto maior a expansão da dessalinização de água, maior será a atenção destinada ao concentrado.

A solução convencional em plantas costeiras envolve retorno controlado ao ambiente marinho por emissários e difusores, com projeto hidráulico destinado a acelerar a mistura. Entretanto, pesquisas avançam para transformar parte desse fluxo em recurso.

Sais, magnésio e outros compostos presentes no concentrado podem, em determinadas condições técnicas e econômicas, ser recuperados. A própria Cagece já estuda rotas de aproveitamento sustentável e possíveis usos comerciais da salmoura produzida em processos de dessalinização. (Portal Cagece⁠)

Portanto, a evolução futura pode deixar de tratar o concentrado exclusivamente como rejeito e passar a integrá-lo a estratégias de economia circular. Ainda assim, a viabilidade dependerá de concentração, pureza, energia necessária e mercado para os materiais recuperados.

A tecnologia não elimina a importância do profissional de saneamento

Quanto mais sofisticada se torna uma planta, maior passa a ser a importância das pessoas capazes de interpretar seu comportamento.

Sensores podem medir pressão. Um sistema SCADA pode registrar condutividade. Algoritmos podem detectar desvios. Entretanto, decidir se a causa está na captação, coagulação, biofouling, incrustação, bomba, membrana, instrumento ou estratégia operacional exige conhecimento multidisciplinar.

Por isso, dessalinização de água reúne operadores, engenheiros químicos, ambientais, civis, mecânicos e eletricistas, profissionais de automação, laboratórios, manutenção, oceanografia e gestão energética.

O profissional do saneamento que compreende somente a osmose reversa conhece apenas uma peça. Aquele que entende a cadeia inteira passa a enxergar o sistema.

E será justamente essa capacidade sistêmica que ganhará valor à medida que as companhias brasileiras incorporarem novas fontes de abastecimento.

Dessalinização de água pode se tornar comum no Brasil?

A resposta depende menos da existência da tecnologia e mais da economia de cada sistema.

Em municípios litorâneos com elevada escassez hídrica, grandes distâncias de transferência de água, crescimento urbano ou necessidade elevada de garantia de abastecimento, a dessalinização de água pode competir com novas barragens e grandes adutoras.

Em áreas com abundância de água doce próxima e barata, provavelmente haverá alternativas mais econômicas.

Portanto, a comparação correta não é “dessalinização versus água convencional”. A análise adequada coloca lado a lado o custo de todas as soluções capazes de oferecer o mesmo volume, qualidade e segurança hídrica ao longo de décadas.

Além disso, perdas elevadas não deveriam ser ignoradas. Em determinados sistemas, reduzir perdas pode liberar água a custo menor do que produzir uma nova fonte. Em outros, mesmo após ganhos de eficiência, novas fontes continuarão necessárias.

É justamente por isso que planejamento hídrico, engenharia econômica e operação precisam trabalhar juntos.

A tecnologia já demonstrou capacidade de produzir milhões de metros cúbicos diariamente em algumas das regiões mais críticas do planeta. Agora, o desafio está em torná-la cada vez mais eficiente, ambientalmente responsável e integrada aos sistemas convencionais.

Para o saneamento brasileiro, o início da planta de Fortaleza marca uma nova etapa. Mais do que uma grande obra, cria-se uma oportunidade para desenvolver conhecimento nacional em dessalinização de água, formar equipes especializadas e ampliar o repertório tecnológico utilizado para garantir abastecimento seguro à população.

Fontes