A Saneago encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 173,452 milhões, avanço de 15,97% sobre os R$ 149,562 milhões registrados no 2T25. Ao mesmo tempo, a receita líquida de serviços e outorga utilizada na apresentação gerencial alcançou R$ 952,247 milhões, crescimento de 8,85%. O desempenho chama atenção porque os custos e despesas também avançaram 8,71%, para R$ 724,671 milhões, mas, ainda assim, houve expansão relevante do resultado final.

O Saneago 2T26, portanto, mostra uma recuperação importante da rentabilidade no trimestre. Entretanto, o acumulado do semestre apresenta uma fotografia mais desafiadora. Nas demonstrações financeiras revisadas, o lucro líquido dos seis primeiros meses de 2026 foi de R$ 252,470 milhões, 6,08% inferior aos R$ 268,801 milhões do mesmo período de 2025. Já a receita de serviços e outorga cresceu 6,20%, de aproximadamente R$ 1,694 bilhão para R$ 1,799 bilhão. (Saneago)
Além disso, existe uma diferença técnica importante na leitura da receita. Os R$ 952,247 milhões apresentados como principal receita líquida do trimestre correspondem aos serviços e outorga. Na demonstração contábil completa, que também considera receita de construção, a receita operacional líquida atingiu R$ 1,151 bilhão no 2T26, contra R$ 993,551 milhões no 2T25, crescimento aproximado de 15,9%. Contudo, a receita de construção de R$ 198,810 milhões teve custo de construção exatamente no mesmo valor. Dessa forma, essa parcela não produz a mesma contribuição de margem da receita obtida com a prestação dos serviços de água e esgoto. (Saneago)
Saneago 2T26 exige atenção na leitura do acumulado
Um ponto técnico importante foi identificado na análise do material apresentado. Na página de desempenho financeiro acumulado, as colunas identificadas como 6M2026 e 6M2025 aparecem aparentemente invertidas em relação às próprias variações apresentadas.
Por exemplo, a tabela mostra variação positiva de 6,20% da receita, porém a disposição visual dos valores indicaria redução caso as colunas fossem interpretadas literalmente. O mesmo acontece com o lucro líquido, cuja variação indicada é negativa em 6,08%. As demonstrações financeiras intermediárias revisadas esclarecem a sequência correta: receita de serviços e outorga de aproximadamente R$ 1,799 bilhão em 6M26 contra R$ 1,694 bilhão em 6M25, além de lucro líquido de R$ 252,470 milhões contra R$ 268,801 milhões. (Saneago)
Também foi identificada uma inconsistência de sinal na linha de resultado financeiro do trimestre. A apresentação mostra R$ 12,297 milhões negativos no 2T26. Entretanto, a demonstração revisada registra resultado financeiro líquido positivo de R$ 12,297 milhões, contra resultado negativo de R$ 1,481 milhão no 2T25. O valor positivo é, inclusive, o que permite o fechamento matemático entre o resultado operacional, os impostos e o lucro líquido de R$ 173,452 milhões. (Saneago)
Para fins de análise financeira, portanto, as demonstrações contábeis revisadas devem ser consideradas como referência para esses números.
Margens EBITDA melhoram no segundo trimestre
Outro ponto favorável do Saneago 2T26 está na recuperação das margens. A margem EBITDA clássica passou de 29,43% no 2T25 para 30,10% no 2T26, ganho de 0,67 ponto percentual. Já a margem EBITDA ajustada avançou de 27,12% para 29,81%, evolução de expressivos 2,69 pontos percentuais.
No acumulado de seis meses, entretanto, a dinâmica ainda é diferente. A margem EBITDA clássica caiu de 27,28% para 25,43%, enquanto a margem ajustada recuou de 29,72% para 27,21%. Dessa maneira, fica evidente que o desempenho do segundo trimestre foi superior ao observado no começo do ano.
Antes da divulgação do resultado, a Moody’s Local já havia apontado pressão sobre a margem no primeiro trimestre de 2026. A agência observava que parte da recuperação poderia ocorrer após a entrada em vigor do reajuste tarifário de 4,845% a partir de abril de 2026, justamente no início do segundo trimestre. A própria Moody’s, porém, alertava que pressões com pessoal e energia poderiam limitar parte desse ganho. (Saneago)
Energia elétrica pressiona os custos da Saneago
Os custos continuam sendo uma das principais variáveis a serem observadas no Saneago 2T26. A energia elétrica cresceu 21,36% no trimestre, passando de R$ 64,596 milhões para R$ 78,396 milhões.
Além disso, materiais avançaram 24,99%, para R$ 36,065 milhões, enquanto despesas tributárias subiram 63,01%, chegando a R$ 14,276 milhões. Por outro lado, houve um movimento favorável nos serviços de terceiros, que recuaram 11,36%, de aproximadamente R$ 100 milhões para R$ 88,651 milhões.
As notas explicativas ajudam a compreender o comportamento da energia. Segundo a companhia, a elevação reflete o reajuste de 17,04% da Equatorial a partir de outubro de 2025, além de aumento do custo do kWh em nova contratação no mercado livre e elevação do consumo de energia. (Saneago)
Esse dado possui impacto direto sobre os profissionais de operação, manutenção, automação e planejamento energético. Consequentemente, ações como otimização de bombeamento, gestão de horários operacionais, controle de pressão, modernização de equipamentos, eficiência em estações elevatórias e estratégia de contratação de energia deixam de representar apenas melhorias técnicas. Elas passam a influenciar diretamente a margem financeira da empresa.
As despesas com pessoal também exigem acompanhamento. No trimestre, chegaram a R$ 363,681 milhões, crescimento de 4,85%. Nas demonstrações financeiras, a companhia explica que a evolução acumulada está relacionada, entre outros fatores, à reposição inflacionária de 4,42% aplicada a partir de junho, ao acordo coletivo e à progressão do plano de carreira. (Saneago)
Investimentos em água crescem impressionantes 94%
O Saneago 2T26 também apresenta uma mudança relevante na composição dos investimentos.
Considerando água, esgoto, outros investimentos e parcerias estratégicas, foram investidos R$ 430,167 milhões no primeiro semestre, redução de 2,01% frente aos R$ 438,981 milhões registrados no mesmo período de 2025.
Entretanto, observar apenas essa queda poderia levar a uma conclusão incompleta. Os investimentos especificamente em sistemas de água chegaram a R$ 271,665 milhões, crescimento de 94,41%. Em esgoto, foram R$ 60,334 milhões, redução de 35,14%. Somados, água e esgoto receberam R$ 331,999 milhões, avanço expressivo de 42,63%.
Já a categoria “Outros” recebeu R$ 70,722 milhões, queda de 60,01%, enquanto as parcerias estratégicas somaram R$ 27,446 milhões, retração de 6,51%.
Portanto, ocorreu uma concentração maior dos recursos diretamente na infraestrutura-fim de abastecimento e esgotamento.
Ao mesmo tempo, a redução dos investimentos em esgoto merece acompanhamento, considerando a distância existente para a universalização. A Moody’s Local estima que o planejamento estratégico da Saneago envolva aproximadamente R$ 5,8 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, dos quais cerca de R$ 2,1 bilhões deverão ser direcionados aos sistemas de esgoto. (Saneago)
Água chega a 98,35% de atendimento
No campo operacional, o Saneago 2T26 apresenta resultados importantes no abastecimento de água.
O índice de atendimento alcançou 98,35%, ante 98,21% no acumulado comparável, uma melhora de 0,14 ponto percentual. A população urbana atendida chegou a aproximadamente 6,276 milhões de habitantes, alta de 1,44%.
Já a quantidade de economias de água alcançou 2,822 milhões, crescimento de 2,71% na comparação com o 2T25.
A extensão acumulada da rede chegou a 36.826 quilômetros, crescimento de 3,20%. Paralelamente, o volume produzido alcançou 213,390 milhões de metros cúbicos, aumento de 2,55%. O volume faturado avançou 2,9%, para aproximadamente 166,837 milhões de metros cúbicos.
Perdas de água caem para 21,54%
Um dos indicadores operacionalmente mais relevantes foi a redução do índice de perdas.
As perdas passaram de 22,36% para 21,54%, redução de 0,82 ponto percentual.
Para o saneamento, esse indicador possui importância estratégica porque conecta diferentes áreas da empresa. A redução de perdas depende de engenharia, operação, manutenção, controle de pressão, setorização, macromedição, micromedição, pesquisa de vazamentos, qualidade cadastral e combate às perdas aparentes.
Consequentemente, o desempenho mostra como o trabalho dos profissionais de saneamento pode gerar simultaneamente eficiência hídrica, disponibilidade de água, redução de custos e aumento do potencial de faturamento.
Além disso, a Moody’s Local já destacava a Saneago por apresentar níveis de perdas relativamente baixos entre companhias estaduais e apontava que a empresa se encontrava abaixo do patamar de 25% considerado como referência regulatória para 2033. (Saneago)
Esgoto cresce em atendimento, rede e volume
O esgotamento sanitário também apresentou evolução.
O índice de atendimento passou de 74,51% para 75,57%, crescimento de 1,06 ponto percentual. A população urbana atendida chegou a 4,822 milhões de habitantes, aumento de 2,74%.
A quantidade de economias de esgoto alcançou 1,447 milhão, crescimento de 3,02% em relação ao 2T25.
Porém, talvez o indicador mais impressionante esteja na infraestrutura. A extensão acumulada da rede de esgoto saltou de 17.398 para 20.431 quilômetros, expansão de 17,43%.
Ao mesmo tempo, o volume tratado atingiu 106,021 milhões de metros cúbicos, crescimento de 3,11%. Já o volume faturado de esgoto alcançou 111,625 milhões de metros cúbicos, alta de 2,96%.
Por outro lado, o incremento de economias relacionado à parceria estratégica ficou em 4.182 unidades no primeiro semestre, queda de 36% frente às 6.565 unidades registradas no período comparável.
Esse avanço da infraestrutura é particularmente relevante porque o atendimento de esgoto ainda está distante da referência de 90% para 2033. Assim, o desafio não termina na construção das redes. Será necessário transformar infraestrutura em ligações efetivas, colocar sistemas em operação, garantir eficiência das ETEs e integrar engenharia, operação e área comercial. (Saneago)
Inadimplência sobe para 2,12%
Um indicador merece atenção especial dos gestores comerciais.
A taxa de inadimplência acumulada passou de 1,11% para 2,12%, aumento de 1,01 ponto percentual. Entretanto, o faturamento considerado pelo indicador cresceu 6,87%, para R$ 2,013 bilhões, enquanto a arrecadação avançou 7,07%, para aproximadamente R$ 1,938 bilhão.
Aparentemente, poderia existir uma contradição entre crescimento maior da arrecadação e aumento da inadimplência. Porém, desde 2025, a metodologia utiliza uma relação envolvendo diferentes janelas móveis de faturamento e arrecadação dos últimos 12 meses. Portanto, os movimentos não são necessariamente incompatíveis.
Ainda assim, trata-se de um indicador que merece acompanhamento. Régua de cobrança, segmentação de clientes, negociação digital, atualização cadastral, qualidade do faturamento e inteligência de dados tendem a ocupar espaço crescente na estratégia comercial.
Dívida aumenta, mas alavancagem continua baixa
A dívida bruta da Saneago atingiu R$ 1,530 bilhão no final do segundo trimestre. Desse montante, aproximadamente R$ 533,482 milhões estavam relacionados a empréstimos e financiamentos e R$ 996,029 milhões a debêntures.
Depois de descontados R$ 215,299 milhões de caixa e equivalentes, R$ 693,109 milhões em aplicações financeiras e R$ 331 mil em títulos e valores mobiliários, a dívida líquida ficou em R$ 620,772 milhões.
Apesar do aumento nominal da dívida, os índices permanecem confortáveis. A relação dívida líquida sobre EBITDA ajustado dos últimos 12 meses ficou em 0,55 vez, muito abaixo do parâmetro máximo de 3 vezes apresentado pela companhia.
Além disso, o Índice de Cobertura do Serviço da Dívida, o ICSD, atingiu 2,34 vezes, acima do parâmetro mínimo de 1,50.
Portanto, existe capacidade financeira para suportar maior investimento, embora essa situação precise ser acompanhada à medida que novos projetos demandem captações.
A Moody’s Local afirmou em junho de 2026 o rating corporativo AAA.br da Saneago, com perspectiva estável. A agência destaca justamente a baixa alavancagem, a geração previsível de caixa e a robustez da liquidez, mas também alerta que o grande ciclo de investimentos deverá pressionar o fluxo de caixa livre e exigir novas captações nos próximos anos. (Saneago)
O que o Saneago 2T26 sinaliza para o saneamento
O conjunto dos números mostra um trimestre financeiramente positivo: lucro maior, recuperação das margens, crescimento da receita, expansão de redes e redução de perdas.
Entretanto, o Saneago 2T26 também mostra pontos que precisam permanecer no radar. O lucro ainda cai no acumulado do semestre, a energia elétrica ganhou peso relevante na estrutura de custos, a inadimplência aumentou e será necessário sustentar um ciclo intenso de investimentos para ampliar principalmente o esgotamento sanitário.
Além disso, a expansão de quase 94% dos investimentos em água e o crescimento de 17,43% da extensão da rede de esgoto mostram a dimensão do trabalho executado pelas equipes responsáveis pelo planejamento, engenharia, fiscalização, operação, manutenção e gestão dos sistemas.
Para os profissionais do saneamento, existe uma mensagem particularmente importante: resultado financeiro não nasce somente na diretoria financeira.
Ele é construído diariamente na ETA, na ETE, na estação elevatória, na manutenção das redes, no controle de perdas, na eficiência energética, na leitura dos hidrômetros, no faturamento, na cobrança, na gestão dos contratos, na execução das obras e no atendimento aos usuários.
Cada vazamento identificado, cada equipamento operando com maior eficiência, cada ligação de esgoto ativada, cada economia corretamente cadastrada e cada metro cúbico transformado em faturamento contribuem para a sustentabilidade econômica da companhia.
A fotografia do segundo trimestre é positiva. Contudo, o semestre demonstra que será necessário manter disciplina operacional e financeira. Caso a recuperação observada no 2T26 seja sustentada e os investimentos sejam convertidos em expansão efetiva dos serviços, a companhia poderá avançar mantendo um equilíbrio essencial para qualquer prestador de saneamento: universalização, eficiência operacional e capacidade financeira para continuar investindo.
Fontes
- Saneago – Central de Resultados
- Saneago – Apresentação de Resultados 2T26
- Saneago – Demonstrações Financeiras Intermediárias de junho de 2026
- Moody’s Local Brasil – Relatório de Crédito da Saneago
- Saneago – Apresentação Institucional 2026
- Apresentação de Resultados 2T26 fornecida para análise.



