A demissão na privatização pode encerrar um vínculo de décadas em poucos dias, mas não elimina décadas de conhecimento sobre tratamento de água, esgotamento sanitário, manutenção, perdas, faturamento, atendimento, engenharia, obras, laboratório, regulação ou gestão. Esse conhecimento continua tendo valor econômico — e, em um setor que precisa investir centenas de bilhões de reais para avançar na universalização, pode ser justamente o principal ativo do profissional desligado.
Há, inclusive, um dado que contraria a percepção de que não haverá espaço depois de uma privatização. Segundo levantamento divulgado pela ABCON SINDCON em agosto de 2026, o número de trabalhadores no saneamento chegou a 165.425 profissionais em 2025, crescimento de 6,9% sobre 2024. No mesmo levantamento, foram contabilizados mais de R$ 227 bilhões em investimentos contratados por concessões, além de novos projetos em estruturação. (Abcon Sindcon)
Portanto, perder o emprego em uma companhia não significa necessariamente perder o mercado de saneamento. Pelo contrário: enquanto algumas estruturas são reduzidas ou reorganizadas, outras empresas, concessionárias, fornecedores, consultorias, empreiteiras, fabricantes e prestadores de serviços precisam encontrar pessoas capazes de entregar resultados rapidamente.
Nesse cenário, o primeiro objetivo após uma demissão na privatização não deveria ser simplesmente procurar outro emprego igual ao anterior. O objetivo mais inteligente consiste em transformar experiência acumulada em empregabilidade, autoridade profissional e capacidade de gerar renda.
E existem diversos caminhos para isso.
Privatização não significa automaticamente demissão
Antes de qualquer decisão profissional ou jurídica, existe uma diferença importante: privatização e demissão não são sinônimos.
Uma companhia pode passar por venda de controle acionário, concessão dos serviços, reorganização societária, transferência de ativos, cisão de operações ou outros modelos de desestatização. Dependendo da estrutura escolhida, contratos de trabalho podem permanecer ativos, ser transferidos ou posteriormente encerrados.
A própria CLT estabelece que alterações na estrutura jurídica ou na propriedade da empresa não eliminam automaticamente os direitos adquiridos nem os contratos de trabalho. Os artigos 10, 448 e 448-A tratam justamente dessas situações de reorganização e sucessão empresarial. (Palácio do Planalto)
Entretanto, existe outra realidade que precisa ser conhecida pelos empregados de antigas empresas estatais.
Em maio de 2025, o Tribunal Superior do Trabalho consolidou precedente vinculante no Tema 130 estabelecendo que é válida a dispensa imotivada de empregado admitido anteriormente à privatização, inclusive quando havia norma interna anterior estabelecendo procedimentos ou limitações ao desligamento. O precedente transitou em julgado. (TST)
Por isso, cada demissão na privatização precisa ser analisada individualmente. Acordos coletivos, programas de desligamento, garantias temporárias de emprego, condições estabelecidas durante a privatização, estabilidade provisória, regras de previdência complementar e outros elementos podem alterar significativamente a situação.
Primeira providência: conferir todos os direitos do desligamento
Antes de atualizar currículo, abrir empresa ou procurar clientes, o profissional deveria organizar a documentação referente à saída.
Na dispensa sem justa causa, por exemplo, devem ser conferidas as verbas rescisórias aplicáveis, saldo salarial, férias vencidas ou proporcionais com adicional constitucional, décimo terceiro proporcional, aviso-prévio, depósitos de FGTS e demais parcelas previstas no contrato ou em instrumentos coletivos.
A CLT determina que os documentos relativos à extinção contratual e o pagamento das verbas constantes do instrumento de rescisão sejam providenciados em até dez dias contados do término do contrato. (Palácio do Planalto)
Além disso, na dispensa sem justa causa existe, em regra, a indenização de 40% sobre o montante do FGTS previsto na legislação. (Palácio do Planalto)
Também deve ser verificada a modalidade de saque escolhida no FGTS. Para quem estava no saque-rescisão, a dispensa sem justa causa permite, observadas as regras aplicáveis, o saque do saldo. Já quem estiver sujeito às regras do saque-aniversário pode não ter acesso imediato ao saldo integral na demissão, permanecendo o direito à multa rescisória quando devida. (FGTS)
O seguro-desemprego também merece atenção. O benefício é destinado, entre outras hipóteses, ao trabalhador formal dispensado sem justa causa que cumpra os requisitos legais. Na primeira solicitação, por exemplo, exige-se determinado período mínimo de recebimento de salários; os requisitos mudam nas solicitações posteriores. (Serviços e Informações do Brasil)
Finalmente, documentos como acordo coletivo, regulamento interno, plano de desligamento, comunicado da privatização, contrato de trabalho e demonstrativos rescisórios devem ser preservados.
Quando houver divergências relevantes, a análise de sindicato ou profissional especializado em Direito do Trabalho torna-se prudente. A CLT estabelece, de forma geral, prazo prescricional de cinco anos para créditos trabalhistas, limitado a dois anos após a extinção do contrato para ajuizamento da ação. (Palácio do Planalto)
A reserva financeira precisa comprar tempo, não aparência
Depois da demissão na privatização, existe uma tentação compreensível de utilizar rapidamente a indenização recebida. Entretanto, para quem ainda não possui outra fonte de renda, esse dinheiro deveria ser encarado principalmente como uma reserva de transição profissional.
O profissional precisa calcular quantos meses consegue manter as despesas essenciais da família sem salário.
Consequentemente, pode ser necessário temporariamente reduzir gastos, adiar compras relevantes e separar o patrimônio familiar do dinheiro eventualmente destinado a uma nova empresa.
Sobretudo, não parece prudente investir grande parte da rescisão em equipamentos, escritórios ou estruturas empresariais antes de comprovar que existem clientes dispostos a pagar pelo serviço pretendido.
Primeiro vende-se a solução. Depois amplia-se a estrutura.
Esse princípio simples pode evitar que uma demissão na privatização seja seguida por um segundo problema financeiro.
O mercado de saneamento continua precisando de profissionais experientes
É importante compreender o tamanho da transformação em andamento.
O Marco Legal estabelece metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. Portanto, ainda existe uma enorme quantidade de sistemas para ampliar, modernizar, operar e controlar. (Serviços e Informações do Brasil)
Além disso, estudo do BNDES publicado em 2026 projeta investimentos médios anuais de aproximadamente R$ 42,4 bilhões em saneamento entre 2025 e 2029 no cenário-base, podendo chegar a R$ 45,2 bilhões no cenário otimista. Entre 2020 e 2024, a média havia sido de aproximadamente R$ 23,7 bilhões. (Blog do Desenvolvimento BNDES)
Ou seja, existe expansão relevante de capital sendo direcionado ao setor.
E capital aplicado em saneamento precisa de profissionais.
Precisa-se de operadores.
Precisa-se de técnicos.
Precisa-se de engenheiros.
Precisa-se de especialistas comerciais.
Precisa-se de profissionais de laboratório.
Precisa-se de gestores de contratos.
Precisa-se de especialistas em perdas.
Precisa-se de profissionais de cadastro, faturamento e arrecadação.
Precisa-se de especialistas em automação, telemetria e inteligência de dados.
Precisa-se de pessoas capazes de transformar metas contratuais em resultados operacionais.
Por isso, a experiência acumulada em uma empresa pública pode ser extremamente útil para concessionárias privadas, empresas de engenharia, fornecedores e prestadores de serviços.
Depois da demissão na privatização, o currículo precisa mudar
Um dos maiores erros do profissional experiente consiste em preparar um currículo baseado exclusivamente nos cargos ocupados.
“Supervisor de operação por 15 anos” informa pouco.
Por outro lado:
“Responsável pela operação de cinco sistemas de abastecimento atendendo aproximadamente 300 mil habitantes” comunica escala.
“Reduziu perdas aparentes por meio de recadastramento e melhoria da medição” comunica resultado.
“Gerenciou equipes próprias e terceirizadas responsáveis por manutenção de redes” comunica capacidade de gestão.
“Participou da implantação de telemetria em unidades operacionais” comunica transformação tecnológica.
“Coordenou faturamento de determinada quantidade de ligações” comunica responsabilidade comercial.
Portanto, depois de uma demissão na privatização, o currículo precisa transformar experiência em evidência.
Sempre que possível, devem aparecer números relacionados a:
- população atendida;
- quantidade de ligações;
- quilômetros de rede;
- número de estações operadas;
- orçamento administrado;
- contratos fiscalizados;
- equipes lideradas;
- redução de perdas;
- aumento de faturamento;
- redução de inadimplência;
- eficiência energética;
- produtividade;
- acidentes evitados;
- indicadores regulatórios;
- melhorias implantadas.
O mercado privado tende a compreender melhor resultados do que descrições genéricas de funções.
Onde procurar emprego no saneamento depois de uma privatização
A busca não deveria ficar limitada às grandes companhias tradicionais.
Existem pelo menos oito grandes grupos de possíveis empregadores.
1. Concessionárias privadas
As concessionárias são o destino mais óbvio, principalmente para profissionais provenientes de companhias estaduais.
Operação de ETA e ETE, manutenção, perdas, gestão comercial, atendimento, engenharia, projetos, fiscalização, planejamento, suprimentos e gestão de contratos são competências diretamente transferíveis.
2. Outras companhias públicas
A privatização de uma empresa não significa a privatização de todo o setor brasileiro. Permanecem empresas estaduais, municipais e serviços autônomos que realizam concursos, processos seletivos e contratações conforme seus regimes.
3. Empresas de engenharia e construção
A universalização exige redes, estações, elevatórias, reservatórios, adutoras e sistemas de tratamento.
Portanto, construtoras, projetistas, empresas EPC e gerenciadoras precisam de profissionais que conheçam o funcionamento real dos sistemas — inclusive aqueles que já enfrentaram situações que não aparecem nos projetos.
4. Prestadores de serviços
Leitura de hidrômetros, substituição de medidores, corte, religação, pesquisa de vazamentos, manutenção de redes, cadastro técnico, inspeções, cobrança, teleatendimento e gestão de ordens de serviço são apenas alguns exemplos.
Muitos desses serviços são terceirizados.
Consequentemente, conhecer profundamente os padrões de uma companhia de saneamento pode representar uma vantagem competitiva.
5. Fabricantes e fornecedores
Bombas, válvulas, tubos, hidrômetros, equipamentos laboratoriais, sensores, inversores, softwares, sistemas de telemetria e soluções de tratamento precisam de vendedores e especialistas técnicos capazes de conversar com quem opera sistemas.
Um antigo profissional de companhia de saneamento pode se tornar excelente consultor técnico-comercial justamente porque conhece as dores do cliente.
6. Consultorias
Empresas especializadas em perdas, eficiência operacional, regulação, planejamento, modelagem, gestão comercial, tarifas, estudos econômico-financeiros, ESG e transformação digital precisam de conhecimento setorial.
7. Prefeituras, agências reguladoras e consórcios
Outra possibilidade está relacionada a planejamento, fiscalização, regulação, elaboração de estudos e acompanhamento de contratos.
8. Tecnologia aplicada ao saneamento
Empresas de software, inteligência artificial, GIS, telemetria, analytics, gestão de ativos e leitura remota precisam de profissionais capazes de fazer a ponte entre tecnologia e operação.
Um programador pode desenvolver um excelente sistema.
Entretanto, alguém precisa explicar ao programador o que realmente acontece quando uma ligação está cadastrada incorretamente, uma válvula não aparece no cadastro, uma leitura está fora do padrão ou uma bomba opera fora da curva.
Esse conhecimento operacional tem valor.
O profissional precisa procurar problemas, não apenas vagas
Depois da demissão na privatização, a recolocação pode ser acelerada quando o profissional deixa de perguntar apenas “onde existe uma vaga?” e passa a perguntar “qual empresa possui um problema que essa experiência consegue resolver?”.
Esse raciocínio muda completamente a busca.
Um especialista em perdas pode pesquisar concessionárias com metas agressivas de redução de água não faturada.
Um profissional comercial pode identificar operações recentemente assumidas que precisam revisar cadastros, faturamento, leitura e cobrança.
Um operador de ETA pode buscar concessionárias em expansão.
Um especialista em manutenção pode procurar empresas responsáveis por contratos de performance.
Um profissional experiente em licitações pode atuar em fornecedores que desejam vender para companhias de saneamento.
Dessa forma, o currículo deixa de ser simplesmente enviado e começa a ser direcionado.
Networking precisa começar antes de aparecer uma vaga
Boa parte das oportunidades de profissionais experientes surge por indicação, reputação ou relacionamento setorial.
Por isso, torna-se importante reconstruir a rede profissional.
Ex-colegas, fornecedores, consultores, empreiteiros, fabricantes, professores, profissionais de outras concessionárias, associações técnicas e participantes de congressos devem conhecer a disponibilidade daquele profissional.
Entretanto, a comunicação precisa ser objetiva.
Em vez de simplesmente informar que está desempregado, o profissional pode posicionar claramente aquilo que consegue entregar:
“Profissional com experiência em redução de perdas e gestão de equipes operacionais disponível para novos projetos.”
Ou:
“Especialista em faturamento, cadastro comercial e recuperação de receitas disponível para operações de saneamento.”
A mensagem é completamente diferente.
Sistemas públicos também podem ajudar na recolocação
Além das plataformas privadas de emprego, o Sistema Nacional de Emprego realiza intermediação de mão de obra. O profissional pode cadastrar formação e experiências e consultar oportunidades presencialmente ou por canais digitais integrados ao serviço. (Serviços e Informações do Brasil)
Ao mesmo tempo, o Portal Emprega Brasil permite acessar informações profissionais e serviços relacionados ao trabalhador. (Emprega Brasil)
Esses canais não substituem uma estratégia especializada para o saneamento, porém ampliam o alcance da busca.
Empreender pode ser uma segunda carreira no saneamento
Uma demissão na privatização também pode transformar um empregado experiente em fornecedor do próprio setor onde trabalhou.
Esse movimento, entretanto, precisa começar pela identificação de problemas pelos quais empresas realmente estejam dispostas a pagar.
Existem dezenas de possibilidades.
Consultoria em redução de perdas
Profissionais experientes podem atuar em diagnóstico de perdas, setorização, macromedição, micromedição, controle de pressão, pesquisa de vazamentos e análise de indicadores.
Consultoria comercial
Cadastro, faturamento, leitura, arrecadação, inadimplência, fiscalização, recuperação de receitas e gestão de grandes consumidores são áreas com forte potencial.
Um profissional que passou anos identificando erros de cadastro possui conhecimento que pode economizar valores significativos para uma operação.
Auditorias técnicas e operacionais
Outra possibilidade está na análise de procedimentos, contratos, medições, produtividade, custos e qualidade dos serviços executados por terceiros.
Treinamentos
Experiência pode virar capacitação.
Podem ser desenvolvidos cursos de operação de ETA, segurança operacional, leitura, faturamento, perdas, atendimento, gestão comercial, manutenção, gestão de contratos ou liderança de equipes.
Procedimentos operacionais
Companhias novas frequentemente precisam estruturar padrões.
Manuais, procedimentos, instruções de trabalho, indicadores, fluxos comerciais e rotinas de fiscalização podem constituir serviços comercializáveis.
Cadastro e GIS
Atualização cadastral de redes, ligações, equipamentos e consumidores é uma dor frequente.
Equipes especializadas podem prestar levantamento, validação e organização de informações.
Eficiência energética
Profissionais que conhecem bombeamento, reservação e operação podem atuar juntamente com especialistas habilitados na identificação de oportunidades de redução de consumo energético.
Pesquisa de vazamentos
Dependendo da estrutura disponível, a experiência operacional pode resultar em empresas especializadas em detecção e localização de vazamentos.
Gestão terceirizada de serviços comerciais
Pequenas operações podem contratar empresas para leitura, fiscalização, cadastro, atendimento ou apoio à cobrança.
Representação técnica de fornecedores
Profissionais conhecidos no setor podem representar fabricantes de equipamentos ou empresas de tecnologia, combinando conhecimento técnico com relacionamento comercial.
Mentoria técnica
Gestores e especialistas aposentados ou desligados podem orientar profissionais mais novos, equipes e pequenas empresas.
Conteúdo especializado
Cursos digitais, livros técnicos, newsletters, canais, palestras e comunidades profissionais podem gerar receita. Entretanto, esse modelo geralmente exige construção gradual de audiência e autoridade.
Apoio em licitações
Profissionais familiarizados com contratação pública podem auxiliar empresas a interpretar especificações técnicas, preparar propostas e estruturar execução contratual, sempre respeitando as exigências legais e eventuais conflitos de interesse.
O Portal Nacional de Contratações Públicas concentra informações oficiais sobre contratações regidas pela Lei nº 14.133/2021 e pode se tornar uma fonte importante para empresas que pretendam acompanhar oportunidades. (PNCP)
Um conhecimento muito específico pode valer mais do que um conhecimento genérico
No empreendedorismo, o especialista costuma conseguir explicar melhor o valor daquilo que vende.
Por exemplo:
“Consultoria em saneamento” é amplo.
Por outro lado:
“Diagnóstico de perdas aparentes e recuperação de receita para operações com baixa eficiência de micromedição” é específico.
“Consultoria comercial” é genérico.
Por outro lado:
“Revisão de cadastro, leitura e faturamento para reduzir contas retidas e recuperar receita” apresenta um problema concreto.
O profissional deveria perguntar:
Qual problema foi resolvido dezenas de vezes durante a carreira e ainda custa dinheiro para outras empresas?
Ali pode estar uma oportunidade empresarial.
Como transformar conhecimento em um serviço vendável
O caminho pode seguir cinco etapas.
Primeiramente, identifica-se uma dor.
Depois, define-se uma entrega concreta.
Em seguida, estabelece-se prazo.
Posteriormente, calcula-se o preço.
Finalmente, apresenta-se o resultado esperado.
Um antigo gestor de perdas, por exemplo, não precisa vender “horas de consultoria”.
Pode vender:
“Diagnóstico de perdas em 30 dias, contendo avaliação dos indicadores, principais causas, priorização das ações e plano de redução.”
Da mesma maneira, um especialista comercial pode oferecer:
“Diagnóstico de faturamento com análise de cadastro, leitura, anormalidades, inadimplência e oportunidades de recuperação de receita.”
Isso é muito mais fácil de compreender e contratar.
Como cobrar por consultoria sem trabalhar de graça
Depois da demissão na privatização, pode surgir insegurança para cobrar pela própria experiência.
Entretanto, preço não deveria refletir apenas as horas utilizadas.
Deveria considerar conhecimento acumulado, responsabilidade, impostos, deslocamentos, estrutura, risco empresarial, tempo comercial e quantidade real de horas faturáveis.
Uma forma simples consiste em definir quanto a atividade precisa gerar mensalmente e dividir esse valor pelas horas que efetivamente poderão ser cobradas dos clientes.
Se determinada consultoria pretende gerar R$ 15 mil mensais, por exemplo, não deveria dividir esse objetivo por 160 horas de trabalho. Parte dessas horas será utilizada em propostas, reuniões, administração, deslocamentos, estudos e prospecção.
Portanto, a quantidade de horas faturáveis será menor.
Além disso, serviços capazes de gerar economia ou recuperar grande quantidade de receita para o contratante podem ser precificados também considerando o valor entregue, e não exclusivamente o tempo trabalhado.
Atenção às responsabilidades profissionais
Nem toda prestação de serviço pode ser iniciada simplesmente com a abertura de um CNPJ.
Atividades de engenharia, por exemplo, podem exigir profissional habilitado, registro da pessoa jurídica e responsabilidade técnica conforme as regras do Sistema Confea/Crea.
O Confea informa que empresas que executam atividades fiscalizadas pelo sistema podem estar obrigadas ao registro, enquanto determinadas atividades técnicas exigem Anotação de Responsabilidade Técnica antes do início do serviço. (Confea)
Além disso, nem toda atividade profissional pode ser enquadrada como MEI. O Portal do Empreendedor determina que somente ocupações previstas na relação autorizada podem utilizar essa modalidade. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, abrir empresa exige avaliar CNAE, regime tributário, conselho profissional, licenças, responsabilidade técnica e obrigações fiscais conforme o serviço efetivamente prestado.
O acervo técnico também pode virar patrimônio profissional
Para engenheiros e outros profissionais sujeitos ao Sistema Confea/Crea, existe outro ativo importante: o acervo.
O Confea informa que a Certidão de Acervo Técnico pode comprovar a capacidade técnico-profissional com base nas atividades registradas em ART. (Confea)
Isso significa que determinadas experiências desenvolvidas durante anos podem continuar valorizando o profissional mesmo depois do desligamento.
Consequentemente, antes de perder acesso a documentos corporativos, devem ser organizadas corretamente as comprovações profissionais que legalmente possam ser preservadas, sempre respeitando sigilo, propriedade da empresa e proteção de informações internas.
A experiência pública pode ser vantagem competitiva no ambiente privado
Alguns profissionais enxergam décadas em companhia pública como obstáculo para trabalhar no setor privado.
Essa percepção precisa ser relativizada.
Conhecer sistemas antigos, populações dispersas, crises hídricas, contratos públicos, relacionamento com prefeituras, comunidades vulneráveis, fiscalização regulatória e operação de infraestrutura crítica pode representar enorme valor.
O que precisa mudar é a forma de apresentar essa experiência.
O profissional não deveria dizer apenas:
“Trabalhou 25 anos na companhia.”
Deveria demonstrar:
“Conhece profundamente operação de sistemas complexos, liderou equipes, enfrentou emergências, implantou melhorias e entregou resultados mensuráveis.”
A empresa contrata o segundo perfil, mesmo que seja exatamente a mesma pessoa.
Tecnologia deve complementar a experiência
Outra recomendação importante depois de uma demissão na privatização consiste em atualizar competências digitais.
O saneamento está incorporando cada vez mais:
- telemetria;
- sensoriamento;
- inteligência artificial;
- análise de dados;
- GIS;
- modelos hidráulicos;
- sistemas de gestão de ativos;
- medição inteligente;
- automação;
- aplicativos de campo;
- dashboards;
- manutenção preditiva.
Não é necessário que todo profissional aprenda programação.
Entretanto, torna-se cada vez mais importante compreender como dados e tecnologia podem melhorar aquilo que já se conhece tecnicamente.
Um especialista em perdas com domínio de analytics tende a ser mais competitivo.
Um gestor comercial capaz de interpretar dashboards também.
Um especialista de manutenção que compreende sensores e manutenção preditiva também.
Assim, experiência e tecnologia deixam de competir e passam a se complementar.
Plano de recomeço para os primeiros 90 dias
A demissão na privatização pode ser enfrentada de maneira organizada.
Primeiros sete dias
O foco deveria estar na documentação e na estabilidade financeira.
Verificam-se verbas rescisórias, FGTS, seguro-desemprego, plano de saúde, previdência complementar, acordos coletivos e documentos importantes.
Também é necessário calcular o custo mensal essencial da família.
Da segunda à quarta semana
Começa o reposicionamento.
Atualiza-se currículo.
Atualiza-se perfil profissional digital.
Organizam-se resultados da carreira.
Mapeiam-se pelo menos 30 organizações-alvo entre operadores, concessionárias, fornecedores, consultorias e prestadores.
Reativam-se contatos profissionais.
Do primeiro ao segundo mês
A busca deixa de ser passiva.
O profissional passa a conversar com recrutadores, fornecedores, antigos colegas e empresas do setor.
Paralelamente, começa a testar uma possível atividade de consultoria.
O objetivo inicial não precisa ser abrir uma grande empresa.
Pode ser conseguir o primeiro cliente.
Do segundo ao terceiro mês
As estratégias que estiverem produzindo resultados recebem mais energia.
Caso apareçam entrevistas, aperfeiçoa-se a preparação.
Caso surjam clientes, estrutura-se a atividade empresarial.
Caso determinado nicho esteja demonstrando demanda, aprofunda-se a especialização.
A prioridade deve ser recuperar geração de renda sem desperdiçar o conhecimento acumulado.
Sete erros que podem dificultar o recomeço
Depois de uma demissão na privatização, alguns comportamentos podem aumentar o tempo de recolocação.
O primeiro erro consiste em esperar que o mercado procure o profissional.
O segundo consiste em enviar o mesmo currículo para todas as vagas.
O terceiro consiste em esconder a idade ou a experiência em vez de demonstrar resultados.
O quarto consiste em procurar apenas cargos exatamente iguais ao anterior.
O quinto consiste em gastar grande parte da rescisão antes de reconstruir renda.
O sexto consiste em abrir uma empresa sem validar se alguém pagaria pelo serviço.
E o sétimo consiste em abandonar completamente o saneamento por acreditar que não existem oportunidades.
Os números atuais do setor indicam justamente o contrário: enquanto o modelo institucional se transforma, investimentos, concessões, fornecedores e novas tecnologias continuam criando demandas por competência técnica. (Abcon Sindcon)
A maior oportunidade pode estar entre o emprego e o empreendedorismo
Nem sempre será necessário escolher imediatamente entre carteira assinada e empresa própria.
Pode existir uma fase intermediária.
O profissional pode buscar recolocação enquanto desenvolve palestras.
Pode trabalhar em uma empresa e, quando permitido contratualmente, produzir conteúdo técnico.
Pode prestar consultoria durante a transição.
Pode trabalhar como especialista temporário em projetos.
Pode representar um fornecedor.
Pode participar de consórcios de consultores.
Pode atuar como instrutor.
Pode desenvolver um treinamento.
Pode transformar experiência em material técnico.
A carreira deixa, portanto, de depender obrigatoriamente de uma única organização.
Essa talvez seja uma das maiores lições para quem enfrenta uma demissão na privatização.
O conhecimento acumulado continua pertencendo à carreira
Uma companhia pode mudar de controlador.
Uma diretoria pode ser substituída.
Um departamento pode desaparecer.
Um contrato pode acabar.
Entretanto, ninguém retira do profissional a experiência adquirida depois de milhares de decisões tomadas em campo, noites resolvendo emergências, sistemas recuperados, vazamentos encontrados, equipes lideradas, contas corrigidas, estações operadas e problemas solucionados.
O Brasil continua precisando ampliar abastecimento de água e esgotamento sanitário. Além disso, precisa reduzir perdas, melhorar produtividade, digitalizar processos, aumentar eficiência energética, modernizar atendimento e cumprir metas regulatórias.
Tudo isso exige conhecimento.
Portanto, a demissão na privatização pode representar uma ruptura profissional importante, mas não precisa representar o fim de uma carreira no saneamento.
Em muitos casos, pode representar a passagem de profissional de uma companhia para profissional de um setor inteiro.
E essa mudança de perspectiva é poderosa.
O trabalhador deixa de pensar somente:
“Qual companhia poderá contratá-lo?”
E passa a pensar:
“Quem precisa do conhecimento que esse profissional acumulou?”
A resposta pode estar em uma concessionária, fabricante, empresa de tecnologia, consultoria, construtora, prefeitura, agência reguladora ou no primeiro cliente da própria empresa.
O emprego pode terminar.
A competência permanece.
E, em um setor que ainda precisa construir, operar e modernizar uma enorme infraestrutura para alcançar a universalização, profissionais experientes de saneamento não devem ser vistos como trabalhadores descartáveis.
Devem ser vistos como capital técnico do saneamento brasileiro.
Fontes
- ABCON SINDCON — Trabalhadores no setor de saneamento cresceram 6,9% em 2025
- BNDES — Perspectivas de investimentos para 2025-2029
- Tribunal Superior do Trabalho — Precedentes vinculantes e Tema 130
- Tribunal Superior do Trabalho — 17 novas teses vinculantes
- Planalto — Consolidação das Leis do Trabalho
- Planalto — Lei nº 8.036/1990, FGTS
- FGTS — Saque por dispensa sem justa causa
- Ministério do Trabalho e Emprego — Seguro-Desemprego
- Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento
- Governo Federal — Sistema Nacional de Emprego
- Portal Nacional de Contratações Públicas
- Confea — Anotação de Responsabilidade Técnica
- Confea — Certidão de Acervo Técnico
- Portal do Empreendedor — Ocupações permitidas ao MEI



