Um estabelecimento criado para proteger a saúde pode funcionar sem condições adequadas de saneamento? A resposta apresentada pela Organização Mundial da Saúde e pelo Unicef revela uma contradição preocupante: apenas 40% dos estabelecimentos de saúde avaliados no mundo atendem aos requisitos de um serviço básico de saneamento.
Mais grave ainda, 11% das unidades não dispõem de serviço de saneamento, situação que alcança estabelecimentos que atendem cerca de 936 milhões de pessoas. Os dados são referentes a 2025 e foram divulgados em agosto de 2026 pelo Programa Conjunto de Monitoramento para Abastecimento de Água, Saneamento e Higiene da OMS e do Unicef, conhecido internacionalmente como JMP. (UNICEF DATA)
Entretanto, o número de 40% não significa simplesmente que seis em cada dez hospitais ou postos de saúde não possuam banheiro. O conceito é muito mais exigente. Para alcançar o padrão de saneamento em unidades de saúde, a estrutura precisa atender simultaneamente a critérios de funcionalidade, segurança, acessibilidade, separação adequada e higiene.
Esse detalhe muda completamente a interpretação do levantamento.
O que significa saneamento básico dentro de uma unidade de saúde?
O padrão internacional utilizado pela OMS e pelo Unicef considera como serviço básico de saneamento aquele em que existem instalações sanitárias melhoradas e utilizáveis, além de condições específicas para profissionais, pacientes, mulheres e pessoas com mobilidade reduzida.
Para ser classificada no nível básico, uma unidade precisa contar, entre outros requisitos, com banheiro destinado aos trabalhadores, instalação sanitária adequada aos usuários, condições para higiene menstrual e banheiro acessível a pessoas com mobilidade reduzida. (Washdata)
Portanto, saneamento em unidades de saúde não deve ser interpretado apenas como disponibilidade de água ou ligação à rede de esgoto. Trata-se de infraestrutura associada diretamente à segurança assistencial, à dignidade dos usuários e às condições de trabalho dos profissionais.
E os números mostram onde estão algumas das principais fragilidades.
Em 2025, aproximadamente 89% das unidades analisadas possuíam alguma instalação sanitária, 88% tinham instalações consideradas melhoradas e 85% possuíam instalações melhoradas e utilizáveis. Porém, a cobertura diminuía à medida que critérios adicionais eram considerados.
Apenas 76% possuíam instalações melhoradas destinadas aos trabalhadores, 55% tinham banheiros adequadamente separados, 51% apresentavam acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida e somente 49% atendiam ao critério relacionado à higiene menstrual.
Quando todos os requisitos são considerados conjuntamente, a cobertura cai para apenas 40%. (Washdata)
Água é melhor, mas ainda está longe da universalização
O panorama fica ainda mais interessante quando os diferentes componentes são comparados.
O levantamento de 2026 apresentou, pela primeira vez, estimativas globais para os cinco grandes componentes de WASH em estabelecimentos de saúde: água, saneamento, higiene, limpeza ambiental e gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde.
Os principais resultados para 2025 foram:
- Água: 85% das unidades possuíam serviço básico;
- Higiene: 72%;
- Gerenciamento de resíduos de serviços de saúde: 71%;
- Limpeza ambiental: 59%;
- Saneamento: apenas 40%.
Além disso, 11% dos estabelecimentos não possuíam serviço de água, 8% não apresentavam serviço básico de higiene, 18% não atendiam sequer aos requisitos mínimos de limpeza ambiental e 7% não possuíam serviço adequado de gerenciamento de resíduos. (UNICEF DATA)
Esses números mostram que saneamento em unidades de saúde precisa ser tratado como um sistema integrado. Não basta a existência de uma rede externa de abastecimento se a água não chega de forma adequada aos pontos necessários. Da mesma maneira, não basta possuir sanitários se eles estiverem inoperantes, inacessíveis ou inadequados.
O banheiro é apenas uma parte do problema
Um dos aspectos técnicos mais importantes do relatório está justamente além dos números mais divulgados.
O indicador básico utilizado internacionalmente ainda possui limitações. O próprio JMP destaca que o nível básico de saneamento não avalia integralmente o tratamento de esgoto ou o gerenciamento seguro do lodo fecal.
Uma unidade de saúde pode estar conectada a uma rede coletora ou utilizar uma solução local, como tanque séptico, e mesmo assim ainda existir uma etapa crítica depois da coleta. Se o esgoto ou o lodo não receberem destinação adequada, microrganismos e contaminantes podem retornar ao ambiente. (Washdata)
Consequentemente, melhorar o saneamento em unidades de saúde exige analisar todo o ciclo: abastecimento, reservação, distribuição interna, uso, coleta, afastamento, tratamento e disposição final.
Esse é um ponto especialmente relevante para engenheiros, operadores, técnicos, equipes de manutenção, laboratórios, gestores hospitalares e companhias de saneamento.
A desigualdade regional continua enorme
A diferença entre regiões também chama atenção.
Na África Subsaariana, somente 23% das unidades de saúde atendiam ao padrão básico de saneamento. Na Ásia Central e Meridional, o indicador chegava a 55%.
Além disso, entre países menos desenvolvidos, países em situações frágeis e determinados grupos de maior vulnerabilidade, menos de uma em cada cinco unidades alcançava o padrão básico em algumas classificações analisadas pelo JMP. (UNICEF DATA)
Contudo, existe uma ressalva metodológica importante.
A estimativa mundial para saneamento em unidades de saúde foi construída com dados disponíveis de 70 países e três regiões dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, representando cerca de 48% da população mundial. Portanto, o indicador não deve ser interpretado como se cada país apresentasse exatamente a mesma situação. (UNICEF DATA)
Da mesma forma, não é correto concluir que apenas 40% dos estabelecimentos de saúde brasileiros cumprem os requisitos. O número é uma estimativa global construída com base na metodologia e na disponibilidade de dados do JMP.
Saneamento também é segurança do paciente
Hospitais, clínicas, maternidades, unidades básicas e postos de atendimento apresentam características diferentes de outros consumidores de água.
Em uma residência, uma interrupção no abastecimento já provoca grande impacto. Em uma unidade de saúde, entretanto, a falta de água pode comprometer higienização das mãos, limpeza de superfícies, processamento de materiais, funcionamento de sanitários e diversas rotinas assistenciais.
Por isso, saneamento em unidades de saúde não deveria ser observado exclusivamente como infraestrutura predial.
Ele está conectado à prevenção e ao controle de infecções, à qualidade do atendimento, à saúde ocupacional e à capacidade de resposta a emergências sanitárias.
A estratégia da OMS para água, saneamento, higiene e resíduos no período de 2026 a 2035 reforça a dimensão do desafio. Segundo a organização, condições inseguras de água, saneamento e higiene continuam associadas a pelo menos 1,4 milhão de mortes evitáveis por ano no conjunto da população mundial. (Organização Mundial da Saúde)
Portanto, investir em saneamento dentro dos serviços de saúde também significa investir em prevenção.
O que o levantamento ensina às companhias de saneamento?
O relatório também oferece uma importante reflexão para prestadores de serviços de água e esgoto.
Uma unidade de saúde não deveria ser vista apenas como mais uma matrícula ou ligação no cadastro comercial. Hospitais e outros serviços essenciais possuem criticidade operacional significativamente maior.
Isso exige conhecer onde estão essas unidades, avaliar vulnerabilidades do abastecimento, prever alternativas para situações de contingência e estabelecer comunicação eficiente em casos de interrupções programadas ou emergenciais.
Além disso, indicadores específicos podem apoiar a gestão.
Pode-se acompanhar, por exemplo, continuidade do abastecimento, ocorrências de baixa pressão, número de interrupções, tempo médio de restabelecimento, qualidade da água distribuída, existência de redundância, reclamações e riscos associados à coleta de esgoto.
Assim, saneamento em unidades de saúde também se transforma em tema de gestão operacional das próprias companhias.
E o que isso representa para o Brasil?
No Brasil, diferentes instrumentos regulatórios já tratam de partes desse sistema.
A Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano, atualmente estruturada a partir da Portaria GM/MS nº 888/2021 e suas disposições relacionadas, estabelece procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água destinada ao consumo humano. (Serviços e Informações do Brasil)
Já a RDC nº 222/2018 da Anvisa regulamenta as boas práticas de gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde, buscando reduzir riscos à saúde humana, animal e ao meio ambiente. (Serviços e Informações do Brasil)
Além disso, requisitos de infraestrutura física dos estabelecimentos assistenciais de saúde fazem parte do ambiente regulatório sanitário brasileiro.
Entretanto, o desafio apresentado internacionalmente mostra que a discussão sobre saneamento em unidades de saúde precisa ultrapassar a simples conformidade documental. Infraestrutura instalada precisa funcionar permanentemente.
Um reservatório pode existir e não oferecer autonomia suficiente. Um banheiro pode existir e permanecer interditado. Uma ligação de água pode estar ativa e sofrer baixa pressão. Uma rede de esgoto pode receber o efluente sem que todo o sistema posterior opere de forma segura.
Por isso, indicadores de disponibilidade e desempenho são tão importantes quanto indicadores de existência da infraestrutura.
Uma agenda prática para os gestores
Os resultados indicam que hospitais e demais estabelecimentos de saúde deveriam fazer parte de uma matriz específica de criticidade dentro do planejamento do saneamento.
O cadastro dessas unidades pode ser integrado a sistemas geográficos das companhias, permitindo identificar quais hospitais dependem de determinados reservatórios, adutoras, setores de abastecimento ou estações elevatórias.
Além disso, planos de contingência podem prever rotas de abastecimento emergencial, comunicação antecipada, prioridade de manutenção, avaliação de autonomia dos reservatórios e procedimentos específicos durante grandes intervenções.
Para unidades atendidas por soluções individuais de esgotamento, o gerenciamento do lodo também precisa ser considerado.
A digitalização amplia ainda mais as possibilidades. Sensores de pressão, telemetria, monitoramento de reservatórios, análise de qualidade e alarmes operacionais podem permitir que problemas sejam identificados antes de comprometer o funcionamento de uma unidade crítica.
Esse é um campo em que saneamento em unidades de saúde se aproxima diretamente dos conceitos de cidades inteligentes, resiliência e gestão baseada em risco.
Os profissionais de saneamento também protegem pacientes
O levantamento da OMS e do Unicef reforça algo que frequentemente permanece invisível para a sociedade: o atendimento de saúde começa antes do médico, do enfermeiro ou do medicamento.
Ele começa na água que chega ao estabelecimento, no esgoto que é coletado, no banheiro que funciona, no resíduo que é segregado e na infraestrutura que permite que as equipes mantenham condições adequadas de higiene.
Por trás dessa estrutura existe uma extensa cadeia de profissionais.
Operadores de sistemas, técnicos, agentes de saneamento, engenheiros, químicos, laboratoristas, eletricistas, equipes de manutenção, equipes comerciais, planejadores, reguladores e gestores trabalham diariamente para que serviços essenciais permaneçam funcionando.
Consequentemente, ampliar o saneamento em unidades de saúde não representa apenas construir instalações sanitárias. Significa integrar saneamento, saúde pública, engenharia, operação, manutenção, planejamento e gestão de riscos.
A universalização do saneamento costuma ser associada às residências. Entretanto, o alerta internacional mostra que a universalização precisa alcançar também os locais onde a população busca proteção justamente quando está mais vulnerável.
Nesse cenário, os profissionais do saneamento ocupam uma posição estratégica. Quando a água chega com qualidade e regularidade, quando o esgoto é adequadamente afastado e tratado e quando sistemas críticos permanecem operacionais, o saneamento deixa de ser apenas infraestrutura.
Ele passa a fazer parte da própria linha de cuidado em saúde.
Fontes
OMS/Unicef – Relatório global WASH em unidades de saúde 2015–2025
Unicef Data – WASH in Health Care Facilities 2026
OMS – Estratégia de água, saneamento, higiene e resíduos 2026–2035
Folha de S.Paulo – Apenas 40% dos estabelecimentos de saúde cumprem padrões básicos
Anvisa – Legislação para serviços de saúde
Ministério da Saúde – Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano



