Maior dessalinizadora da América Latina começa a sair do papel

A dessalinização no México está entrando em uma nova escala. Em Baja California, a cidade de Playas de Rosarito receberá uma planta projetada para alcançar 4.400 litros de água potável por segundo, capacidade superior a 380 milhões de litros por dia. Quando atingir sua configuração final anunciada, o empreendimento poderá atender perto de 2 milhões de habitantes de Tijuana e Playas de Rosarito.

Entretanto, existe uma distinção técnica importante. A primeira etapa contratada terá 2.200 litros por segundo, ou aproximadamente 190 milhões de litros por dia, beneficiando cerca de 1 milhão de habitantes. Os 4.400 L/s correspondem à capacidade final divulgada para o empreendimento.

A Cox anunciou, em agosto de 2026, a adjudicação do contrato para construção da primeira etapa por aproximadamente US$ 304 milhões. A empresa será responsável pela engenharia, fornecimento de equipamentos especializados e construção.

Além da dimensão financeira, porém, o projeto representa algo maior: uma mudança na estratégia de segurança hídrica de uma das regiões mais pressionadas do México.

A dessalinização no México passa, portanto, a assumir um papel de infraestrutura estratégica.

Por que Rosarito precisa de uma planta dessa dimensão?

Baja California apresenta características que tornam o abastecimento particularmente complexo. Trata-se de uma região árida, com disponibilidade limitada de recursos hídricos locais e forte dependência de sistemas de transferência de água.

Historicamente, Tijuana depende significativamente da água associada ao Rio Colorado.

Consequentemente, qualquer redução da disponibilidade dessa fonte aumenta a vulnerabilidade do sistema.

A própria Conagua considera a nova planta uma infraestrutura capaz de complementar o abastecimento de Tijuana e Playas de Rosarito. Segundo informações apresentadas pelo governo mexicano em janeiro de 2026, os 2.200 L/s previstos poderão aumentar em até 45% a disponibilidade de água para essas cidades.

É justamente nesse ponto que a dessalinização no México deixa de ser apenas uma alternativa tecnológica e passa a funcionar como instrumento de diversificação da matriz hídrica.

Em vez de depender exclusivamente de rios, aquíferos e transferências entre bacias, o sistema passa a incorporar o Oceano Pacífico como uma nova fonte de abastecimento.

Primeira fase terá capacidade de 190 milhões de litros por dia

O projeto oficial prevê inicialmente uma capacidade nominal de 2,2 m³/s, equivalente a 2.200 litros por segundo.

Em 24 horas, isso representa aproximadamente:

190 milhões de litros de água potável por dia.

O cadastro oficial do projeto no México aponta atendimento estimado a 994 mil habitantes nessa etapa.

Além disso, a documentação governamental informa que a infraestrutura poderá ser desenvolvida de maneira modular. Essa característica é particularmente relevante para projetos de grande porte, porque permite ampliar gradualmente a produção conforme a demanda, disponibilidade financeira e evolução do sistema de abastecimento.

Posteriormente, segundo a Cox, a capacidade final poderá alcançar 4.400 L/s.

Nesse cenário, a produção ultrapassaria 380 mil m³/dia, ou mais de 380 milhões de litros diariamente.

A escala colocaria a unidade entre as maiores infraestruturas de dessalinização no México e, segundo a empresa, como a maior dessalinizadora da América Latina destinada ao abastecimento humano.

US$ 304 milhões não representam necessariamente todo o investimento

Outro aspecto exige atenção dos profissionais do saneamento.

O anúncio da Cox informa investimento de aproximadamente US$ 304 milhões relacionado à adjudicação anunciada pela companhia.

Entretanto, o portal oficial Proyectos México apresenta para o projeto uma estimativa de investimento de 12,861 bilhões de pesos mexicanos, equivalente, na atualização da ficha, a aproximadamente US$ 666 milhões.

Além disso, declarações do governo mexicano indicaram investimentos federais superiores a 10 bilhões de pesos e investimentos estaduais adicionais em obras complementares.

Portanto, os números não devem ser tratados automaticamente como equivalentes.

Isso ocorre porque grandes sistemas de abastecimento não são constituídos apenas pela unidade de tratamento.

É necessário considerar captação, bombeamento, adução, armazenamento, energia, macromedição, distribuição e diversas outras estruturas necessárias para entregar efetivamente a água produzida ao consumidor.

Essa diferença é fundamental para compreender corretamente a dimensão econômica da dessalinização no México.

A planta é muito mais que um conjunto de membranas

Um dos aspectos mais interessantes do projeto de Rosarito é justamente sua abrangência.

O acordo firmado entre a Conagua e o Estado de Baja California prevê componentes como:

  • planta dessalinizadora;
  • obra de captação de água;
  • sistema de descarga da salmoura;
  • linha de condução;
  • reservatório;
  • conexões hidráulicas;
  • sistemas elétricos;
  • equipamentos eletromecânicos;
  • estruturas associadas à macrodistribuição;
  • adequações necessárias às redes de distribuição.

Portanto, produzir água não resolve sozinho o problema.

É necessário captar, tratar, bombear, reservar e distribuir centenas de milhões de litros diariamente.

Essa visão sistêmica é particularmente importante para profissionais do saneamento, porque grandes empreendimentos frequentemente são avaliados pela capacidade nominal da estação, enquanto os verdadeiros desafios operacionais aparecem na integração entre todas as etapas do sistema.

Como funcionará a osmose reversa em Rosarito?

A tecnologia escolhida é a osmose reversa, atualmente uma das principais soluções utilizadas mundialmente para dessalinização de água do mar.

De maneira simplificada, o processo utiliza membranas extremamente seletivas.

Primeiramente, a água do mar é captada e passa por etapas de pré-tratamento para remoção de materiais que poderiam prejudicar as membranas.

Posteriormente, bombas de alta pressão impulsionam essa água através das membranas.

As moléculas de água atravessam a barreira, enquanto grande parte dos sais e outras substâncias permanece concentrada no fluxo rejeitado.

Assim, surgem basicamente dois fluxos: água dessalinizada e concentrado salino.

Depois disso, a água produzida precisa passar por etapas de condicionamento e adequação aos padrões necessários para abastecimento humano.

A expansão da dessalinização no México também aumenta, portanto, a necessidade de profissionais especializados em membranas, química da água, instrumentação, automação, energia, manutenção eletromecânica e controle de processos.

Salmoura será um dos grandes desafios ambientais

Não existe dessalinização de água do mar sem geração de uma corrente concentrada em sais.

Por isso, a salmoura merece tanta atenção quanto a própria água produzida.

O projeto oficial de Rosarito contempla infraestrutura específica para descarga desse concentrado.

O desafio técnico consiste em garantir que a disposição ocorra de maneira ambientalmente adequada, considerando diluição, dispersão e condições do ambiente marinho receptor, conforme os requisitos ambientais aplicáveis.

Consequentemente, projetos dessa dimensão exigem estudos oceanográficos, modelagem, monitoramento ambiental e operação rigorosa.

A dessalinização no México, portanto, não deve ser analisada apenas pela capacidade de produção.

Eficiência ambiental também será um indicador essencial do sucesso da infraestrutura.

Energia pode definir a eficiência econômica da planta

Outro elemento crítico é o consumo energético.

Na osmose reversa de água do mar, é necessário fornecer pressão suficiente para vencer a pressão osmótica e permitir a passagem da água pelas membranas.

Consequentemente, bombas de alta pressão estão entre os principais consumidores de energia do processo.

Tecnologias modernas, entretanto, utilizam dispositivos de recuperação de energia capazes de aproveitar parte da energia hidráulica presente no concentrado pressurizado.

Além disso, evolução das membranas, automação avançada, inversores de frequência e otimização operacional vêm reduzindo progressivamente o consumo específico das plantas modernas.

Mesmo assim, energia continua sendo uma das variáveis mais importantes para determinar o custo do metro cúbico produzido.

Por essa razão, uma análise econômica consistente de dessalinização no México precisa considerar não apenas o investimento inicial, mas também o custo energético ao longo de décadas de operação.

Operar 4.400 L/s será um enorme desafio técnico

Construir uma megaplanta é apenas parte do desafio.

Depois da inauguração começa uma tarefa ainda mais longa: operá-la continuamente.

Em uma instalação dessa dimensão, pequenas variações de eficiência podem representar grandes volumes de água e valores financeiros significativos.

Será necessário acompanhar indicadores como pressão das membranas, vazão, recuperação do sistema, qualidade da água, condutividade, consumo específico de energia, perda de carga, desempenho das bombas e frequência de limpeza das membranas.

Além disso, manutenção preditiva e monitoramento digital poderão desempenhar papel estratégico.

Sensores, sistemas supervisórios, análise de dados e algoritmos de otimização tendem a ser fundamentais para identificar anomalias antes que provoquem perda de produção.

Por isso, quanto mais sofisticada se torna a infraestrutura, mais importante se torna o profissional do saneamento.

Tecnologia não elimina a necessidade de operadores, engenheiros, técnicos, químicos, eletricistas, especialistas ambientais e gestores. Pelo contrário, aumenta a necessidade de profissionais altamente qualificados capazes de transformar equipamentos complexos em abastecimento seguro e contínuo.

Segurança hídrica passa pela diversificação das fontes

O principal ensinamento de Rosarito talvez não esteja na capacidade de 4.400 L/s.

Está na diversificação.

Sistemas resilientes não deveriam depender excessivamente de uma única fonte.

Mananciais superficiais, águas subterrâneas, reúso, redução de perdas, reservação, interligações, gestão da demanda e dessalinização podem integrar estratégias diferentes conforme as características de cada região.

A dessalinização no México aparece justamente como uma nova peça dessa matriz.

A água do mar possui uma vantagem evidente: disponibilidade praticamente inesgotável em escala humana.

Entretanto, transformar essa disponibilidade em água potável exige energia, infraestrutura, conhecimento e controle ambiental.

O que o projeto mexicano ensina ao Brasil?

O Brasil possui uma situação hídrica muito diferente da de Baja California. Entretanto, isso não significa ausência de regiões vulneráveis.

Grandes cidades brasileiras estão localizadas no litoral, enquanto determinadas regiões enfrentam secas recorrentes, crescimento populacional, pressão sobre mananciais e conflitos pelo uso da água.

Por isso, Rosarito merece ser acompanhada pelos profissionais brasileiros.

A principal pergunta não deveria ser se a dessalinização substituirá os mananciais convencionais.

Provavelmente não.

A discussão mais relevante é onde a dessalinização pode funcionar como fonte complementar estratégica.

Além disso, antes de implantar grandes plantas, medidas como redução de perdas, gestão eficiente da demanda, reúso e proteção dos mananciais continuam fundamentais.

Entretanto, à medida que eventos climáticos extremos e pressões sobre recursos hídricos aumentam, novas alternativas tendem a entrar no planejamento.

Nesse contexto, acompanhar a experiência da dessalinização no México pode fornecer informações valiosas para futuros estudos brasileiros.

Rosarito pode se transformar em laboratório para o saneamento latino-americano

A implantação de uma infraestrutura capaz de produzir centenas de milhões de litros de água potável diariamente poderá gerar aprendizados importantes sobre custos, eficiência energética, durabilidade das membranas, descarte de salmoura, automação, manutenção e integração com sistemas urbanos.

Por isso, o interesse técnico vai muito além das fronteiras mexicanas.

O desempenho operacional será tão importante quanto a inauguração.

A dessalinização no México poderá mostrar se megadesaladoras conseguem oferecer segurança hídrica com eficiência econômica e ambiental em grandes centros urbanos latino-americanos.

Ao mesmo tempo, o projeto reforça uma realidade muitas vezes esquecida: infraestrutura de saneamento não funciona apenas com concreto, bombas e membranas.

São profissionais do saneamento que projetam a captação, dimensionam equipamentos, operam sistemas, analisam a água, controlam processos, realizam manutenção, monitoram impactos ambientais e garantem que milhões de pessoas recebam água potável diariamente.

Rosarito chama atenção pelos 4.400 litros por segundo. Entretanto, seu maior legado poderá estar no conhecimento técnico produzido durante décadas de operação.

A expansão da dessalinização no México mostra, sobretudo, que segurança hídrica exige planejamento de longo prazo, diversificação das fontes, tecnologia e profissionais capacitados para transformar água do mar em um serviço essencial confiável.

Fontes