Sistema de gestão de saneamento: DAEB migra GSAN à nuvem

DAEB prepara mudança que pode afetar faturamento, atendimento e operação

O Departamento de Água, Arroios e Esgoto de Bagé (DAEB), no Rio Grande do Sul, abriu licitação para modernizar o GSAN, plataforma que apoia atividades comerciais e operacionais da autarquia. A contratação prevê implantação da solução atualizada, migração do ambiente existente, customização, manutenção, suporte técnico e hospedagem em nuvem no modelo SaaS, sigla para Software as a Service. O valor estimado é de R$ 600.693,44, e o recebimento de propostas está previsto até 2 de setembro de 2026.

A relevância da iniciativa vai muito além da área de tecnologia. Um sistema de gestão de saneamento concentra informações que sustentam cadastro de usuários, micromedição, faturamento, arrecadação, cobrança, atendimento e execução de serviços. Portanto, uma migração mal conduzida pode produzir reflexos diretos na receita, no relacionamento com o usuário e na rotina das equipes de campo. Por outro lado, uma transição bem planejada pode ampliar disponibilidade, segurança, capacidade de atualização e integração entre áreas.

Esse é justamente o ponto que torna a licitação do DAEB importante para profissionais do setor. A modernização digital no saneamento não se resume à contratação de servidores ou programas mais novos. Na prática, exige conhecimento de processos, domínio dos dados, testes, validação, treinamento e participação intensa dos profissionais que conhecem o funcionamento real da operação.

O que o DAEB está contratando

A contratação foi estruturada em três componentes. O primeiro item envolve implantação, assunção técnica da solução, planejamento, parametrização, customização, migração de dados, integrações, testes, treinamento, operação assistida e entrada em produção do GSAN. O valor de referência dessa etapa é de R$ 67.928,24.

O segundo item corresponde à sustentação da solução GSAN em ambiente SaaS durante 12 meses, ao valor mensal estimado de R$ 43.580,70. Assim, essa parcela representa aproximadamente R$ 522,97 mil ao longo de um ano.

Finalmente, o terceiro componente prevê um banco de 80 horas técnicas especializadas, com valor unitário de R$ 122,46 por hora, totalizando cerca de R$ 9,8 mil.

Somados, os três componentes chegam ao valor estimado de R$ 600.693,44.

A documentação disponibilizada para a contratação inclui, ainda, plano de transição operacional e financeira, termo de referência, termo de contrato, mapa de risco e matriz de risco. Essa estrutura é relevante porque uma migração desse porte precisa ser tratada como um projeto de continuidade de negócio, e não apenas como uma atualização tecnológica.

O que é o GSAN e por que ele é importante

O GSAN é um software público e livre voltado à gestão de serviços de saneamento. O Ministério das Cidades informa que o código-fonte e os demais artefatos podem ser obtidos por pessoas físicas e jurídicas, observadas as regras aplicáveis ao software público e livre.

Além disso, o governo federal estabelece que evoluções e novos desenvolvimentos realizados no sistema devem ser disponibilizados de acordo com as regras do projeto.

Historicamente, o GSAN foi desenvolvido para apoiar prestadores de água e esgoto de diferentes portes. Entre as funcionalidades associadas à plataforma estão:

  • cadastro;
  • micromedição;
  • faturamento;
  • arrecadação;
  • cobrança;
  • execução de serviços;
  • atendimento aos usuários;
  • geração de informações gerenciais.

Isso explica por que o sistema de gestão de saneamento ocupa uma posição tão sensível dentro de uma prestadora.

No caso do DAEB, documentos institucionais mostram que a autarquia já utiliza o GSAN em seus processos. A própria estrutura organizacional do órgão atribui à Central de Serviços e Monitoramento a responsabilidade de alimentar o GSAN, ou sistema que venha a substituí-lo, preservando a completude e a fidelidade dos registros.

Além disso, o setor acompanha solicitações de serviços e integra informações operacionais, o que reforça a importância da plataforma para a rotina da autarquia.

Por que migrar o sistema de gestão de saneamento para a nuvem

No modelo SaaS, o software é disponibilizado como serviço e a infraestrutura necessária à operação fica sob responsabilidade do provedor contratado.

Em termos simples, a autarquia deixa de depender exclusivamente de servidores locais para manter a aplicação funcionando e passa a utilizar uma infraestrutura hospedada em ambiente de nuvem.

Esse modelo pode trazer vantagens importantes. Entre elas estão maior facilidade de atualização, escalabilidade, capacidade de recuperação, padronização de infraestrutura e possibilidade de reduzir parte da complexidade de manter servidores próprios.

Além disso, serviços em nuvem podem facilitar a implantação de mecanismos de redundância e continuidade.

Entretanto, a nuvem não elimina riscos. Ao contrário, muda a natureza de parte deles.

Em vez de concentrar a preocupação apenas na infraestrutura física da autarquia, passa-se a exigir atenção redobrada a disponibilidade contratual, níveis de serviço, cópias de segurança, proteção de dados, controle de acessos, rastreabilidade e capacidade de saída do fornecedor.

Por isso, um sistema de gestão de saneamento em nuvem precisa ser analisado como infraestrutura crítica do negócio. Se a plataforma ficar indisponível, atividades como atendimento, emissão de contas, consulta cadastral, cobrança e acompanhamento de serviços podem ser prejudicadas.

Migração de dados é um dos pontos mais sensíveis

A etapa mais delicada de uma mudança desse tipo costuma ser a migração dos dados.

Sistemas comerciais de saneamento acumulam anos de histórico de consumo, cadastro, faturamento, pagamentos, débitos, serviços executados, hidrômetros, categorias tarifárias e relacionamento com consumidores.

Por esse motivo, a migração não pode ser tratada como uma simples cópia de banco de dados.

É necessário verificar se os registros foram transferidos integralmente, se os campos mantiveram o mesmo significado, se os vínculos entre tabelas permaneceram consistentes e, principalmente, se os valores apresentados no novo ambiente correspondem aos dados existentes antes da mudança.

O próprio histórico de contratações do DAEB demonstra essa preocupação. Em termo de referência anterior relacionado ao GSAN, a autarquia exigia migração completa dos dados cadastrais, contas pendentes e informações gerenciais, além de validação e homologação formal dos dados convertidos.

Portanto, o sucesso de um novo sistema de gestão de saneamento depende tanto da tecnologia quanto da qualidade da validação feita por profissionais comerciais, operacionais, financeiros e de tecnologia.

Faturamento e arrecadação precisam de proteção especial

Entre todos os processos envolvidos, faturamento e arrecadação merecem atenção prioritária.

Uma inconsistência cadastral pode alterar categoria, economia, tarifa, situação da ligação ou vínculo do consumidor. Da mesma forma, falhas na leitura ou na regra de cálculo podem gerar contas incorretas, reclamações, refaturamentos e perda de receita.

Consequentemente, antes da entrada definitiva em produção, torna-se recomendável executar ciclos completos de faturamento em ambiente de teste e comparar os resultados com o sistema anterior.

Entre os elementos que devem ser avaliados estão:

  • valores das contas;
  • estruturas tarifárias;
  • descontos;
  • débitos;
  • vencimentos;
  • leituras;
  • ocorrências de leitura;
  • parcelamentos;
  • cobranças;
  • integrações bancárias;
  • baixas de pagamentos.

Além disso, torna-se importante realizar uma verdadeira reconciliação da arrecadação.

O novo ambiente precisa receber corretamente os pagamentos, identificar contas quitadas, tratar devoluções e manter consistência entre sistemas bancários, canais digitais, gestão comercial e registros contábeis.

Nesse contexto, os profissionais de saneamento assumem papel central. A equipe de tecnologia pode garantir infraestrutura e processamento. Entretanto, a validação das regras de negócio exige conhecimento profundo sobre como a prestadora mede, fatura, cobra, atende e executa serviços.

Atendimento ao usuário também pode mudar

Outro efeito relevante da modernização do sistema de gestão de saneamento está no atendimento.

Um cadastro mais organizado, informações integradas e maior disponibilidade podem reduzir o tempo necessário para localizar dados e acompanhar solicitações.

Além disso, sistemas mais atualizados podem facilitar integrações com atendimento digital, aplicativos, agências virtuais, centrais telefônicas e ferramentas de gestão de ordens de serviço.

Entretanto, os ganhos não são automáticos. Eles dependem de configuração adequada, processos bem desenhados e equipes treinadas.

Uma migração tecnicamente correta, mas sem capacitação dos usuários internos, pode aumentar erros e reduzir produtividade nas primeiras semanas. Por isso, treinamento, operação assistida e suporte durante a entrada em produção são componentes tão importantes quanto a própria hospedagem.

A licitação do DAEB prevê treinamento e operação assistida na etapa de implantação, o que indica atenção à adaptação das equipes ao novo ambiente.

Segurança da informação e LGPD entram no centro da gestão

Sistemas de saneamento armazenam dados pessoais e informações de relacionamento com usuários. Assim, qualquer movimento para a nuvem precisa observar requisitos de segurança da informação e proteção de dados.

Embora as normas federais de contratação de nuvem não sejam automaticamente aplicáveis a todas as autarquias municipais, elas oferecem referências técnicas importantes.

O modelo federal de contratação de software e computação em nuvem destaca aspectos como confidencialidade, integridade, disponibilidade, portabilidade, interoperabilidade, continuidade e estratégia de saída. Também recomenda medidas para reduzir a dependência tecnológica em relação ao fornecedor.

A estratégia de nuvem da Autoridade Nacional de Proteção de Dados também reforça que serviços SaaS e migrações para nuvem devem considerar privacidade, segurança, disponibilidade, integridade e conformidade com a LGPD.

Na prática, um sistema de gestão de saneamento precisa contar, entre outros controles, com:

  • acessos por perfil;
  • rastreabilidade das operações;
  • registros de auditoria;
  • gestão adequada de credenciais;
  • mecanismos de backup;
  • redundância;
  • proteção contra incidentes;
  • procedimentos de recuperação;
  • definição de responsabilidades;
  • acompanhamento permanente da disponibilidade.

Lock-in: modernizar sem perder autonomia

Um dos principais riscos de contratos em nuvem é o chamado lock-in, também conhecido como aprisionamento tecnológico.

Ele ocorre quando uma organização se torna tão dependente de determinado fornecedor que uma futura troca passa a ser complexa, cara ou tecnicamente arriscada.

Esse risco merece atenção especial porque o GSAN é um software público e livre. A contratação de serviços de implantação, hospedagem e sustentação não deveria significar perda de soberania sobre os dados ou sobre as customizações realizadas.

Por isso, uma boa governança precisa garantir que bases de dados, documentação, integrações, parametrizações e códigos desenvolvidos permaneçam acessíveis à contratante.

Além disso, procedimentos de exportação e transição para outro ambiente precisam estar previstos antes mesmo de ocorrer qualquer encerramento contratual.

Referências do Governo Digital recomendam que contratações em nuvem considerem portabilidade, interoperabilidade e uma estratégia de saída, justamente para reduzir a dependência excessiva de determinado provedor.

Indicadores que deveriam acompanhar a implantação

A avaliação do sistema de gestão de saneamento não deve terminar quando o software entrar no ar.

Para verificar se a modernização realmente gera resultado, indicadores precisam ser monitorados antes e depois da migração.

Entre os principais estão:

  • disponibilidade do sistema;
  • tempo médio de resposta;
  • quantidade de incidentes;
  • tempo de recuperação após falhas;
  • tempo de atendimento aos usuários;
  • número de faturas corrigidas;
  • falhas de integração;
  • divergências de arrecadação;
  • erros cadastrais;
  • quantidade de ordens de serviço inconsistentes;
  • tempo de processamento do faturamento;
  • índice de sucesso dos backups;
  • satisfação dos usuários internos.

Além disso, os valores anteriores à migração devem servir como linha de base. Dessa maneira, torna-se possível verificar objetivamente se a nova plataforma melhorou ou piorou determinado processo.

Assim, a modernização deixa de ser avaliada apenas pelo cumprimento do cronograma e passa a ser medida pela melhoria efetiva das atividades da autarquia.

A tecnologia só funciona quando o processo funciona

O caso do DAEB reforça uma tendência cada vez mais clara no saneamento: sistemas comerciais e operacionais estão se tornando ativos estratégicos.

À medida que aumenta a digitalização, a qualidade do serviço passa a depender também da qualidade dos dados, das integrações e da infraestrutura tecnológica.

Porém, nenhum software substitui conhecimento técnico.

Cadastro correto, leitura confiável, faturamento consistente, cobrança adequada, execução de serviços e bom atendimento continuam dependendo de profissionais qualificados.

Assim, a modernização tecnológica precisa valorizar quem conhece o processo de ponta a ponta.

Profissionais de campo, atendentes, analistas comerciais, equipes de faturamento, arrecadação, cobrança, cadastro, tecnologia e gestão precisam participar da definição de regras, dos testes e da homologação.

Quanto maior o envolvimento dessas equipes, menor tende a ser a possibilidade de que a nova plataforma reproduza erros antigos ou crie novos gargalos.

A transformação digital, portanto, não reduz a importância do profissional de saneamento. Pelo contrário: aumenta a necessidade de pessoas capazes de transformar tecnologia e dados em decisões corretas.

O que o setor pode aprender com o movimento do DAEB

A migração anunciada em Bagé oferece uma referência útil para outras autarquias e companhias de saneamento.

O primeiro aprendizado é que a atualização tecnológica precisa vir acompanhada de um plano de transição.

O segundo é que dados comerciais devem ser tratados como patrimônio institucional.

O terceiro é que serviços em nuvem exigem regras claras de disponibilidade, segurança, recuperação e saída.

Além disso, o modelo de contratação mostra a importância de separar implantação, sustentação e horas técnicas especializadas. Essa divisão facilita o acompanhamento das entregas e permite compreender melhor onde estão concentrados os principais custos.

Finalmente, o caso demonstra que um sistema de gestão de saneamento não pertence apenas à área de TI.

Ele atravessa praticamente toda a prestadora.

Quando cadastro, faturamento, arrecadação, cobrança, atendimento e execução de serviços dependem da mesma plataforma, a governança do sistema passa a ser uma responsabilidade corporativa.

Modernização digital precisa gerar resultado operacional

O investimento estimado em R$ 600,7 mil será relevante se a migração produzir ganhos mensuráveis de continuidade, segurança, agilidade e qualidade da informação.

A tecnologia deve servir ao processo e, consequentemente, melhorar a capacidade da prestadora de atender o usuário.

Por isso, os melhores resultados tendem a aparecer quando o projeto combina boa infraestrutura, governança de dados, fiscalização contratual, testes robustos, capacitação e participação ativa dos profissionais de saneamento.

A mudança do DAEB para um modelo SaaS coloca a gestão tecnológica no mesmo nível de importância de outras infraestruturas essenciais.

Afinal, redes, estações, reservatórios, bombas e equipamentos mantêm o serviço fisicamente funcionando. Já os sistemas digitais sustentam a informação necessária para medir, faturar, arrecadar, cobrar, atender, executar serviços e tomar decisões.

Em um setor que precisa ampliar eficiência ao mesmo tempo em que busca a universalização, investir em um sistema de gestão de saneamento confiável deixa de representar somente uma modernização de TI e passa a representar uma decisão estratégica de gestão.

E justamente nesse processo fica evidente o valor dos profissionais de saneamento. São eles que conhecem as regras, identificam inconsistências, validam dados, interpretam resultados e transformam sistemas digitais em serviços efetivamente melhores para a população.

Fontes

Bagé Transparente — DAEB licita migração de sistema de gestão de saneamento
Acessar a fonte

MABUS — dados da licitação, valores, itens e documentos da contratação
Acessar a fonte

Ministério das Cidades — GSAN: Sistema Integrado de Gestão de Serviços de Saneamento
Acessar a fonte oficial

DAEB — estrutura organizacional e utilização do GSAN
Acessar documento do DAEB

DAEB — histórico de requisitos para migração de dados e gestão comercial
Acessar documento técnico

Governo Digital — modelo de contratação de software e serviços de computação em nuvem
Acessar a referência oficial

Autoridade Nacional de Proteção de Dados — estratégia para serviços de computação em nuvem
Acessar a referência da ANPD