O avanço do biometano no saneamento pode colocar estações de tratamento de esgoto e estruturas de gestão de resíduos em uma nova posição dentro da transição energética brasileira. O Plano para o Desenvolvimento dos Setores de Biogás e Biometano, apresentado pela Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), projeta que uma agenda coordenada de expansão do setor poderá mobilizar R$ 216 bilhões em investimentos privados até 2035, criar mais de 251 mil empregos diretos e gerar aproximadamente R$ 57 bilhões por ano em receitas adicionais.
Além disso, o plano estima potencial para substituir cerca de R$ 42 bilhões anuais em importações e evitar emissões superiores a 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano. Para o saneamento, entretanto, o ponto mais estratégico vai além dos grandes números: esgoto, lodo e outros resíduos orgânicos podem deixar de representar apenas custos de tratamento e passar a integrar uma cadeia de produção de energia renovável.
O que o plano da ABiogás propõe
A proposta reúne dez iniciativas prioritárias para ampliar a produção e o consumo de biogás e biometano no Brasil. Entre os principais eixos estão segurança regulatória, governança nacional, instrumentos financeiros, expansão do uso em transportes, estímulo aos biofertilizantes e desenvolvimento de combustíveis avançados.
O diagnóstico parte de uma vulnerabilidade conhecida da economia brasileira: a dependência de combustíveis e determinados insumos importados. Segundo a agenda divulgada, episódios recentes relacionados a diesel e fertilizantes produziram impactos econômicos superiores a R$ 110 bilhões. Portanto, ampliar a produção doméstica de gases renováveis é tratado não apenas como uma pauta ambiental, mas também como estratégia de segurança energética e econômica.
Nesse contexto, o biometano no saneamento passa a ter relevância adicional. Estações de tratamento já recebem continuamente matéria orgânica e, dependendo da tecnologia utilizada, podem produzir biogás durante a digestão anaeróbia. Quando esse gás é captado, tratado e purificado, pode gerar energia ou ser convertido em biometano.
Biogás e biometano: qual é a diferença?
A diferença é simples, embora tecnicamente importante.
O biogás é formado durante a decomposição anaeróbia da matéria orgânica, ou seja, em um processo biológico realizado sem presença de oxigênio. Sua composição contém principalmente metano e dióxido de carbono, além de outros componentes em concentrações menores.
Já o biometano é obtido após o processamento e a purificação desse biogás. O tratamento reduz contaminantes e componentes indesejados e aumenta a concentração de metano. Depois de atender às especificações de qualidade, o combustível apresenta características que permitem aplicações semelhantes às do gás natural.
Em uma ETE, de forma simplificada, o caminho pode envolver:
- produção de biogás durante o tratamento anaeróbio;
- coleta e condução segura do gás;
- remoção de umidade;
- redução de sulfeto de hidrogênio e outros contaminantes;
- purificação ou upgrading;
- controle da qualidade;
- compressão, armazenamento ou utilização local.
Portanto, o biometano no saneamento exige integração entre engenharia sanitária, processos, automação, laboratório, manutenção, segurança operacional, energia e gestão ambiental.
Não se trata simplesmente da instalação de novos equipamentos. Trata-se da operação de uma cadeia energética dentro de uma infraestrutura cuja missão principal continua sendo tratar esgoto com segurança, confiabilidade e eficiência.
Brasil ainda aproveita uma pequena parcela do potencial
A ABiogás estima um potencial brasileiro de produção de até 120 milhões de m³ por dia de biometano, enquanto o aproveitamento atual permanece abaixo de 2% desse volume. Essa diferença ajuda a explicar por que o mercado passou a atrair empresas de energia, transportes, agroindústria, resíduos e saneamento.
O movimento já aparece nos dados de mercado. Em junho de 2026, segundo informações divulgadas pela ABiogás com base em dados da ANP, havia 69 unidades produtoras de biometano cadastradas, sendo 21 autorizadas para comercialização e outras 48 em processo de autorização. A projeção indicada era alcançar aproximadamente 3,37 milhões de Nm³ por dia de capacidade instalada até 2028.
Além disso, a Empresa de Pesquisa Energética considera resíduos urbanos sólidos e líquidos parte relevante do potencial brasileiro.
No estudo associado ao Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, a EPE estimou que, em um cenário conservador, os resíduos urbanos poderiam contribuir com aproximadamente 2,6 bilhões de Nm³ de biometano em 2035, somando-se aos resíduos agrícolas e pecuários.
Ou seja, existe espaço concreto para ampliar o biometano no saneamento, especialmente onde grandes volumes de matéria orgânica já se encontram concentrados.
ETEs mostram que a oportunidade já existe
O biometano no saneamento não é apenas uma promessa tecnológica. O Brasil já possui experiência prática de produção a partir de esgoto.
A ETE Franca, em São Paulo, tornou-se uma das principais referências brasileiras. Documento do Ministério das Cidades informa que a estação trata aproximadamente 530 litros de esgoto por segundo e produz em torno de 3.000 m³ de biogás por dia.
O aproveitamento inclui a utilização de biometano em veículos da própria operação. Segundo a publicação, a experiência registrou uma média de cerca de 180 abastecimentos mensais em uma frota de 40 veículos adaptados ao padrão GNV.
Esse tipo de projeto modifica a lógica econômica da estação.
O biogás deixa de ser considerado somente um gás que precisa ser controlado ou queimado e passa a representar um recurso energético. Consequentemente, a gestão do lodo também ganha importância estratégica, especialmente quando associada à digestão anaeróbia e à valorização dos subprodutos.
Assim, o biometano no saneamento pode contribuir para:
- redução do consumo de combustíveis fósseis;
- menor gasto energético;
- descarbonização de frotas;
- redução de emissões;
- melhor aproveitamento do lodo;
- fortalecimento da economia circular;
- geração potencial de novas receitas;
- melhoria do desempenho ambiental das ETEs.
Regulação ganhou força em 2026
Outro fator importante é que o ambiente regulatório brasileiro avançou.
A Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano. O objetivo é estimular a participação progressiva do combustível renovável no mercado nacional de gás.
Para 2026, o Conselho Nacional de Política Energética definiu uma meta de redução de 0,5% das emissões de gases de efeito estufa do mercado de gás natural, a ser atendida por meio da participação do biometano.
A legislação prevê uma trajetória que pode avançar posteriormente, mas o CNPE utilizou a possibilidade legal de estabelecer uma meta inicial inferior a 1%, considerando a oferta disponível e a necessidade de desenvolvimento gradual do mercado.
Além disso, a ANP regulamentou o Certificado de Garantia de Origem do Biometano, o CGOB, mecanismo destinado a criar rastreabilidade sobre a origem do combustível e permitir a comprovação de atributos associados ao biometano.
Mais recentemente, em agosto de 2026, a ANP aprovou a Resolução nº 1.006/2026, consolidando e aprimorando regras relacionadas à especificação e ao controle da qualidade do biometano. A regulamentação também contempla aspectos como métodos de ensaio, análise de riscos, monitoramento e condições técnicas para diferentes utilizações.
Para projetos de biometano no saneamento, isso significa que qualidade, rastreabilidade, segurança e conformidade regulatória precisam fazer parte do planejamento desde as etapas iniciais.
Plano mira caminhões e ônibus movidos a biometano
Entre as metas mais visíveis da agenda da ABiogás aparece o setor de transportes.
O plano aponta medidas capazes de viabilizar, até 2035, a incorporação de mais de 40 mil caminhões movidos a biometano. Além disso, projeta potencial para aproximadamente 16 mil ônibus distribuídos por 20 cidades.
Essa frente pode abrir espaço para modelos integrados de saneamento urbano.
Uma cidade que trata esgoto, administra resíduos e possui uma grande frota de transporte coletivo, por exemplo, pode avaliar a criação de cadeias locais de produção e consumo de combustível renovável.
Da mesma maneira, companhias de saneamento podem estudar o uso do combustível em veículos próprios ou contratados, caminhões de manutenção, equipamentos operacionais e outras atividades que hoje dependem de combustíveis fósseis.
Entretanto, a viabilidade depende de fatores como volume produzido, qualidade do gás bruto, distância até o consumidor, investimento em purificação, compressão, armazenamento, licenciamento, segurança operacional e preço do combustível que será substituído.
Nem toda ETE deverá produzir biometano
Apesar do potencial, seria incorreto considerar que qualquer estação de tratamento deveria instalar uma planta de purificação.
Em ETEs pequenas, por exemplo, a escala pode não justificar economicamente o investimento. Em outras unidades, utilizar o biogás diretamente para produção de eletricidade ou calor pode apresentar retorno financeiro superior.
Por isso, qualquer projeto de biometano no saneamento deve começar por diagnóstico técnico e econômico.
Primeiramente, precisam ser analisados dados como:
- vazão de esgoto;
- produção de lodo;
- volume real de biogás;
- concentração de metano;
- presença de sulfeto de hidrogênio;
- presença de siloxanos e outros contaminantes;
- estabilidade operacional;
- consumo atual de energia;
- consumo de combustíveis;
- possíveis compradores do gás.
Posteriormente, precisam ser estudados CAPEX, OPEX, custos de manutenção, disponibilidade dos equipamentos, vida útil, receitas potenciais, economia de energia, certificados ambientais e riscos regulatórios.
Dessa forma, o potencial técnico passa a ser confrontado com o potencial econômico.
O desafio é transformar potencial em projeto bancável
Para que o biometano no saneamento saia do campo das boas ideias e entre definitivamente nos planos de investimento das companhias, será necessário construir projetos capazes de oferecer previsibilidade.
Contratos de longo prazo para compra do combustível, por exemplo, podem reduzir o risco de demanda.
Além disso, mecanismos de blended finance, financiamentos climáticos, fundos de infraestrutura e linhas de crédito voltadas à transição energética podem contribuir para reduzir o custo de capital.
Essa é uma das razões pelas quais o plano da ABiogás defende novos instrumentos financeiros capazes de mobilizar recursos privados.
Outro elemento fundamental será a escala. Em determinados casos, poderá fazer sentido integrar diferentes fontes de resíduos em um mesmo projeto ou estruturar soluções regionais, desde que sejam respeitadas as exigências ambientais, sanitárias e operacionais.
Profissionais do saneamento serão decisivos nessa transformação
A expansão do biometano no saneamento também aumenta a importância dos profissionais que conhecem profundamente as estações de tratamento.
Engenheiros, técnicos, operadores, laboratoristas, especialistas ambientais, profissionais de automação, equipes eletromecânicas, técnicos de segurança, gestores de contratos e profissionais de planejamento serão responsáveis por transformar uma oportunidade energética em resultado operacional real.
A qualidade do combustível começa na estabilidade do tratamento.
Da mesma forma, o controle de corrosão, sulfeto de hidrogênio, umidade, siloxanos, pressão e condições de segurança depende diretamente de operação qualificada e manutenção consistente.
Portanto, investimentos em equipamentos precisam ser acompanhados por investimentos em pessoas.
ETEs mais circulares, automatizadas e energeticamente eficientes exigirão capacitação, novos indicadores, integração entre áreas e domínio sobre processos que, anteriormente, não faziam parte da rotina tradicional de muitas companhias.
Nesse cenário, os profissionais do saneamento deixam de ser vistos apenas como responsáveis pelo tratamento de água, esgoto e resíduos. Passam também a desempenhar papel relevante na transição energética, na descarbonização das cidades e na recuperação de recursos.
O que gestores de saneamento deveriam observar agora
O avanço regulatório e a nova agenda da ABiogás tornam recomendável que companhias de saneamento mapeiem suas próprias oportunidades.
ETEs com digestão anaeróbia, grandes vazões, produção relevante de lodo ou proximidade de consumidores de gás merecem avaliação prioritária.
Além disso, gestores podem acompanhar:
- produção efetiva de biogás por ETE;
- custo anual com energia elétrica;
- custo das frotas e combustíveis;
- oportunidades de utilização local do gás;
- possíveis consumidores próximos;
- exigências da ANP;
- oportunidades ligadas ao CGOB;
- linhas de financiamento;
- modelos de PPPs;
- contratos de fornecimento de longo prazo;
- possibilidades de aproveitamento de lodo e nutrientes.
Principalmente, o biometano no saneamento deve ser analisado como parte de uma estratégia maior de economia circular.
Energia, água de reúso, nutrientes, carbono e subprodutos do tratamento podem passar a ser avaliados como recursos recuperáveis, e não simplesmente como resíduos que precisam receber destinação.
Uma nova função econômica para as ETEs
O plano apresentado pela ABiogás reforça uma mudança que já começa a aparecer mundialmente: estações de tratamento de esgoto podem assumir uma função mais ampla dentro da infraestrutura das cidades.
Além de proteger a saúde pública e o meio ambiente, essas unidades podem recuperar água, nutrientes e energia.
Caso as medidas propostas avancem, o mercado brasileiro de biogás e biometano poderá ganhar escala, financiamento, previsibilidade regulatória e novos consumidores.
Para o saneamento, isso significa que ativos já existentes poderão assumir papel relevante na agenda energética e climática.
O biometano no saneamento não substitui a missão principal de coletar e tratar esgoto. Pelo contrário, pode fortalecer essa missão ao melhorar eficiência, reduzir custos, diversificar receitas e valorizar os profissionais responsáveis por manter sistemas essenciais funcionando todos os dias.
Entretanto, o potencial somente será convertido em resultado por meio de boa engenharia, projetos economicamente sustentáveis, dados confiáveis, manutenção adequada, segurança e operação qualificada.
A matéria-prima já passa diariamente pelas estações. O grande desafio agora será descobrir onde é tecnicamente e economicamente possível transformá-la em um novo ativo para o saneamento brasileiro.
Fontes
- Revista TAE — Plano para o Desenvolvimento dos Setores de Biogás e Biometano
- ABiogás — Associação Brasileira do Biogás e do Biometano
- Ministério de Minas e Energia — meta do biometano para 2026
- Ministério de Minas e Energia — Combustível do Futuro
- ANP — informações e regulamentação do biometano
- ANP — regulamentação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano
- ANP — Resolução nº 1.006/2026 e controle da qualidade do biometano
- EPE — estudos sobre potencial de biogás e biometano
- Ministério das Cidades — Economia Circular no saneamento e ETE Franca



