O primeiro debate presidencial das eleições de 2026 colocou na televisão propostas sobre segurança pública, educação, economia, corrupção, relações internacionais e mercado de trabalho. Entretanto, um dos maiores desafios de infraestrutura do Brasil praticamente não entrou na discussão: o saneamento básico.
A ausência chama atenção não apenas pelo impacto social do setor. O Brasil entrou em 2026 com uma corrida contra o tempo para cumprir metas nacionais de universalização previstas para 2033. Ao mesmo tempo, dezenas de milhões de brasileiros ainda não possuem atendimento adequado de água ou esgotamento sanitário, enquanto centenas de bilhões de reais precisarão continuar sendo mobilizados para expansão, modernização e melhoria dos serviços.
Portanto, enquanto presidenciáveis discutiram diferentes caminhos para o desenvolvimento brasileiro, permaneceu praticamente sem resposta uma pergunta essencial: qual será a política nacional de saneamento básico do próximo presidente da República?
Para os profissionais que diariamente operam estações, executam obras, controlam perdas, realizam manutenção, atendem clientes, fiscalizam contratos, planejam investimentos e regulam serviços, essa discussão está longe de ser secundária. Afinal, transformar metas nacionais em água chegando às torneiras e esgoto efetivamente coletado e tratado depende diretamente da capacidade técnica, institucional e financeira do setor.
O saneamento básico não ganhou espaço no primeiro debate
O primeiro debate presidencial de 2026 foi realizado pela Band em 23 de agosto e reuniu Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Também haviam sido convidados Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, que não participaram do encontro.
A própria cobertura publicada pela Band após o debate permite visualizar claramente quais assuntos dominaram os três blocos.
Segurança pública recebeu grande atenção. Houve propostas relacionadas ao enfrentamento das organizações criminosas, autonomia dos estados e atuação federal contra o crime.
Economia também ganhou espaço, com discussões sobre juros, produtividade, emprego, crédito e política fiscal.
Além disso, foram abordados educação, formação técnica, corrupção, relações diplomáticas, escala de trabalho e regras eleitorais.
Por outro lado, nas principais sínteses, reportagens temáticas e coberturas do debate consultadas, não foi identificada apresentação de uma política estruturada para saneamento básico pelos candidatos presentes.
Não houve discussão relevante sobre as metas nacionais de água e esgoto. Também não apareceram, com profundidade, temas como redução de perdas, segurança hídrica, drenagem urbana, resíduos sólidos, tratamento de esgoto, financiamento da universalização, regulação ou sustentabilidade econômico-financeira dos serviços.
Consequentemente, uma das maiores agendas de infraestrutura do país passou praticamente despercebida no primeiro grande confronto eleitoral televisionado de 2026.
Não se trata apenas de água e esgoto
Um dos problemas históricos da discussão política sobre saneamento básico está na simplificação do conceito.
Saneamento não significa apenas instalar redes de água ou construir estações de tratamento de esgoto.
Legalmente e tecnicamente, o setor envolve diferentes componentes, entre eles abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas.
Além disso, os serviços dependem de planejamento, regulação, engenharia, manutenção, eficiência operacional, controle de qualidade, atendimento ao cliente, gestão comercial, tecnologia, controle de perdas, financiamento e capacidade institucional.
Portanto, quando o saneamento básico desaparece de um debate presidencial, desaparece também uma discussão que envolve saúde pública, desenvolvimento urbano, meio ambiente, produtividade econômica, segurança hídrica e qualidade de vida.
Mais de 30 milhões ainda estão fora das redes de água
Os números ajudam a dimensionar a importância do tema.
O relatório SINISA 2025, com dados referentes a 2024, aponta atendimento por redes de abastecimento de água para aproximadamente 84,1% da população total considerada no sistema, correspondendo a cerca de 174 milhões de habitantes.
Isso significa que o país ainda possui uma parcela expressiva da população fora das redes de abastecimento.
Além disso, a desigualdade regional continua relevante.
Enquanto o Sudeste apresentou atendimento total de aproximadamente 92,1%, o Norte registrou cerca de 62,8%. No Nordeste, o índice ficou em aproximadamente 73,7%.
Portanto, falar em universalização do saneamento básico exige reconhecer que o desafio brasileiro não é uniforme.
Uma política nacional precisa considerar grandes regiões metropolitanas, pequenas cidades, áreas rurais, comunidades isoladas, municípios com baixa capacidade financeira e localidades nas quais levar infraestrutura convencional pode exigir soluções técnicas diferenciadas.
O esgoto representa um desafio ainda maior
A situação do esgotamento sanitário amplia a complexidade.
Dados recentes utilizados pelo Instituto Trata Brasil indicam que aproximadamente 90 milhões de brasileiros, equivalentes a cerca de 43,3% da população considerada, ainda não possuem coleta de esgoto.
Além disso, as diferenças entre municípios permanecem enormes.
No Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e GO Associados com informações do SINISA, os 20 municípios mais bem posicionados apresentaram aproximadamente 98,08% de coleta de esgoto.
Já entre os 20 municípios com os piores resultados, o indicador caiu para apenas 28,06%.
A diferença supera 70 pontos percentuais.
Isso demonstra que o desafio nacional do saneamento básico não está apenas em aumentar médias brasileiras. Também será necessário reduzir desigualdades territoriais extremamente profundas.
O relógio da universalização continua correndo
A principal referência para o setor permanece estabelecida pelo Marco Legal do Saneamento.
A meta é alcançar, até 31 de dezembro de 2033, atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.
A Norma de Referência nº 8 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico também estabeleceu parâmetros para o acompanhamento dessas metas.
Na prática, isso significa que o governo eleito em 2026 terá enorme responsabilidade sobre o período decisivo da universalização.
O mandato presidencial iniciado em 2027 terminará em 2030. Portanto, atravessará praticamente toda a fase final de expansão necessária antes de 2033.
Por essa razão, saneamento básico não deveria aparecer apenas de forma genérica em programas eleitorais. As propostas precisam responder a questões objetivas.
De onde virão os recursos?
Como acelerar projetos?
Como garantir segurança jurídica?
Como ampliar a capacidade de investimento de prestadores públicos e privados?
Como atender municípios pequenos e deficitários?
Como reduzir perdas de água?
Como fortalecer a regulação?
Como preparar profissionais suficientes para projetar, construir, operar e manter a infraestrutura?
Essas perguntas terão impacto direto sobre a possibilidade de o país atingir suas metas.
O desafio financeiro é bilionário
Universalizar o saneamento básico exige investimentos muito superiores aos de uma obra isolada ou programa pontual.
As próprias estimativas variam conforme metodologia, horizonte e componentes considerados.
A ANA já apresentou cenários que indicam necessidade de centenas de bilhões de reais para universalizar água e esgoto. Em avaliação divulgada pela agência, as estimativas foram situadas entre R$ 550 bilhões e R$ 900 bilhões, dependendo das premissas utilizadas.
Mais recentemente, o BNDES destacou que o Plansab aponta aproximadamente R$ 332 bilhões em necessidades de investimentos, a preços de 2025, sendo cerca de R$ 155 bilhões em abastecimento de água e R$ 177 bilhões em esgotamento sanitário.
Segundo o banco, aproximadamente R$ 29,5 bilhões foram investidos em 2024, o maior nível da série histórica considerada, porém ainda abaixo do ritmo médio necessário apontado para a universalização.
As diferenças entre as estimativas não representam necessariamente contradição. Elas podem considerar metodologias, preços, períodos, escopos e necessidades distintas.
A mensagem central, entretanto, permanece a mesma: o volume de capital necessário é gigantesco.
Investir mais não significa apenas construir mais
Outro ponto que precisaria aparecer no debate presidencial é a qualidade do investimento.
Não basta anunciar bilhões.
É necessário transformar recursos em infraestrutura funcionando.
Isso significa projetos bem elaborados, licenciamento ambiental, desapropriações, contratos equilibrados, fiscalização eficiente, obras concluídas, redes conectadas, sistemas operacionais e capacidade para manter os ativos durante décadas.
Além disso, uma estação de tratamento construída sem rede coletora suficiente não produz o resultado esperado.
Da mesma forma, uma rede implantada sem ligações domiciliares efetivas não representa necessariamente universalização real.
Por isso, a nova etapa do saneamento básico brasileiro exige integração entre planejamento, engenharia, operação e gestão comercial.
Perdas de água deveriam entrar no debate nacional
Existe ainda outro tema estratégico praticamente invisível na disputa presidencial: as perdas de água.
Produzir água potável exige captação, produtos químicos, energia elétrica, profissionais, laboratórios, manutenção, bombas, reservatórios e redes.
Quando uma parcela relevante dessa água é perdida antes de chegar ao consumidor ou deixa de ser corretamente medida e faturada, existe impacto ambiental, operacional e financeiro.
Consequentemente, reduzir perdas significa aumentar eficiência sem necessariamente aumentar proporcionalmente a produção.
Nesse processo entram profissionais de diferentes especialidades: engenheiros, técnicos, operadores, equipes de manutenção, analistas comerciais, especialistas em geoprocessamento, tecnologia, telemetria, automação e gestão de ativos.
Por isso, políticas nacionais de saneamento básico deveriam tratar eficiência operacional como uma prioridade equivalente à expansão da infraestrutura.
Regulação será decisiva até 2033
A universalização também dependerá de regulação sólida.
Com o Marco Legal do Saneamento, a ANA passou a editar normas de referência destinadas a promover maior harmonização regulatória em todo o país.
Entre os temas estão metas de universalização, indicadores operacionais, qualidade dos serviços, eficiência, governança regulatória e padronização de diferentes aspectos dos contratos.
A ANA já estabeleceu, por exemplo, indicadores relacionados a atendimento de água, cobertura de água, atendimento de esgoto, cobertura de esgoto, perdas na distribuição, qualidade da água, qualidade do esgoto tratado e intermitência dos serviços.
Portanto, a próxima Presidência também terá de conviver com um setor progressivamente orientado por dados, indicadores e desempenho.
Isso muda profundamente a lógica da gestão.
Não bastará construir.
Será necessário medir.
Não bastará ampliar redes.
Será necessário comprovar atendimento.
Não bastará anunciar metas.
Será necessário demonstrar resultados.
Universalização depende de profissionais qualificados
Existe um ponto especialmente importante que raramente recebe atenção proporcional no debate político: infraestrutura não funciona sozinha.
Cada quilômetro de rede implantado depende de pessoas.
Cada estação de tratamento precisa de operadores.
Cada projeto precisa de engenheiros e técnicos.
Cada contrato precisa de fiscalização.
Cada indicador precisa de informações confiáveis.
Cada ligação precisa ser cadastrada, medida, faturada e atendida.
Cada sistema precisa de manutenção.
A própria ANA já destacou a qualificação de profissionais como um dos requisitos necessários para viabilizar a universalização.
Portanto, valorizar os profissionais do saneamento não é apenas reconhecer uma categoria.
É reconhecer uma condição para que a política pública funcione.
Engenheiros, técnicos, operadores, agentes comerciais, pesquisadores, gestores, reguladores, profissionais ambientais, laboratoristas, equipes de campo, profissionais de tecnologia e trabalhadores terceirizados formam uma enorme cadeia humana responsável por manter serviços essenciais funcionando diariamente.
Sem essas pessoas, qualquer promessa eleitoral de universalização permanecerá apenas no papel.
Saneamento também é política econômica
A ausência do saneamento básico em uma discussão sobre desenvolvimento econômico também merece atenção.
Investimentos no setor movimentam construção civil, equipamentos, tecnologia, produtos químicos, energia, engenharia, serviços especializados e diversos fornecedores.
Além disso, melhorias sanitárias produzem impactos indiretos sobre saúde, produtividade, turismo, valorização imobiliária e desenvolvimento regional.
Consequentemente, tratar o saneamento apenas como política social reduz sua verdadeira dimensão.
O setor também representa infraestrutura econômica.
Uma cidade que possui água confiável, esgotamento sanitário adequado, drenagem eficiente e gestão adequada de resíduos cria melhores condições para receber moradores, empresas e investimentos.
O presidente não executa tudo, mas influencia muito
Também seria incorreto afirmar que toda responsabilidade pelo saneamento básico pertence ao governo federal.
Os serviços possuem titulares locais, estruturas regionalizadas, prestadores públicos e privados, agências reguladoras e diferentes modelos institucionais.
Entretanto, a União possui enorme capacidade de influenciar o setor.
Políticas de financiamento, bancos públicos, programas federais, regras nacionais, investimentos do orçamento, atuação da ANA, recursos do FGTS, coordenação federativa e políticas ambientais podem acelerar ou dificultar projetos.
O Novo PAC, por exemplo, selecionou empreendimentos de abastecimento de água que somam bilhões de reais em investimentos para centenas de municípios.
Portanto, perguntar aos candidatos à Presidência sobre saneamento significa perguntar qual será a estratégia federal para apoiar estados, municípios, reguladores e prestadores durante a corrida até 2033.
O que deveria ser perguntado aos presidenciáveis
Nos próximos debates, entrevistas e sabatinas, o setor poderia cobrar respostas mais objetivas.
Uma pergunta fundamental seria como cada candidatura pretende garantir recursos suficientes para alcançar as metas de 2033.
Também seria relevante conhecer a posição de cada presidenciável sobre concessões, PPPs, empresas estaduais, regionalização e financiamento público.
Outro ponto seria a redução das perdas de água.
Além disso, deveria ser questionada a estratégia para municípios pequenos e áreas rurais, onde a universalização costuma ser tecnicamente mais difícil e financeiramente menos atrativa.
Igualmente relevante seria entender como cada governo pretende fortalecer as agências reguladoras e aplicar as normas de referência da ANA.
Finalmente, existe uma pergunta essencial para a sustentabilidade do setor: como ampliar investimentos preservando tarifas socialmente adequadas e garantindo acesso às famílias de menor renda?
Esses são temas que permitem diferenciar uma proposta genérica de uma verdadeira política nacional de saneamento básico.
A eleição de 2026 acontece em um momento decisivo
O silêncio sobre saneamento no primeiro debate não significa que o tema esteja definitivamente fora da eleição.
A campanha está apenas começando.
Entretanto, existe uma janela de oportunidade importante para que profissionais, entidades técnicas, associações, empresas, reguladores e especialistas aumentem a pressão pela inclusão do setor na agenda eleitoral.
Poucas eleições presidenciais ocorreram em momento tão decisivo para o saneamento brasileiro.
Quando o próximo presidente assumir, faltarão apenas sete anos para 2033.
Quando esse mandato terminar, faltarão apenas três.
Portanto, boa parte das decisões capazes de determinar o sucesso ou fracasso da universalização será tomada durante o próximo ciclo presidencial.
Saneamento precisa deixar de ser tema invisível nas eleições
O primeiro debate presidencial de 2026 mostrou que assuntos capazes de gerar confronto político imediato tendem a ocupar grande parte do espaço eleitoral.
Entretanto, políticas públicas estruturantes também precisam chegar ao centro da discussão.
O saneamento básico afeta diariamente milhões de brasileiros, movimenta bilhões de reais, exige enorme capacidade técnica e possui metas nacionais com prazo determinado.
Ignorar o tema não elimina o problema.
A água precisa continuar sendo captada, tratada e distribuída.
O esgoto precisa ser coletado e tratado.
As redes precisam ser mantidas.
As perdas precisam cair.
Os investimentos precisam avançar.
E milhares de profissionais continuarão trabalhando diariamente para garantir que serviços essenciais permaneçam funcionando.
Por isso, o debate sobre saneamento básico precisa ultrapassar discursos genéricos e chegar às propostas concretas.
A eleição presidencial de 2026 oferece a oportunidade de discutir não apenas quem governará o país, mas como o Brasil pretende finalmente superar uma das maiores lacunas históricas de sua infraestrutura.
Para os profissionais do saneamento, existe ainda uma responsabilidade adicional: contribuir para que esse tema não continue invisível.
A universalização não será alcançada apenas por políticos, leis ou investimentos.
Será alcançada, sobretudo, pelo trabalho de profissionais capazes de transformar planejamento, recursos e tecnologia em serviços reais para a população.
Fontes consultadas
Band — Resumo do primeiro debate presidencial de 2026
Confira um resumo do debate da Band para presidente
Band — Segurança pública no debate presidencial
Candidatos falaram sobre segurança pública durante debate
Band — Economia no primeiro debate presidencial
Cury, Renan e Caiado discutiram economia durante debate
Ministério das Cidades — SINISA 2025: abastecimento de água
Relatório SINISA 2025 – Abastecimento de Água
Ministério das Cidades — Resultados do SINISA
Resultados SINISA
ANA — Norma de Referência nº 8 sobre universalização
Norma de Referência nº 8 da ANA
ANA — Universalização e necessidades de investimento
ANA debate perspectivas para universalização do saneamento
BNDES — Investimentos e projetos de saneamento
Hub de Projetos de Saneamento do BNDES
Instituto Trata Brasil — Ranking do Saneamento 2026
Ranking do Saneamento 2026
Governo Federal — Novo PAC e abastecimento de água
Novo PAC – Abastecimento de Água



