A troca de hidrômetros virou um projeto de infraestrutura digital
A substituição de 4,4 milhões de hidrômetros convencionais por hidrômetros inteligentes, dentro de um projeto da Sabesp estimado em R$ 3,8 bilhões, já produz um efeito que vai muito além da leitura remota do consumo. A escala da iniciativa está atraindo fabricantes internacionais para produzir equipamentos no Brasil, estimulando investimentos industriais em Manaus e sinalizando que a micromedição de água pode estar entrando em uma nova fase no país. (Folha de S.Paulo)
Segundo a Folha de S.Paulo, a chinesa Kaifa anunciou investimento de aproximadamente R$ 200 milhões para produzir equipamentos na Zona Franca de Manaus, com estimativa de cerca de 300 empregos diretos e indiretos. A francesa Sagemcom também escolheu Manaus para fabricar hidrômetros, enquanto a lituana Axioma Metering planeja iniciar produção brasileira em 2027. A própria Kaifa havia comunicado anteriormente um investimento internacional de cerca de US$ 40 milhões relacionado à implantação de capacidade produtiva no Brasil. (Folha de S.Paulo)
O movimento industrial chama atenção. Entretanto, para quem trabalha com operação, perdas, faturamento, atendimento, regulação ou tecnologia, a transformação mais relevante ocorre em outro lugar: o hidrômetro deixa de ser apenas o equipamento utilizado para gerar a conta mensal e passa a funcionar como um ponto permanente de aquisição de dados da rede de abastecimento.
É justamente aí que surge a questão estratégica para as companhias brasileiras: instalar milhões de hidrômetros inteligentes será suficiente para reduzir perdas e aumentar eficiência ou o retorno dependerá principalmente da capacidade de transformar bilhões de registros de consumo em decisões operacionais?
A experiência internacional indica que a segunda hipótese está mais próxima da realidade.
O que a Sabesp está fazendo
O programa prevê a instalação de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes na capital paulista e em São José dos Campos, com implantação prevista oficialmente até 2029. A Folha informou que existe expectativa de antecipação da conclusão para 2028. Portanto, 2029 deve ser tratado como o horizonte formal divulgado pela companhia e 2028 como uma expectativa reportada, não como novo prazo contratual confirmado. (Agência SP)
O projeto integra hidrômetros, comunicação, plataforma tecnológica e tratamento de dados. A arquitetura divulgada pela Sabesp utiliza NB-IoT — Narrowband Internet of Things, tecnologia de comunicação celular concebida para dispositivos que transmitem pequenos volumes de informação, demandam baixo consumo de energia e precisam permanecer conectados por longos períodos. A solução permite disponibilizar informações de consumo em intervalos muito menores do que a tradicional leitura mensal. (Mziq API)
Na prática, o cliente poderá acompanhar seu consumo e receber alertas de comportamento anormal. Para a companhia, a informação pode apoiar identificação de vazamentos após o hidrômetro, irregularidades, alterações de perfil, problemas de medição e situações que hoje somente aparecem durante a leitura mensal ou depois da emissão da conta. (Agência SP)
Uma divisão simples dos R$ 3,8 bilhões pelos 4,4 milhões de pontos resulta em aproximadamente R$ 864 por ponto previsto no projeto. Esse cálculo, entretanto, não representa o preço unitário do hidrômetro. Seria tecnicamente incorreto fazer essa associação porque o investimento envolve uma arquitetura muito mais ampla, com equipamentos, comunicação, plataforma, implantação, integração tecnológica e serviços relacionados ao funcionamento da solução. (Mziq API)
Esse detalhe é fundamental para companhias que pretendam construir projetos semelhantes. O business case de smart metering não deve comparar apenas “hidrômetro convencional versus hidrômetro inteligente”. A comparação precisa considerar o custo total do ecossistema e o valor que os dados serão capazes de gerar durante todo o ciclo de vida do ativo.
Por que os hidrômetros inteligentes podem mudar a gestão de perdas
Existe uma expectativa natural de associar hidrômetros inteligentes à redução de perdas. A relação existe, mas exige uma distinção técnica importante.
As perdas de água possuem componentes diferentes.
As perdas reais correspondem principalmente à água que efetivamente escapa do sistema por vazamentos em adutoras, redes, ramais e reservatórios.
Já as chamadas perdas aparentes ou comerciais estão relacionadas, entre outros fatores, à submedição, erros cadastrais, falhas de leitura, fraudes e consumos não registrados corretamente.
Os hidrômetros inteligentes possuem grande potencial para melhorar a segunda dimensão e, ao mesmo tempo, tornar muito mais eficiente a investigação da primeira.
Quando macromedição, micromedição e setorização são combinadas, informações mais frequentes permitem construir balanços hídricos em períodos muito menores. Uma diferença anormal entre a água que entra em determinado setor e a soma do consumo registrado pode ajudar a direcionar equipes para regiões prioritárias.
Entretanto, um hidrômetro inteligente instalado na residência não localiza sozinho um vazamento existente em uma tubulação da rua. O combate às perdas reais continua exigindo gestão de pressão, distritos de medição e controle, pesquisa de vazamentos, macromedição confiável, manutenção, renovação de ativos e capacidade de resposta operacional.
Essa distinção evita um dos maiores riscos de projetos de digitalização: atribuir ao equipamento um resultado que depende de todo o sistema de gestão.
A pressão regulatória torna esse assunto ainda mais relevante. Pela Portaria MCID nº 788/2024, para fins das condicionantes relacionadas ao acesso a recursos federais para abastecimento, entre 2026 e 2032 os valores de referência são de até 30% para o índice de perdas na distribuição e 263 litros por ligação por dia. A partir de 2033, os limites passam a 25% e 216 litros por ligação por dia. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, aumentar a qualidade da medição não é apenas uma agenda comercial. Tornou-se também componente relevante de uma estratégia de eficiência hídrica e sustentabilidade financeira.
AMR não é a mesma coisa que AMI
Outro ponto importante para profissionais do setor é diferenciar simplesmente “ler remotamente” de construir uma infraestrutura avançada de medição.
Um sistema de leitura remota pode substituir a visita física do leiturista e transmitir o valor acumulado do hidrômetro.
Já uma estrutura de AMI — Advanced Metering Infrastructure conecta medidores, telecomunicações, sistemas de dados e aplicações corporativas. O objetivo deixa de ser somente obter a leitura e passa a ser utilizar os dados ao longo de diferentes processos.
Em uma arquitetura madura, o fluxo pode envolver:
hidrômetro → rede de comunicação → plataforma de IoT → tratamento e validação → sistema comercial → CRM → ordens de serviço → ferramentas de perdas → aplicativo do cliente → analytics.
No projeto da Sabesp, a combinação de NB-IoT com recursos de eSIM voltados a dispositivos IoT busca oferecer conectividade em grande escala e capacidade de gestão da comunicação. A IDEMIA informou que a arquitetura utiliza tecnologia compatível com a especificação GSMA SGP.32 para gerenciamento de eSIM em IoT. (PR Newswire)
Isso demonstra como um projeto moderno de hidrômetros inteligentes rapidamente deixa o domínio exclusivo da engenharia de medição e passa a envolver telecomunicações, segurança da informação, arquitetura de sistemas, dados e experiência do cliente.
A chegada das fábricas pode mudar o mercado brasileiro
O efeito industrial provocado pela escala da Sabesp merece atenção.
De acordo com a reportagem da Folha, Kaifa e Sagemcom projetam capacidades produtivas da ordem de 1 milhão de equipamentos por ano cada, mirando não somente projetos brasileiros, mas também possíveis exportações para a América Latina. São projeções empresariais e, portanto, não significam demanda contratada nessa mesma proporção. (Folha de S.Paulo)
Ainda assim, o movimento é relevante.
A implantação de fabricantes no Brasil pode favorecer aumento da competição, desenvolvimento de fornecedores locais, redução de prazos logísticos e maior disponibilidade de suporte técnico. Além disso, pode tornar economicamente mais acessíveis projetos de menor escala em outras concessionárias.
A entrada da Sagemcom, por exemplo, já aparece associada a incentivos industriais no Amazonas para fabricação de medidores digitais de água. (Legisla.AM)
A Axioma, por sua vez, divulgou memorando de entendimento relacionado ao fornecimento de 600 mil hidrômetros ultrassônicos com conectividade NB-IoT para a Sabesp. Por se tratar de memorando de entendimento divulgado pela própria fabricante, esse número não deve ser interpretado automaticamente como contrato definitivo executado. (LinkedIn)
Essa cautela é importante porque a industrialização local pode representar uma tendência relevante sem que todas as projeções comerciais dos fornecedores necessariamente se concretizem.
Como companhias brasileiras já utilizam medição inteligente
A Sabesp não começou essa discussão do zero, e o Brasil já possui experiências que ajudam a entender onde está o valor da tecnologia.
A Iguá informou em 2023 que mais de 40% do volume de água consumido por seus clientes já era medido remotamente, utilizando telemetria e ferramentas digitais que também permitiam ao usuário visualizar informações de consumo. A estratégia envolve IoT e análise de dados para identificar anormalidades e apoiar a gestão. (Iguá SA)
A Cagece também vem utilizando telemetria, especialmente em clientes de maior consumo. A companhia destaca monitoramento remoto, acompanhamento mais frequente, identificação de mudanças de comportamento, apoio à detecção de vazamentos e possibilidade de leitura para faturamento sem deslocamento da equipe. (Cagece)
Um estudo acadêmico realizado com experiência da Caesb no Distrito Federal trouxe uma conclusão especialmente importante para gestores. A pesquisa avaliou economicamente a medição inteligente e verificou que a automação da leitura isoladamente não captura todo o potencial econômico do projeto. A utilização conjunta de ferramentas como alarmes de vazamentos e balanços hídricos detalhados aumenta significativamente a capacidade de geração de benefícios. (MDPI)
Essa talvez seja uma das lições mais importantes para o setor brasileiro.
O valor não está apenas no hidrômetro. Está no processo criado a partir da informação produzida pelo hidrômetro.
O benchmarking internacional mostra o próximo passo
Singapura: medidor, cliente e gestão de consumo
A PUB, agência nacional de águas de Singapura, estruturou uma primeira fase de aproximadamente 300 mil hidrômetros inteligentes para consumidores residenciais e não residenciais.
Os equipamentos registram dados várias vezes ao dia e permitem ao usuário visualizar informações em diferentes intervalos, receber notificações de consumo elevado e alertas de possíveis vazamentos. A estratégia é avançar progressivamente após avaliação da primeira etapa. (Pub)
Há uma lição gerencial importante nesse modelo: a digitalização não precisa significar expansão indiscriminada desde o primeiro dia. Implantação por etapas permite validar tecnologia, conectividade, qualidade dos dados, comportamento dos clientes e processos internos antes da expansão.
A PUB também prevê mecanismos de verificação para o uso dos dados no faturamento. Esse cuidado é particularmente relevante porque a mudança de tecnologia pode gerar questionamentos dos consumidores quando o novo equipamento registra consumos diferentes daqueles historicamente observados.
Inglaterra: smart metering ligado diretamente às metas de perdas
Na Inglaterra e no País de Gales, a dimensão regulatória aparece com ainda mais força. A Ofwat informou que o ciclo regulatório de 2025 a 2030 contempla mais de £1,7 bilhão destinado a 10,4 milhões de hidrômetros inteligentes, inseridos em uma estratégia que busca também nova redução das perdas no período. (Ofwat)
A Anglian Water fornece um exemplo da escala operacional possível. Em julho de 2026, a utility informou possuir mais de 1,5 milhão de hidrômetros inteligentes, cobrindo cerca de 70% de seus clientes. Segundo a própria companhia, a utilização dos equipamentos e das informações associadas já contribuía para uma redução superior a 18 milhões de litros de água por dia na demanda sobre o sistema. Trata-se de resultado reportado pela empresa, e não de auditoria independente apresentada na publicação. (Anglian Water)
Esse caso ajuda a mostrar que a tecnologia pode produzir resultados relevantes, mas somente quando alertas de vazamento, comunicação com clientes, gestão de consumo e atuação operacional funcionam como um único processo.
O impacto para as áreas comerciais pode ser maior do que parece
Embora a discussão sobre hidrômetros inteligentes seja frequentemente conduzida pelo olhar de tecnologia e perdas, a área comercial pode estar entre as mais transformadas.
A leitura mensal representa apenas uma fotografia.
Com informações horárias, uma companhia passa a enxergar uma série temporal.
Isso permite identificar, por exemplo, um imóvel que mantém consumo contínuo durante toda a madrugada. Pode indicar vazamento interno. Outro cliente pode apresentar mudança súbita de padrão. Um terceiro pode registrar comportamento incompatível com seu histórico ou categoria cadastral.
A partir daí, surgem aplicações em faturamento, recuperação de receita, análise de anormalidades, combate a irregularidades, atendimento e relacionamento.
Além disso, desaparece progressivamente parte das dificuldades associadas a imóveis fechados, impedimento de leitura e estimativas decorrentes da impossibilidade de acesso ao medidor.
Mas existe um efeito menos confortável que também precisa ser considerado.
Um hidrômetro mais moderno e mais sensível a baixas vazões pode registrar volumes que equipamentos antigos ou degradados deixavam de contabilizar. Portanto, alguns consumidores podem interpretar o aumento da conta como erro do novo equipamento.
A implantação tecnológica precisa vir acompanhada de estratégia de comunicação, regras claras de contestação, treinamento do atendimento e capacidade de análise técnica.
Sem isso, um projeto construído para melhorar a experiência do cliente pode produzir justamente o efeito contrário nos primeiros meses.
O que muda na operação
Na operação, os hidrômetros inteligentes ampliam o que pode ser chamado de “observabilidade” da distribuição.
Uma companhia com boa macromedição e milhões de pontos de micromedição digital passa a enxergar melhor o balanço entre água disponibilizada e água efetivamente consumida.
Isso cria condições para priorização de áreas, comparação entre setores, identificação de comportamentos atípicos e avaliação mais rápida dos resultados de intervenções.
Porém, novamente, o dado precisa gerar ação.
Se um algoritmo identifica milhares de possíveis vazamentos e não existe processo para classificá-los, comunicar o cliente, abrir uma ocorrência ou direcionar uma equipe, o alerta se torna apenas mais um registro armazenado.
O desafio deixa de ser “como obter informação?” e passa a ser “como administrar milhões de exceções sem aumentar desnecessariamente a estrutura operacional?”.
É nesse ponto que analytics, automação e inteligência artificial tendem a ganhar importância.
Regulação, metrologia e proteção dos dados não podem entrar depois
A transição para hidrômetros inteligentes também muda o conjunto de riscos do projeto.
A Norma de Referência ANA nº 11/2024 estabelece diretrizes para as condições gerais da prestação dos serviços e trata, entre outros aspectos, dos procedimentos relacionados à leitura e ao faturamento. Isso significa que a evolução tecnológica não elimina a necessidade de regras regulatórias transparentes para utilização da medição na cobrança. (Serviços e Informações do Brasil)
Ao mesmo tempo, hidrômetros eletrônicos continuam submetidos à metrologia legal e aos requisitos do Inmetro aplicáveis aos instrumentos de medição de água. Digitalizar a transmissão não substitui a necessidade de garantir confiabilidade metrológica. (Serviços e Informações do Brasil)
Existe ainda a dimensão da proteção de dados.
Uma medição mensal informa relativamente pouco sobre a rotina de um imóvel. Dados horários ou ainda mais frequentes podem permitir inferências muito mais detalhadas sobre padrões de ocupação e consumo. Quando associados a pessoa identificada ou identificável, esses registros exigem governança compatível com a Lei Geral de Proteção de Dados e medidas técnicas e administrativas de segurança. O artigo 46 da LGPD estabelece justamente a obrigação de proteger dados pessoais contra acessos não autorizados e situações de destruição, perda, alteração ou tratamento inadequado. (Planalto)
Por isso, cibersegurança e privacidade não deveriam ser itens adicionados ao final do projeto. Precisam fazer parte da arquitetura desde o início.
O que pode dar errado
Projetos de hidrômetros inteligentes podem apresentar excelente tecnologia e, ainda assim, entregar resultados inferiores aos esperados.
Os principais riscos estão concentrados em alguns pontos:
- Tratar o hidrômetro como objetivo, e não como fonte de dados. Instalar milhões de equipamentos não significa necessariamente reduzir perdas ou melhorar receita.
- Subestimar conectividade. Caixas subterrâneas, características construtivas e cobertura de rede podem prejudicar transmissão e exigir tratamento diferenciado.
- Criar dependência excessiva de fornecedores. Protocolos proprietários, plataformas fechadas e baixa interoperabilidade podem elevar custos futuros.
- Gerar mais alertas do que a companhia consegue tratar. Um sistema que encontra 100 mil anomalias precisa também saber quais merecem atuação imediata.
- Ignorar o custo do ciclo de vida. Bateria, conectividade, plataforma, armazenamento, manutenção, reposição e atualização tecnológica precisam entrar no cálculo.
- Não preparar o atendimento ao cliente. Alterações de consumo registrado podem gerar reclamações e questionamentos.
- Confundir redução de perdas comerciais com eliminação de vazamentos da rede. Smart metering é uma peça importante, mas não substitui engenharia de perdas.
- Não medir benefícios antes e depois. Sem uma linha de base, torna-se difícil demonstrar se a tecnologia realmente produziu retorno.
O que gestores devem observar antes de investir
O primeiro indicador de sucesso não deveria ser simplesmente “quantos hidrômetros foram instalados”.
A companhia precisa saber quais resultados espera obter de cada grupo de clientes.
Em grandes consumidores, por exemplo, recuperação de receita e monitoramento comercial podem justificar investimentos maiores por ligação.
Em regiões críticas de perdas, a integração com macromedição e setorização pode ser prioritária.
Em clientes residenciais, detecção de vazamento interno, redução de leitura presencial e relacionamento digital podem ganhar maior peso.
Também é necessário definir indicadores antes da implantação: redução de leituras estimadas, queda dos custos de leitura, aumento do volume medido, recuperação de receita, número de vazamentos identificados, tempo entre detecção e correção, quantidade de reclamações, disponibilidade da comunicação, vida útil de bateria e custo total por ponto conectado.
Somente assim os hidrômetros inteligentes deixam de ser um projeto de aquisição e passam a ser um programa de transformação operacional.
Uma transformação também para os profissionais
A digitalização modifica funções, mas não elimina a importância do conhecimento de campo.
O profissional que antes identificava visualmente uma anormalidade durante a leitura pode passar a atuar sobre exceções selecionadas por dados.
Equipes de perdas precisarão interpretar séries temporais e cruzá-las com pressão, vazão e macromedição.
Profissionais comerciais terão acesso a comportamentos de consumo antes invisíveis.
Atendentes precisarão compreender gráficos e alertas para explicar uma conta ao cliente.
Especialistas de TI passarão a administrar milhões de dispositivos conectados.
Engenheiros de medição precisarão dominar simultaneamente metrologia, telecomunicações e integração de sistemas.
Portanto, a transformação não é apenas tecnológica. Ela exige novas competências multidisciplinares dentro das companhias de saneamento.
Esse talvez seja um dos efeitos menos discutidos e mais importantes da medição inteligente.
A oportunidade que a escala da Sabesp cria para o setor
Quando um único projeto demanda milhões de equipamentos, fornecedores passam a enxergar um mercado que antes poderia parecer fragmentado.
A chegada de fabricantes ao país pode criar uma dinâmica relevante: quanto maior a escala, maior a possibilidade de produção local; quanto maior a concorrência e a oferta, maior a possibilidade de projetos economicamente viáveis em outras companhias.
Isso não significa que todas devam simplesmente reproduzir o modelo da Sabesp.
Empresas menores podem começar pelos grandes consumidores.
Outras podem priorizar distritos de medição e controle com perdas elevadas.
Algumas podem integrar telemetria apenas aos clientes com maior impacto na receita.
O benchmarking internacional mostra, inclusive, que implantações progressivas podem ser mais adequadas quando existe necessidade de validar tecnologia e retorno.
O ponto estratégico não é implantar a maior quantidade possível de equipamentos. É escolher onde cada dado adicional consegue gerar valor suficiente para pagar o custo de obtê-lo.
A próxima fronteira: do hidrômetro inteligente ao sistema inteligente
A evolução tecnológica aponta para equipamentos cada vez mais próximos de pequenos sensores de rede.
A PUB, em Singapura, já pesquisa soluções que combinam medição ultrassônica, conectividade NB-IoT e recursos associados à detecção acústica de vazamentos. (Pub)
Esse movimento sinaliza uma tendência: o medidor de amanhã pode não apenas contabilizar o volume consumido, mas contribuir para diagnosticar condições hidráulicas, vazamentos e alterações de comportamento.
Ao combinar milhões desses sensores com macromedição, sistemas supervisórios, GIS, inteligência artificial e modelos hidráulicos, as utilities começam a construir representações cada vez mais detalhadas do funcionamento da distribuição.
Nesse cenário, os hidrômetros inteligentes tornam-se uma das maiores fontes de dados de uma companhia de água.
E quanto maior a quantidade de informação, maior será a importância da capacidade de selecionar o que realmente merece atenção.
Lições para quem trabalha no saneamento
A experiência da Sabesp e os benchmarks analisados deixam algumas conclusões particularmente úteis.
A primeira é que smart metering não deve ser tratado apenas como projeto de leitura. Seu valor potencial alcança perdas, faturamento, experiência do cliente, planejamento operacional, eficiência de campo e gestão de ativos.
A segunda é que qualidade de dados passa a ser infraestrutura. Um equipamento pode medir corretamente e ainda produzir pouco valor se cadastro, integração ou processos posteriores forem deficientes.
A terceira é que tecnologia não substitui gestão de perdas. Os hidrômetros inteligentes aumentam a capacidade de enxergar o problema; transformar essa informação em economia de água continua dependendo de pessoas, processos e investimentos operacionais.
A quarta é que a área comercial precisa participar desde a concepção. Parte importante do retorno econômico pode vir justamente de redução de submedição, melhoria da leitura, tratamento de anormalidades e recuperação de receitas.
E a quinta talvez seja a mais estratégica: não existe transformação digital apenas comprando equipamentos digitais.
Ela ocorre quando a companhia passa a tomar decisões diferentes porque possui informações que antes não existiam.
Conclusão: o verdadeiro ativo será o dado
Os 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes da Sabesp podem marcar uma mudança estrutural na micromedição brasileira.
O primeiro sinal já apareceu na indústria. Fabricantes globais estão olhando para o país, projetos de produção local avançam e um mercado que durante décadas foi dominado principalmente pela substituição convencional do parque de medidores começa a incorporar telecomunicações, software, analytics e IoT.
Mas avaliar o programa apenas pela quantidade de hidrômetros instalados seria perder o ponto mais importante.
O verdadeiro teste virá depois.
Será necessário observar quanto a companhia conseguirá reduzir de leituras estimadas, quanto poderá recuperar de receita, quantos vazamentos serão identificados antes de virar uma conta elevada, quanto a operação conseguirá melhorar seus balanços hídricos e qual será o custo total de manter milhões de dispositivos conectados durante anos.
A experiência brasileira e internacional demonstra que hidrômetros inteligentes geram potencial; processos inteligentes transformam esse potencial em resultado.
Para os profissionais do saneamento, a mudança é significativa. Micromedição, perdas, faturamento, atendimento, tecnologia e operação ficarão cada vez menos separados.
O hidrômetro continuará medindo água.
Mas a vantagem competitiva das companhias estará naquilo que conseguirão fazer com cada informação que ele produzir.
Fontes e referências
Folha de S.Paulo — Painel S.A.
“Sabesp atrai fabricantes globais de hidrômetros inteligentes ao Brasil”
27 de agosto de 2026
Acessar reportagem da Folha de S.Paulo
Governo do Estado de São Paulo / Sabesp
“São Paulo inicia o maior projeto de medição inteligente de água do mundo”
11 de fevereiro de 2026
Acessar publicação oficial
Sabesp — Relações com Investidores
Apresentação corporativa com o Projeto Hidrômetros Inteligentes — AMI
2025
Acessar apresentação da Sabesp
IDEMIA / Vivo / Sabesp
Publicação sobre conectividade segura para 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes e utilização de eSIM para IoT
4 de agosto de 2026
Acessar publicação
Shenzhen Kaifa Technology
Anúncio de investimento para estabelecimento de capacidade produtiva no Brasil
12 de novembro de 2025
Acessar comunicado da Kaifa
Governo do Estado do Amazonas / Imprensa Oficial
Ato relacionado a incentivos para fabricação de medidores digitais de água pela Sagemcom Brasil
2025
Acessar publicação oficial
Iguá Saneamento
Publicação sobre expansão da medição remota e volume de água monitorado por hidrômetros inteligentes
14 de setembro de 2023
Acessar publicação da Iguá
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
“Telemetria permite monitoramento do consumo de grandes clientes”
30 de janeiro de 2025
Acessar publicação da Cagece
Universidade de Brasília / Caesb — estudo científico
Estudo de caso sobre avaliação técnico-econômica da medição inteligente de água no Distrito Federal
2022
Acessar estudo científico
PUB — Singapore’s National Water Agency
Smart Water Meter Programme
Atualizado em 6 de agosto de 2026
Acessar programa da PUB
Ofwat — Water Services Regulation Authority
Leakage — investimentos e expansão de smart metering no ciclo regulatório 2025–2030
Acessar informações da Ofwat
Anglian Water
Atualização sobre implantação de mais de 1,5 milhão de smart meters e resultados associados
7 de julho de 2026
Acessar publicação da Anglian Water
Ministério das Cidades
Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 — índices de perdas de água na distribuição
Acessar a Portaria MCID nº 788/2024
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Norma de Referência nº 11/2024 — condições gerais da prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário
Acessar norma da ANA
Inmetro — Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia
Regulamentação e documentos aplicáveis aos medidores de volume de água
Atualização consultada em 2026
Acessar informações do Inmetro
Presidência da República
Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)
Acessar a LGPD



