A adoção de dióxido de cloro em estações da Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO) deixou de ser apenas uma mudança de produto químico. O projeto desenvolvido com a Ecolab envolve geração do desinfetante no próprio local, controle de parâmetros como ferro, manganês e subprodutos da desinfecção e uma estrutura contratual que, somente em 2026, prevê até 60 toneladas do produto — com um contrato de R$ 3,506 milhões já celebrado para aplicação de 30 toneladas.
O ponto mais importante, entretanto, está além da química.
Desde maio de 2025, após a entrada da Iguá Sergipe na operação da distribuição de água e dos serviços de esgoto em 74 municípios, a DESO passou a concentrar sua atuação nos serviços de produção: captação, adução, tratamento da água e transporte da água tratada até os pontos de entrega. O contrato de interdependência entre as duas empresas estabelece que a DESO deve entregar água dentro dos padrões de potabilidade nesses pontos. (sergipe.se.gov.br)
Isso muda completamente a leitura do projeto.
Melhorar a estabilidade do tratamento significa não apenas produzir água de melhor qualidade, mas também reduzir riscos na interface operacional e regulatória entre duas empresas responsáveis por etapas diferentes do mesmo abastecimento.
É justamente nesse ponto que o caso sergipano oferece uma lição importante para outras companhias brasileiras.
O que a DESO e a Ecolab fizeram
A Revista TAE informou, em 4 de setembro de 2026, que a Ecolab implantou, em parceria com a DESO, a tecnologia PURATE™, baseada na geração de dióxido de cloro no próprio local de tratamento.
Segundo a divulgação, os objetivos incluíram ampliar a proteção microbiológica, aumentar a confiabilidade operacional, otimizar o consumo de produtos químicos e manter conformidade com a Portaria GM/MS nº 888/2021, que estabelece os procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano no Brasil.
A publicação afirma que o projeto contribuiu para o controle de ferro, manganês, trihalometanos — os conhecidos THMs —, clorito e clorato, além de reduzir consumo de produtos químicos e custo total das estações. (Revista TAE)
Há, porém, uma distinção importante.
A divulgação não apresenta as dosagens anteriores e posteriores, percentuais de redução, economia em reais, série histórica dos parâmetros nem resultados laboratoriais individuais das ETAs.
Portanto, é tecnicamente correto afirmar que esses resultados foram declarados pelas empresas envolvidas, mas os dados públicos encontrados não permitem calcular de forma independente quanto cada estação economizou ou quanto cada parâmetro melhorou.
Essa diferença é importante para um setor no qual decisões sobre tecnologias de tratamento podem movimentar milhões de reais.
O projeto não começou agora
Documentos oficiais mostram que a utilização do dióxido de cloro pela DESO possui uma trajetória anterior à publicação da reportagem.
Em fevereiro de 2024, a companhia formalizou uma ata de registro de preços para eventual geração e aplicação de até 40 toneladas de dióxido de cloro in situ em estações de tratamento.
Em janeiro de 2025, a DESO celebrou com a Ecolab o contrato nº 009/2025, no valor de R$ 3.031.250, para geração e aplicação de 25 toneladas. O escopo incluía equipamentos, sistemas de dosagem, acessórios, manutenção e logística dos insumos, com equipamentos disponibilizados em regime de comodato. (Transparência DESO)
Em setembro de 2025, o Governo de Sergipe informou que o trabalho já ocorria nas ETAs de Areia Branca e Cajaíba e também estava sendo desenvolvido em Tobias Barreto e Lagarto. A iniciativa recebeu um prêmio R3 da própria Ecolab. (IOSE)
Já em 2026, a escala aumentou.
O Pregão Eletrônico nº 009/2026 foi estruturado para aplicação de até 60 toneladas de dióxido de cloro pela rota clorato, gerado in situ. A Ecolab apresentou proposta de aproximadamente R$ 7,013 milhões para o lote. A ata de registro de preços entrou em vigor em maio. (TCE-SE)
Posteriormente, em 15 de junho de 2026, a DESO celebrou o contrato nº 042/2026, no valor de R$ 3.506.397, envolvendo 30 toneladas. (Transparência DESO)
Ou seja: o que aparece agora como projeto de inovação já está se transformando em uma estratégia operacional com contratos sucessivos.
Um número que merece atenção
Os contratos públicos permitem uma comparação interessante, embora ela precise ser interpretada com cuidado.
No contrato de 2025, a relação entre valor contratado e quantidade prevista corresponde a aproximadamente R$ 121.250 por tonelada.
No contrato de 2026, a relação é de aproximadamente R$ 116.880 por tonelada.
Nominalmente, isso representa redução próxima de 3,6%.
Entretanto, esse cálculo não representa o preço puro do dióxido de cloro.
Os contratos contemplam geração do produto no local, equipamentos, sistemas de dosagem, manutenção, acessórios, serviços técnicos e operações logísticas. Além disso, pequenas diferenças de escopo podem alterar a comparação.
Portanto, o número serve como indicador contratual, e não como demonstração de economia química.
Ainda assim, existe uma informação relevante: a quantidade prevista aumentou ao mesmo tempo em que a relação nominal entre valor contratado e tonelada caiu.
Para gestores de saneamento, esse é exatamente o tipo de dado que deve levar a uma pergunta adicional:
o ganho econômico está vindo do preço do insumo, da escala contratada, da redução de outros produtos químicos ou da melhoria global do processo?
Sem indicadores de custo por metro cúbico tratado, essa resposta ainda não pode ser dada publicamente.
Como funciona o dióxido de cloro
O dióxido de cloro, representado pela fórmula ClO₂, é um agente oxidante e desinfetante utilizado no tratamento de água.
Embora o nome possa sugerir semelhança com o cloro convencional, seu comportamento químico é diferente.
Na tecnologia PURATE, segundo a Ecolab, uma solução estabilizada contendo clorato de sódio e peróxido de hidrogênio reage em meio ácido para produzir o dióxido de cloro. O sistema gera o produto no próprio local de utilização e o encaminha aos pontos de aplicação da estação. (Ecolab)
Isso é relevante porque o ClO₂ não costuma ser transportado e armazenado como produto acabado em grandes volumes. A geração local permite produzir o oxidante de acordo com a demanda operacional.
A tecnologia implantada na DESO utiliza justamente a chamada rota clorato in situ, conforme os próprios documentos contratuais da estatal. (Transparência DESO)
Na prática, porém, não basta instalar um gerador.
A eficiência depende de variáveis como:
- características da água bruta;
- demanda de oxidante;
- vazão instantânea da ETA;
- ponto de aplicação;
- tempo de contato;
- matéria orgânica;
- ferro e manganês;
- pH e temperatura;
- estratégia de coagulação;
- residual do desinfetante;
- eficiência do equipamento gerador.
Portanto, o dióxido de cloro deve ser tratado como parte de uma estratégia de processo, e não simplesmente como substituto químico de outro produto.
Por que os trihalometanos entram nessa discussão
Um dos argumentos mais relevantes para utilização do dióxido de cloro está relacionado aos subprodutos da desinfecção.
Quando o cloro reage com determinadas frações da matéria orgânica natural presente na água, podem ser formados compostos como os trihalometanos — THMs e ácidos haloacéticos.
O ClO₂ apresenta química diferente e não produz THMs pela mesma rota típica da cloração.
Isso pode torná-lo particularmente interessante em sistemas com matéria orgânica elevada ou em situações nas quais a formação de subprodutos da cloração está próxima dos limites operacionais.
Entretanto, existe uma contrapartida.
O uso de dióxido de cloro pode resultar na formação de clorito e clorato.
A própria Organização Mundial da Saúde chama atenção para esses dois subprodutos. As diretrizes da OMS estabelecem valores provisórios de referência de 0,7 mg/L para clorito e 0,7 mg/L para clorato. (Organização Mundial da Saúde)
No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 também estabelece Valor Máximo Permitido de 0,7 mg/L para cada um desses parâmetros, enquanto o VMP para trihalometanos totais é de 0,1 mg/L. (BVSMS)
Assim, trocar ou complementar a cloração com dióxido de cloro não elimina a necessidade de controle dos subprodutos.
Ela muda quais subprodutos precisam receber maior atenção.
Esse detalhe é fundamental.
Dióxido de cloro não significa abandonar o cloro
Outro erro comum seria interpretar a tecnologia como necessariamente substituta de toda a estratégia de cloração.
Companhias podem utilizar diferentes combinações de oxidantes e desinfetantes ao longo do processo.
O dióxido de cloro pode ser empregado como pré-oxidante, oxidante intermediário, desinfetante ou dentro de uma estratégia combinada com cloro ou cloramina.
A escolha depende do manancial, do tratamento existente e da necessidade de manter proteção microbiológica ao longo da distribuição.
No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888 estabelece, entre outros requisitos, que seja mantido residual mínimo de desinfetante no sistema de distribuição, podendo ser utilizado dióxido de cloro dentro das condições previstas na norma. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, a decisão deve ser baseada na química da água e no desenho completo do sistema.
O que muda com a nova estrutura da DESO
Este talvez seja o aspecto mais estratégico do caso.
Desde maio de 2025, a Iguá Sergipe passou a responder pela distribuição de água e pelos serviços de esgotamento sanitário em 74 dos 75 municípios abrangidos pela concessão.
A DESO permaneceu pública e responsável principalmente pela produção da água. (Secretaria da Economia)
O contrato de interdependência estabelece que são atribuições da DESO:
- captação de água bruta;
- adução de água bruta;
- reservação de água bruta;
- tratamento;
- adução da água tratada até os pontos de entrega.
Depois desses pontos, a responsabilidade pela distribuição passa para a concessionária. (Agresense)
Isso cria uma fronteira operacional objetiva.
E qualidade da água passa a fazer parte dessa fronteira.
Documentos da Agrese registram que a DESO é responsável por entregar água em conformidade com os padrões de potabilidade nos pontos de entrega e que, a partir desses locais, a manutenção da qualidade passa a ser responsabilidade da concessionária. (Agresense)
Há ainda impacto sobre indicadores.
O relatório do Verificador Independente registra que amostras em desconformidade causadas por água entregue pela DESO fora dos padrões previstos podem ser expurgadas do cálculo do indicador de qualidade atribuído à Iguá. (Agresense)
Consequentemente, estabilidade química, microbiológica e operacional da produção ganhou uma dimensão contratual adicional.
Uma ETA instável pode gerar problemas muito além dos seus próprios limites físicos.
O que outras companhias brasileiras estão fazendo
O caso sergipano não é isolado.
Sanepar: dióxido de cloro no Rio Tibagi
A Sanepar utiliza dióxido de cloro na ETA Tibagi, em Londrina, inclusive para enfrentar alterações provocadas por algas e compostos responsáveis por sabor e odor.
Em outubro de 2024, diante da presença de substâncias como geosmina e MIB associadas à proliferação de algas, a companhia informou que intensificou o emprego de dióxido de cloro e carvão ativado. (Sanepar)
A estratégia avançou para investimento permanente.
Em uma licitação concluída em 2025, a Sanepar contratou por aproximadamente R$ 1,728 milhão obras destinadas à implantação e melhoria do sistema de dióxido de cloro na ETA Tibagi. (Sanepar Licitações)
Além disso, a empresa possui nota técnica específica para sistemas de geração de ClO₂.
O documento chama atenção para questões de segurança, incluindo ventilação da sala, compatibilidade química de tubulações, controle de acesso e riscos associados à geração do produto. (Sanepar)
A lição é clara: adotar dióxido de cloro envolve engenharia, segurança e padronização, e não apenas compra de reagente.
Cagece: pré-oxidação em uma ETA de grande porte
A Cagece também possui experiência consolidada.
Documentos técnicos da companhia mostram utilização do dióxido de cloro como pré-oxidante na ETA Gavião, integrante do sistema que abastece Fortaleza e Região Metropolitana. O tratamento combina dióxido de cloro na pré-oxidação e cloro na desinfecção final. (Cagece)
Esse exemplo ajuda a demonstrar outra característica importante: diferentes oxidantes podem cumprir funções distintas dentro da mesma ETA.
Não existe necessariamente uma disputa entre “cloro ou dióxido de cloro”.
Existe uma escolha de processo.
O que o mundo está fazendo
Brenham: dióxido de cloro como desinfetante primário
A cidade de Brenham, no Texas, oferece um exemplo operacional público.
O sistema utiliza água do Lake Somerville e emprega dióxido de cloro como desinfetante primário, também visando controle de sabor e odor. Posteriormente, utiliza cloraminas dentro de sua estratégia de desinfecção e distribuição. (Cidade de Brenham)
O exemplo mostra como a combinação de tecnologias pode ser adaptada ao objetivo de cada etapa.
Cremona: carvão ativado ajudou a controlar os subprodutos
Pesquisadores analisaram água de estações de tratamento de Cremona, na Itália, estudando a demanda de dióxido de cloro e a formação de clorito e clorato.
O estudo, publicado na revista científica Water Research, mostrou que o carvão ativado foi particularmente eficiente: nos ensaios realizados, reduziu a demanda de dióxido de cloro em aproximadamente 50% e a formação dos subprodutos analisados entre aproximadamente 20% e 40%. (PubMed)
Para gestores de ETA, a conclusão prática é relevante.
Otimizar o pré-tratamento pode ser tão importante quanto escolher o desinfetante.
Holanda: baixas doses e tratamento multibarreira
Pesquisa realizada em sistema operado pela Evides Waterbedrijf, na região de Rotterdam, analisou uma instalação de escala real que aplicava aproximadamente 0,1 mg/L de dióxido de cloro antes de um grande reservatório.
O sistema combinava coagulação, floculação, sedimentação, ozonização, filtração em dupla camada e carvão ativado antes dessa etapa final. (PubMed Central (PMC))
Mais uma vez, o aprendizado não está em copiar uma dosagem.
Está no conceito de barreiras múltiplas.
Onde está o ganho operacional
Para avaliar corretamente um projeto com dióxido de cloro, não basta comparar o preço de dois produtos químicos.
O indicador mais relevante é o custo total do tratamento.
Isso inclui:
Produtos químicos: consumo de oxidantes, coagulantes, alcalinizantes, carvão ativado e demais insumos.
Energia: bombas, geradores e equipamentos auxiliares.
Manutenção: dosadores, tubulações, sensores, válvulas e geradores.
Operação: necessidade de intervenção manual e tempo das equipes.
Qualidade: quantidade de desvios, retratamentos e reclamações.
Segurança: exposição dos trabalhadores e movimentação de produtos perigosos.
Confiabilidade: indisponibilidade de sistemas, alarmes e falhas de dosagem.
Risco regulatório: probabilidade de ultrapassar parâmetros de potabilidade.
É por isso que uma tecnologia aparentemente mais cara por quilograma pode eventualmente produzir um tratamento economicamente melhor.
Mas isso precisa ser demonstrado por indicadores.
O que gestores deveriam medir
Se outra companhia decidir testar dióxido de cloro, o projeto deveria começar com uma linha de base.
Antes da implantação, seria recomendável registrar, entre outros indicadores:
- consumo de oxidante em kg por 1.000 m³;
- consumo total de produtos químicos;
- custo químico por 1.000 m³;
- custo total de tratamento por 1.000 m³;
- concentração de THMs;
- clorito;
- clorato;
- ferro;
- manganês;
- carbono orgânico total, quando aplicável;
- turbidez;
- cor;
- residual de desinfetante;
- resultados microbiológicos;
- frequência de alarmes;
- horas de indisponibilidade;
- intervenções manuais;
- ocorrências de segurança.
Depois da implantação, os mesmos indicadores devem ser acompanhados.
Só assim será possível responder objetivamente:
a tecnologia realmente melhorou o processo?
O que pode dar errado
O dióxido de cloro não deve ser encarado como solução universal.
Existem pontos de atenção importantes.
Formação de clorito e clorato
Ao reduzir a formação de determinados subprodutos associados à cloração, a companhia precisa reforçar a vigilância sobre outros subprodutos.
Clorito e clorato não podem ser ignorados.
Segurança do sistema gerador
A Sanepar, em sua própria especificação técnica, destaca riscos associados à geração de dióxido de cloro e estabelece cuidados relacionados a ventilação, materiais, temperatura, acesso e projeto. (Sanepar)
Dosagem sem monitoramento
Gerar um oxidante eficiente e não acompanhar residual, vazão e qualidade da água transforma uma tecnologia avançada em um processo vulnerável.
Automação e instrumentação são parte da solução.
Utilizar química para compensar tratamento mal otimizado
Se coagulação, floculação, filtração ou remoção de matéria orgânica estiverem deficientes, aumentar simplesmente a dosagem de oxidante pode aumentar custos sem corrigir a causa do problema.
Comparar apenas preço do reagente
Esse talvez seja um dos erros gerenciais mais comuns.
A comparação deve considerar R$/1.000 m³ tratados com a qualidade exigida, e não apenas R$/kg de produto.
A oportunidade menos percebida: transformar química em dados
O maior avanço talvez não seja a adoção de um produto específico.
É a possibilidade de transformar o tratamento químico em processo gerenciado por dados.
Uma ETA moderna deveria conseguir correlacionar continuamente:
qualidade da água bruta → dosagem → desempenho da coagulação → filtração → desinfecção → subprodutos → custo.
Quando essa cadeia é conhecida, o operador deixa de trabalhar apenas por ajuste empírico.
O químico passa a avaliar tendências.
O engenheiro consegue diagnosticar gargalos.
A manutenção consegue antecipar falhas.
O gestor passa a enxergar custo por metro cúbico.
E a diretoria consegue decidir se uma tecnologia deve permanecer, ser modificada ou ser expandida.
Isso vale para dióxido de cloro, coagulantes, carvão ativado, ozônio, hipoclorito ou qualquer outra solução.
Lições para profissionais de saneamento
O caso DESO–Ecolab oferece pelo menos sete aprendizados importantes.
1. O produto químico é apenas uma parte da solução.
Equipamentos, geração, dosagem, logística, manutenção, automação e conhecimento técnico são igualmente importantes.
2. Eficiência precisa ser convertida em indicador.
“Reduziu significativamente” é informação útil para divulgação, mas insuficiente para gestão. É necessário saber quanto.
3. O custo correto é o custo total por metro cúbico tratado.
Comparar preço por tonelada pode produzir decisões equivocadas.
4. Subprodutos precisam fazer parte do projeto desde o início.
Reduzir THMs não elimina o controle químico; desloca parte da atenção para clorito e clorato.
5. Benchmarking deve comparar processos semelhantes.
Uma ETA com água superficial eutrofizada não deve copiar automaticamente a estratégia de uma instalação baseada em água subterrânea.
6. A instrumentação determina parte do resultado.
Quanto mais dinâmica for a qualidade da água bruta, maior a importância do controle de dosagem baseado em informação operacional confiável.
7. No novo modelo de Sergipe, qualidade da água também é governança contratual.
Como produção e distribuição estão sob responsabilidades empresariais distintas, o ponto de entrega tornou-se uma fronteira técnica que precisa de monitoramento, rastreabilidade e comunicação operacional.
A principal pergunta que fica para a DESO
A experiência relatada parece tecnicamente coerente com aplicações já consolidadas do dióxido de cloro no Brasil e no exterior.
Os documentos públicos também mostram continuidade e ampliação contratual, o que indica que a solução ultrapassou a condição de experiência pontual.
Entretanto, para que o caso se torne um verdadeiro benchmark nacional, ainda falta uma camada importante de transparência técnica.
Seria extremamente valioso conhecer, por ETA:
- dosagem antes e depois;
- redução percentual de produtos químicos;
- custo por metro cúbico;
- concentração de THMs antes e depois;
- resultados de clorito e clorato;
- redução de ferro e manganês;
- economia anual;
- disponibilidade operacional;
- indicadores de segurança.
Esses números transformariam uma experiência positiva em conhecimento replicável para todo o setor.
Conclusão
O avanço do dióxido de cloro na DESO mostra como decisões aparentemente restritas à química do tratamento podem ganhar dimensão operacional, financeira e regulatória.
A tecnologia PURATE utiliza geração local de ClO₂ e pode oferecer vantagens importantes em situações específicas, principalmente quando a companhia precisa fortalecer a oxidação, controlar ferro e manganês, reduzir a pressão de formação de determinados subprodutos da cloração ou aumentar a confiabilidade microbiológica.
Por outro lado, ela exige controle rigoroso de clorito e clorato, segurança no sistema gerador, instrumentação adequada e análise completa do custo operacional.
O caso sergipano possui ainda uma característica que merece atenção de todo o setor.
Com a separação entre produção e distribuição de água, a qualidade entregue pela ETA passou a ser também a qualidade de uma relação de interdependência entre prestadores diferentes.
Consequentemente, confiabilidade de tratamento, monitoramento, rastreabilidade de dados e capacidade técnica das equipes tornam-se ainda mais valiosos.
A principal lição para quem trabalha no saneamento não é simplesmente “usar dióxido de cloro”.
É outra:
uma tecnologia só gera valor quando a companhia consegue transformar química, operação, qualidade e custo em indicadores capazes de comprovar o resultado.
E é justamente nesse ponto que operadores, químicos, técnicos, engenheiros, analistas, gestores e equipes de laboratório deixam de ser apenas executores de um processo.
Eles passam a ser responsáveis por transformar uma tecnologia em desempenho real.
Fontes e referências
Revista TAE
Ecolab em parceria com a Deso aprimora o tratamento de água em estações da companhia de saneamento
4 de setembro de 2026
Acessar a reportagem
Companhia de Saneamento de Sergipe — DESO / Portal da Transparência
Contrato nº 009/2025 — geração e aplicação de 25 toneladas de dióxido de cloro
13 de janeiro de 2025
Acessar o contrato
Companhia de Saneamento de Sergipe — DESO / Portal da Transparência
Contrato nº 042/2026 — sistema gerador e aplicação de 30 toneladas de dióxido de cloro
15 de junho de 2026
Acessar o contrato
Companhia de Saneamento de Sergipe — DESO / Portal da Transparência
Ata de Registro de Preços nº 003/2024 — dióxido de cloro
2024
Acessar a ata
Tribunal de Contas do Estado de Sergipe
Pregão Eletrônico nº 009/2026 — aplicação de 60 toneladas de dióxido de cloro pela rota clorato in situ
2026
Acessar documentação do pregão
Governo do Estado de Sergipe
Deso inicia nova fase com foco na produção de água de qualidade para milhões de sergipanos
1º de maio de 2025
Acessar publicação oficial
Agrese — Agência Reguladora dos Serviços Públicos de Sergipe
Contrato de Interdependência DESO–Iguá Sergipe
Acessar o contrato de interdependência
Agrese — Agência Reguladora dos Serviços Públicos de Sergipe
Relato Técnico — responsabilidades contratuais e qualidade da água DESO/Iguá
2025
Acessar documento técnico
Ministério da Saúde
Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021 — padrão de potabilidade da água para consumo humano
4 de maio de 2021
Acessar a Portaria 888/2021
World Health Organization — WHO
Chlorine dioxide, chlorate and chlorite — Guidelines for Drinking-water Quality
Atualização incorporada às diretrizes da OMS
Acessar referência da OMS
Ecolab / Nalco Water
PURATE Chlorine Dioxide Systems
Informações técnicas da tecnologia
Acessar tecnologia PURATE
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Sanepar intensifica aplicação de produtos para tratar água do Tibagi
24 de outubro de 2024
Acessar publicação da Sanepar
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Nota Técnica 6G — Produtos Químicos: Sistema de Geração de Dióxido de Cloro
16 de outubro de 2024
Acessar nota técnica
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Documentação técnica da ETA Gavião — utilização de dióxido de cloro na pré-oxidação
Acessar documentação da Cagece
Sorlini, S.; Biasibetti, M. — Water Research
Influence of drinking water treatments on chlorine dioxide consumption and chlorite/chlorate formation
2014
Consultar estudo no PubMed
City of Brenham — Texas, Estados Unidos
Water Treatment — utilização de dióxido de cloro como desinfetante primário
Acessar informações da utility



