Saneamento ou Morte: saneamento básico salva vidas

Em 7 de setembro de 1822, o Brasil declarou sua independência. Duzentos e quatro anos depois, outra conquista permanece incompleta: garantir que toda a população tenha acesso seguro ao saneamento básico.

A expressão “Saneamento ou Morte” é provocativa, mas está longe de representar apenas um jogo de palavras com o histórico “Independência ou Morte”. Água contaminada, descarte inadequado de esgoto, falta de condições de higiene, drenagem insuficiente e manejo inadequado de resíduos criam ambientes favoráveis à transmissão de doenças que continuam levando pessoas a hospitais e, nos casos mais graves, à morte.

O impacto é especialmente preocupante entre crianças.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, condições inadequadas de água, saneamento e higiene — conjunto conhecido internacionalmente pela sigla WASH — estiveram associadas a aproximadamente 1,4 milhão de mortes evitáveis no mundo em 2019. Entre crianças menores de cinco anos, foram estimadas 395 mil mortes atribuíveis a condições inadequadas de WASH, incluindo cerca de 273 mil por doenças diarreicas. (Organização Mundial da Saúde)

No Brasil, o problema também aparece nas estatísticas de saúde. Em 2024, foram registradas aproximadamente 344,4 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado, as chamadas DRSAI, com custo superior a R$ 174 milhões para o sistema de saúde. Crianças de até quatro anos responderam por aproximadamente 70 mil dessas hospitalizações. Em 2023, foram contabilizados 11.544 óbitos por DRSAI. (Trata Brasil)

Existe, porém, uma ressalva técnica indispensável. As DRSAI formam um grupo amplo, que inclui doenças de transmissão feco-oral, enfermidades transmitidas por vetores, doenças relacionadas ao contato com água, problemas associados à higiene e outras condições. Portanto, não seria correto afirmar que todos esses óbitos ou internações foram provocados exclusivamente pela inexistência de uma rede de água ou de esgoto.

Ainda assim, a associação entre condições inadequadas de saneamento básico e parte importante dessa carga de doenças é amplamente reconhecida pela saúde pública.

E é exatamente aí que a expressão “Saneamento ou Morte” ganha sentido.

O Brasil de 1822 estava muito distante do saneamento moderno

A realidade sanitária existente quando o Brasil se tornou independente seria difícil de imaginar nas cidades atuais.

Nas primeiras décadas do século XIX, grande parte das residências não possuía sistemas adequados de afastamento dos dejetos. No Rio de Janeiro, então centro político do país, recipientes com fezes e águas servidas eram retirados das casas e transportados até praias, pântanos e lagoas.

Esse trabalho era realizado principalmente por pessoas escravizadas, historicamente conhecidas como “tigres”. O Arquivo Nacional registra que esse sistema permaneceu como uma das bases do serviço sanitário da cidade pelo menos até a década de 1830. O próprio apelido estava relacionado às manchas que os dejetos deixavam sobre o corpo daqueles trabalhadores durante o transporte dos recipientes. (Serviços e Informações do Brasil)

A Independência, portanto, ocorreu em um país praticamente sem a infraestrutura que hoje é associada ao saneamento básico.

Havia fontes, chafarizes, sistemas locais de abastecimento e iniciativas pontuais, porém ainda não existia uma estrutura abrangente de coleta e afastamento de esgotos semelhante aos sistemas modernos.

Além disso, à medida que as cidades cresceram, a concentração populacional ampliou os desafios sanitários. Água, resíduos, dejetos humanos e drenagem conviviam em ambientes urbanos cada vez mais densos.

Consequentemente, epidemias e doenças infecciosas passaram a pressionar progressivamente o poder público.

1857: o esgoto começa a entrar na infraestrutura urbana

Um dos marcos históricos ocorreu 35 anos depois da Independência.

Em 29 de abril de 1857, durante o Império de D. Pedro II, o Decreto nº 1.929 aprovou um contrato para implantação de um sistema de despejos e esgotamento das habitações no Rio de Janeiro.

O documento determinava a construção de estruturas destinadas aos despejos domiciliares e às águas pluviais e representava uma tentativa de substituir gradualmente soluções sanitárias extremamente precárias por infraestrutura urbana organizada. (Portal da Câmara dos Deputados)

Posteriormente, a Rio de Janeiro City Improvements Company assumiu parte da implantação do sistema. Em 1864, entraram em operação segmentos da rede domiciliar de esgotos.

Para os padrões daquele período, tratava-se de uma transformação importante. O Rio de Janeiro passou a figurar entre as primeiras grandes cidades a estruturar sistemas desse tipo, embora a cobertura inicial estivesse muito distante de alcançar toda a população. (Prefeitura do Rio de Janeiro)

Assim começou uma longa trajetória.

De sistemas rudimentares de remoção de dejetos, o país gradualmente passou para redes coletoras, adutoras, estações de tratamento, reservatórios, sistemas de distribuição, interceptores, elevatórias e estações de tratamento de esgoto.

Entretanto, essa transformação nunca ocorreu na mesma velocidade em todo o território brasileiro.

Epidemias mostraram que infraestrutura e saúde eram inseparáveis

Durante o século XIX e o início do século XX, epidemias de cólera, febre amarela, varíola e outras doenças transformaram a saúde pública brasileira.

No final do século XIX, por exemplo, uma epidemia de cólera atingiu áreas de São Paulo e avançou pelo Vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro. A confirmação laboratorial da presença do agente causador levou à adoção de medidas sanitárias em áreas estratégicas. (Oswaldo Cruz)

Já no início do século XX, as campanhas sanitárias lideradas por Oswaldo Cruz tornaram-se parte fundamental da reorganização da saúde pública brasileira.

Entre 1903 e 1909, ações contra febre amarela, varíola e peste bubônica passaram a integrar uma política sanitária mais estruturada na então capital federal. (BaseArch)

A história demonstrava progressivamente algo que hoje parece evidente: saúde pública não depende apenas de hospitais, médicos e medicamentos.

Depende também da infraestrutura que impede que as pessoas adoeçam.

Essa é uma das funções essenciais do saneamento básico.

Como a falta de saneamento pode matar

O mecanismo pode ser entendido de maneira relativamente simples.

Fezes humanas podem conter vírus, bactérias, protozoários e outros agentes patogênicos. Quando o esgoto não é adequadamente coletado, transportado, tratado e destinado, esses organismos podem alcançar o solo, córregos, rios, poços e outras fontes utilizadas pela população.

Caso a água destinada ao consumo esteja contaminada ou não receba tratamento adequado, ocorre uma possível rota de transmissão.

Entretanto, água segura é apenas uma parte da proteção.

Quando existe pouca disponibilidade de água, também se tornam mais difíceis atividades básicas de higiene, como lavar as mãos, limpar utensílios e manter ambientes adequadamente higienizados.

Por isso, água, esgotamento sanitário e higiene são analisados conjuntamente pela Organização Mundial da Saúde.

A diarreia é um dos exemplos mais conhecidos. Em crianças pequenas, episódios intensos podem causar rapidamente perda de água e eletrólitos. Sem atendimento adequado, a desidratação pode evoluir para um quadro grave.

Além disso, episódios repetidos de doenças entéricas podem prejudicar alimentação, desenvolvimento e estado nutricional.

A OMS estima que aproximadamente 1 milhão de pessoas morrem anualmente por doenças diarreicas associadas a água insegura, saneamento inadequado e higiene insuficiente. (Organização Mundial da Saúde)

Portanto, o saneamento básico funciona como uma barreira sanitária construída antes da porta do hospital.

Crianças estão entre as maiores vítimas da desigualdade sanitária

A vulnerabilidade infantil torna a discussão ainda mais relevante.

No Brasil, análise do UNICEF baseada no Censo Demográfico de 2022 identificou 12,2 milhões de crianças e adolescentes vivendo sem acesso adequado ao esgotamento sanitário e aproximadamente 2,1 milhões sem acesso adequado à água. (UNICEF)

Esses números não significam que todas essas crianças adoecerão.

Significam, porém, que milhões ainda vivem sem uma das camadas mais importantes de proteção oferecidas pela infraestrutura urbana.

Além disso, crianças pequenas possuem menor reserva corporal de líquidos e são mais vulneráveis às consequências de episódios severos de diarreia e desidratação.

Por essa razão, a discussão sobre saneamento básico ultrapassa engenharia e infraestrutura. Trata-se também de uma discussão sobre infância, saúde, educação, produtividade e redução da desigualdade.

Uma criança frequentemente doente pode faltar à escola. Um responsável pode precisar deixar de trabalhar para cuidar dela. O sistema público de saúde precisa absorver o atendimento. A família enfrenta custos adicionais.

Assim, o déficit sanitário gera impactos em cadeia.

1970: o saneamento ganha escala nacional

Outro momento fundamental ocorreu quase 150 anos depois da Independência.

Até o início da década de 1970, os serviços de água e esgoto apresentavam forte presença municipal, embora também existissem estruturas estaduais.

A criação do Plano Nacional de Saneamento, o PLANASA, modificou profundamente a organização do setor.

O modelo buscava acelerar a expansão dos serviços e estabeleceu a ambiciosa meta de atender, até 1980, aproximadamente 80% da população urbana com abastecimento de água e 50% com serviços de esgoto.

Além disso, consolidou o papel das companhias estaduais de saneamento, que passaram a concentrar grande parte da prestação dos serviços em diversos estados brasileiros. (Portal Antigo Ipea)

O PLANASA permitiu expressiva expansão da infraestrutura, especialmente do abastecimento de água.

Entretanto, uma característica que acompanharia o setor por décadas começava a ficar evidente: a água avançava mais rapidamente do que o esgoto.

Essa diferença ainda aparece nos indicadores nacionais.

2007: uma política nacional para o saneamento básico

Outro marco ocorreu com a Lei nº 11.445, de 2007.

A norma estabeleceu as diretrizes nacionais para o saneamento básico e organizou princípios importantes relacionados ao planejamento, regulação, prestação dos serviços, controle social e sustentabilidade.

Além disso, consolidou uma visão mais ampla.

Legalmente, saneamento básico não significa apenas água e esgoto.

O conceito reúne quatro grandes componentes:

abastecimento de água potável;

esgotamento sanitário;

limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos;

drenagem e manejo das águas pluviais urbanas.

Essa compreensão é especialmente importante quando são analisadas as DRSAI.

Dengue, leptospirose e outras doenças, por exemplo, podem envolver fatores relacionados a resíduos, drenagem, armazenamento de água, alagamentos e condições urbanas que ultrapassam a existência ou não de uma rede coletora de esgoto.

Portanto, reduzir doenças relacionadas às condições ambientais exige olhar para todo o sistema.

2020: a universalização passa a ter prazo

Em 2020, a Lei nº 14.026 atualizou profundamente o marco regulatório do setor.

Entre as mudanças, ganhou destaque uma meta que passou a orientar empresas, municípios, reguladores, investidores e profissionais:

até 31 de dezembro de 2033, os contratos devem prever atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. (Planalto)

A Agência Nacional de Águas também passou a exercer novas atribuições relacionadas ao saneamento, tornando-se Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.

Desde então, normas de referência vêm sendo estruturadas para aumentar a padronização regulatória em temas como universalização, indicadores operacionais, tarifas, governança e redução de perdas.

Em 2024, por exemplo, a Norma de Referência nº 8 detalhou indicadores destinados à avaliação da cobertura e do atendimento de água e esgoto. Já normas posteriores ampliaram a padronização de indicadores de desempenho e da gestão de perdas. (Serviços e Informações do Brasil)

Universalizar, portanto, deixou de ser apenas uma intenção genérica.

Passou a envolver metas mensuráveis.

O retrato mais recente mostra o tamanho do desafio

Os dados consolidados mais recentes disponíveis nacionalmente são os do SINISA 2025, referentes ao ano-base 2024.

É importante fazer essa distinção porque a coleta do SINISA 2026, referente a 2025, encerrou-se em setembro de 2026, porém sua publicação nacional está prevista somente para o fim do ano. (Serviços e Informações do Brasil)

No abastecimento de água, 84,1% da população total considerada pelo SINISA é atendida por redes de abastecimento, equivalendo a aproximadamente 174 milhões de pessoas.

Nas áreas urbanas, o indicador alcança 92,3%.

Nas áreas rurais, porém, o índice de atendimento com rede cai para 22,9%. (Serviços e Informações do Brasil)

Esse último indicador merece interpretação cuidadosa. Áreas rurais também podem contar com soluções individuais ou alternativas adequadas que não correspondem a uma rede pública convencional. Portanto, atendimento por rede e acesso adequado à água não representam exatamente o mesmo conceito.

Ainda assim, a diferença evidencia a complexidade territorial da universalização.

O maior déficit continua no esgotamento sanitário

No esgotamento sanitário, o desafio é ainda maior.

Segundo o SINISA 2025, 62,3% da população total é atendida por rede coletora de esgoto.

O índice chega a 68,4% entre a população urbana e cai para apenas 4,8% na população rural, novamente considerando especificamente atendimento por rede. (Serviços e Informações do Brasil)

Além disso, somente 51,8% do volume estimado de esgoto gerado é tratado.

Por outro lado, quando se considera apenas o esgoto que efetivamente consegue chegar ao sistema de coleta, 85,2% do volume coletado recebe tratamento. (Serviços e Informações do Brasil)

A diferença entre esses dois indicadores revela uma mensagem operacional extremamente importante.

O Brasil não enfrenta somente um problema de construir estações de tratamento.

Também enfrenta o desafio de levar o esgoto até elas.

Isso envolve redes coletoras, ligações domiciliares, coletores-tronco, interceptores, estações elevatórias, regularização de imóveis, fiscalização, adesão dos usuários e operação adequada.

Uma ETE pode possuir capacidade disponível e, ainda assim, receber menos esgoto do que poderia tratar caso a rede de coleta não tenha avançado no mesmo ritmo.

Para os profissionais do saneamento básico, esse é um ponto central.

Universalização exige cadeia completa.

Perder quatro de cada dez litros também dificulta a universalização

Outro problema estrutural aparece nos sistemas de abastecimento.

Dados do SINISA 2025 indicam que aproximadamente 40,3% do volume disponibilizado nos sistemas de distribuição é perdido, considerando o indicador nacional de perdas. (Serviços e Informações do Brasil)

Perdas não representam apenas água vazando no solo.

Elas incluem perdas reais — principalmente vazamentos, rompimentos e extravasamentos — e perdas aparentes, relacionadas, por exemplo, a problemas de medição, fraudes e inconsistências cadastrais.

Consequentemente, reduzir perdas exige engenharia e gestão comercial trabalhando juntas.

É necessário controlar pressões, pesquisar vazamentos, setorização, macromedição, micromedição confiável, renovação de ativos, atualização cadastral, combate às irregularidades e análise permanente do balanço hídrico.

Quanto menor a eficiência de um sistema existente, maior tende a ser o esforço necessário para expandir o atendimento sem aumentar excessivamente captação, tratamento e custos.

Por isso, universalização e eficiência operacional são objetivos inseparáveis.

A meta de 2033 não será alcançada apenas com obras

A distância entre os indicadores atuais e as metas legais mostra a dimensão do trabalho.

Entretanto, transformar a universalização em uma simples corrida para instalar quilômetros de tubulação seria um erro.

Rede construída não significa automaticamente usuário atendido.

Ligação instalada não significa necessariamente continuidade.

Água disponível não significa necessariamente qualidade dentro do padrão.

Esgoto coletado não significa tratamento adequado.

ETE construída não significa eficiência operacional.

Infraestrutura sem manutenção perde desempenho.

Além disso, a sustentabilidade econômica da prestação precisa ser preservada para que os ativos continuem funcionando depois da inauguração.

Por isso, a universalização do saneamento básico depende simultaneamente de investimento, operação, manutenção, regulação, planejamento, gestão comercial, tecnologia, qualidade cadastral, gestão de perdas, atendimento ao cliente e capacidade institucional.

Em 2025, o SINISA identificou 4.096 municípios, ou 73,5% do total brasileiro, com Plano de Saneamento Básico municipal e/ou regional. Por outro lado, 1.293 municípios ainda não possuíam plano informado nessa classificação. (Serviços e Informações do Brasil)

Planejar continua sendo parte fundamental da solução.

Saneamento básico também é trabalho humano

Grandes projetos costumam ser representados por números de investimento, quilômetros de rede ou capacidade das estações.

Entretanto, nenhuma dessas estruturas funciona sozinha.

Existe uma cadeia de profissionais trabalhando continuamente para que água segura chegue às residências e para que o esgoto seja retirado do ambiente urbano e tratado adequadamente.

Operadores controlam estações.

Técnicos procuram vazamentos.

Laboratoristas verificam a qualidade da água e dos efluentes.

Engenheiros dimensionam sistemas.

Equipes de manutenção recuperam redes e equipamentos.

Leituristas ajudam a transformar consumo em informação.

Profissionais comerciais mantêm cadastros, faturamento, cobrança e relacionamento com milhões de usuários.

Atendentes recebem reclamações que frequentemente são o primeiro sinal de um problema operacional.

Profissionais de tecnologia conectam sensores, sistemas comerciais, telemetria, inteligência artificial e bancos de dados.

Reguladores estabelecem padrões e acompanham desempenho.

Gestores decidem onde aplicar recursos escassos.

Equipes sociais atuam para que a expansão física da infraestrutura resulte efetivamente em adesão ao serviço.

Cada ligação executada, cada vazamento reparado, cada amostra analisada, cada hidrômetro corretamente dimensionado, cada extravasamento eliminado e cada estação mantida em funcionamento representa uma pequena parte de uma enorme barreira de proteção à saúde pública.

Por isso, valorizar profissionais é também valorizar o próprio saneamento básico.

A verdadeira independência passa pela infraestrutura

Em 1822, independência significava romper uma relação política com Portugal.

Em 2026, a palavra permite outra reflexão.

Pode existir plena cidadania quando milhões de pessoas ainda não possuem acesso adequado a serviços sanitários essenciais?

Pode existir desenvolvimento sustentável quando esgoto ainda chega sem tratamento aos corpos hídricos?

Pode existir segurança hídrica quando uma parcela tão elevada da água disponibilizada se perde antes de gerar receita e atender plenamente a população?

Pode existir igualdade quando o acesso aos serviços varia tão profundamente de acordo com território, renda e condições urbanas?

O saneamento básico talvez seja uma das infraestruturas menos percebidas quando funciona corretamente.

As redes ficam enterradas.

As estações geralmente estão distantes.

Os reservatórios fazem parte da paisagem.

O tratamento acontece antes que a água chegue à torneira e depois que o esgoto desaparece pelo ralo.

Entretanto, poucas infraestruturas possuem efeito tão direto sobre saúde, dignidade, meio ambiente e desenvolvimento.

“Saneamento ou Morte” não precisa ser exagero para ser forte

Uma comunicação responsável não deve afirmar que toda pessoa sem rede de esgoto morrerá nem que todos os casos de doenças relacionadas ao ambiente são diretamente causados pela ausência de saneamento.

Isso seria tecnicamente incorreto.

A mensagem mais poderosa é justamente a verdadeira:

condições inadequadas de água, saneamento e higiene aumentam riscos sanitários; doenças evitáveis continuam provocando internações e mortes; e parte significativa dessa carga pode ser reduzida com serviços adequados.

Portanto, “Saneamento ou Morte” funciona porque sintetiza uma realidade histórica.

Durante mais de dois séculos, o Brasil transformou profundamente sua infraestrutura sanitária.

Saiu de uma realidade em que dejetos eram carregados manualmente para fora das residências e chegou a sistemas monitorados por sensores, automação, telemetria, modelagem hidráulica, inteligência artificial e controle operacional em tempo real.

Foram avanços extraordinários.

Ainda assim, a missão não terminou.

O próximo grito de independência tem prazo: 2033

Faltam poucos anos para 2033.

A reta final exigirá alcançar justamente os territórios mais complexos: periferias urbanas, ocupações irregulares, áreas rurais, municípios com baixa capacidade financeira, comunidades isoladas e sistemas historicamente deficitários.

Além de novas obras, será necessário aumentar produtividade, reduzir perdas, melhorar dados, elevar eficiência operacional, acelerar ligações, garantir tratamento, melhorar regulação e preservar sustentabilidade econômica.

Isso aumenta a responsabilidade de quem trabalha diariamente no setor.

A universalização não será realizada apenas por grandes decisões políticas ou grandes contratos.

Ela será concretizada por milhares de profissionais tomando decisões técnicas todos os dias.

Depois de 204 anos de Independência, o Brasil já demonstrou capacidade de construir sistemas complexos de abastecimento e esgotamento que atendem dezenas de milhões de pessoas.

O desafio agora é fazer essa infraestrutura chegar a todos.

Porque uma rede de água não é apenas um tubo.

Uma ETE não é apenas concreto e equipamento.

Um hidrômetro não é apenas um instrumento de faturamento.

Um laboratório não é apenas controle de qualidade.

Uma equipe de manutenção não executa apenas ordens de serviço.

Cada elemento integra uma barreira construída diariamente contra doenças, degradação ambiental e desigualdade.

O Brasil conquistou sua independência em 1822.

Agora precisa conquistar a universalização.

Saneamento básico é infraestrutura.Saneamento básico é desenvolvimento.Saneamento básico é dignidade.Saneamento básico é saúde.E, em muitas situações, saneamento básico é a diferença entre adoecer e permanecer saudável — entre risco e proteção, entre doença evitável e vida.

Fontes

Ministério das Cidades — SINISA 2025, Abastecimento de Água
Dados nacionais de atendimento de água, incluindo população urbana e rural. Acessar fonte oficial do SINISA – Água

Ministério das Cidades — SINISA 2025, Esgotamento Sanitário
Indicadores nacionais de atendimento, coleta e tratamento de esgoto. Acessar fonte oficial do SINISA – Esgoto

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — panorama da universalização, agosto de 2026
Retrato atualizado do marco regulatório, indicadores e metas brasileiras. Acessar publicação da ANA

Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020
Base legal das metas de 99% para água e 90% para coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. Acessar legislação federal

Organização Mundial da Saúde — impacto de água, saneamento e higiene na mortalidade
Estimativas globais de mortalidade atribuível a condições inadequadas de WASH. Acessar estudo da OMS

Organização Mundial da Saúde — saneamento
Informações técnicas sobre saneamento inseguro, diarreia e saúde pública. Acessar página da OMS

UNICEF Brasil — crianças e adolescentes sem acesso adequado a água e esgoto
Análise baseada no Censo Demográfico de 2022. Acessar levantamento do UNICEF

Instituto Trata Brasil — Saneamento e Saúde
Dados de internações, óbitos e Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado. Acessar estudo do Trata Brasil

Arquivo Nacional — saneamento urbano no Brasil oitocentista
Registros históricos sobre a remoção de dejetos no Rio de Janeiro e o trabalho dos chamados “tigres”. Acessar Arquivo Nacional

Câmara dos Deputados — Decreto nº 1.929, de 29 de abril de 1857
Documento histórico que aprovou o contrato para implantação do sistema de despejos e esgotamento no Rio de Janeiro. Acessar Decreto nº 1.929/1857

Fundação Oswaldo Cruz — história da saúde pública brasileira
Registros relacionados às epidemias, campanhas sanitárias e atuação de Oswaldo Cruz. Acessar acervo da Fiocruz

IPEA — evolução institucional do saneamento e PLANASA
Análise histórica da organização do setor e da expansão promovida pelo Plano Nacional de Saneamento na década de 1970. Acessar estudo do IPEA