Valorização do saneamento: por que o cidadão não vê?

Quando a água chega todos os dias, ninguém pergunta quantas bombas funcionaram durante a madrugada. Quando o esgoto desaparece depois da descarga, quase ninguém pensa nas redes, estações elevatórias, equipes de manutenção e estações de tratamento que tornam aquilo possível. Entretanto, basta uma interrupção no abastecimento, um buraco permanecer aberto na rua ou uma conta subir acima do esperado para a companhia de saneamento imediatamente ocupar o centro das críticas.

Esse contraste ajuda a explicar um dos maiores desafios de imagem enfrentados pelo setor: quanto melhor o saneamento funciona, menos ele é percebido.

Não se trata simplesmente de falta de reconhecimento por parte da população. A questão é mais complexa. O serviço de saneamento participa silenciosamente da saúde pública, da produtividade econômica, da valorização imobiliária, da preservação ambiental e do funcionamento das cidades. Porém, para grande parte dos usuários, a relação cotidiana com a companhia costuma ser resumida a três experiências muito mais tangíveis: a água que chega à torneira, a intervenção realizada na rua e a fatura recebida no fim do mês.

Consequentemente, a valorização do saneamento depende de algo que o setor ainda precisa aprender a fazer melhor: transformar uma infraestrutura essencial, predominantemente invisível, em valor compreensível para a sociedade.

Esse desafio também atinge diretamente milhares de profissionais. Operadores, engenheiros, técnicos, laboratoristas, eletricistas, mecânicos, leituristas, atendentes, equipes comerciais, profissionais de tecnologia, equipes de manutenção, gestores e trabalhadores de campo sustentam sistemas que precisam funcionar continuamente. Entretanto, boa parte desse esforço só se torna visível quando alguma coisa dá errado.

A própria Organização Mundial da Saúde, em publicação conjunta com Banco Mundial, OIT e WaterAid, destaca que trabalhadores ligados ao saneamento realizam um serviço essencial para o funcionamento da sociedade, mas frequentemente permanecem invisíveis e pouco reconhecidos. (Organização Mundial da Saúde)

Essa invisibilidade precisa entrar definitivamente na agenda das companhias.

O grande paradoxo do saneamento

Existe um fenômeno que pode ser chamado, de forma didática, de paradoxo da invisibilidade do saneamento.

Uma companhia pode abastecer determinada cidade corretamente durante centenas de dias. Todavia, uma interrupção de algumas horas pode determinar a percepção daquele usuário durante meses.

Pode entregar água dentro dos padrões de qualidade por anos. Entretanto, um episódio de alteração de cor, gosto, cheiro ou pressão pode colocar todo o histórico anterior em dúvida.

Da mesma forma, milhares de manutenções podem ser concluídas corretamente. Porém, uma recomposição de pavimento mal executada em frente à residência de um consumidor transforma-se em evidência física de uma suposta ineficiência da empresa.

Essa percepção não ocorre apenas no Brasil.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 analisou 62 estudos sobre satisfação de usuários e qualidade dos serviços de abastecimento de água. A literatura identificou relação consistente entre satisfação, confiabilidade do abastecimento, percepção de qualidade, confiança na prestadora e disposição do consumidor para pagar por melhorias. (ScienceDirect)

Outro estudo, utilizando mais de 32 mil observações no Chile, mostrou algo especialmente importante: a percepção do usuário sobre a qualidade da água e do serviço pode não acompanhar os indicadores técnicos de conformidade. Em outras palavras, um sistema tecnicamente adequado não garante automaticamente que o consumidor perceba o serviço como adequado. (ScienceDirect)

Esse ponto deveria modificar profundamente a estratégia de valorização do saneamento.

Indicador técnico e percepção social são dimensões diferentes.

E ambas precisam ser gerenciadas.

Para o cidadão, água funcionando não é notícia

Existe uma razão bastante lógica para a população não comemorar diariamente o abastecimento regular.

A água tratada é considerada um serviço essencial. Portanto, espera-se que esteja disponível.

Nesse sentido, não seria razoável responsabilizar o cidadão pela falta de reconhecimento. Tampouco seria adequado esperar gratidão simplesmente porque uma companhia cumpriu aquilo que faz parte de sua responsabilidade.

A valorização do saneamento precisa significar outra coisa.

Significa fazer com que a população compreenda a complexidade do serviço, reconheça seu impacto coletivo, perceba o esforço necessário para mantê-lo e valorize os profissionais responsáveis por sua operação.

Ao mesmo tempo, valorização não significa blindagem contra críticas.

Falta de água precisa ser reduzida.

Vazamentos precisam ser reparados rapidamente.

Buracos precisam ser recompostos adequadamente.

Contas precisam ser confiáveis.

Atendimento precisa funcionar.

A verdadeira valorização nasce justamente quando desempenho, transparência e comunicação caminham juntos.

O cidadão vê a torneira. O profissional enxerga um sistema inteiro

Existe uma enorme diferença entre aquilo que o consumidor percebe e aquilo que um profissional de saneamento precisa administrar.

Para que um copo de água chegue a uma residência, pode ser necessária uma longa cadeia de processos.

Primeiro, existe a disponibilidade do manancial. Depois, entram captação, bombeamento e adução. Em seguida, a água precisa passar por processos de tratamento adequados às características da água bruta, incluindo diferentes combinações de coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, correção química e controle laboratorial.

Depois disso, ainda existem reservatórios, estações elevatórias, redes de distribuição, válvulas, zonas de pressão, boosters, macromedição, micromedição, telemetria, manutenção eletromecânica, controle de perdas, pesquisa de vazamentos e gerenciamento da pressão.

Paralelamente, existem centros de controle operacional, laboratórios, equipes de tecnologia, segurança, suprimentos, engenharia, fiscalização, planejamento e atendimento.

Quando o esgotamento sanitário é considerado, outra cadeia igualmente complexa aparece: ligações domiciliares, coletores, interceptores, estações elevatórias, linhas de recalque, unidades de tratamento, disposição ou reúso do efluente tratado e gestão dos resíduos gerados no processo.

Além disso, toda essa estrutura precisa ser financiada, regulada, fiscalizada, mantida e expandida.

É justamente nesse ponto que existe uma enorme oportunidade de valorização do saneamento.

O usuário conhece o resultado final, mas raramente conhece o sistema que existe por trás dele.

A conta chega todos os meses. O valor entregue não

Provavelmente nenhuma interação entre cidadão e companhia de saneamento é tão frequente quanto a fatura.

Ela chega mensalmente.

O investimento em reservação, por outro lado, não chega.

O controle laboratorial não aparece.

O plantão realizado durante a madrugada não aparece.

A manutenção preventiva de uma bomba não aparece.

A substituição silenciosa de uma válvula que evitou uma interrupção também não aparece.

Consequentemente, cria-se uma assimetria muito poderosa: o custo é visível e recorrente; grande parte do benefício permanece invisível.

Esse fenômeno ganha importância ainda maior em períodos de pressão sobre a renda das famílias.

Na Inglaterra e no País de Gales, por exemplo, a pesquisa Water Matters 2026 registrou deterioração na percepção dos consumidores sobre confiança, relação custo-benefício, justiça das tarifas e capacidade de pagamento. Embora o contexto regulatório seja diferente do brasileiro, a experiência reforça algo universal: preço, confiança e percepção de serviço estão fortemente conectados. (CCW)

Por isso, a comunicação sobre tarifa não pode se limitar a explicar reajustes.

É necessário explicar valor.

A tarifa não remunera apenas a água que saiu da torneira naquele mês. Ela participa do financiamento de uma infraestrutura que precisa permanecer disponível continuamente, inclusive nos momentos em que o usuário não está consumindo água.

Essa diferença parece óbvia para profissionais do setor. Para milhões de consumidores, entretanto, não é.

O buraco na rua é uma propaganda às avessas

Outro elemento extremamente poderoso na formação da imagem das companhias é a intervenção urbana.

Quando uma equipe precisa acessar uma rede enterrada, existe uma característica inevitável: aquilo que estava invisível passa a interferir fisicamente na vida da cidade.

A rua é escavada.

O trânsito pode ser interrompido.

A calçada pode ser afetada.

O comércio pode sentir impacto.

O morador pode ter dificuldade de entrar na garagem.

Posteriormente, mesmo que o reparo hidráulico seja tecnicamente perfeito, uma recomposição ruim do pavimento pode destruir a percepção de qualidade de toda a intervenção.

Para o cidadão, não existem necessariamente departamentos separados de operação, obras, fiscalização, engenharia ou contratos.

Existe apenas a marca da companhia.

Portanto, um buraco deixado por uma contratada também é percebido como um buraco deixado pela empresa de saneamento.

Nesse contexto, a valorização do saneamento também passa pela excelência nos detalhes que o cliente consegue enxergar.

Não basta reparar a rede.

É necessário fechar corretamente a experiência do serviço.

A falta de água produz uma memória muito mais forte

Poucas falhas de infraestrutura interferem tanto na rotina doméstica quanto a interrupção de abastecimento.

Sem água, atividades básicas deixam de funcionar.

Banho, alimentação, higiene, limpeza, atividades comerciais e diferentes processos produtivos podem ser afetados.

Por isso, continuidade precisa ser entendida não apenas como indicador operacional, mas como indicador de experiência do cliente.

Estudos recentes sobre serviços urbanos de água apontam justamente continuidade, qualidade percebida e duração das interrupções entre os principais fatores associados à satisfação do usuário. Quanto maior a duração e o impacto da interrupção, maior tende a ser a insatisfação. (MDPI)

Além disso, pesquisas anteriores da J.D. Power já mostraram que problemas de qualidade e interrupções causam quedas significativas na satisfação com empresas de água. Entretanto, o mesmo trabalho identificou que tornar o cliente consciente dos investimentos realizados em infraestrutura pode reduzir parte dessa deterioração de percepção. (JD Power)

Isso oferece uma mensagem importante para gestores.

Comunicação não substitui operação.

Porém, boa operação sem comunicação também desperdiça valor reputacional.

O Brasil ainda carrega o peso de um déficit histórico

Existe outro fator que dificulta a valorização do saneamento: o próprio atraso estrutural do país.

Segundo dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil com base no SINISA, ano-base 2024, cerca de 15,9% da população brasileira ainda estava sem acesso à água potável e aproximadamente 43,3% não tinha coleta de esgoto. (Trata Brasil)

O Ranking do Saneamento 2026 também mostra que mais de 30 milhões de brasileiros ainda são afetados pela falta de acesso à água potável e cerca de 90 milhões não possuem coleta de esgoto. (Trata Brasil)

Além disso, aproximadamente 39,53% da água tratada é perdida na distribuição no país, considerando perdas físicas e aparentes registradas nos sistemas. (Trata Brasil)

Esses números ajudam a entender por que a sociedade mantém uma relação crítica com o setor.

O problema não é somente comunicação.

Existe déficit real.

Existem desigualdades regionais relevantes.

Existem perdas elevadas.

Existem sistemas que convivem com intermitência.

Portanto, qualquer estratégia séria de valorização precisa reconhecer essas fragilidades.

Valorizar o saneamento não significa esconder os problemas.

Significa mostrar que existem profissionais trabalhando diariamente para resolvê-los.

O tamanho do desafio financeiro também é pouco conhecido

O Marco Legal do Saneamento estabelece como objetivo que, até o fim de 2033, 99% da população tenha acesso à água potável e 90% tenha acesso à coleta e tratamento de esgoto. (Serviços e Informações do Brasil)

Entretanto, alcançar esse patamar exige um esforço financeiro de enorme proporção.

Dados divulgados em 2026 indicam que o Brasil investiu aproximadamente R$ 29,1 bilhões em saneamento em 2024, equivalentes a R$ 137,02 por habitante. A estimativa utilizada para atingir a universalização é de aproximadamente R$ 225 por habitante ao ano. Portanto, o investimento observado ficou cerca de 39% abaixo desse patamar. (Trata Brasil)

Outro levantamento estima que ainda seriam necessários aproximadamente R$ 431 bilhões até 2033, com necessidade média próxima de R$ 48 bilhões por ano. (Trata Brasil)

Quando essa dimensão não chega ao cidadão, cria-se a impressão de que uma companhia simplesmente “cobra pela água”.

Na realidade, administrar saneamento significa operar ativos existentes enquanto se financia manutenção, renovação, ampliação, segurança operacional e universalização.

Essa complexidade deveria ocupar espaço muito maior na estratégia de valorização do saneamento.

O verdadeiro produto do saneamento não é água

Talvez exista uma falha conceitual na maneira como o próprio setor apresenta aquilo que entrega.

Companhias de saneamento não entregam apenas metros cúbicos de água.

Também não entregam somente coleta de esgoto.

O produto final é muito maior.

Saneamento entrega redução de riscos sanitários.

Entrega produtividade.

Entrega desenvolvimento urbano.

Entrega segurança hídrica.

Entrega dignidade.

Entrega preservação ambiental.

Entrega condições para funcionamento de hospitais, escolas, restaurantes, hotéis, indústrias e praticamente toda atividade urbana.

A Organização Mundial da Saúde destaca que os benefícios do saneamento adequado incluem redução da transmissão de doenças, melhora de condições de saúde, maior segurança e dignidade, melhor frequência escolar e maior resiliência das comunidades. Um estudo citado pela OMS estimou que cada dólar investido em saneamento poderia gerar US$ 5,50 em benefícios relacionados, entre outros fatores, à redução de gastos com saúde, produtividade e mortes prematuras. (Organização Mundial da Saúde)

No Brasil, estimativas do Instituto Trata Brasil apontam que a universalização poderia produzir cerca de R$ 1,455 trilhão em benefícios econômicos e sociais entre 2021 e 2040. Descontados os custos projetados, o saldo líquido estimado seria de aproximadamente R$ 815,7 bilhões. (Trata Brasil)

Esses números mudam completamente a narrativa.

A conta de água passa a representar apenas uma pequena parte de uma relação econômica e social muito maior.

É esse significado que precisa entrar na discussão sobre valorização do saneamento.

Quando tudo funciona, o profissional desaparece

Existe uma consequência humana dessa invisibilidade que raramente recebe atenção.

Os sistemas não funcionam sozinhos.

Uma estação de tratamento não opera sozinha.

Uma bomba não se recupera sozinha depois de uma falha.

Uma rede rompida não é reparada automaticamente.

Uma amostra não chega sozinha ao laboratório.

Uma ocorrência não é resolvida sem atendimento.

Uma conta inconsistente não é analisada sem profissionais.

Um vazamento não é localizado sem conhecimento, equipamento e experiência.

Uma operação crítica durante a madrugada depende de pessoas.

Entretanto, quando o sistema funciona normalmente, esses profissionais permanecem fora do campo de visão da sociedade.

A Organização Internacional do Trabalho já descreveu trabalhadores ligados ao esgotamento e tratamento como parte de uma força de trabalho pouco percebida, apesar de seu enorme impacto para a sociedade. (Organização Internacional do Trabalho)

Isso ajuda a compreender por que muitos profissionais de saneamento podem experimentar uma sensação de baixo reconhecimento.

Existe uma atividade altamente especializada, essencial à saúde pública e que funciona permanentemente. Contudo, grande parte do retorno social recebido por quem está na linha de frente ocorre na forma de cobrança justamente quando algum elemento do sistema falha.

A crítica ao serviço frequentemente chega primeiro ao trabalhador

Existe ainda outra distorção.

Uma interrupção pode ter origem em seca, rompimento de adutora, falta de energia, falha eletromecânica, deficiência histórica de infraestrutura, indisponibilidade de material, crescimento urbano acima da capacidade do sistema ou uma combinação de vários fatores.

Entretanto, quem frequentemente encontra o usuário irritado é o atendente.

Ou o leiturista.

Ou a equipe operacional.

Ou o profissional responsável pela manutenção em campo.

Assim, problemas estruturais de sistemas complexos podem se transformar em pressão individual sobre trabalhadores que muitas vezes estão justamente tentando resolvê-los.

Uma política moderna de valorização do saneamento precisa, portanto, começar dentro das próprias organizações.

Não é possível exigir que a sociedade valorize profissionais que a própria empresa torna invisíveis.

Valorização do saneamento começa dentro das companhias

A valorização interna não deve se limitar a campanhas motivacionais.

Precisa aparecer na cultura da organização.

Precisa reconhecer equipes que evitam falhas, e não somente equipes que solucionam grandes emergências.

Precisa tornar visível a manutenção preventiva.

Precisa valorizar excelência operacional silenciosa.

Precisa reconhecer o trabalhador comercial que evita perdas de receita.

Precisa destacar o laboratorista que garante segurança.

Precisa reconhecer a equipe de tecnologia responsável pela disponibilidade de sistemas críticos.

Precisa mostrar a importância de operadores, eletromecânicos, engenheiros, técnicos, atendentes e trabalhadores terceirizados dentro da cadeia completa.

Além disso, segurança ocupacional, capacitação, condições adequadas de trabalho e reconhecimento profissional precisam fazer parte da mesma estratégia.

Afinal, nenhuma transformação digital elimina o fato de que o saneamento continua sendo operado por pessoas.

A comunicação precisa trocar “obra” por “impacto”

Durante muito tempo, companhias de infraestrutura comunicaram suas realizações utilizando a linguagem do próprio setor.

“Implantação de 30 quilômetros de rede.”

“Construção de reservatório de 10 milhões de litros.”

“Ampliação da estação em 500 litros por segundo.”

“Substituição de equipamentos da elevatória.”

Todos esses dados são relevantes.

Entretanto, normalmente não respondem à principal pergunta do cidadão:

o que isso muda na vida de quem mora ali?

Um reservatório pode significar maior segurança contra interrupções.

Uma nova adutora pode significar capacidade para o crescimento de uma cidade.

Uma ampliação de tratamento pode significar segurança para milhares de novas famílias.

Uma nova rede de esgoto pode significar menos lançamento de efluentes no ambiente.

Nesse sentido, uma das maiores oportunidades para a valorização do saneamento é traduzir engenharia em resultado humano.

Também é necessário mostrar aquilo que foi evitado

Existe uma dificuldade adicional.

Grande parte do trabalho eficiente do saneamento consiste em evitar acontecimentos.

Evitar falta de água.

Evitar contaminação.

Evitar extravasamento.

Evitar rompimento.

Evitar perda de faturamento.

Evitar colapso de equipamento.

Evitar reclamação.

Entretanto, aquilo que foi evitado não vira manchete.

Por isso, indicadores de prevenção precisam ganhar linguagem pública.

Em vez de comunicar apenas “manutenção preventiva realizada em 14 bombas”, pode-se comunicar quantas pessoas dependem daqueles equipamentos.

Em vez de informar somente “setorização da rede”, pode-se explicar como a medida melhora pressão, reduz perdas e diminui o número de consumidores afetados durante uma manutenção.

Em vez de falar apenas em telemetria, pode-se mostrar que sensores permitem identificar anomalias antes que elas se transformem em falta de água.

Essa é uma forma sofisticada de valorização do saneamento porque não transforma comunicação em propaganda. Transforma dados técnicos em significado.

A experiência do cliente precisa entrar no centro da operação

Outra mudança necessária é deixar de tratar experiência do cliente exclusivamente como responsabilidade do setor de atendimento.

A experiência começa na operação.

Uma pressão inadequada é experiência do cliente.

Uma interrupção longa é experiência do cliente.

Uma recomposição mal executada é experiência do cliente.

Uma leitura incorreta é experiência do cliente.

Uma religação que demora mais do que o esperado é experiência do cliente.

Uma informação contraditória entre canais também é experiência do cliente.

Por isso, indicadores comerciais, operacionais e de atendimento precisam conversar.

Tempo médio para resolver uma reclamação, reincidência, reabertura de ocorrência, interrupções por economia, duração média, cumprimento de prazo, qualidade da recomposição e solução no primeiro contato podem revelar muito mais sobre percepção do usuário do que uma pesquisa anual isolada.

A ciência também aponta nessa direção. Estudos recentes destacam que demora na resposta, tempo excessivo para resolução e baixa eficiência no tratamento das reclamações contribuem para ampliar a insatisfação dos consumidores de serviços de água. (ScienceDirect)

É possível ter companhia de saneamento valorizada

A relação entre saneamento e sociedade não precisa necessariamente ser negativa.

Existem evidências brasileiras de elevados níveis de aprovação quando os consumidores percebem qualidade e continuidade.

A pesquisa de satisfação divulgada pela Sanepar referente a 2025, por exemplo, apontou que aproximadamente oito em cada dez consumidores aprovavam a companhia. A satisfação com continuidade do abastecimento chegou a 79%, enquanto a avaliação positiva de aspectos relacionados à qualidade da água ficou acima de 74%. (Sanepar)

Em pesquisa anterior, divulgada em 2025, 83,7% dos entrevistados declararam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com os serviços da companhia e 92,7% afirmaram preferir sua continuidade como prestadora. (Sanepar)

Esses resultados são importantes porque demonstram que valorização do saneamento não é impossível.

Quando continuidade, confiança, qualidade, atendimento e relacionamento são percebidos positivamente, a imagem da companhia também pode ser positiva.

O profissional de saneamento precisa entender o tamanho da própria missão

Talvez a mudança mais importante seja cultural.

Quem trabalha em saneamento não deveria enxergar a própria atividade apenas como execução de ordens de serviço, tratamento de água, fiscalização de contratos, manutenção, faturamento ou atendimento.

Existe um propósito público muito maior por trás dessas tarefas.

Quando um operador mantém uma estação funcionando, existe uma cidade sendo protegida.

Quando uma equipe elimina um vazamento, existe água sendo preservada.

Quando um profissional comercial reduz fraude ou melhora a arrecadação, existe capacidade financeira sendo devolvida ao sistema.

Quando um laboratório identifica uma alteração, existe saúde pública sendo protegida.

Quando uma equipe recompõe corretamente uma rua, existe confiança sendo recuperada.

Quando um atendente resolve uma situação complexa, existe a reputação de toda a empresa sendo representada naquele contato.

Quando uma equipe trabalha de madrugada para recuperar um sistema, milhares de pessoas podem acordar no dia seguinte sem sequer saber que estiveram próximas de uma interrupção.

É exatamente aí que existe a grandeza do trabalho.

Talvez o maior elogio ao saneamento seja justamente não ser percebido

Existe uma ironia poderosa no setor.

Uma companhia aérea chama atenção quando coloca um avião no céu.

Uma construtora chama atenção quando entrega um prédio.

Uma indústria mostra seu produto.

O saneamento produz algo diferente.

Produz normalidade.

Produz a possibilidade de abrir a torneira e não pensar na origem daquela água.

Produz a possibilidade de dar descarga e não acompanhar o destino daquele esgoto.

Produz cidades funcionando.

Em certo sentido, portanto, o melhor saneamento é justamente aquele que permite à população esquecer que existe uma gigantesca infraestrutura trabalhando continuamente.

Entretanto, esse sucesso operacional não deveria significar invisibilidade institucional nem invisibilidade profissional.

O próximo desafio não é apenas universalizar. É mostrar valor

O Brasil continuará discutindo bilhões de reais em investimentos, concessões, metas regulatórias, redução de perdas, digitalização, inteligência artificial, telemetria, reúso, eficiência energética e novos modelos de gestão.

Tudo isso será necessário.

Entretanto, o setor terá outro desafio igualmente estratégico: construir valorização do saneamento.

Será necessário aproximar engenharia e sociedade.

Operação e experiência.

Tarifa e valor.

Indicador e significado.

Tecnologia e pessoas.

A população precisa conhecer mais do que os problemas.

Precisa compreender o impacto produzido quando o serviço funciona.

Ao mesmo tempo, as companhias precisam aceitar que reputação não se conquista apenas com campanhas institucionais. Ela nasce de continuidade, qualidade, atendimento, transparência, eficiência e capacidade de resolver problemas.

A valorização do saneamento também exige que os profissionais sejam colocados no centro dessa narrativa.

Por trás de cada metro cúbico tratado existem pessoas.

Por trás de cada sistema recuperado existem pessoas.

Por trás de cada análise laboratorial existem pessoas.

Por trás de cada atendimento existem pessoas.

Por trás de cada cidade abastecida existem pessoas.

E talvez exista uma mensagem que o próprio setor precise repetir com mais força:

quando uma cidade passa 24 horas sem pensar em água ou esgoto, isso não significa que ninguém trabalhou. Muitas vezes significa exatamente o contrário: significa que milhares de profissionais fizeram tão bem o seu trabalho que a sociedade não precisou perceber que eles estavam ali.

Transformar essa invisibilidade em consciência, confiança e respeito provavelmente será uma das etapas mais importantes para uma verdadeira valorização do saneamento no Brasil.

Fontes

  • Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento: metas nacionais de 99% de atendimento com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Marco Legal do Saneamento
  • Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Norma de Referência nº 8/2024: indicadores e diretrizes para universalização. ANA — Universalização do saneamento
  • Instituto Trata Brasil — Ranking do Saneamento 2026: dados do SINISA, ano-base 2024, sobre água, esgoto, investimentos e diferenças entre municípios. Ranking do Saneamento 2026
  • Instituto Trata Brasil — Perdas de Água 2026: panorama das perdas de água nos sistemas brasileiros. Estudos do Trata Brasil
  • Instituto Trata Brasil — investimentos necessários para universalização: estimativa de R$ 431 bilhões ainda necessários e aproximadamente R$ 48 bilhões anuais. Investimentos para universalização
  • Organização Mundial da Saúde — Sanitation: impactos do saneamento sobre saúde, desenvolvimento, produtividade e qualidade de vida. WHO — Sanitation
  • OMS, Banco Mundial, OIT e WaterAid — Health, Safety and Dignity of Sanitation Workers: estudo internacional sobre reconhecimento, segurança e dignidade dos trabalhadores do saneamento. Health, Safety and Dignity of Sanitation Workers
  • International Labour Organization — The unseen workforce behind wastewater management: análise sobre a força de trabalho pouco visível responsável pelos serviços de água e esgotamento. ILO — The unseen workforce
  • Cleaner and Responsible Consumption — revisão sistemática de 2026: análise de 62 estudos sobre satisfação, confiança e percepção da qualidade dos serviços de água. Estudo sobre satisfação em serviços de água
  • Journal of Utilities Policy — percepção dos consumidores no Chile: pesquisa com mais de 32 mil observações sobre diferença entre conformidade técnica e qualidade percebida. Estudo sobre percepção da qualidade da água
  • CCW — Water Matters 2026: pesquisa de percepção de consumidores sobre confiança, tarifas e relação custo-benefício nos serviços de água da Inglaterra e País de Gales. Water Matters 2026
  • Sanepar — Pesquisa de Satisfação 2025: percepção de consumidores sobre abastecimento, qualidade da água e serviços de saneamento. Pesquisa de Satisfação Sanepar