Water Breakthrough Challenge 7: £50 mi para inovar

O Water Breakthrough Challenge 7 abriu uma nova rodada de até £50 milhões para financiar projetos capazes de transformar o setor de água e esgoto da Inglaterra e do País de Gales. As propostas podem buscar desde novas formas de combater vazamentos e reduzir consumo até tecnologias contra PFAS, inteligência artificial, soluções baseadas na natureza, controle de poluição, resiliência climática e novos caminhos para reduzir custos dos serviços.

O número chama atenção. Mas, para profissionais brasileiros de saneamento, o ponto mais importante está por trás dele.

Os £50 milhões não surgiram como um edital isolado para financiar algumas startups. O Water Breakthrough Challenge 7 integra uma política regulatória de inovação de longo prazo, construída pela Ofwat, reguladora econômica dos serviços de água da Inglaterra e do País de Gales. Entre 2025 e 2030, o Innovation Fund recebeu uma dotação adicional de £400 milhões, dentro de uma arquitetura que alcança £600 milhões considerando o período de 2020 a 2030. (Ofwat)

Na prática, o Reino Unido está fazendo algo que merece atenção no Brasil: transformando a inovação em um componente estruturado da regulação do setor, com recursos, competição, testes, colaboração entre empresas e mecanismos para tentar levar soluções bem-sucedidas até a escala operacional.

A pergunta relevante, portanto, não é apenas quais tecnologias receberão os £50 milhões.

É outra: como criar um ambiente em que uma boa tecnologia deixe de ser uma prova de conceito interessante e realmente se transforme em melhoria de operação, redução de perdas, economia, qualidade ambiental ou melhor serviço ao cliente?

O que é o Water Breakthrough Challenge 7

Lançado em 7 de setembro de 2026, o Water Breakthrough Challenge 7 prevê até £50 milhões em financiamento, divididos em duas modalidades.

A primeira é a Catalyst, destinada a projetos que solicitem entre £150 mil e £2 milhões. As inscrições devem ser encerradas em 5 de janeiro de 2027.

A segunda é a Transform, destinada a iniciativas maiores, entre £2 milhões e £10 milhões. A primeira etapa recebe propostas até 28 de setembro de 2026, e os projetos selecionados avançam posteriormente para a fase seguinte. Os vencedores devem ser anunciados em maio de 2027. (waterbriefing.org)

Há um detalhe particularmente importante para compreender a lógica do programa: as inscrições precisam ser lideradas por uma companhia licenciada de água ou esgoto da Inglaterra ou do País de Gales.

Isso aproxima a inovação do operador que efetivamente terá de implantar a solução.

Universidades, startups, empresas de tecnologia, consultorias, organizações ambientais, empresas de engenharia e outras instituições podem participar dos consórcios. Entretanto, a utility deixa de ser simplesmente o eventual comprador da tecnologia no futuro e passa a integrar o desenvolvimento do projeto.

Esse desenho ajuda a diminuir um dos maiores problemas da inovação no saneamento: desenvolver uma tecnologia tecnicamente interessante, mas distante da realidade operacional das companhias.

Por que £50 milhões estão sendo disponibilizados agora

O contexto ajuda a dimensionar a urgência.

O verão de 2026 foi provisoriamente classificado pelo Met Office como o mais quente já registrado no Reino Unido desde o início da série em 1884, com temperatura média de 16,5°C. Segundo o órgão meteorológico britânico, a influência das mudanças climáticas tornou esse nível de calor muito mais provável. (Met Office)

Em julho, a Inglaterra recebeu apenas 10% da precipitação média de longo prazo, registrando seu julho mais seco da série histórica. Em 10 de agosto, 71,3% do território inglês estava oficialmente classificado em situação de seca. (GOV.UK)

Mesmo após chuvas posteriores, o problema permaneceu. No início de setembro, os reservatórios ingleses estavam com aproximadamente 58% de armazenamento agregado e 11 reservatórios apresentavam menos da metade de sua capacidade. Restrições temporárias de uso de água continuavam ativas em diversas áreas atendidas por companhias como Thames Water, Anglian Water, Southern Water e South West Water. (GOV.UK)

É nesse ambiente que o Water Breakthrough Challenge 7 procura soluções para seca, vazamentos, eficiência hídrica, poluição, extravasamentos de sistemas de esgoto, recuperação ambiental e resiliência da infraestrutura.

Portanto, inovação não aparece simplesmente como estratégia de reputação tecnológica.

Ela passa a fazer parte da resposta à segurança hídrica.

O verdadeiro tamanho do programa britânico

O Water Breakthrough Challenge 7 faz parte do Ofwat Water Innovation Fund.

A primeira etapa do fundo, criada no ciclo regulatório anterior, movimentou £200 milhões. Para o período regulatório de 2025 a 2030, a Ofwat decidiu adicionar outros £400 milhões. Somando as duas fases, o programa chega a £600 milhões ao longo de uma década. (Ofwat)

Outro dado muda a percepção sobre o modelo.

A Ofwat informou que o incremento de £400 milhões do período 2025-2030 representa aproximadamente £2,13 por residência ao ano nas contas de água e esgoto da Inglaterra e do País de Gales. (Ofwat)

Ou seja: existe dinheiro dos consumidores financiando inovação.

Isso cria uma responsabilidade adicional.

Para justificar esse custo, não basta gerar protótipos, artigos científicos ou demonstrações tecnológicas. Os projetos precisam produzir valor que possa retornar aos clientes na forma de maior eficiência, menor custo futuro, segurança hídrica, proteção ambiental ou melhoria do serviço.

Essa lógica também explica por que a Ofwat pretende realizar avaliações independentes de impacto e de relação custo-benefício do programa.

Quase dois terços dos recursos saíram das utilities

Segundo os dados divulgados no lançamento do Water Breakthrough Challenge 7, desde 2020 o Water Innovation Fund já havia direcionado £251 milhões para 156 projetos envolvendo 354 parceiros.

Um número é particularmente significativo: aproximadamente 65% do financiamento foi destinado a organizações externas ao setor de água, como universidades, instituições ambientais, empresas de tecnologia, companhias de engenharia e outros negócios. (waterbriefing.org)

A mensagem gerencial é clara.

A companhia de saneamento não precisa possuir internamente todo o conhecimento necessário para resolver seus problemas.

Ela precisa saber identificar corretamente o problema, encontrar competências externas, testar soluções, controlar riscos, medir resultados e transformar o aprendizado em escala.

Essa competência provavelmente será cada vez mais importante para empresas de saneamento.

O que já saiu desses desafios

O portfólio financiado anteriormente é bastante heterogêneo.

Há projetos envolvendo pequenos robôs capazes de percorrer tubulações e identificar anomalias, inteligência artificial, recuperação de nutrientes, captura de carbono, aproveitamento energético de esgoto, monitoramento ambiental, reúso, drenagem urbana sustentável e proteção de mananciais. (Ofwat)

Um dos exemplos é o Stream, iniciativa de dados abertos desenvolvida pelo setor britânico.

O projeto contribuiu para ampliar a disponibilização de informações sobre água e para a publicação de dados quase em tempo real sobre eventos em extravasores de esgoto na Inglaterra.

A lógica vai muito além da construção de um painel digital. Dados padronizados e compartilhados podem ser reutilizados por reguladores, empresas, pesquisadores, organizações ambientais e desenvolvedores de outras soluções. Assim, uma inovação cria infraestrutura para outras inovações. (Ofwat)

Outro grupo envolve soluções baseadas na natureza.

Em 2025, a Ofwat informou que oito projetos dessa categoria haviam recebido mais de £18 milhões, envolvendo seis companhias de água e 77 parceiros.

Entre eles aparecem sistemas urbanos de drenagem sustentável e o conceito de Water Net Gain, que estuda formas de armazenar água em propriedades rurais quando há disponibilidade e liberá-la posteriormente para rios ou outros usos em momentos de escassez. (Ofwat)

São soluções especialmente interessantes porque ultrapassam os limites físicos tradicionais da utility.

O problema deixa de ser apenas “operar uma ETA ou uma rede” e passa a incluir bacia hidrográfica, agricultura, urbanismo, energia, tecnologia, uso do solo e comportamento do consumidor.

O problema que o próprio Reino Unido descobriu: inovar não é escalar

Esse talvez seja o maior aprendizado do programa.

Financiar inovação não significa automaticamente gerar transformação operacional.

Ao longo da execução do Water Innovation Fund, a própria Ofwat identificou dificuldades relacionadas à implantação das soluções, compartilhamento de aprendizados e velocidade de adoção pelo restante do setor.

Por isso, o desenho do fundo para 2025-2030 passou a colocar maior peso sobre implementação e adoção das tecnologias bem-sucedidas. Além das competições tradicionais, foi criado o Water Innovation Implementation Programme para atacar barreiras que impedem soluções promissoras de ganhar escala. (Ofwat)

Essa distinção é fundamental.

Uma utility pode realizar dezenas de provas de conceito e continuar praticamente igual.

O indicador correto de inovação não deveria ser simplesmente “quantos pilotos foram realizados”.

Deveria incluir perguntas como:

  • quantos projetos chegaram à operação regular;
  • qual redução de Opex foi obtida;
  • qual Capex foi evitado;
  • quantos vazamentos passaram a ser identificados antes da manifestação superficial;
  • quanto consumo de energia foi reduzido;
  • quanto volume de água foi recuperado;
  • qual redução de prazo ocorreu;
  • quantas reclamações foram evitadas;
  • qual receita foi recuperada;
  • qual emissão foi eliminada;
  • quantas unidades operacionais adotaram a solução depois do teste.

É justamente nesse ponto que muitas iniciativas de inovação fracassam silenciosamente.

O Brasil já possui movimentos semelhantes — mas o modelo é diferente

O saneamento brasileiro não está parado.

Em fevereiro de 2026, a Finep abriu a segunda rodada do Mais Inovação Brasil — Economia Circular e Cidades Sustentáveis, com orçamento total de R$ 150 milhões.

Água e esgoto aparecem explicitamente entre as linhas temáticas.

São elegíveis projetos relacionados à redução de perdas, detecção de vazamentos por sensores, reúso, recuperação de recursos em estações de tratamento, contaminantes emergentes, sistemas descentralizados, soluções para escassez hídrica e digitalização de ETAs, ETEs e sistemas de distribuição. (Finep)

A semelhança temática com o Water Breakthrough Challenge 7 é impressionante.

Os desafios tecnológicos são praticamente universais.

A diferença principal está na arquitetura institucional.

A pesquisa realizada para esta reportagem não identificou no saneamento brasileiro um mecanismo nacional de mesma natureza e abrangência do fundo da Ofwat: regulatório, contínuo, financiado dentro da estrutura econômica do setor e dedicado especificamente a criar, testar e difundir inovação entre prestadores.

No Brasil, o financiamento aparece mais distribuído entre Finep, FNDCT, instituições estaduais de pesquisa, recursos próprios das empresas, universidades, contratos de inovação, startups e diferentes programas corporativos.

Copasa mostra como o CPSI pode atacar problemas reais

Um caso brasileiro particularmente interessante é o Copasa HUB.

A companhia mineira passou a utilizar o Contrato Público para Solução Inovadora, o CPSI, instrumento previsto na Lei Complementar nº 182/2021, o Marco Legal das Startups.

Em seu primeiro ciclo, o programa recebeu 53 propostas.

Os desafios não foram formulados como pedidos por determinada tecnologia, mas como problemas que precisavam ser resolvidos. Entre eles estavam experiência do cliente no pagamento de faturas, fiscalização de obras, monitoramento de hidrômetros, tratamento de esgoto em pequenas localidades e calibração de medidores de vazão. (Notícias Copasa)

Essa lógica é poderosa.

Em vez de uma empresa escrever: “precisa-se adquirir um software com determinadas funcionalidades”, apresenta-se o problema e o resultado esperado.

O mercado passa a disputar a melhor forma de chegar à solução.

Em 2026, o Copasa Challenge com o Fiemg Lab manteve essa abordagem, incluindo desafios diretamente comerciais, como comunicação proativa de interrupções de abastecimento e aprovação remota de ligações de água. (Fiemg Lab)

Inovação, portanto, não precisa ficar confinada a ETA, ETE e laboratório.

Pode atacar faturamento, atendimento, cadastro, ligação nova, energia, fiscalização, medição e relacionamento com o cliente.

Iguá mostra a importância do funil entre startup e contrato

Outro exemplo é a Iguá.

No relatório corporativo de 2023, a companhia informou que seu funil de inovação analisou 161 startups, conectou 99 delas às áreas da empresa, testou 22 soluções e resultou em nove contratos.

A companhia também informou ter captado, em parceria com startup, aproximadamente R$ 1 milhão de Finep, Fapesp e Sebrae para desenvolvimento tecnológico. (Iguá Saneamento)

O dado mais interessante não está no número de startups prospectadas.

Está na sequência:

prospecção → conexão com área usuária → teste → avaliação → contratação.

Esse deveria ser um indicador básico de maturidade de inovação.

Sem a última etapa, programas de inovação aberta podem se transformar apenas em grandes máquinas de realização de pilotos.

A ANA acaba de ganhar uma nova possibilidade institucional

Outro movimento ocorrido no Brasil em 2026 merece acompanhamento.

Em junho, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico passou a ser formalmente qualificada como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação — ICT.

Com isso, a ANA ampliou suas possibilidades de desenvolver pesquisas, estabelecer parcerias com universidades e centros tecnológicos, participar de ecossistemas de inovação e concorrer a instrumentos de fomento. A estrutura prevê inclusive política própria de inovação e Núcleo de Inovação Tecnológica. (Serviços e Informações do Brasil)

Isso não significa que o Brasil esteja criando um equivalente do Water Innovation Fund.

Mas cria uma janela institucional interessante.

A ANA já possui a missão de promover maior harmonização regulatória no saneamento. Agora também amplia sua capacidade formal de trabalhar com ciência, tecnologia e inovação.

No futuro, essa combinação pode facilitar iniciativas nacionais voltadas a desafios que não fazem sentido serem resolvidos isoladamente por cada prestador.

O setor elétrico brasileiro oferece uma comparação ainda mais provocadora

Há um precedente nacional fora do saneamento.

A Agência Nacional de Energia Elétrica mantém um Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação — PDI, estruturado a partir da Lei nº 9.991/2000.

O programa utiliza instrumentos regulatórios para direcionar recursos, fomentar parcerias entre empresas, universidades e instituições de pesquisa e desenvolver tecnologias relevantes para o setor elétrico. A ANEEL também realiza chamadas estratégicas para problemas que exigem esforço coordenado de diferentes organizações. (Serviços e Informações do Brasil)

A comparação não significa que o modelo elétrico possa simplesmente ser copiado para água e esgoto.

Os setores possuem estruturas tarifárias, competências regulatórias e arranjos institucionais muito diferentes.

Mas o precedente mostra algo importante: o conceito de utilizar a regulação econômica para induzir inovação setorial não é estranho ao Brasil.

Essa talvez seja uma das discussões mais relevantes provocadas pelo Water Breakthrough Challenge 7.

Singapura segue outra estratégia — mas com a mesma obsessão por escala

O Reino Unido não está sozinho.

Em junho de 2026, a PUB, agência nacional de águas de Singapura, anunciou quase S$100 milhões em financiamento inicial para pesquisa em tecnologias de água no ciclo RIE2030.

Desse total, S$85 milhões foram direcionados a soluções municipais de água, incluindo tratamento, dessalinização, contaminantes emergentes e sustentabilidade operacional. Outros S$12 milhões foram destinados inicialmente a soluções para eficiência hídrica e reúso em setores industriais intensivos em água, como semicondutores e data centers. (Publicações Gov.sg)

O modelo de Singapura acrescenta outro componente essencial: infraestrutura de validação.

A PUB utiliza instalações operacionais e plantas dedicadas para permitir que novas tecnologias sejam testadas em condições reais. Também dispõe de mecanismos específicos para pequenos projetos de prova de conceito e para desenvolvimento de tecnologias em diferentes níveis de maturidade. (Publicações Gov.sg)

Esse ponto merece atenção no Brasil.

Dinheiro não é o único gargalo da inovação.

Frequentemente faltam também local para teste, dados, equipe técnica disponível, autorização operacional, procedimento de segurança, integração com sistemas corporativos e patrocinador interno disposto a assumir o risco.

O que muda na prática para empresas de saneamento

A principal lição do Water Breakthrough Challenge 7 não é criar um “departamento de inovação”.

É criar um sistema para transformar problemas operacionais em desafios solucionáveis.

Uma companhia pode começar estruturando um portfólio de problemas prioritários.

Por exemplo:

Perdas: detectar vazamentos antes da manifestação, localizar fraudes, melhorar setorização ou prever rompimentos.

Operação: antecipar falhas de bombas, otimizar pressão, reduzir energia e melhorar manutenção.

Esgoto: monitorar extravasamentos, detectar infiltrações, recuperar nutrientes e reduzir energia.

Comercial: melhorar leitura, faturamento, cadastro, cobrança, conexão à rede e atendimento.

Cliente: antecipar interrupções, personalizar comunicação e identificar vulnerabilidade.

Engenharia: reduzir prazo de obras, melhorar fiscalização, usar novos materiais ou automatizar levantamento de campo.

Depois, cada desafio precisa receber métricas de resultado.

Uma prova de conceito que “funcionou tecnicamente” não é suficiente.

É necessário saber se a solução cria valor econômico ou operacional.

O que gestores devem observar

A experiência internacional sugere sete disciplinas para uma agenda de inovação mais madura:

  1. Começar pelo problema, não pela tecnologia.
  2. Envolver a área operacional desde o início.
  3. Definir indicadores antes do piloto.
  4. Criar ambientes reais de teste.
  5. Planejar previamente como ocorrerá a contratação caso o teste funcione.
  6. Compartilhar conhecimento para evitar que várias unidades resolvam isoladamente o mesmo problema.
  7. Reservar recursos não apenas para experimentar, mas também para escalar.

Esse último ponto talvez seja o mais importante.

Um projeto de R$ 200 mil pode provar que determinada tecnologia economiza milhões. Entretanto, se não existir orçamento, contrato, integração tecnológica e governança para disseminá-la, todo o aprendizado pode ficar restrito a uma única instalação.

O que pode dar errado

O Water Breakthrough Challenge 7 também não deve ser interpretado como garantia de sucesso.

Financiamento público ou tarifário pode produzir desperdício se os projetos forem mal selecionados.

Tecnologias podem apresentar desempenho inferior ao prometido.

Pilotos podem funcionar em pequena escala e falhar quando ampliados.

Soluções digitais podem criar dependência de fornecedores.

Compartilhamento de dados pode gerar riscos de cibersegurança e privacidade.

Novos tratamentos para PFAS e outros contaminantes emergentes podem ser tecnicamente eficazes e economicamente inviáveis.

Soluções baseadas na natureza podem enfrentar limitações fundiárias, regulatórias ou de governança.

Além disso, quanto maior a quantidade de parceiros, maior pode ser a complexidade contratual e decisória.

Por isso, inovação exige tanto capacidade técnica quanto gestão.

Engenheiros, operadores, especialistas comerciais, profissionais de tecnologia, jurídicos, compradores, reguladores, equipes ambientais e gestores financeiros precisam trabalhar juntos.

A inovação passa a ser menos um assunto de laboratório e mais uma competência organizacional.

Uma oportunidade pouco percebida para o saneamento brasileiro

O Brasil precisará realizar um volume enorme de investimentos para avançar na universalização.

Entretanto, universalizar utilizando apenas as mesmas tecnologias, processos, indicadores e modelos de execução existentes pode representar uma oportunidade perdida.

Infraestrutura nova deveria ser também infraestrutura mais inteligente.

Novas redes podem nascer preparadas para sensoriamento.

Novos sistemas podem incorporar macromedição e automação.

Novas ETAs e ETEs podem ser projetadas considerando eficiência energética.

Novos contratos podem prever compartilhamento de dados.

Novos sistemas comerciais podem utilizar modelos analíticos desde sua concepção.

Novas concessões podem criar mecanismos de incentivo à produtividade e inovação.

A questão não é trocar engenharia tradicional por tecnologia.

É utilizar tecnologia para melhorar engenharia, operação e gestão.

Lições para quem trabalha no saneamento

O Water Breakthrough Challenge 7 oferece uma mensagem particularmente relevante aos profissionais do setor.

Tecnologia não elimina a importância do conhecimento operacional.

Faz justamente o contrário.

Quanto mais sofisticadas forem as ferramentas disponíveis, mais importante se torna o profissional capaz de definir corretamente o problema, avaliar os resultados e distinguir inovação útil de solução apenas atraente comercialmente.

Um algoritmo pode apontar um possível vazamento.

Mas alguém precisa conhecer a rede para avaliar o resultado.

Um modelo preditivo pode indicar risco de falha.

Mas alguém precisa entender a consequência operacional.

Uma startup pode criar uma nova solução comercial.

Mas alguém precisa conhecer faturamento, arrecadação, regulação e comportamento do consumidor para saber se ela realmente gera valor.

A vantagem competitiva não estará apenas em comprar tecnologia.

Estará nas equipes capazes de transformar tecnologia em resultado de saneamento.

Conclusão: o dinheiro é importante, mas o modelo é a notícia

Os £50 milhões do Water Breakthrough Challenge 7 são relevantes.

Entretanto, o aprendizado mais importante está no ecossistema construído ao redor deles.

A Inglaterra e o País de Gales estão tentando ligar regulador, utilities, universidades, startups, empresas tecnológicas, consultorias, engenharia, organizações ambientais e clientes em uma estrutura permanente de experimentação.

E, depois dos primeiros anos, já perceberam que o desafio seguinte é ainda maior: fazer as tecnologias vencedoras saírem dos projetos e entrarem definitivamente na operação.

O Brasil possui peças importantes desse quebra-cabeça: Finep, universidades, startups, CPSI, programas corporativos, companhias tecnicamente fortes, centros de pesquisa, fornecedores especializados e agora uma ANA formalmente qualificada como ICT.

O que ainda merece discussão é como conectar essas peças de maneira mais estruturada.

O Water Breakthrough Challenge 7 mostra que política de inovação no saneamento não precisa começar perguntando qual tecnologia comprar.

Pode começar com três perguntas muito mais poderosas:

Qual problema precisa ser resolvido?

Quanto valor existe em resolvê-lo?

E como transformar uma solução comprovada em padrão operacional para todo o setor?

Para empresas que precisam simultaneamente universalizar, reduzir perdas, melhorar atendimento, aumentar produtividade, responder às mudanças climáticas e manter tarifas sustentáveis, essas perguntas provavelmente serão cada vez menos opcionais.

Fontes e referências

Ofwat — Water Services Regulation Authority
Water innovation competitions
Atualizado em 6 de julho de 2026
Acessar publicação da Ofwat

Ofwat
Ofwat announces details of £400m fund to spur water sector transformation in next five years
28 de janeiro de 2025
Acessar anúncio da Ofwat

Ofwat
Innovation in the water sector
Atualizado em 17 de junho de 2026
Acessar página de inovação da Ofwat

H2O Global News
Water Breakthrough Challenge 7 launches with £50m fund for water innovation
7 de setembro de 2026
Acessar matéria original

Water Magazine
Water Breakthrough Challenge 7 to award £50m to accelerate transformational innovation in water sector
7 de setembro de 2026
Acessar publicação

Environment Agency — Governo do Reino Unido
Dry weather and drought in England: 28 August to 3 September 2026
Atualizado em 4 de setembro de 2026
Acessar relatório de seca

Environment Agency — Governo do Reino Unido
Water situation: July 2026 summary
11 de agosto de 2026
Acessar relatório de julho

Met Office
Summer 2026 provisionally hottest on record for the UK
1º de setembro de 2026
Acessar dados do Met Office

Ofwat
Ofwat Innovation Fund highlights nature’s role in solving water sector challenges
17 de junho de 2025
Acessar publicação sobre soluções baseadas na natureza

Finep — Financiadora de Estudos e Projetos
Finep Mais Inovação Brasil — Rodada 2 — Economia Circular e Cidades Sustentáveis
2026
Acessar chamada da Finep

ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
ANA se qualifica como Instituição de Ciência, Tecnologia e Inovação
3 de junho de 2026
Acessar publicação da ANA

Copasa
Copasa divulga resultados da 2ª etapa do HUB, iniciativa que busca soluções inovadoras em saneamento
15 de janeiro de 2025
Acessar publicação da Copasa

Copasa HUB
Soluções Inovadoras — Contrato Público de Solução Inovadora
Acessar Copasa HUB

Iguá Saneamento
Relatório Integrado — iniciativas de inovação e Iguá Lab
2023
Acessar relatório da Iguá

ANEEL — Agência Nacional de Energia Elétrica
Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da ANEEL
Atualizado em 2026
Acessar programa PDI ANEEL

PUB — Singapore’s National Water Agency
PUB awarded close to $100 million in funding under RIE2030 for water technologies research
16 de junho de 2026
Acessar anúncio da PUB

PUB — Singapore’s National Water Agency
Innovation Funding
Acessar programas de financiamento da PUB