O saneamento mundial tem hoje 2,1 bilhões de pessoas sem acesso à água potável gerida com segurança e 3,4 bilhões sem saneamento gerido com segurança. Ao mesmo tempo, dados internacionais apontam dificuldades de financiamento, capacidade institucional, regulação, perdas de água e adaptação climática. Nesse cenário, algumas pessoas ocupam posições capazes de influenciar bilhões de dólares, decisões de governos, padrões tecnológicos e a própria maneira como utilities planejam o futuro.
Mas quem são, de fato, as pessoas mais influentes do saneamento mundial?
Não existe um ranking oficial capaz de responder objetivamente a essa pergunta. Influência pode significar comandar uma grande utility, desenvolver uma tecnologia revolucionária, definir padrões internacionais, direcionar recursos financeiros ou convencer governos a mudar políticas públicas.
Por isso, este ranking editorial considera principalmente cinco dimensões: capacidade de colocar água e saneamento na agenda política, poder de mobilizar investimentos, influência sobre políticas e instituições, capacidade de provocar inovação tecnológica e alcance concreto sobre a prestação dos serviços.
A lista revela algo importante: a transformação do saneamento mundial não está concentrada apenas nas grandes empresas de água. Ela está sendo decidida simultaneamente em organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, instituições das Nações Unidas e centros de inovação.
Antes do ranking: “saneamento” não significa exatamente a mesma coisa no mundo
Para o profissional brasileiro, existe uma diferença conceitual importante.
No Brasil, a legislação considera saneamento básico um conjunto que envolve abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, além de drenagem e manejo das águas pluviais urbanas.
No debate internacional, porém, aparece frequentemente a sigla WASH — Water, Sanitation and Hygiene, normalmente associada ao acesso à água potável, manejo seguro dos excretas e higiene.
Além disso, organizações como Banco Mundial, UN-Water e International Water Association ampliam a discussão para segurança hídrica, recursos hídricos, reúso, resiliência climática, desempenho das utilities e financiamento.
Portanto, quando se fala aqui em saneamento mundial, o conceito é deliberadamente amplo.
1. Retno Marsudi: a água entrou definitivamente na diplomacia

Retno L. P. Marsudi ocupa uma posição inédita: tornou-se a primeira Enviada Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Água.
A função foi criada para elevar água e saneamento ao nível da grande diplomacia internacional. Seu mandato inclui mobilizar governos, empresas, instituições financeiras e organizações multilaterais, além de acelerar os compromissos assumidos na Conferência da ONU sobre Água de 2023.
Isso é mais relevante para uma companhia de saneamento do que pode parecer.
Problemas como escassez hídrica, acesso à água, adaptação climática e financiamento de infraestrutura estão deixando de ser apenas questões técnicas. Eles passam a integrar discussões sobre desenvolvimento econômico, segurança alimentar, energia, migração e estabilidade geopolítica.
Retno estará no centro dessa movimentação até a Conferência das Nações Unidas sobre Água de 2026, programada para ocorrer entre 8 e 10 de dezembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, sob organização conjunta dos Emirados Árabes Unidos e do Senegal.
A principal importância de Retno Marsudi, portanto, não está em operar sistemas de abastecimento ou projetar estações de tratamento. Está em algo igualmente decisivo: fazer água e saneamento competirem por atenção política e capital internacional com energia, clima, infraestrutura e saúde.
Para o saneamento mundial, isso pode determinar quanto dinheiro chegará ao setor na próxima década.
2. Saroj Kumar Jha: onde política de saneamento encontra bilhões de dólares

Se Retno Marsudi representa a força política, Saroj Kumar Jha representa a capacidade de transformar estratégia em investimento.
Como Global Director for Water do Banco Mundial, Jha lidera a estrutura responsável pela orientação das políticas do departamento e por um portfólio de aproximadamente US$ 27 bilhões em investimentos relacionados à água, além de trabalhos analíticos, fundos multilaterais e parcerias globais.
Poucas posições individuais possuem influência tão direta sobre a infraestrutura hídrica de países em desenvolvimento.
O Banco Mundial atua não apenas financiando tubulações, estações ou reservatórios. A instituição participa de reformas institucionais, modelos regulatórios, desempenho de prestadores, recuperação de custos, redução de perdas, saneamento urbano inclusivo e estruturação de projetos.
Esse detalhe merece atenção dos gestores brasileiros.
O debate internacional mudou. O financiador não quer saber somente quantos quilômetros de rede serão construídos. Cada vez mais procura saber se o prestador consegue manter os ativos, cobrar adequadamente pelos serviços, reduzir perdas, controlar custos, utilizar dados, suportar eventos climáticos extremos e atender populações vulneráveis.
O diagnóstico global ajuda a explicar essa pressão.
O GLAAS 2025, produzido no âmbito da UN-Water por WHO e UNICEF, identificou entre 20 países com informações quantitativas uma diferença média de 46% entre os recursos necessários e os recursos disponíveis para atingir suas metas nacionais de WASH. Menos de 20% dos países pesquisados afirmaram possuir financiamento suficiente para atingir suas metas.
Há ainda um problema conhecido dos profissionais brasileiros: perda de água.
Entre os países que reportaram a informação ao GLAAS, os três maiores prestadores apresentaram, em média, 39% de água não faturada.
Isso mostra por que a agenda defendida por instituições como o Banco Mundial aproxima engenharia e gestão comercial.
Produzir mais água enquanto grandes volumes não geram receita dificilmente constitui estratégia sustentável.
3. Álvaro Lario: quem tenta fazer a ONU trabalhar como um sistema

Álvaro Lario ocupa duas posições relevantes: é presidente do International Fund for Agricultural Development — IFAD e, desde 2024, presidente da UN-Water.
A segunda função explica sua presença entre os cinco nomes.
A UN-Water funciona como o mecanismo de coordenação das Nações Unidas para assuntos relacionados à água e ao saneamento. Em vez de tratar esses temas isoladamente em WHO, UNICEF, UNESCO, FAO, UNEP e outras organizações, procura alinhar estratégias, informações e iniciativas.
Em 2026, essa coordenação ganhou importância adicional.
A organização trabalha na implementação da UN System-wide Strategy for Water and Sanitation e na preparação da Conferência da ONU sobre Água de dezembro. Em março de 2026, a reunião da UN-Water em Roma foi descrita pela própria instituição como a maior já realizada.
Lario representa, portanto, um tipo diferente de influência.
Não é necessariamente quem financia uma obra ou inventa uma tecnologia. É quem ajuda a construir o ambiente institucional no qual metas, indicadores, prioridades e compromissos internacionais são organizados.
Esse processo influencia o saneamento mundial porque indicadores acabam se transformando em metas; metas geram políticas; políticas orientam financiamento; e financiamento chega aos operadores.
O próprio relatório de síntese do ODS 6 publicado em junho de 2026 avalia uma década de implementação da agenda global de água e saneamento e procura discutir o que deverá vir depois de 2030.
Essa discussão interessa diretamente ao Brasil.
O país possui metas legais de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgotos até 31 de dezembro de 2033, além de metas relacionadas à continuidade, redução de perdas e melhoria do tratamento.
Ou seja: embora o calendário brasileiro seja próprio, os problemas enfrentados são profundamente conectados à agenda internacional.
4. Doulaye Koné: a tentativa de reinventar o saneamento

Doulaye Koné representa talvez o debate tecnologicamente mais provocador deste ranking.
Engenheiro sanitarista e diretor de Water, Sanitation & Hygiene da Gates Foundation, Koné lidera uma estratégia baseada numa pergunta incômoda:
É possível universalizar o esgotamento sanitário mundial construindo redes convencionais em todos os lugares?
Para bilhões de pessoas, a resposta pode ser não.
A própria Gates Foundation direciona parte significativa de sua estratégia para tecnologias de saneamento não conectado à rede, sistemas mais eficientes no uso da água e a chamada Reinvented Toilet, concebida para tratar resíduos de maneira muito mais autônoma.
O assunto merece atenção no Brasil.
Não se trata de afirmar que redes coletoras e estações convencionais deixarão de ser necessárias. Elas continuarão sendo fundamentais em grande parte das cidades.
Entretanto, assentamentos informais, comunidades rurais, periferias distantes, cidades pequenas e regiões com baixa disponibilidade hídrica podem exigir outras arquiteturas de serviço.
Koné também teve participação relevante no avanço dos padrões para sistemas sanitários sem rede. Segundo o International Water Management Institute, ele presidiu o processo de desenvolvimento do primeiro padrão ISO de desempenho para sistemas sanitários capazes de eliminar patógenos, hoje adotado por mais de 30 países.
Essa talvez seja uma das tendências mais importantes do saneamento mundial: a universalização começa a ser tratada menos como a obrigação de instalar determinada infraestrutura e mais como a obrigação de entregar um resultado sanitário seguro.
A diferença é enorme.
Ela abre espaço para tecnologias descentralizadas, tratamento local, manejo de lodo fecal, recuperação de recursos e soluções híbridas.
Para engenheiros e gestores, a pergunta deixa de ser apenas “onde construir a rede?” e passa a incluir “qual cadeia de serviço consegue entregar saneamento seguro pelo menor custo de ciclo de vida?”.
5. Cecilia Scharp: dados globais transformados em serviço

A quinta posição pertence a Cecilia Scharp, Global Director of Water, Sanitation and Hygiene do UNICEF.
A influência do UNICEF sobre o saneamento mundial ocorre em duas frentes especialmente relevantes: informação e execução.
Junto com a Organização Mundial da Saúde, o UNICEF mantém o Joint Monitoring Programme — JMP, uma das principais referências utilizadas para avaliar o avanço mundial de água, saneamento e higiene.
É desse sistema que vêm números que ajudam governos e organizações a entender se o ODS 6 está ou não avançando.
Os dados mais recentes disponíveis para domicílios mostram que, em 2024, 74% da população mundial utilizava água potável gerida com segurança, enquanto apenas 58% utilizava saneamento gerido com segurança. Portanto, ainda havia 2,1 bilhões e 3,4 bilhões de pessoas, respectivamente, fora desses níveis de serviço.
Mas a influência do UNICEF não fica no indicador.
Em 2025, o apoio direto da organização ajudou mais de 34 milhões de pessoas a obter acesso à água segura, mais de 17 milhões a alcançar pelo menos serviços básicos de saneamento e mais de 15 milhões a acessar higiene básica. Além disso, mais de 5.500 escolas e cerca de 2.800 unidades de saúde receberam apoio para atingir níveis básicos de WASH.
Em contextos humanitários, o UNICEF alcançou mais de 36 milhões de pessoas com serviços de WASH em 2025.
Por isso, Scharp representa uma dimensão que não pode ser ignorada: universalização não é apenas construir infraestrutura; é garantir que o serviço funcione justamente onde a capacidade institucional é menor.
O que esses cinco nomes têm em comum
À primeira vista, Retno Marsudi, Saroj Kumar Jha, Álvaro Lario, Doulaye Koné e Cecilia Scharp trabalham em áreas bastante diferentes.
Mas existe um padrão.
Retno atua sobre prioridade política.
Jha, sobre capital e desempenho institucional.
Lario, sobre coordenação internacional e políticas públicas.
Koné, sobre tecnologia e modelos alternativos de saneamento.
Scharp, sobre dados, execução e desigualdade de acesso.
Juntos, eles representam cinco condições necessárias para acelerar o saneamento mundial: vontade política, financiamento, governança, tecnologia e capacidade de entrega.
E justamente aí aparece uma lição para companhias brasileiras.
O que muda para gestores e profissionais brasileiros
A agenda desses líderes pode parecer distante da rotina de uma empresa de saneamento em Salvador, São Paulo, Curitiba, Fortaleza, Belo Horizonte ou qualquer outra cidade brasileira.
Não está.
Muitas das discussões globais acabam chegando às utilities por meio de linhas de financiamento, padrões técnicos, regulação, indicadores, exigências ambientais, modelos de contratação e novas tecnologias.
No Brasil, esse movimento já pode ser percebido.
A ANA vem construindo normas de referência para temas como regulação tarifária, governança, universalização, condições gerais da prestação, perdas e, mais recentemente, contabilidade regulatória.
Paralelamente, o SINISA passou a estruturar nacionalmente dados de abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos, drenagem e gestão municipal.
A lógica é semelhante àquela que aparece internacionalmente: sem dados comparáveis, governança, capacidade de investimento e eficiência operacional, universalização torna-se difícil de sustentar.
Para os profissionais, acompanhar apenas empresas brasileiras pode, portanto, limitar a visão estratégica.
Quem poderia entrar nesse Top 5?
Qualquer ranking desse tipo gera uma discussão legítima.
Dois nomes merecem atenção especial.
O primeiro é Kalanithy Vairavamoorthy, Executive Director da International Water Association. A IWA conecta profissionais, utilities, pesquisadores e especialistas em mais de 140 países e possui influência particularmente relevante sobre inovação, gestão de utilities e disseminação de conhecimento técnico.
O segundo é Gary White, CEO e cofundador da Water.org.
Seu caso demonstra que inovação no saneamento não precisa ser apenas tecnológica. Pode ser financeira.
A Water.org informa ter ajudado mais de 92 milhões de pessoas a acessar água ou saneamento e mobilizado aproximadamente US$ 8,2 bilhões em empréstimos por meio de seus parceiros. O modelo utiliza microcrédito e instrumentos financeiros para permitir que famílias financiem suas próprias soluções de água e saneamento.
Há inclusive atuação no Brasil: a organização informa ter alcançado aproximadamente 1,4 milhão de pessoas no país, com US$ 258 milhões em capital mobilizado.
Dependendo do critério adotado, White ou Vairavamoorthy poderiam perfeitamente aparecer entre os cinco primeiros.
É por isso que o ranking deve ser interpretado como uma análise de influência, e não como uma premiação.
A principal lição para quem trabalha no saneamento
Talvez o aspecto mais relevante desta lista seja perceber que o profissional de saneamento do futuro precisará compreender muito mais do que infraestrutura.
O engenheiro continuará precisando dominar hidráulica, tratamento e redes.
O profissional comercial continuará precisando compreender faturamento, medição, arrecadação e relacionamento com clientes.
O operador continuará precisando manter sistemas funcionando.
Mas as decisões estarão cada vez mais conectadas a financiamento climático, eficiência energética, perdas, inteligência de dados, regulação econômica, modelos descentralizados, recuperação de recursos, resiliência e experiência do cliente.
A experiência internacional mostra ainda que não existe uma única solução.
Uma metrópole poderá precisar de grandes interceptores e estações avançadas de tratamento.
Uma periferia poderá exigir soluções descentralizadas.
Uma área rural poderá depender de modelos completamente diferentes.
Uma utility financeiramente fragilizada talvez precise atacar perdas e arrecadação antes de assumir novos investimentos.
E uma cidade vulnerável às mudanças climáticas terá de planejar sua infraestrutura considerando riscos que sequer estavam nos projetos elaborados há duas décadas.
Conclusão: acompanhar pessoas ajuda a antecipar o setor
Identificar as pessoas mais influentes do saneamento mundial não serve apenas para produzir uma lista de nomes conhecidos.
Serve para entender para onde o setor está se movimentando.
Retno Marsudi mostra que água e saneamento estão entrando na diplomacia global.
Saroj Kumar Jha mostra que dinheiro será direcionado cada vez mais para projetos capazes de demonstrar eficiência e sustentabilidade.
Álvaro Lario mostra que governança e coordenação institucional ganharão importância.
Doulaye Koné demonstra que a infraestrutura tradicional não será a única resposta para universalização.
Cecilia Scharp lembra que nenhum avanço pode ser considerado sucesso enquanto bilhões de pessoas continuarem sem acesso seguro.
O saneamento mundial vive uma transição em que engenharia, finanças, tecnologia, regulação, clima e gestão de clientes estão convergindo.
Para quem trabalha em uma companhia de saneamento, acompanhar essas lideranças não é curiosidade institucional. É uma maneira de observar antecipadamente quais conceitos provavelmente chegarão aos projetos, contratos, indicadores, regulamentos e decisões de investimento dos próximos anos.
E talvez essa seja a principal lição do ranking: o futuro do saneamento não será definido apenas por quem constrói infraestrutura, mas também por quem consegue mobilizar capital, mudar regras, produzir conhecimento, desenvolver novas tecnologias e transformar tudo isso em serviço funcionando para o cliente.
Fontes e referências
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Progress on household drinking-water, sanitation and hygiene 2000–2024: Special focus on inequalities
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Global Annual Results Report 2025: Goal Area 4
Julho de 2026
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IWA and Glasgow Strengthen Ties Ahead of 2026 World Water Congress & Exhibition
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Consulta em setembro de 2026
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Water.org
Brazil — Our Impact
Consulta em setembro de 2026
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Brasil — Presidência da República
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Acessar a Lei nº 14.026/2020
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Normas de Referência para o Saneamento Básico
Consulta em setembro de 2026
Acessar as normas da ANA
Ministério das Cidades — SINISA
Resultados SINISA 2024, ano de referência 2023
Atualizado em julho de 2026
Acessar os resultados do SINISA



