O Brasil produziu água que não conseguiu transformar integralmente em consumo reconhecido e faturamento. O SINISA 2025, com ano-base 2024, informa que 39,1% do volume produzido não foi faturado pelos prestadores, enquanto 39,5% foi perdido na distribuição. São indicadores distintos, que não podem ser somados, mas juntos mostram a dimensão de um problema que ultrapassa vazamentos de tubulações.
Para quem trabalha no setor, essa é a parte mais importante: perdas de receita no saneamento podem começar na rede, mas também podem nascer no hidrômetro, no cadastro, na leitura, no sistema comercial, em uma fraude, no dimensionamento de um medidor ou na própria estratégia de cobrança.
A pergunta gerencial, portanto, não deveria ser apenas “qual é o índice de perdas da companhia?”. Uma pergunta mais útil seria: em que ponto da cadeia a água deixa de se transformar em receita — e quanto custa corrigir esse ponto?
Essa mudança de abordagem ganhou ainda mais importância com a Norma de Referência ANA nº 15/2025. A norma determina diagnóstico baseado em balanço hídrico padronizado e exige a segregação entre perdas reais e aparentes, além do acompanhamento de macromedição e hidrometração. Em outras palavras, o setor regulatório brasileiro está caminhando para uma análise mais granular da perda.
Antes dos 10 erros: perda de água não é igual a perda de caixa
Há uma distinção técnica fundamental para analisar as perdas de receita no saneamento.
Perda real é a água que fisicamente deixa o sistema antes de chegar ao consumidor, como ocorre em vazamentos, rompimentos e extravasamentos. Perda aparente é diferente: a água chega a ser consumida, mas não é corretamente registrada, por situações como submedição, consumo não autorizado, fraude, ligação clandestina, erros de leitura ou falhas cadastrais. Essa separação está expressamente incorporada à NR nº 15/2025.
Existe ainda uma terceira dimensão: a arrecadação. Uma conta corretamente emitida e não paga representa um problema financeiro e comercial, mas não deve ser confundida tecnicamente com perda aparente de água. Aquele volume foi medido e faturado; o problema ocorreu depois, na conversão do faturamento em caixa.
Por isso, para fins de gestão empresarial, faz sentido observar uma cadeia mais ampla:
água produzida → água distribuída → água entregue → água medida → água reconhecida comercialmente → água faturada → valor arrecadado.
Cada passagem possui riscos próprios. É justamente aí que aparecem os dez erros que mais merecem atenção.
1. Gerenciar todas as perdas como se fossem o mesmo problema
O primeiro erro é também um dos mais estratégicos: enxergar um índice agregado e imediatamente iniciar ações sem identificar sua composição.
Uma companhia com forte componente de perdas reais pode precisar de setorização, controle de pressão, renovação de redes, pesquisa ativa de vazamentos e redução do tempo de reparo. Outra, com o mesmo indicador global, pode estar sofrendo principalmente com submedição, cadastro, fraudes ou processamento comercial.
As soluções possuem custos, equipes, tecnologias e tempos de retorno diferentes.
A NR nº 15/2025 avança justamente nesse ponto. Além do balanço hídrico, o diagnóstico deverá apresentar perdas por ligação segregadas entre componentes reais e aparentes. A norma ainda deixa ao prestador a definição do foco das ações conforme análise de custo-benefício.
Isso muda a lógica das perdas de receita no saneamento: o objetivo deixa de ser simplesmente “reduzir o indicador” e passa a ser encontrar a intervenção que entrega maior benefício para cada real investido.
2. Trocar hidrômetros por idade sem compreender sua performance
Hidrômetros envelhecem, mas idade isoladamente não é diagnóstico.
A American Water Works Association recomenda que o programa de medição considere tecnologia, tamanho, instalação e padrão de consumo do cliente, juntamente com ensaios periódicos, manutenção e substituição. A entidade relaciona explicitamente medição adequada à recuperação de receitas e à cobrança equitativa dos usuários.
A EPA também alerta que medidores mecânicos tendem a subregistrar consumo à medida que componentes internos se desgastam.
Na prática, uma política sofisticada de renovação do parque não deveria perguntar apenas “quantos anos este hidrômetro tem?”, mas também quanto volume já passou por ele, qual é sua tecnologia, sua curva de erro, o perfil de vazões do imóvel e qual receita adicional provavelmente seria recuperada com a substituição.
Esse é o ponto em que hidrometria deixa de ser mera manutenção e passa a ser gestão de ativos comerciais.
3. Dimensionar o hidrômetro apenas pelo diâmetro da ligação
Um hidrômetro maior não significa necessariamente uma medição melhor.
Equipamentos superdimensionados podem operar durante boa parte do tempo em faixas de vazão nas quais sua capacidade de registrar pequenos fluxos é pior. A EPA chama atenção para esse problema e observa que medidores superdimensionados podem medir de forma inadequada vazões mínimas.
O problema ganha relevância em grandes consumidores.
Indústrias, hospitais, hotéis, shoppings, condomínios e equipamentos públicos podem apresentar picos elevados, mas permanecer muitas horas em vazões relativamente baixas. Se o medidor for selecionado simplesmente para suportar o maior pico imaginável, parte relevante do consumo pode ficar fora da faixa ótima de medição.
Isso significa que o dimensionamento deveria partir do perfil real de consumo, e não somente do DN da tubulação.
Para as perdas de receita no saneamento, a consequência pode ser expressiva: poucos pontos de grande volume mal medidos podem ter impacto financeiro equivalente ao de milhares de pequenas ligações.
4. Acreditar que aquilo que o hidrômetro registrou chegará automaticamente à fatura
Entre o visor do medidor e a conta enviada ao cliente existe uma cadeia de processamento.
A leitura precisa ser capturada corretamente, transmitida, validada, associada ao cadastro correto, submetida às regras comerciais e convertida em faturamento.
Erros nesse caminho podem produzir perda de receita mesmo quando hidrômetro e rede estão funcionando perfeitamente.
A AWWA inclui falhas de medição e faturamento entre os componentes que uma auditoria de água deve investigar e ressalta que erros de billing e medidores imprecisos produzem receita não capturada.
Esse é um risco especialmente importante em ambientes com múltiplos sistemas legados, integrações, aplicativos de leitura, faturamento por estimativa e grande volume de regras comerciais.
O controle precisa incluir exceções. Consumo zerado, redução abrupta, leitura incompatível com histórico, faturamento pela média, leitura rejeitada, reversão de consumo e divergências entre sistemas não são apenas ocorrências de faturamento: podem ser sinais de perdas de receita no saneamento.
5. Tratar cadastro comercial como arquivo administrativo
O imóvel mudou de uso. O número de economias aumentou. Uma residência virou comércio. Uma construção foi demolida. Um imóvel cadastrado como inativo está ocupado. Uma ligação existe fisicamente, mas não aparece corretamente na base.
Se o cadastro permanecer congelado, a realidade operacional e a realidade comercial começam a divergir.
É um dos problemas mais silenciosos porque não necessariamente provoca uma ocorrência para o cliente. A água continua chegando e, em muitos casos, alguma conta continua sendo emitida. O erro fica escondido na diferença entre o que existe no território e aquilo que o sistema acredita que existe.
A resposta moderna combina cadastro comercial, georreferenciamento, histórico de consumo, sistemas técnicos, bases fiscais quando legalmente acessíveis e inspeção de campo.
No contexto brasileiro, isso ganha relevância adicional porque a própria NR nº 15/2025 inclui falhas cadastrais entre as causas das perdas aparentes.
Cadastro, portanto, não é apenas base administrativa. É infraestrutura de receita.
6. Combater fraude com inspeções praticamente aleatórias
Fraude e consumo não autorizado fazem parte das perdas aparentes reconhecidas pela ANA. Mas isso não significa que a resposta mais eficiente seja aumentar indiscriminadamente o número de fiscalizações.
Uma companhia com milhões de ligações produz diariamente um volume de dados que pode ajudar a estabelecer prioridades: quedas anormais de consumo, hidrômetros sem movimento, sucessivos consumos mínimos, mudanças incompatíveis com o cadastro, violação recorrente, padrões atípicos de leitura e divergências territoriais.
Modelos analíticos podem transformar esses sinais em uma classificação de risco para direcionar equipes.
Isso não elimina o profissional de campo. O efeito é o oposto: aumenta o valor da experiência do fiscal, porque ele deixa de gastar parte de sua jornada procurando aleatoriamente uma irregularidade e passa a trabalhar sobre ocorrências com maior probabilidade técnica.
O cuidado é indispensável. Uma anomalia estatística não comprova fraude. Pode haver imóvel desocupado, mudança de hábito, problema metrológico ou outras explicações legítimas. A tecnologia deve priorizar a fiscalização; a constatação precisa continuar seguindo procedimentos técnicos, comerciais e regulatórios.
7. Tratar grandes consumidores exatamente como qualquer outra ligação
Um dos benchmarks brasileiros mais relevantes mostra o tamanho dessa oportunidade.
Segundo manual do Banco Mundial sobre contratos de performance para redução de água não faturada, o programa de grandes medidores da Sabesp, executado entre 2000 e 2003, substituiu 28 mil medidores de clientes de grande volume por meio de cinco contratos integralmente baseados em desempenho. O documento registra aumento de US$ 72 milhões em receita frente a um custo de US$ 18 milhões dos contratos. Também relata redução de 41 mil m³/dia em consumo subregistrado.
O caso é histórico e não deve ser automaticamente transplantado para custos ou condições atuais. A lição gerencial, entretanto, continua extremamente atual: segmentar clientes por criticidade financeira pode produzir retorno muito diferente de uma política uniforme de medição.
Na Cagece, uma estratégia contemporânea segue essa lógica. O relatório de administração informa que, em 2024, a companhia realizou 202.345 substituições de hidrômetros, correspondentes a 11,2% do parque em operação. Também mantinha 2.000 ligações com telemetria em Fortaleza, Maracanaú, Eusébio e Caucaia. A empresa informa que a tecnologia é direcionada também aos grandes clientes e permite acompanhamento remoto, identificação de anormalidades e faturamento por telemedição.
A Sanepar, por sua vez, informou ter substituído 364 mil hidrômetros em 2025 e estabelecido meta de aproximadamente 380 mil substituições em 2026, como parte de seu programa preventivo de renovação.
São exemplos diferentes, mas apontam para a mesma direção: medição precisa é uma disciplina de gestão, não apenas uma atividade de manutenção.
8. Esperar o vazamento aparecer para começar a agir
Perdas reais possuem um efeito financeiro em cascata.
Antes de desaparecer em uma tubulação, aquela água já foi captada, eventualmente aduzida, tratada, bombeada e distribuída. Portanto, carrega energia, produtos químicos, mão de obra, depreciação de ativos e outros custos operacionais.
Além disso, vazamentos podem comprometer pressão, continuidade, vida útil da infraestrutura e experiência do cliente.
Por isso, controle de pressão, pesquisa de vazamentos ocultos, manutenção, setorização e gestão de ativos têm impacto muito além da economia de água.
A NR nº 15/2025 reconhece essa evolução tecnológica ao mencionar expressamente telemetria, sensores de pressão, vazão ou ruído, modelos de previsão de vazamentos, softwares georreferenciados e medição inteligente entre ferramentas que podem integrar os planos de controle de perdas.
A discussão sobre perdas de receita no saneamento, portanto, precisa aproximar engenharia e comercial. Reduzir uma perda física pode simultaneamente diminuir custos e aumentar a disponibilidade de água comercializável.
9. Procurar perdas sem macromedição e setorização suficientes
Não é possível administrar bem aquilo que não pode ser localizado.
O SINISA 2025 aponta que 86,7% do volume consumido no Brasil era micromedido, enquanto 84,3% do volume de entrada no sistema de distribuição era macromedido. As médias, entretanto, escondem diferenças regionais importantes: na Região Norte, os indicadores eram de 52,2% para micromedição e 55,3% para macromedição; no Sul, chegavam a 92,8% e 95,4%, respectivamente.
A macromedição cria referência. A setorização reduz o universo da investigação. Distritos de Medição e Controle permitem comparar água que entra em determinada área com consumos conhecidos, comportamento noturno, pressões e outras variáveis.
Sem isso, a companhia pode saber que perde muita água, mas não saber onde agir primeiro.
A Portaria MCID nº 788/2024 reforça o caráter estratégico do tema. Para o período de 2026 a 2032, a referência estabelecida para cumprimento dos indicadores ligados à alocação de determinados recursos públicos federais e financiamentos é de até 30% de perdas na distribuição e 263 litros por ligação por dia. A partir de 2033, os valores passam para 25% e 216 litros por ligação por dia. A Portaria também prevê caminhos para municípios que não atinjam os índices, exigindo demonstração de iniciativas de redução e admitindo ações como macromedição, automação, cadastro técnico e combate às perdas reais e aparentes.
A média nacional de 39,5% mostra a distância entre o desempenho agregado do país e a referência de 30% aplicável no período atual. Essa comparação, porém, deve ser interpretada com cuidado, porque os requisitos da Portaria são avaliados por município e possuem regras específicas de comprovação.
10. Encerrar a gestão quando a conta é emitida
Uma companhia pode medir corretamente, cadastrar corretamente e faturar corretamente — e ainda assim enfrentar problemas de caixa.
Aqui aparece uma distinção importante para o debate sobre perdas de receita no saneamento: inadimplência não é a mesma coisa que perda aparente. Mas, para a sustentabilidade financeira da empresa, a cadeia só termina quando a receita esperada se converte efetivamente em recebimento.
Por isso, faturamento e arrecadação precisam ser acompanhados separadamente.
Clientes com atraso recente, inadimplência crônica, dívidas de alto valor, consumidores públicos, grandes usuários e famílias enquadradas em políticas sociais apresentam contextos diferentes. O desenho de cobrança, negociação, comunicação e regularização precisa respeitar regulação, proteção do consumidor e características de cada segmento.
Um benchmark internacional histórico ajuda a mostrar o potencial de integrar gestão comercial e desempenho. Em Burkina Faso, um contrato de serviço baseado em performance para a ONEA, executado entre 2001 e 2006, incluiu cadastro, medição, faturamento e operações financeiras. Segundo o Banco Mundial, a receita aumentou 50% em cinco anos e o índice de arrecadação avançou de um mínimo de 78% para 95%, com custo de aproximadamente US$ 4,5 milhões no período.
Não é um modelo para simplesmente copiar, mas demonstra por que revenue protection precisa olhar além do hidrômetro.
O que o mundo está fazendo com medição inteligente
Singapura oferece um exemplo relevante da transformação da medição em plataforma de dados.
A agência nacional PUB já implantou cerca de 300 mil hidrômetros inteligentes na primeira fase de seu Smart Water Meter Programme. Os equipamentos registram leituras várias vezes ao dia e enviam informações remotamente, permitindo que consumidores acompanhem consumo, recebam alertas de vazamento e que a utility compreenda melhor os padrões de demanda.
O aprendizado importante não é simplesmente “comprar hidrômetros inteligentes”. É conectar medição, telecomunicação, sistemas de informação, analytics, gestão operacional e relacionamento com o cliente.
A experiência inglesa também mostra essa mudança de escala. A Ofwat estabeleceu, no ciclo regulatório 2025–2030, mais de £700 milhões em allowances para redução de vazamentos e aproximadamente £1,7 bilhão para instalação de 10,4 milhões de medidores inteligentes, dentro de uma expectativa de redução adicional de 17% nos vazamentos.
Um relatório preparado para a própria Ofwat cita análises da Anglian Water segundo as quais cada medidor inteligente instalado esteve associado, em média, a uma redução de 10 litros por domicílio por dia de vazamentos no lado do consumidor. O mesmo estudo informa que cerca de 75% dos clientes notificados corrigem vazamentos e que a Severn Trent passou a identificar fluxos contínuos 104 dias mais rapidamente do que com dados de medidores AMR. Esses resultados pertencem às utilities e ao contexto analisado, portanto não devem ser tratados como promessa universal de desempenho.
A lição internacional é mais ampla: o valor não está no medidor inteligente isolado; está na capacidade de transformar seus dados em ação.
Regulação brasileira começa a exigir uma gestão mais sofisticada
As perdas de receita no saneamento tendem a entrar cada vez mais na agenda das diretorias, e não somente das áreas de perdas.
A NR nº 15/2025 determina que os prestadores estruturem planos com linha de base, evolução da hidrometração e macromedição, ações, cronograma físico-financeiro, justificativa técnico-econômica, indicadores complementares e estimativa de custos. A verificação da adoção da norma pelas entidades reguladoras começa em 20 de maio de 2028, de forma escalonada conforme porte municipal e nível de perdas.
Há um elemento particularmente relevante para gestores: a ANA admite PPPs, contratos de performance ou eficiência e outros mecanismos de financiamento, além de tecnologias inovadoras para redução de perdas.
Isso abre espaço para mudar a discussão de “quanto custa o programa?” para “quanto valor econômico ele consegue gerar?”.
O que muda na prática para uma companhia de saneamento
Uma estratégia consistente para perdas de receita no saneamento não deveria pertencer exclusivamente à engenharia nem exclusivamente à área comercial. Ela precisa unir operação, perdas, medição, cadastro, faturamento, cobrança, tecnologia, atendimento, regulação e finanças.
A sequência recomendável começa por um balanço hídrico confiável. Depois, identifica-se quanto do problema está nas perdas reais e aparentes. A partir daí, a companhia pode calcular onde há maior potencial econômico: um setor com grande vazamento físico, um parque de medidores com baixa performance, clientes de alto volume submedidos, cadastro desatualizado ou uma carteira de recebíveis mal gerenciada.
Nesse modelo, indicadores operacionais passam a conversar com indicadores financeiros.
O custo do metro cúbico produzido importa. A tarifa média importa. O volume recuperável importa. O custo da intervenção também. E, principalmente, importa o prazo necessário para que a ação gere resultado.
Isso transforma um programa de perdas em uma carteira de projetos priorizada por impacto.
Tecnologia sem processo pode apenas digitalizar o erro
Existe um risco relevante na atual corrida por sensores, inteligência artificial, telemetria e smart meters.
Instalar tecnologia sobre dados ruins não resolve automaticamente o problema.
Um hidrômetro inteligente associado ao cadastro errado continua vinculado ao cliente errado. Um algoritmo de fraude alimentado por histórico inconsistente pode produzir falsos positivos. Um sistema de telemetria sem rotina para tratar os alarmes pode gerar milhares de alertas que ninguém transforma em ordem de serviço.
O mesmo vale para a operação. Reduzir pressão sem compreender a hidráulica do sistema pode criar problemas de abastecimento. Substituir hidrômetros em massa sem analisar perfil de consumo pode gerar um programa caro com retorno inferior ao possível.
Por isso, uma política de perdas de receita no saneamento precisa de tecnologia, mas também de governança de dados, processos, competências profissionais e gestão da mudança.
Uma lição brasileira que continua atual: pagar por resultado
O caso histórico da Sabesp relatado pelo Banco Mundial merece ser observado não apenas pelo resultado financeiro, mas pelo modelo contratual.
Ao vincular a remuneração da contratada ao aumento de volumes faturados, o incentivo econômico foi alinhado ao resultado desejado. O mesmo manual mostra, em Porto Ferreira, entre 2002 e 2004, um contrato de substituição de pequenos medidores que teria elevado em 30% o volume medido e em 20% a receita.
Naturalmente, contratos desse tipo exigem linha de base robusta, regras contra efeitos externos, auditoria dos resultados, qualidade metrológica e mecanismos para evitar remuneração por ganhos que ocorreriam mesmo sem a intervenção.
Ainda assim, o conceito é poderoso: em determinadas situações, a companhia pode comprar resultado em vez de comprar somente atividade.
A própria NR nº 15/2025 agora reconhece contratos de performance ou eficiência entre os instrumentos que podem ser empregados nos planos de redução de perdas.
O que gestores devem observar a partir de agora
Para um gestor comercial, operacional ou executivo, talvez a principal mudança seja abandonar indicadores isolados.
Uma companhia que acompanha apenas “perdas na distribuição” pode não enxergar submedição. Quem observa apenas “volume faturado” pode não enxergar baixa arrecadação. Quem olha apenas a arrecadação pode não perceber receita que jamais chegou a ser constituída porque o cliente estava mal cadastrado ou mal medido.
O painel gerencial precisa reconstruir o caminho da água até o caixa e permitir perguntas simples: quanto entrou no sistema, quanto chegou a cada setor, quanto foi medido, quanto foi faturado, quanto foi arrecadado, onde ocorreram exceções e qual valor econômico está associado a cada desvio.
Essa visão também melhora a relação entre equipes. O profissional de campo deixa de receber apenas ordens de serviço e passa a gerar informação estratégica. O analista de dados deixa de produzir apenas dashboards e passa a orientar fiscalização e manutenção. O especialista comercial passa a entender hidráulica e medição. A engenharia passa a enxergar o efeito financeiro de decisões operacionais.
É justamente nessa integração que o conhecimento dos profissionais de saneamento ganha mais valor.
A maior oportunidade pode estar na água que a empresa já produz
Universalizar serviços exige investimento pesado em redes, produção, reservação, tratamento e atendimento. Mas existe uma fonte de capacidade muitas vezes menos visível: recuperar parte da água que já é captada, tratada e distribuída e da receita que já deveria estar sendo gerada.
Isso não significa que cada metro cúbico recuperado se converta automaticamente em receita adicional. Em sistemas sem demanda reprimida, por exemplo, reduzir perdas físicas pode gerar predominantemente economia operacional ou postergação de investimentos. Em outros contextos, pode liberar água para expansão do atendimento ou vendas adicionais.
É justamente por isso que o diagnóstico econômico é indispensável.
As melhores decisões sobre perdas de receita no saneamento não partem de slogans como “trocar todos os hidrômetros” ou “acabar com as perdas”. Partem de balanço hídrico, dados confiáveis, conhecimento do sistema, análise de retorno e capacidade de execução.
Conclusão: a próxima fronteira é proteger receita de ponta a ponta
Os 39,1% de perdas de faturamento e os 39,5% de perdas na distribuição apresentados pelo SINISA não descrevem um único defeito. Eles revelam uma cadeia complexa de ineficiências físicas e comerciais que exige diagnóstico igualmente complexo.
A principal evolução regulatória e gerencial é justamente abandonar a ideia de que todas as perdas podem ser combatidas da mesma forma.
As perdas de receita no saneamento precisam ser tratadas como uma disciplina transversal de gestão: uma combinação de engenharia, metrologia, operação, cadastro, tecnologia, faturamento, cobrança, finanças e experiência do cliente.
Companhias capazes de descobrir onde cada metro cúbico e cada real deixam a cadeia terão uma vantagem importante. Poderão priorizar melhor investimentos, recuperar receita sem simplesmente aumentar tarifas, reduzir custos, melhorar a disponibilidade hídrica e tomar decisões comerciais com uma base técnica muito mais sólida.
Para os profissionais, a mensagem também é clara. O futuro da gestão de perdas exigirá cada vez menos fronteiras rígidas entre “comercial” e “operação” e cada vez mais capacidade de conectar água, dados, ativos, clientes e resultado financeiro.
Esse talvez seja o erro número onze — e o mais estratégico de todos: acreditar que proteger receita é responsabilidade de uma única área.
Fontes e referências
- Ministério das Cidades — SINISA 2025, Abastecimento de Água. Dados ano-base 2024 sobre perdas de faturamento, perdas na distribuição, micromedição e macromedição. Acessar o relatório oficial do SINISA 2025
- ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Resolução ANA nº 275, de 18 de dezembro de 2025 — Norma de Referência nº 15/2025. Diretrizes para gestão, redução progressiva e controle das perdas de água. Acessar a Resolução ANA nº 275/2025
- Ministério das Cidades — Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024. Procedimentos relacionados aos índices de perdas e à alocação de recursos públicos federais e financiamentos. Acessar a Portaria MCID nº 788/2024
- American Water Works Association — AWWA. Metering and Accountability. Política revisada em 15 de outubro de 2024 sobre medição, dimensionamento, testes, manutenção e recuperação de receita. Acessar a política da AWWA
- U.S. Environmental Protection Agency — EPA. Lean & Water Toolkit: Chapter 2. Referência sobre dimensionamento, calibração e sub-registro de medidores. Acessar a publicação da EPA
- World Bank. The Use of Performance-Based Contracts for Nonrevenue Water Reduction. Setembro de 2018. Manual com casos de Sabesp, Porto Ferreira, ONEA/Burkina Faso e outras utilities. Acessar o manual do Banco Mundial
- Cagece — Relatório da Administração 2025, ano-base 2024. Informações sobre renovação do parque de hidrômetros e implantação de telemetria. Acessar o relatório da Cagece
- Sanepar. “Sanepar renova seu parque de hidrômetros com substituição de 380 mil equipamentos em todo o Paraná”. 17 de abril de 2026. Acessar a publicação da Sanepar
- PUB — Singapore’s National Water Agency. Smart Water Meter Programme. Programa com aproximadamente 300 mil medidores inteligentes na primeira fase, teleleitura e alertas de vazamento. Acessar o programa da PUB de Singapura
- Ofwat — Water Services Regulation Authority. Leakage. Dados do ciclo regulatório 2025–2030 sobre redução de vazamentos, investimentos e smart metering na Inglaterra e no País de Gales. Acessar a página da Ofwat sobre leakage
- Ofwat / Baringa Partners. Smart Metering Report. 2024. Evidências e aprendizados de utilities inglesas sobre smart meters, vazamentos e participação dos clientes. Acessar o relatório sobre smart metering



