Uma Estação de Tratamento de Água pode produzir milhões de litros diariamente e, ainda assim, depender de operadores para abrir válvulas, ligar bombas, interpretar turbidez, ajustar produtos químicos, iniciar lavagem de filtros e registrar informações manualmente.
A automação de ETA muda exatamente essa lógica.
Sensores passam a medir continuamente o processo. Controladores Lógicos Programáveis (CLPs) executam comandos. Válvulas e bombas respondem automaticamente. Um sistema supervisório — normalmente chamado de SCADA — apresenta a situação da estação em tempo real. Históricos permitem analisar desempenho. Alarmes antecipam problemas. Em níveis mais avançados, algoritmos podem recomendar ou ajustar parâmetros operacionais.
Mas automatizar uma ETA não significa simplesmente instalar um computador na sala de controle.
Uma automação completa pode envolver dezenas ou centenas de instrumentos, CLPs, painéis, redes industriais, atuadores, inversores de frequência, analisadores de qualidade da água, servidores, softwares, sistemas de segurança cibernética e milhares de linhas de programação.
E existe uma pergunta inevitável para qualquer gestor:
quanto custa transformar uma ETA convencional em uma ETA automatizada?
A resposta pode variar de algumas centenas de milhares a vários milhões de reais.
Contratações públicas recentes ajudam a dimensionar essa realidade. Na ETA Iguaçu, em Curitiba, a Sanepar contratou melhorias de automação envolvendo troca de CLPs, melhoria da lógica de controle, automação da lavagem dos filtros, automação das dosadoras e integração de válvulas por R$ 1,33 milhão.
Na ETA Praia de Leste, em Pontal do Paraná, uma contratação para substituição de CLPs e melhorias físicas e lógicas de automação foi vencida por R$ 2,475 milhões.
Já melhorias de automação da ETA Iraí, incluindo substituição de CLPs, rede de comunicação e atuadores pneumáticos, chegaram a R$ 2,94 milhões.
Esses valores mostram algo importante: automação de ETA deixou de ser apenas projeto de elétrica e passou a ser investimento estratégico de produção de água.
O que significa realmente automatizar uma ETA?
Uma ETA automatizada é aquela em que informações do processo são coletadas continuamente, interpretadas pelo sistema de controle e utilizadas para monitorar ou comandar equipamentos.
Entretanto, existem diferentes níveis de automação.
Uma estação pode apenas monitorar informações.
Pode monitorar e comandar remotamente.
Pode executar sequências automaticamente.
Pode controlar dosagens por malhas fechadas.
E, em um estágio mais avançado, pode utilizar modelos matemáticos, aprendizado de máquina ou inteligência artificial para apoiar decisões operacionais.
Portanto, automação não é um estado binário — automatizada ou não automatizada. Existe uma escala de maturidade.
Uma ETA pode ser classificada, de maneira prática, em cinco níveis:
Nível 0 — operação predominantemente manual
Operadores verificam equipamentos, realizam leituras, registram dados e comandam processos localmente.
Nível 1 — instrumentação digital
Variáveis importantes começam a ser medidas continuamente.
Nível 2 — supervisão
CLPs e SCADA concentram informações e permitem comandos centralizados.
Nível 3 — controle automático
Bombas, válvulas, filtros e sistemas de dosagem passam a responder automaticamente às condições do processo.
Nível 4 — otimização inteligente
Historiadores, analytics, modelos preditivos, gêmeos digitais e inteligência artificial passam a recomendar ou executar otimizações dentro de limites operacionais previamente definidos.
O erro mais comum é tentar chegar diretamente ao nível 4 sem construir corretamente os níveis anteriores.
Não existe inteligência artificial confiável sobre sensor ruim, dado inconsistente ou processo mal instrumentado.
Etapa 1 — diagnosticar a ETA antes de comprar tecnologia
O primeiro investimento não deveria ser em CLP.
Deveria ser em engenharia.
Antes de automatizar, é necessário mapear completamente a estação.
Isso inclui captação, chegada de água bruta, mistura rápida, coagulação, floculação, decantação ou flotação, filtração, desinfecção, correção de pH, fluoretação quando aplicável, reservação, bombeamento, tratamento de lodo e sistemas auxiliares.
Também precisam ser levantados:
estado dos painéis elétricos;
instrumentação existente;
válvulas automatizáveis;
motores;
bombas;
dosadoras;
inversores de frequência;
protocolos de comunicação;
diagramas elétricos;
diagramas de processo;
rede industrial;
histórico de falhas;
qualidade dos dados existentes;
obsolescência dos equipamentos.
É nessa etapa que deve nascer o Plano Diretor de Automação da ETA.
Uma estação que começa comprando equipamentos antes de definir arquitetura corre o risco de construir um mosaico de tecnologias incompatíveis.
Etapa 2 — instrumentar o processo
Nenhum sistema consegue controlar aquilo que não consegue medir.
Por isso, instrumentação é a fundação da automação.
Dependendo do processo da ETA, podem ser necessários sensores e analisadores para:
vazão de água bruta;
vazão de água tratada;
níveis de reservatórios;
pressão;
turbidez;
pH;
condutividade;
cloro residual;
cor;
temperatura;
diferencial de pressão;
nível de produtos químicos;
posição de válvulas;
consumo de energia;
estado de bombas e motores.
Algumas plantas também incorporam analisadores mais sofisticados relacionados à matéria orgânica, UV254, potencial zeta, algas ou outros parâmetros relevantes ao manancial.
No Brasil, o controle operacional precisa coexistir com as exigências sanitárias estabelecidas pela Portaria GM/MS nº 888/2021, que dispõe sobre controle, vigilância e padrão de potabilidade da água.
Entretanto, existe uma distinção importante:
instrumentação online auxilia o controle do processo, mas não substitui automaticamente todos os procedimentos laboratoriais e de amostragem exigidos pela legislação.
Etapa 3 — automatizar bombas e motores
Outro componente importante da automação de ETA está nos acionamentos.
Bombas antigas frequentemente trabalham com partidas diretas, operação fixa ou ajustes pouco eficientes.
A instalação de inversores de frequência permite modular velocidade conforme:
vazão;
pressão;
nível;
demanda;
condições hidráulicas.
O potencial econômico pode ser significativo.
Um caso divulgado pela ABB envolvendo a Saneago relatou economia de aproximadamente 25% de energia, com redução de cerca de US$ 700 mil anuais em custos de bombeamento após aplicação de motores, inversores e soluções digitais. O projeto envolve sistemas de água e esgoto e, portanto, não deve ser interpretado como resultado garantido para qualquer ETA.
Ainda assim, demonstra por que automação e eficiência energética deveriam ser planejadas juntas.
Etapa 4 — automatizar a dosagem de produtos químicos
Aqui aparece uma das maiores oportunidades.
Coagulante, alcalinizante, polímero, cloro e outros produtos representam parcela relevante do custo operacional de diversas ETAs.
Em uma planta pouco automatizada, a dosagem pode depender fortemente da experiência do operador, ensaios laboratoriais e ajustes periódicos.
Na automação básica, bombas dosadoras passam a acompanhar a vazão.
Em um estágio intermediário, variáveis da água bruta também influenciam o ajuste.
No estágio avançado, algoritmos analisam simultaneamente diferentes parâmetros e sugerem doses.
Um estudo publicado em setembro de 2026, utilizando dados de uma ETA em escala real em Xiangtan, na China, avaliou modelos de inteligência artificial associados a controle por feedback. A estratégia conseguiu reduzir o consumo médio de coagulante em 10,37% no cenário analisado, chegando a reduções maiores em determinadas condições.
Mas o resultado mais interessante talvez seja outro.
Os pesquisadores verificaram que qualidade dos dados era decisiva para o desempenho do modelo.
Essa constatação deveria estar escrita na parede de qualquer projeto de IA para saneamento:
antes de investir em inteligência artificial, é necessário investir em dados confiáveis.
Etapa 5 — automatizar filtros
A lavagem de filtros é uma das aplicações clássicas da automação de ETA.
O sistema pode considerar:
tempo de carreira;
perda de carga;
nível;
turbidez;
volume filtrado;
condição operacional.
Quando determinado critério é atingido, uma sequência automática pode retirar o filtro de operação e executar as diferentes fases da lavagem.
Isso pode envolver fechamento e abertura coordenada de válvulas, drenagem, lavagem superficial, ar, água de lavagem e retorno gradual à produção.
A automação reduz dependência de sequências manuais e melhora a repetibilidade.
Na contratação da Sanepar para a ETA Iguaçu, por exemplo, a automação da lavagem dos filtros aparece explicitamente entre as intervenções previstas.
Mas existe um cuidado essencial: automatizar uma sequência hidráulica errada apenas faz o erro acontecer automaticamente.
Antes de programar, a engenharia precisa validar o processo.
Etapa 6 — CLPs: o cérebro local da estação
O CLP recebe informações dos instrumentos e executa a lógica de controle.
Por exemplo:
“Se nível do reservatório cair abaixo de X, ligar bomba.”
“Se turbidez ultrapassar determinado limite, gerar alarme.”
“Se bomba principal falhar, acionar equipamento reserva.”
“Se filtro atingir condição de lavagem, iniciar sequência após permissivos.”
Quanto maior a criticidade da estação, maior tende a ser a preocupação com redundância.
Uma ETA importante pode possuir controladores redundantes, fontes redundantes, servidores redundantes, redes redundantes e diferentes níveis de contingência.
O objetivo não é criar complexidade tecnológica.
É impedir que uma única falha paralise a produção de água.
Etapa 7 — SCADA: a sala de controle digital
SCADA significa Supervisory Control and Data Acquisition.
É a plataforma que permite visualizar e supervisionar o processo.
O operador consegue acompanhar:
fluxogramas;
equipamentos ligados;
equipamentos parados;
vazões;
pressões;
níveis;
qualidade da água;
dosagens;
alarmes;
tendências;
consumo energético;
produção.
Além disso, dados históricos podem ser armazenados para análises posteriores.
O SCADA não deveria funcionar como uma televisão sofisticada.
Ele precisa ajudar o operador a identificar rapidamente aquilo que exige decisão humana.
Por isso, gerenciamento de alarmes merece projeto específico. A família ISA-18 apresenta princípios de ciclo de vida para sistemas de alarmes, incluindo identificação, racionalização, projeto, operação, monitoramento e gestão de mudanças.
Uma tela com centenas de alarmes piscando não significa mais controle.
Frequentemente significa exatamente o contrário.
Etapa 8 — criar um historiador de dados
Depois do SCADA, surge uma camada frequentemente subestimada: o historiador.
Ele armazena séries temporais do processo.
Com isso, torna-se possível perguntar:
Quanto coagulante foi consumido por mil metros cúbicos?
Qual filtro apresenta carreiras menores?
Qual bomba consome mais energia por metro cúbico bombeado?
Existe relação entre turbidez da água bruta e consumo químico?
Quanto tempo a ETA permanece fora da faixa operacional desejada?
Qual equipamento apresenta maior frequência de falhas?
É nesse momento que dados operacionais começam a se transformar em inteligência de gestão.
Etapa 9 — integrar ETA, laboratório, manutenção e CCO
Uma ETA verdadeiramente digital não deveria ser uma ilha.
SCADA pode conversar com:
Centro de Controle Operacional;
sistema de manutenção;
laboratório;
sistemas corporativos;
gestão energética;
business intelligence;
sistemas de ativos;
plataformas de analytics.
Isso permite cruzar operação e gestão.
Uma bomba pode apresentar aumento progressivo de vibração, consumo energético e temperatura.
Em vez de esperar a quebra, o sistema pode gerar uma recomendação de manutenção.
É a transição da manutenção corretiva para abordagens preditivas.
Etapa 10 — inteligência artificial e gêmeo digital
Depois que instrumentação, automação, comunicação e qualidade dos dados estão maduras, torna-se possível avançar.
Um gêmeo digital é uma representação digital do sistema real alimentada por dados operacionais.
Ele pode permitir simular situações antes de alterar a operação física.
Por exemplo:
O que acontece se a vazão aumentar 15%?
Qual dosagem tende a produzir melhor resultado?
Como a alteração da qualidade da água bruta afetará o tratamento?
Qual configuração reduz consumo energético?
Empresas como SUEZ e Xylem já oferecem plataformas relacionadas a digital twins, analytics e otimização de sistemas de água.
A experiência da Global Omnium, na Espanha, mostra a escala possível dessa transformação. Seu ambiente digital para Valencia integra duas estações de tratamento, 28 reservatórios, 47 bombas, 219 válvulas e mais de 20 mil leituras diárias. Segundo o estudo de caso divulgado pela Xylem, a operação registrou, entre outros resultados, redução superior a 30% de água não faturada, 20% de redução de OPEX de manutenção e 15% de economia energética em processos de tratamento.
Os números pertencem especificamente àquela aplicação e não devem ser automaticamente extrapolados para outras utilities.
Quanto custa automatizar uma ETA?
Essa é provavelmente a pergunta mais importante deste guia.
Não existe tabela universal.
Entretanto, dados de contratações reais permitem construir referências.
Na Sanepar:
ETA Iguaçu — R$ 1,33 milhão
Troca de CLPs, melhoria das lógicas, automação da lavagem dos filtros, automação de dosadoras e integração de válvulas.
ETA Praia de Leste — R$ 2,475 milhões
Substituição de controladores e melhorias físicas e lógicas de automação.
ETA Iraí — R$ 2,94 milhões
Troca de CLPs, melhoria das lógicas, substituição de rede e melhorias em atuadores.
Outro caso público, relativo à implantação do sistema de automação industrial da nova ETA Areia Branca, teve contratação adjudicada em 2025 por R$ 844 mil.
Portanto, para planejamento preliminar — e não como orçamento ou preço de mercado — uma ETA existente de médio porte pode facilmente demandar investimento total da ordem de R$ 1 milhão a R$ 4 milhões quando a intervenção envolve instrumentação relevante, CLPs, painéis, comunicação, supervisório, atuadores, engenharia e comissionamento.
Esta faixa é uma inferência técnica baseada nos contratos pesquisados, e não uma tabela oficial de preços.
Projetos simples podem ficar abaixo dela.
Projetos de grande porte, redundantes ou que exijam substituição extensa de infraestrutura podem ultrapassá-la significativamente.
Quanto custa cada etapa?
Para um estudo de viabilidade preliminar, uma divisão possível seria:
Diagnóstico, engenharia e projeto: aproximadamente 5% a 10% do investimento.
Instrumentação: aproximadamente 15% a 30%.
Painéis, CLPs, remotas e I/O: aproximadamente 15% a 25%.
Atuadores, válvulas e adequações eletromecânicas: aproximadamente 15% a 30%.
Redes industriais e telecomunicações: aproximadamente 5% a 10%.
SCADA, servidores, historiador e software: aproximadamente 5% a 15%.
Programação, integração e desenvolvimento das lógicas: aproximadamente 10% a 20%.
Comissionamento, testes e treinamento: aproximadamente 5% a 10%.
Cibersegurança, redundância e contingência: podem acrescentar aproximadamente 5% a 15%, dependendo da arquitetura.
Os percentuais não devem ser somados mecanicamente, porque vários escopos se sobrepõem. São faixas referenciais para estruturar CAPEX preliminar.
Assim, em um projeto hipotético de R$ 2 milhões, apenas a instrumentação poderia representar algumas centenas de milhares de reais.
O custo real precisa nascer do levantamento de campo e da lista de I/O.
O melhor orçamento começa pela lista de I/O
Uma das maneiras mais profissionais de estimar automação é abandonar inicialmente a pergunta “quanto custa automatizar a ETA?” e perguntar:
quantos pontos precisam ser medidos e controlados?
A engenharia monta uma lista contendo:
entradas digitais;
saídas digitais;
entradas analógicas;
saídas analógicas;
instrumentos inteligentes;
motores;
válvulas;
inversores;
analisadores;
equipamentos comunicáveis.
Depois disso, define-se a arquitetura.
Essa abordagem produz orçamento muito mais confiável.
O Brasil já está fazendo isso
A automação não é uma tendência distante.
A Cagece informou investimento superior a R$ 102 mil na automação do sistema de abastecimento de Lavras da Mangabeira, incluindo quatro Unidades de Transmissão Remota para acompanhamento desde a captação e ETA até reservatórios.
Em Itapipoca, a companhia também automatizou a ETA para acompanhar remotamente e em tempo real variáveis de processo e qualidade.
Em outro movimento importante, Cagece e SENAI estruturaram iniciativa de inovação que inclui como desafio a otimização preditiva e automação de ETAs com inteligência artificial.
A Caesb também registrou investimentos relacionados a Centro de Controle de Motores e quadro de automação para processos de filtração e dosagem de produtos químicos na ETA Engenho das Lages.
Na iniciativa privada, a Águas de Teresina, operação da Aegea, já relatava investimento superior a R$ 4 milhões em automação e telemetria de dezenas de instalações de saneamento, com previsão à época de chegar a R$ 8 milhões até 2025.
Portanto, diferentes modelos de operador estão percorrendo a mesma direção: mais instrumentação, telemetria, automação e controle centralizado.
Quais empresas possuem tecnologia para automatizar ETAs?
O mercado é dividido entre fabricantes de tecnologia, empresas de instrumentação, fornecedores de software e integradores.
Entre os grandes fornecedores internacionais encontrados durante a pesquisa estão:
ABB — automação, SCADA, instrumentação, motores, inversores, eletrificação e soluções digitais.
Rockwell Automation — CLPs, DCS, FactoryTalk, supervisão, controle de motores e soluções específicas para tratamento de água.
Schneider Electric / AVEVA — CLPs, automação, SCADA, sistemas industriais, edge computing e aplicações de IA.
Siemens — controladores SIMATIC, sistemas de processo, telecontrole e automação industrial.
Endress+Hauser — instrumentação de vazão, nível, pressão e analisadores de qualidade da água.
Xylem — instrumentação, bombeamento, analytics, plataformas digitais e soluções de otimização.
SUEZ — soluções digitais e gêmeos digitais aplicados ao tratamento e gestão de água.
Além dos fabricantes, existe uma camada essencial: o integrador de sistemas.
No Brasil, empresas especializadas desenvolvem projeto, fabricam painéis, programam CLPs, implantam SCADA, instalam instrumentos e realizam comissionamento.
A Hidryco, por exemplo, apresenta projeto de automação da ETA Mata do Rolo para a BRK Ambiental envolvendo montagem elétrica, instrumentação, lógicas de controle, comissionamento e integração ao Plant SCADA.
A Infitech divulga projetos de automação de ETA e sistemas de distribuição, além de trabalhos para companhias como Cagece e Embasa.
A escolha, portanto, não deveria ser apenas “qual fabricante comprar?”.
A pergunta correta é:
quem será responsável pela arquitetura, integração, programação, documentação e suporte durante todo o ciclo de vida?
Cibersegurança precisa nascer junto com a automação
Quanto mais conectada a ETA, maior sua superfície digital de ataque.
Esse não é risco teórico.
Em 2021, invasores conseguiram acessar remotamente o sistema SCADA de uma instalação de tratamento de água nos Estados Unidos e alterar a dosagem de hidróxido de sódio. Operadores perceberam a alteração e corrigiram a situação antes que a água fosse afetada.
O caso tornou-se referência mundial.
A EPA dos Estados Unidos atualmente recomenda avaliações recorrentes de segurança de sistemas IT e OT, inventário de ativos, gestão de acessos, planos de resposta e controles de segurança.
Portanto, uma ETA moderna deveria considerar desde o projeto:
segmentação IT/OT;
firewalls industriais;
controle de usuários;
privilégio mínimo;
autenticação multifator onde aplicável;
backup offline;
registro de eventos;
gestão de patches;
inventário de ativos;
restrição de acesso remoto;
plano de recuperação;
operação degradada ou manual.
A pergunta fundamental é simples:
a ETA consegue continuar produzindo água com segurança se o SCADA ficar indisponível?
Curiosamente, a EPA realizou em 2026 um exercício nacional justamente com esse conceito: utilities deveriam testar sua capacidade de operar em ambiente com telecomunicações, internet e acesso remoto ao SCADA indisponíveis ou degradados.
Automação sem contingência pode criar nova vulnerabilidade.
O que pode dar errado
Existem vários caminhos para um projeto de automação fracassar.
O primeiro é automatizar processo que não está tecnicamente estabilizado.
O segundo é comprar equipamentos antes de definir arquitetura.
O terceiro é instalar sensores e não criar rotina de calibração.
O quarto é produzir milhares de dados sem definir indicadores.
O quinto é criar centenas de alarmes inúteis.
O sexto é permitir dependência excessiva de um fornecedor.
O sétimo é não documentar programas, senhas, parâmetros, redes e lógicas.
O oitavo é esquecer treinamento.
E talvez o mais perigoso seja retirar completamente o conhecimento operacional humano do processo.
Automação não elimina o operador
Ela muda o trabalho do operador.
O profissional deixa progressivamente de executar comandos repetitivos para supervisionar processos, interpretar tendências, investigar anomalias e tomar decisões.
Isso exige novas competências.
Operadores de ETA do futuro precisarão compreender cada vez mais:
instrumentação;
automação;
dados;
SCADA;
controle de processos;
eficiência energética;
cibersegurança;
analytics.
Ao mesmo tempo, engenheiros de automação precisam entender tratamento de água.
Esse encontro entre conhecimento de processo e conhecimento digital provavelmente será uma das competências mais valorizadas do saneamento.
Como automatizar sem tentar fazer tudo de uma vez
Uma estratégia racional é executar a transformação por ondas.
Primeira onda: medir.
Instrumentação confiável e telemetria.
Segunda onda: enxergar.
SCADA, históricos, dashboards e alarmes.
Terceira onda: controlar.
Bombas, válvulas, filtros e dosagens.
Quarta onda: integrar.
CCO, manutenção, laboratório e sistemas corporativos.
Quinta onda: otimizar.
Analytics, manutenção preditiva, controle avançado, inteligência artificial e gêmeo digital.
Essa sequência reduz risco tecnológico e permite demonstrar resultados em cada etapa.
Quais indicadores deveriam medir o resultado?
Automação não deveria ser avaliada pelo número de telas instaladas.
Os indicadores precisam mostrar desempenho.
Entre os mais úteis estão:
kWh por m³ produzido;
kg de coagulante por 1.000 m³;
kg de cloro por 1.000 m³;
água utilizada na lavagem dos filtros;
tempo médio das carreiras de filtração;
percentual de água utilizada internamente;
horas de indisponibilidade;
número de intervenções manuais;
alarmes por operador;
falhas de instrumentos;
custo operacional por m³;
percentual de operação automática;
desvios dos parâmetros de processo.
Somente depois de medir esses indicadores será possível responder se a automação realmente trouxe retorno.
A próxima ETA pode funcionar de forma muito diferente
O avanço tecnológico aponta para uma mudança importante.
A ETA tradicional é operada olhando o presente.
A ETA digital começa a operar olhando também o futuro.
Sensores mostram o que está acontecendo.
Historiadores mostram o que aconteceu.
Analytics mostram padrões.
Modelos preditivos estimam o que provavelmente acontecerá.
E sistemas de otimização indicam qual ação pode produzir melhor resultado.
É a evolução de:
monitorar → controlar → prever → otimizar.
Mas existe uma condição.
A tecnologia precisa permanecer subordinada à segurança da água.
Nenhum algoritmo deveria ter liberdade irrestrita para alterar processos críticos sem limites, intertravamentos, validação e possibilidade de intervenção humana.
Lições para profissionais de saneamento
A principal transformação provocada pela automação de ETA talvez não esteja dentro do painel elétrico.
Está na maneira de administrar a estação.
Uma ETA automatizada pode gerar milhões de registros operacionais.
Isso permite substituir decisões baseadas apenas em percepção por decisões baseadas também em evidências.
O operador experiente continua fundamental.
Mas sua experiência passa a ser amplificada por dados.
O engenheiro consegue comparar filtros.
A manutenção consegue identificar equipamentos deteriorando.
A gestão consegue acompanhar consumo químico.
O laboratório consegue relacionar qualidade e processo.
O executivo consegue enxergar custo por metro cúbico.
A automação conecta essas informações.
Conclusão
A automação de ETA não deveria ser tratada simplesmente como projeto de compra de CLPs, sensores e software.
Ela representa uma transformação do modelo operacional da produção de água.
O caminho mais seguro começa com diagnóstico e engenharia, avança por instrumentação confiável, CLPs, redes, SCADA, controle automático e integração de dados e somente depois chega a inteligência artificial e gêmeos digitais.
Casos brasileiros mostram que projetos relevantes de modernização podem demandar investimentos de aproximadamente R$ 1 milhão a R$ 3 milhões ou mais, dependendo do porte e do escopo. Projetos menores podem custar muito menos; grandes ETAs e arquiteturas de alta disponibilidade podem superar amplamente essas referências.
O retorno também não deve ser procurado apenas na redução de mão de obra.
Ele pode aparecer em consumo energético, produtos químicos, redução de perdas, disponibilidade, estabilidade do tratamento, vida útil dos equipamentos, produtividade, rastreabilidade e velocidade de resposta.
Mas a maior oportunidade está na informação.
Durante décadas, muitas ETAs produziram água e perderam diariamente milhares de dados que poderiam explicar como operar melhor.
A automação permite capturá-los.
O SCADA permite visualizá-los.
O historiador permite compará-los.
A inteligência artificial pode ajudar a interpretá-los.
E os profissionais de saneamento continuam responsáveis pela etapa mais importante:
transformar dados em decisões que produzam água com qualidade, segurança, eficiência e confiabilidade.
Fontes e referências
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Licitação Eletrônica nº 201/2025 — melhorias no sistema de automação da ETA Iguaçu; valor contratado de R$ 1,33 milhão.
Consultar processo da ETA Iguaçu
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Licitação Eletrônica nº 358/2025 — melhorias na automação da ETA Praia de Leste; contrato vencedor de R$ 2,475 milhões.
Consultar processo da ETA Praia de Leste
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Licitação Eletrônica nº 245/2024 — automação da ETA Iraí e instalações associadas; contrato vencedor de R$ 2,94 milhões.
Consultar processo da ETA Iraí
Tribunal de Contas do Estado de Sergipe
Ata de contratação do sistema de automação industrial da Nova ETA Areia Branca — adjudicação de R$ 844 mil, 2025.
Consultar ata da contratação
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Cagece inicia monitoramento em tempo real do sistema de abastecimento em Lavras da Mangabeira — 4 de outubro de 2024.
Consultar publicação da Cagece
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Obra da Cagece garante continuidade no abastecimento de Itapipoca — 30 de outubro de 2025.
Consultar publicação da Cagece
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Relatório institucional — parceria Cagece/SENAI e desafio de otimização preditiva e automação de ETAs com inteligência artificial, 2025.
Consultar documento institucional
Caesb — Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal
Demonstrações anuais — automação dos processos de filtração e dosagem da ETA Engenho das Lages.
Consultar documento da Caesb
Aegea Saneamento / Águas de Teresina
Menor custo operacional com telemetria e automação — 10 de agosto de 2021.
Consultar publicação da Aegea
Ministério da Saúde
Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021 — procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e padrão de potabilidade.
Consultar Portaria GM/MS nº 888/2021
Long, Y. et al. — Processes
Data-Driven Optimization of Coagulant Dosing and Cost Control in a Full-Scale Drinking Water Treatment Plant: A Case Study in Xiangtan, China — 4 de setembro de 2026.
Consultar estudo científico
Xylem / Global Omnium
How a digital twin has enhanced daily operations in Global Omnium’s drinking water network.
Consultar estudo de caso da Global Omnium
SUEZ
Digital Twin: a tool to optimise water treatment plant management.
Consultar solução de Digital Twin da SUEZ
ABB
Automation and SCADA — Solutions for water and wastewater plants.
Consultar soluções ABB para automação e SCADA
ABB / Saneago
Water company in Brazil gets 25% energy savings and better uptime with ABB drives, motors and digital powertrain solutions — 25 de abril de 2021.
Consultar estudo de caso da Saneago
Rockwell Automation
Tratamento de água automatizado — soluções integradas de controle, SCADA, dados e automação para estações de tratamento.
Consultar soluções Rockwell para tratamento de água
Schneider Electric
Unleashing Artificial Intelligence on the Industrial Edge to Revolutionize SCADA Systems — Use Cases in the Water & Wastewater Industry — 20 de agosto de 2024.
Consultar documento técnico da Schneider Electric
Endress+Hauser
Water & wastewater treatment plant services — instrumentação, analisadores, comissionamento e manutenção.
Consultar soluções Endress+Hauser
Xylem
Xylem Vue Drinking Water — plataforma para gestão, monitoramento e otimização de sistemas de água potável.
Consultar Xylem Vue Drinking Water
International Society of Automation — ISA
ISA-18 Series of Standards — gerenciamento do ciclo de vida de alarmes em sistemas industriais.
Consultar ISA-18
U.S. Environmental Protection Agency — EPA
Guidance on Improving Cybersecurity at Drinking Water and Wastewater Systems — revisão de agosto de 2024.
Consultar guia de cibersegurança da EPA
U.S. Environmental Protection Agency — EPA
2026 National Cyber Drill — exercício para operação de utilities com SCADA, internet e telecomunicações degradados ou indisponíveis.
Consultar exercício nacional da EPA
CISA — Cybersecurity and Infrastructure Security Agency
Compromise of U.S. Water Treatment Facility — incidente de acesso não autorizado ao SCADA de instalação de água, 11 de fevereiro de 2021.
Consultar alerta da CISA
Hidryco Smart Water
Case ETA Mata do Rolo — montagem elétrica, instrumentação, lógica operacional, comissionamento e integração SCADA.
Consultar case da ETA Mata do Rolo
Infitech Automação
Projetos de automação industrial e hídrica, incluindo automação de ETA e sistemas de distribuição de água.
Consultar projetos da Infitech



