O Brasil registrou 39,53% de perdas de água na distribuição em 2024, segundo estudo do Instituto Trata Brasil elaborado a partir dos dados do SINISA. O levantamento estima em aproximadamente 4,4 bilhões de metros cúbicos o volume anual das perdas físicas. É nesse cenário que o monitoramento de pressão e vazão deixa de ser simplesmente uma ferramenta de automação e passa a ocupar uma posição central na estratégia operacional das companhias de saneamento. (Trata Brasil)
Mas existe uma armadilha: instalar centenas de sensores não significa necessariamente conhecer melhor a rede.
As operações mais avançadas combinam macromedição confiável, sensores de pressão bem posicionados, Distritos de Medição e Controle (DMCs) hidraulicamente consistentes, telemetria, modelagem hidráulica e plataformas capazes de transformar milhões de registros em decisões operacionais.
Portanto, a pergunta mais útil não é simplesmente “qual é o melhor sensor?”. A questão estratégica é outra:
qual arquitetura de monitoramento permite descobrir mais rapidamente onde a água está sendo perdida, onde a pressão está inadequada e qual intervenção deve ser priorizada?
A experiência brasileira e internacional mostra que a resposta envolve muito mais do que comprar equipamentos.
Monitoramento de pressão e vazão virou infraestrutura de gestão
A importância do tema aumentou inclusive no ambiente regulatório brasileiro.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução ANA nº 275/2025, estabelece diretrizes para gestão progressiva e controle das perdas de água. A norma trata a macromedição como medição realizada em pontos estratégicos, incluindo adutoras, reservatórios e Distritos de Medição e Controle.
Mais importante: a própria ANA cita explicitamente telemetria, sensores de pressão, vazão e ruído, modelos de previsão de vazamentos, sistemas de georreferenciamento e medição inteligente como tecnologias que podem integrar os planos de controle de perdas. A verificação das ações regulatórias previstas na norma começa em maio de 2028. (Serviços e Informações do Brasil)
Paralelamente, a Portaria MCID nº 788/2024 condiciona determinados recursos públicos federais e financiamentos com recursos da União ao desempenho relacionado às perdas. Para o período entre 2026 e 2032, os parâmetros indicados são de até 30% de perdas na distribuição e 263 litros por ligação por dia. A partir de 2033, os valores passam para 25% e 216 litros por ligação por dia. (Serviços e Informações do Brasil)
Ou seja: medir bem a rede influencia operação, planejamento, regulação, investimentos e capacidade de demonstrar resultados.
Pressão e vazão contam histórias diferentes da mesma rede
Um sistema pode apresentar vazão anormal sem que a causa seja imediatamente visível. Pode existir um grande vazamento subterrâneo, consumo industrial noturno, reservatório sendo abastecido ou uma fronteira de setor incorretamente cadastrada.
Da mesma forma, a pressão pode cair porque a demanda aumentou, uma válvula foi fechada, ocorreu rompimento, uma bomba perdeu rendimento ou a rede simplesmente não possui capacidade hidráulica suficiente.
É por isso que pressão e vazão precisam ser analisadas conjuntamente.
Em um DMC corretamente delimitado, o macromedidor registra tudo que entra no setor. Os sensores de pressão mostram como essa água está sendo distribuída hidraulicamente.
Durante os horários de menor consumo, a análise da vazão mínima noturna torna-se particularmente útil. Entretanto, não se pode assumir que toda vazão noturna representa vazamento. É necessário descontar o consumo legítimo — especialmente em regiões com hospitais, indústrias, condomínios com reservatórios ou outras demandas contínuas.
Documentos técnicos do Banco Mundial destacam justamente a combinação entre DMCs, vazão mínima noturna, pressão e consumo autorizado como instrumento para estimar perdas reais e direcionar pesquisas de vazamentos. (World Bank)
Essa é uma diferença fundamental entre ter dados e ter inteligência operacional.
Como funciona uma arquitetura moderna de monitoramento
Uma rede de monitoramento de pressão e vazão madura pode ser entendida em quatro camadas.
A primeira é a instrumentação. Nela estão macromedidores, transdutores de pressão, sensores de nível, medidores nos DMCs e, quando necessário, equipamentos específicos para registrar transitórios hidráulicos.
A segunda é a telemetria. Dataloggers, RTUs e gateways coletam os sinais, armazenam dados localmente e os enviam por 4G, LTE-M, NB-IoT, LoRaWAN, rádio ou outras arquiteturas.
A terceira camada é formada pelos sistemas de SCADA, supervisão, GIS e modelagem hidráulica.
Finalmente existe a camada analítica, capaz de procurar padrões, gerar alarmes e correlacionar pressão, vazão, consumo, ativos e histórico de ocorrências.
O salto de maturidade acontece quando essas quatro camadas deixam de funcionar isoladamente.
Um alarme de vazão elevada, por exemplo, pode ser relacionado automaticamente à queda de pressão em um ponto crítico e ao histórico de rompimentos daquela tubulação. A equipe deixa de procurar um problema em dezenas de quilômetros de rede e passa a trabalhar em uma área muito menor.
Quais são as melhores ferramentas do mercado?
Não existe um equipamento que possa ser considerado universalmente “o melhor”. O mercado possui tecnologias excelentes para aplicações diferentes.
A seleção abaixo reúne referências técnicas relevantes identificadas na pesquisa, e não constitui ranking comercial ou recomendação de compra.
Aplicação
Soluções de referência
Onde fazem mais sentido
Macromedição permanente
Siemens SITRANS FM MAG 8000, KROHNE WATERFLUX 3070, Endress+Hauser Promag W 800
DMCs, adutoras, reservatórios e pontos remotos
Monitoramento remoto de pressão e vazão
HWM MultiLog 2, Ovarro XiLog
Rede existente, VRPs, DMCs e estações elevatórias
Transitórios hidráulicos
HWM Pressure Transient
Golpe de aríete, fechamento de válvulas e partidas/paradas de bombas
Medição sem cortar tubulação
Emerson Flexim FLUXUS
Campanhas de medição, diagnóstico e tubulações onde a intervenção é difícil
Analytics e gêmeo digital
Bentley OpenFlows WaterSight
Integração entre SCADA, GIS, modelo hidráulico e sensores
Detecção automática de eventos
TaKaDu CEM
Grandes redes já instrumentadas e com múltiplas fontes de dados
Sensor + analytics desenvolvido no Brasil
Órion Alfa/Galax.ia
Pressão, vazão e aplicações de inteligência analítica em redes
As diferenças entre elas merecem atenção.
Medidor eletromagnético: referência para DMCs
Para macromedição permanente, os medidores eletromagnéticos continuam sendo uma das soluções mais consolidadas.
O Siemens SITRANS FM MAG 8000, por exemplo, possui versões alimentadas por bateria e comunicação LTE-M, NB-IoT ou LoRaWAN. A linha cobre diâmetros de DN 25 a DN 1.200 e possui configuração IP68 para aplicações sujeitas a alagamentos ou instalações subterrâneas. (Siemens)
O KROHNE WATERFLUX 3070 também é direcionado explicitamente a DMCs e macromedição de água. Pode operar com bateria e incorporar medição de pressão e temperatura, criando em um mesmo ponto informações úteis tanto para o balanço hídrico quanto para a gestão hidráulica. (Australia)
Já o Promag W 800, da Endress+Hauser, foi desenvolvido para locais onde não existe alimentação elétrica convencional, utilizando bateria e transmissão celular. O fabricante informa autonomia de até 15 anos em determinadas configurações — número que deve sempre ser analisado considerando frequência de transmissão, temperatura, qualidade do sinal e configuração efetivamente contratada. (Endress+Hauser)
Para um gestor, entretanto, existe um critério frequentemente mais importante que a marca: capacidade de medir com qualidade as baixas vazões.
É justamente durante períodos de baixa demanda que muitos DMCs revelam vazamentos anteriormente invisíveis.
Dataloggers: pequenas caixas que podem revelar grandes problemas
Quando já existe medidor, transdutor ou outro instrumento instalado, frequentemente não é necessário substituir todo o conjunto.
Dataloggers permitem aproveitar a instrumentação existente e levar os dados para o centro de controle.
O HWM MultiLog 2 foi projetado justamente para monitoramento multicanal de pressão e vazão em pontos como DMCs, VRPs e estações de bombeamento. (HWM Global)
A linha XiLog, da Ovarro, também permite registrar simultaneamente parâmetros como pressão e vazão, transmitir os dados remotamente e integrá-los a sistemas SCADA por API. (Ovarro)
Esse tipo de equipamento possui uma vantagem estratégica: permite expandir a observabilidade da rede sem necessariamente reconstruir sua arquitetura de automação.
Mas a escolha precisa considerar cobertura de telecomunicação, autonomia real da bateria, memória interna, resistência à inundação, frequência de aquisição, disponibilidade de assistência técnica e capacidade de exportar dados.
Um logger fechado em uma plataforma proprietária pode se transformar em problema anos depois.
Nem todo problema de pressão aparece em registros de 15 minutos
Existe ainda outra categoria muitas vezes negligenciada: os transitórios hidráulicos.
Um sistema pode apresentar pressão média aparentemente normal e, mesmo assim, sofrer picos rápidos capazes de acelerar rompimentos de rede.
Fechamentos de válvulas, desligamentos de bombas e alterações abruptas de velocidade provocam eventos que podem durar segundos ou frações de segundo.
Para esses casos, um datalogger convencional pode simplesmente não enxergar o fenômeno.
O HWM Pressure Transient, por exemplo, registra eventos a até 100 Hz, permitindo observar variações que desapareceriam completamente em uma série histórica baseada em intervalos de minutos. (HWM Global)
Esse detalhe muda a investigação.
Uma companhia pode substituir repetidamente um trecho de tubulação acreditando ter um problema exclusivamente de material, quando a verdadeira causa está na operação hidráulica.
E quando não é possível cortar a tubulação?
Há situações em que instalar um macromedidor convencional exige parar o abastecimento, escavar ou realizar intervenções de grande porte.
É justamente onde os medidores ultrassônicos clamp-on ganham valor.
Equipamentos como a família FLUXUS, atualmente comercializada pela Emerson, utilizam transdutores instalados externamente na tubulação. Existem versões portáteis para campanhas e versões permanentes direcionadas a sistemas de água.
O FLUXUS F401, por exemplo, pode ser utilizado em campanhas prolongadas sem interromper o processo. Outros modelos da família são destinados a instalações permanentes em redes de abastecimento. (Emerson)
Para diagnóstico, balanços temporários e validação de medidores instalados, essa flexibilidade pode representar enorme ganho operacional.
Entretanto, instalação clamp-on não elimina a necessidade de engenharia. Material da tubulação, espessura, incrustações, perfil hidráulico e condições de montagem influenciam a qualidade da medição.
O software começa onde termina o sensor
Uma companhia pode instalar mil sensores e continuar trabalhando de forma reativa.
Esse é provavelmente um dos maiores riscos da digitalização.
O OpenFlows WaterSight, da Bentley, integra informações provenientes de SCADA, GIS, modelos hidráulicos, IoT, AMI e outros sistemas. A plataforma utiliza esses dados em um gêmeo digital operacional para acompanhar pressão e vazão, identificar anomalias e simular eventos. (Bentley)
O TaKaDu segue outra lógica complementar: centraliza dados de pressão, vazão, níveis, medidores e outros sistemas e utiliza técnicas estatísticas e machine learning para identificar eventos operacionais e acompanhar sua resolução. (TaKaDu)
A tecnologia é importante. Porém, a principal transformação está no processo.
O objetivo final não deveria ser criar um dashboard bonito.
Deveria ser reduzir o intervalo entre anomalia → diagnóstico → localização → ordem de serviço → reparo → verificação do resultado.
É nesse ciclo que tecnologia passa a gerar retorno financeiro.
Quais companhias brasileiras possuem soluções de referência?
Não existe hoje um indicador nacional padronizado capaz de dizer qual companhia possui “a melhor rede de monitoramento de pressão e vazão do Brasil”.
Número de sensores também não resolveria a comparação. Uma companhia poderia possuir milhares de instrumentos e baixa integração entre eles.
Por isso, a pesquisa identificou casos brasileiros particularmente relevantes e publicamente documentados, cada um com uma competência diferente.
Sanepar: escala e continuidade em telemetria
A Sanepar é um dos exemplos brasileiros mais consistentes quando o critério é capilaridade da telemetria.
Em fevereiro de 2026, a companhia informou possuir 100 pontos de telemetria nas redes de água de Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná, integrados ao Centro de Controle Operacional e utilizados para identificar alterações de pressão, entre outras variáveis. (Sanepar)
O aspecto mais interessante aparece, entretanto, quando se examinam suas contratações.
A empresa mantém processos específicos para instalação, manutenção e monitoramento remoto de pressão, nível e vazão em diferentes regionais. Em Campo Mourão, uma licitação dessa natureza teve valor contratado de cerca de R$ 1,07 milhão; em Paranavaí, aproximadamente R$ 1,19 milhão; e em Cornélio Procópio, cerca de R$ 1,89 milhão. (Sanepar Licitações)
Isso revela algo mais importante que o equipamento: telemetria tratada como serviço operacional permanente, com manutenção e disponibilidade incorporadas ao modelo.
Cagece: DMC como projeto estrutural
A Cagece apresenta outro modelo interessante.
Em Juazeiro do Norte, a companhia implantou um projeto superior a R$ 130 milhões que combina Distritos de Medição e Controle, setorização, controle de pressão e vazão, novas redes, reservação e renovação de ligações.
Segundo a companhia, os DMCs permitem verificar automaticamente o volume que entra em cada distrito e confrontá-lo com o volume faturado. O projeto também inclui mais de 150 quilômetros de novas redes e substituição ou padronização de mais de 15 mil ligações. (Cagece)
Em paralelo, a Cagece utiliza dataloggers para registrar continuamente pressão nas redes e detectar anormalidades. (Cagece)
A principal lição desse caso é clara: sensor funciona melhor quando está inserido em uma arquitetura hidráulica organizada.
Caesb: pressão, VRP, modelagem e telemetria
A Caesb apresenta um dos casos brasileiros mais interessantes de integração entre monitoramento e controle de pressão.
Seu Relatório de Gestão 2023 registrou mais de 600 pontos de telemetria em tubulações e válvulas redutoras de pressão para acompanhamento de vazões e pressões, além de investimento previsto de R$ 5,2 milhões até 2026 nessa frente.
O programa também incorporou moduladores automáticos em VRPs e painéis de business intelligence. (Caesb)
O Relatório de Gestão 2025 mostra continuidade: a empresa informou expansão do parque de VRPs, macromedidores e medidores de vazão com telemetria. (Caesb)
Aqui existe uma evolução importante: não apenas medir pressão, mas atuar sobre ela.
Águas Guariroba: analytics associado a resultado operacional
A Águas Guariroba, operação da Aegea em Campo Grande, merece atenção por combinar tecnologia e um indicador público de longo prazo.
Segundo informações corporativas da Aegea, o índice de perdas na distribuição passou de 57% em 2005 para 19,9% em 2024. É importante ressaltar que essa evolução não decorre de uma tecnologia isolada, mas de um conjunto de ações acumuladas ao longo de muitos anos. (Aegea)
Entre as ferramentas utilizadas, a própria empresa cita o TaKaDu para monitoramento e analytics em tempo real, juntamente com outras tecnologias de pesquisa de vazamentos. (Aegea)
É um caso particularmente relevante porque demonstra algo que frequentemente se perde no debate tecnológico: o objetivo não é possuir IA. É sustentar um programa de perdas capaz de transformar dados em intervenções durante anos.
Sabesp: escala de digitalização
Na Sabesp, o diferencial é a escala.
Em fevereiro de 2026, foi iniciado um programa para substituir 4,4 milhões de hidrômetros por modelos inteligentes em São Paulo e São José dos Campos. Os equipamentos possibilitam acompanhamento mais frequente do consumo e identificação de comportamentos anormais. (Agência SP)
Em abril, foi instalada em Itapevi uma válvula compacta automatizada destinada a controlar vazão e contribuir para gestão de pressão e prevenção de rompimentos. (Agência SP)
A leitura estratégica aqui é interessante: a fronteira entre micromedição comercial e monitoramento operacional está ficando cada vez menor.
Milhões de medidores conectados formam também uma enorme rede de informação sobre a demanda.
BRK: pressão e inteligência artificial
Em Cachoeiro de Itapemirim, a BRK passou a utilizar uma solução que combina dataloggers avançados de pressão e inteligência artificial, em parceria com a plataforma Galax.ia.
Segundo a concessionária, o objetivo é utilizar as oscilações hidráulicas para identificar padrões associados a perdas e direcionar equipes de campo. (BRK Ambiental)
O caso é relevante como tendência tecnológica, embora não deva ser confundido com evidência de ganho consolidado enquanto não houver publicação de séries comparáveis de resultado.
Essa distinção é essencial em inovação: piloto promissor não é o mesmo que resultado comprovado em escala.
Copasa: sensores instalados no hidrômetro em avaliação
A Copasa iniciou em Araxá, no fim de 2025, um teste com 24 sensores Órion Alfa, distribuídos em áreas com diferentes perfis de consumo.
Os dispositivos acompanham pressão e enviam as informações para uma plataforma em nuvem que emprega inteligência artificial na identificação de padrões. O teste foi planejado para durar 12 meses. (Agência Minas)
Portanto, em setembro de 2026, trata-se ainda de um caso que deve ser acompanhado como experimento tecnológico, e não apresentado como resultado consolidado.
Ao mesmo tempo, a companhia vem ampliando ações de controle de perdas, automação, renovação de hidrômetros e gestão de pressão. A Copasa informou que as perdas na distribuição chegaram a 35,6% em 2025, considerando também a alteração metodológica adotada pelo regulador. (Notícias Copasa)
Iguá: investimento crescente em setorização e gestão de pressão
A Iguá informou ter investido mais de R$ 200 milhões entre 2024 e 2025 em medidas de redução de perdas e projetou R$ 228,6 milhões adicionais para 2026 em operações como Cuiabá, Rio de Janeiro, Paranaguá e Sergipe.
As frentes incluem setorização, gestão de pressão, ampliação da macromedição, renovação de redes e pesquisa de vazamentos. (Iguá SA)
A companhia também relata utilização de sensores, automação e Centros de Controle Operacional para acompanhamento contínuo de pressão, nível e vazão. (Iguá SA)
Então quem está mais avançado no Brasil?
Pelas evidências públicas encontradas, não seria tecnicamente correto escolher um único vencedor.
Entretanto, alguns benchmarks por competência ficam claros.
A Sanepar apresenta forte evidência de institucionalização e escala de telemetria.
A Cagece se destaca por integrar DMC, infraestrutura física, micromedição e controle hidráulico em um grande projeto.
A Caesb oferece um caso especialmente interessante em gestão ativa de pressão e VRPs.
A Águas Guariroba/Aegea possui um dos melhores exemplos publicamente documentados de combinação entre analytics e trajetória de redução de perdas.
A Sabesp trabalha em uma escala de digitalização raramente encontrada no país.
Já BRK e Copasa oferecem casos relevantes para acompanhar a nova geração de analytics e IA associados à pressão da rede.
Iguá, por sua vez, merece atenção pela escala recente de investimentos em setorização, macromedição e gestão de pressão.
Portanto, para benchmarking, a melhor estratégia não seria perguntar “qual companhia copiar?”, mas qual competência de cada uma deveria ser estudada.
O que Singapore ensina ao Brasil
No exterior, Singapore oferece um dos benchmarks mais completos.
A PUB, agência nacional de água de Singapore, administra aproximadamente 6.000 quilômetros de redes de água potável. Em 2024, foram reparados 267 vazamentos em tubulações, equivalente a cerca de 4,5 ocorrências por 100 quilômetros de rede.
A utility possui ainda 1.500 sensores permanentes de detecção de vazamentos, complementados por pesquisas acústicas. (Publicações do Governo de Singapura)
Relatório de sustentabilidade da PUB aponta perdas na distribuição da ordem de 8%, com sensores de vazão espalhados pela rede auxiliando na identificação de anomalias. (Publicações do Governo de Singapura)
O trabalho continua evoluindo.
A primeira fase do programa de smart metering já alcançou cerca de 300 mil medidores inteligentes, capazes de transmitir dados automaticamente. (Publicações do Governo de Singapura)
Além disso, a PUB estudou em 2025 um conceito ainda mais interessante: hidrômetros ultrassônicos DN15 contendo sensores acústicos de vazamento e conectividade NB-IoT. A proposta é transformar o hidrômetro do cliente em um ponto adicional de observabilidade da própria rede. (Publicações do Governo de Singapura)
Esse movimento provavelmente antecipa uma tendência global.
O hidrômetro deixará de ser apenas instrumento de faturamento.
Passará também a funcionar como sensor distribuído da infraestrutura.
Dinamarca mostra o próximo passo: controlar pela pressão real da rede
Outro benchmarking relevante vem da Frederiksberg Forsyning, na Dinamarca.
Em dois DMCs da região de Copenhagen, sensores instalados na rede fornecem dados de pressão para um sistema de controle adaptativo das bombas. Em vez de simplesmente bombear mantendo um valor fixo, a operação ajusta a pressão à demanda observada na própria rede.
O projeto utiliza modelagem hidráulica e o conceito Demand Driven Distribution. (IWA Network)
Essa diferença é fundamental.
Monitoramento tradicional pergunta:
“Qual é a pressão?”
Gestão inteligente pergunta:
“Qual é a menor pressão que pode ser utilizada agora sem comprometer o nível de serviço?”
Reduzir pressão excessiva pode diminuir vazamentos, frequência de rompimentos e consumo de energia.
Mas reduzir demais cria desabastecimento.
É justamente nesse equilíbrio que o conhecimento dos profissionais de operação continua insubstituível.
O que gestores devem analisar antes de comprar tecnologia
Uma especificação deveria começar pelo problema operacional, e não pelo catálogo do fornecedor.
Antes de contratar uma plataforma de monitoramento de pressão e vazão, algumas perguntas merecem resposta:
- Qual decisão será tomada com esse dado? Detectar vazamento, comprovar continuidade, controlar uma VRP, calibrar modelo hidráulico ou dimensionar obra são objetivos diferentes.
- A medição funciona no menor fluxo relevante? Um DMC pode parecer perfeito durante o dia e falhar exatamente no período de vazão mínima noturna.
- A frequência de aquisição consegue enxergar o fenômeno desejado? Monitoramento de tendência e transitórios hidráulicos exigem arquiteturas diferentes.
- Existe redundância e armazenamento local? Perder comunicação não deveria significar perder a série histórica.
- O dado é interoperável? Sensores devem conversar com SCADA, GIS, BI, modelos hidráulicos e sistemas corporativos sem criar dependência excessiva de um único fornecedor.
- Existe processo de calibração e manutenção? Um sensor transmitindo continuamente um valor errado é mais perigoso do que um sensor claramente indisponível.
- Quem receberá o alarme e qual ação será executada? Sem fluxo operacional, o sistema produz notificações, não resultados.
- O custo de telecomunicação e bateria foi considerado para todo o ciclo de vida? O CAPEX do sensor é apenas parte do custo.
- Existe proteção de cibersegurança adequada? Quanto maior a capacidade de telecomando, maior a importância de segmentação, autenticação, rastreabilidade e modos seguros de operação.
Esse checklist pode evitar milhões em tecnologia subutilizada.
O que pode dar errado
O primeiro erro é querer instrumentar toda a rede antes de compreender onde estão os maiores problemas.
Uma estratégia mais eficiente começa pelos setores com maior perda, maior frequência de rompimentos, maior reclamação de baixa pressão, maior consumo energético ou maior importância operacional.
O segundo erro é criar um DMC que existe apenas no mapa.
Válvulas desconhecidas, interligações abertas, ligações clandestinas e cadastros GIS incorretos podem fazer o balanço hidráulico perder completamente sua confiabilidade.
O terceiro é acreditar automaticamente no sensor.
Deriva de calibração, problemas de instalação, entrada de água em caixas, falhas de bateria, relógios dessincronizados e cobertura celular instável produzem dados aparentemente sofisticados — mas errados.
O quarto é gerar alarmes demais.
Quando o Centro de Controle recebe centenas de alertas sem priorização, surge a chamada fadiga de alarmes. O operador aprende a ignorar o sistema.
O quinto talvez seja o mais comum: monitorar sem controlar.
Se a companhia descobre diariamente que determinada região trabalha com pressão excessiva, mas não consegue modular bombeamento, ajustar VRPs ou executar intervenções na rede, o monitoramento virou apenas documentação do problema.
O impacto vai muito além das perdas
A aplicação madura do monitoramento de pressão e vazão afeta praticamente toda a companhia.
Na operação, reduz o tempo entre ocorrência e diagnóstico.
Na manutenção, permite priorizar redes com comportamento anormal.
Na engenharia, melhora a calibração dos modelos hidráulicos e o dimensionamento de obras.
No setor comercial, ajuda a distinguir problemas de consumo, medição e abastecimento.
No atendimento, permite verificar rapidamente reclamações de baixa pressão ou falta d’água.
Na gestão energética, mostra onde bombas trabalham contra pressões desnecessariamente altas.
Na regulação, fortalece a evidência sobre continuidade, macromedição e evolução das perdas.
E na gestão financeira, transforma água que seria produzida, tratada, bombeada e perdida em uma oportunidade concreta de redução de custos ou geração de receita.
É justamente por isso que o monitoramento de pressão e vazão deve deixar de ser tratado como um projeto exclusivo da automação.
Ele é um projeto de negócio.
A próxima fronteira: a rede que aprende
A tendência mais relevante para os próximos anos não é simplesmente a instalação de mais sensores.
É a integração.
Smart meters, dataloggers, sensores acústicos, medidores de vazão, VRPs, SCADA, GIS, ordens de serviço, dados comerciais e modelos hidráulicos começam a formar uma representação cada vez mais completa do sistema.
Nesse ambiente, algoritmos podem identificar que um aumento de vazão mínima ocorreu simultaneamente a uma redução de pressão, calcular a região provável do vazamento e gerar uma prioridade para inspeção.
Depois do reparo, o próprio sistema pode verificar se vazão e pressão voltaram ao comportamento esperado.
É o surgimento de uma rede que passa a comparar continuamente seu estado atual com aquilo que deveria estar acontecendo.
Entretanto, inteligência artificial não elimina a engenharia.
Quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais importantes ficam profissionais capazes de compreender hidráulica, redes, instrumentação, perdas, operação e comportamento do cliente.
Um algoritmo consegue encontrar uma anomalia.
É o conhecimento de campo que determina se aquela anomalia é um vazamento, uma manobra, consumo legítimo, erro cadastral ou simplesmente um sensor mal instalado.
Lições para quem trabalha no saneamento
A principal lição é que o melhor monitoramento de pressão e vazão não é aquele com maior quantidade de sensores, mas aquele que produz decisões melhores.
DMC sem macromedição confiável perde valor.
Macromedidor sem controle de fronteiras produz balanço duvidoso.
Sensor de pressão sem localização hidráulica adequada pode medir exatamente o ponto errado.
Telemetria sem manutenção gera buracos na série histórica.
Analytics sem processo operacional produz alarmes.
IA sem dados confiáveis automatiza erros.
E tecnologia sem profissionais capacitados raramente entrega o resultado prometido.
Por outro lado, quando engenharia, operação, automação, comercial, perdas e equipes de campo trabalham sobre a mesma informação, a rede passa a revelar problemas que antes permaneciam invisíveis durante meses ou anos.
Conclusão: a melhor ferramenta é uma arquitetura
O mercado já dispõe de excelentes tecnologias para monitoramento de pressão e vazão: medidores eletromagnéticos de alta precisão, sensores conectados por NB-IoT, dataloggers, medidores ultrassônicos clamp-on, sistemas para transitórios hidráulicos, plataformas de analytics e gêmeos digitais.
Mas nenhuma delas, isoladamente, resolve as perdas.
Os casos de Sanepar, Cagece, Caesb, Águas Guariroba, Sabesp, BRK, Copasa e Iguá demonstram caminhos diferentes para o mesmo objetivo: transformar uma rede subterrânea e pouco observável em um sistema capaz de informar continuamente o que está acontecendo.
Singapore mostra o potencial de uma rede extensamente monitorada. A Dinamarca mostra que o próximo estágio é utilizar os dados para controlar dinamicamente a pressão.
O futuro provavelmente combinará essas duas abordagens.
Para as companhias brasileiras, a oportunidade está em evitar uma corrida desordenada por sensores e construir uma arquitetura orientada a resultado: medir onde realmente importa, integrar informações, detectar anomalias rapidamente, intervir e comprovar o efeito da intervenção.
Nesse cenário, o monitoramento de pressão e vazão deixa de ser uma ferramenta de automação.
Passa a ser uma das principais infraestruturas de inteligência operacional do saneamento.
Fontes e referências
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Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025
18 de dezembro de 2025
Acessar a Resolução ANA nº 275/2025
Ministério das Cidades
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Sanepar usa sensores inteligentes para monitorar redes de água e esgoto no Litoral
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Licitação Eletrônica nº 261/25 — serviços de telemetria em Campo Mourão
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Cagece investe mais de R$ 130 milhões em melhorias no abastecimento de Juazeiro do Norte
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Com tecnologia de datalogger, Cagece monitora pressão da água
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Relatório de Gestão 2023
2024
Acessar Relatório de Gestão da Caesb
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Relatório de Gestão 2025
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Acessar Relatório de Gestão 2025
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Estratégia e Vantagens Competitivas — Águas Guariroba
Consulta em setembro de 2026
Acessar informações da Aegea
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Prêmio Casos de Sucesso — tecnologias de redução de perdas em Campo Grande
10 de junho de 2024
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Governo de São Paulo / Sabesp
São Paulo inicia projeto de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes
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Grande SP ganha mecanismo para controle automático de vazão
9 de abril de 2026
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BRK Ambiental
BRK adota tecnologia para combater perdas em Cachoeiro de Itapemirim
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Acessar publicação da BRK
Governo de Minas Gerais / Copasa
Copasa inicia testes com sensores e inteligência artificial em Araxá
28 de outubro de 2025
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Iguá investirá mais de R$ 200 milhões para reduzir perdas
24 de março de 2026
Acessar publicação da Iguá
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Sustainability Report — Protection of Water Networks
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Acessar relatório da PUB
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Trial for Integrated Water Meters with Leak Detection Sensors
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Acessar estudo de caso da IWA
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Documentação técnica sobre DMC, vazão mínima noturna e perdas reais
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Acessar documento técnico do Banco Mundial
Siemens
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Acessar especificações do MAG 8000
KROHNE
WATERFLUX 3070 — electromagnetic water meter for district metering
Consulta em setembro de 2026
Acessar especificações do WATERFLUX 3070
Endress+Hauser
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Acessar especificações do Promag W 800
HWM Global
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Consulta em setembro de 2026
Acessar informações do MultiLog 2
HWM Global
Pressure Transient Logger
Consulta em setembro de 2026
Acessar informações sobre monitoramento de transitórios
Ovarro
XiLog — Water Network Data Logging
Consulta em setembro de 2026
Acessar informações do XiLog
Bentley Systems
OpenFlows WaterSight — Water Network Digital Twin and Analytics
Consulta em setembro de 2026
TaKaDu
Central Event Management for Water Utilities
Consulta em setembro de 2026
Emerson / Flexim
Tecnologia ultrassônica clamp-on FLUXUS
Consulta em setembro de 2026
Galax.ia
Órion Alfa — logger de pressão e vazão para saneamento
Consulta em setembro de 2026



