Um vazamento que ninguém encontra. Um hidrômetro que mede menos do que deveria. Uma bomba trabalhando fora do ponto ideal. Um reservatório sem telemetria. Milhares de cadastros comerciais inconsistentes. Um indicador regulatório que ninguém consegue rastrear até sua origem.
Alguns dos negócios no saneamento com maior possibilidade de crescimento podem surgir justamente desses problemas aparentemente banais.
O momento ajuda a explicar essa oportunidade. Os dados mais recentes apresentados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, com base no SINISA 2025, mostram que 84,1% da população brasileira é atendida por rede de abastecimento de água, enquanto 62,3% dispõe de rede coletora de esgoto. O Marco Legal estabelece metas de 99% para água e 90% para coleta e tratamento de esgoto até 2033. (Serviços e Informações do Brasil)
Ao mesmo tempo, o país continua convivendo com perdas elevadas. O Estudo de Perdas de Água 2025, elaborado pelo Instituto Trata Brasil com dados do SINISA referentes a 2023, apontou índice nacional de 40,31% de perdas na distribuição. (Trata Brasil)
E existe dinheiro efetivamente entrando no setor. Apenas as seleções do Novo PAC realizadas em 2025 destinaram R$ 22,1 bilhões ao saneamento. Em outro exemplo da dimensão do mercado, a concessão estruturada pelo BNDES em Pernambuco prevê aproximadamente R$ 19,1 bilhões em investimentos para universalização. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso não significa que qualquer empresa criada para atuar em saneamento ficará rica.
Muito menos que exista dinheiro fácil.
O ponto estratégico é outro: há um volume enorme de capital sendo direcionado para um setor que ainda possui inúmeros problemas operacionais mensuráveis. Onde existe problema recorrente, orçamento, obrigação contratual e possibilidade de demonstrar retorno financeiro, existe espaço para fornecedores especializados.
E talvez esteja justamente aí uma das melhores formas de pensar em negócios no saneamento.
Em vez de tentar começar grande, pode ser mais inteligente resolver muito bem um problema pequeno — e depois repetir a solução centenas de vezes.
A lógica: não vender equipamento, vender resultado
Um erro frequente de quem observa esse mercado é imaginar que as maiores oportunidades pertencem apenas aos fabricantes de tubos, bombas, hidrômetros ou grandes empresas de engenharia.
Esses mercados continuarão enormes.
Entretanto, uma transformação interessante está ocorrendo ao redor deles: companhias estão cada vez mais interessadas em contratar eficiência, disponibilidade, redução de perdas, economia energética, recuperação de receita e dados confiáveis.
O Banco Mundial vem trabalhando há anos com modelos de contratos baseados em desempenho para redução de água não faturada. Em análise divulgada em 2024, a instituição informou que contratos de performance estudados apresentaram resultados superiores aos de programas conduzidos exclusivamente pelas utilities, embora ressalte que esse modelo exige definição rigorosa de baseline, riscos e metodologia de medição. (World Bank Blogs)
No Brasil, o Ministério das Cidades mantém entre os materiais do ProEESA um manual específico sobre contratos de performance para redução de perdas e eficiência energética em empresas de saneamento. (Serviços e Informações do Brasil)
A própria Lei nº 14.133/2021 prevê o contrato de eficiência para a Administração Pública, no qual serviços, obras ou fornecimentos podem buscar economia de despesas correntes e a remuneração pode ser associada à economia efetivamente gerada. Isso não significa que qualquer companhia de saneamento contratará dessa forma — empresas estatais e concessionárias possuem regimes e regulamentos próprios —, mas demonstra que remunerar eficiência é um conceito juridicamente incorporado às contratações públicas brasileiras. (Planalto)
Essa lógica abre espaço para cinco ideias particularmente interessantes.
1. Criar uma empresa especializada em encontrar vazamentos
Talvez seja uma das ideias mais simples desta reportagem.
E também uma das mais diretamente ligadas a dinheiro.
Milhares de quilômetros de redes de distribuição estão enterrados sob cidades brasileiras. Pequenos vazamentos podem permanecer semanas ou meses sem aparecer na superfície.
Para encontrá-los, utiliza-se uma combinação de conhecimento de campo, haste de escuta, geofone, correlacionadores, registradores de ruído, dataloggers de pressão, análise de vazão mínima noturna e, em operações mais sofisticadas, sensores permanentes e inteligência artificial.
A Sanepar, por exemplo, descreve equipes especializadas que utilizam geofones para localizar vazamentos não visíveis. Em 2025, a companhia também contratou a expansão de uma solução desenvolvida por startup baseada em hidrofones, Internet das Coisas e inteligência artificial. O investimento divulgado para o projeto foi de aproximadamente R$ 5,7 milhões em dois anos. (Sanepar)
A Copasa informou em março de 2026 que reduziu suas perdas de distribuição de 38,1% para 35,6% em 2025, associando o resultado a diferentes medidas, incluindo substituição de mais de 730 mil hidrômetros, tecnologias de satélite e inteligência artificial para detecção de vazamentos, renovação de redes, automação e melhorias operacionais. A própria companhia ressalvou que parte da variação decorreu também de alteração metodológica no indicador. (Notícias Copasa)
Isso mostra que a oportunidade não está apenas na venda do geofone.
O negócio pode ser a pesquisa de vazamentos como serviço.
Uma empresa pequena poderia começar executando campanhas periódicas em municípios, condomínios, universidades, hospitais, indústrias ou sistemas privados. Com maturidade, passaria a fornecer diagnóstico de setores, monitoramento contínuo de pressão, instalação de loggers, cálculo de balanço hídrico e acompanhamento dos resultados.
Depois, poderia evoluir para remuneração por desempenho.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025 reforça essa oportunidade. Ela estabeleceu diretrizes para diagnóstico, planejamento, controle e monitoramento das perdas e determina a elaboração e implementação de planos de gestão de redução e controle de perdas pelos prestadores, conforme regulamentação das entidades reguladoras infranacionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Em outras palavras: combater perdas deixou de ser apenas uma boa prática operacional. A agenda regulatória está tornando o tema cada vez mais estruturado.
Para quem procura negócios no saneamento, isso significa demanda potencial por conhecimento, equipamentos, equipes de campo, diagnóstico e acompanhamento.
Onde está a escala
O serviço inicialmente pode ser vendido por quilômetro pesquisado ou por campanha.
Depois pode evoluir para contratos mensais.
O passo seguinte é controlar Distritos de Medição e Controle, pressão e vazões.
E o estágio mais sofisticado é transformar o serviço em contrato de performance, compartilhando parte do valor econômico associado ao volume recuperado.
Nesse ponto, uma simples equipe de pesquisa deixa de vender horas e começa a vender resultado.
2. Recuperar receita que a companhia já deveria estar faturando
Existe outra categoria de perda menos visível.
A água chega ao cliente, mas a receita não chega integralmente à empresa.
Hidrômetros subdimensionados ou envelhecidos, irregularidades, ligações clandestinas, cadastros incorretos, imóveis classificados inadequadamente, consumos anômalos, clientes inativos e falhas nos processos de leitura podem gerar perdas aparentes ou comerciais.
É uma das áreas mais interessantes para novos negócios no saneamento, porque muitas soluções exigem mais inteligência do que infraestrutura pesada.
A Iguá divulgou um exemplo relevante. Segundo a companhia, ações de fiscalização e combate a irregularidades fizeram os ganhos mensais associados a essas iniciativas avançarem de R$ 2,6 milhões para R$ 7,5 milhões entre 2024 e 2025. A empresa informou ainda que seu algoritmo de substituição preventiva de hidrômetros acumulou R$ 92 milhões em receita adicional desde 2022. Os números são resultados específicos da operação da Iguá e não devem ser interpretados como retorno esperado para outras empresas, mas mostram a dimensão econômica da micromedição e da inteligência comercial. (Iguá SA)
A oportunidade empresarial pode começar de maneira surpreendentemente simples.
Cruza-se histórico de consumo, idade e tecnologia do medidor, categoria do imóvel, alterações abruptas de consumo, ocorrências anteriores e características da ligação. A partir disso, produz-se uma fila de inspeções ordenada pela probabilidade de retorno.
Em vez de enviar uma equipe aleatoriamente para 10 mil imóveis, por exemplo, tenta-se descobrir em quais centenas de ligações a probabilidade de encontrar oportunidade de recuperação de receita é maior.
Inicialmente, isso pode ser realizado com SQL, ferramentas de BI, estatística e boas regras de negócio.
Depois entram machine learning, visão computacional, modelos de propensão e inteligência artificial.
Mas a vantagem competitiva dificilmente estará apenas no algoritmo.
Estará no conhecimento de saneamento.
É necessário saber diferenciar consumo baixo legítimo de submedição; entender sazonalidade; reconhecer a diferença entre ligação inativa, factível, suprimida ou irregular; conhecer regras comerciais e regulatórias; compreender limites de atuação das equipes de fiscalização.
Um cientista de dados sem conhecimento do negócio pode produzir um excelente modelo matemático e uma péssima lista de fiscalização.
É aí que profissionais experientes do setor possuem uma vantagem pouco percebida.
Como monetizar
Uma empresa poderia cobrar pelo diagnóstico da base comercial, pela implantação do modelo analítico e pelo acompanhamento periódico.
Outra alternativa é combinar parcela fixa e variável relacionada aos resultados comprovados.
O ponto crítico é a metodologia de medição. Receita recuperada não pode ser confundida com simples aumento temporário do faturamento.
Baseline, permanência do ganho, sazonalidade, alteração tarifária e mudança de categoria precisam ser controlados.
Esse detalhe separa um projeto profissional de uma apresentação comercial bonita.
3. Vender telemetria como serviço, e não sensores
Outro dos negócios no saneamento com forte potencial está ligado a algo que ainda parece básico: saber o que está acontecendo na rede sem precisar deslocar uma pessoa até o local.
Pressão.
Vazão.
Nível de reservatório.
Estado de bomba.
Número de partidas.
Consumo de energia.
Extravasamento.
Abertura de válvula.
Consumo de grandes clientes.
Tudo isso pode gerar dados remotamente.
Entretanto, instalar um sensor não resolve o problema.
É necessário alimentar o equipamento, transmitir o dado, manter a comunicação, armazenar informações, interpretar alarmes, substituir baterias, calibrar instrumentos e integrar tudo ao processo decisório.
A oportunidade, portanto, é vender monitoramento como serviço.
Em vez de uma prefeitura, pequeno SAAE, condomínio ou indústria comprar sensores, contratar telecomunicações, montar servidores e manter especialistas, uma empresa pode fornecer o pacote completo mediante mensalidade.
O cliente compra disponibilidade da informação.
A companhia fornecedora assume dispositivo, conectividade, plataforma, manutenção e alarmes.
Essa lógica já aparece em grandes programas internacionais. A PUB, agência nacional de água de Singapura, informou ter instalado cerca de 300 mil hidrômetros inteligentes na primeira fase de seu programa. O modelo contratado incluiu medidores, rede de comunicação, sistemas de tecnologia da informação e operação e manutenção por 15 anos. (Publicações do Governo de Singapura)
O Banco Mundial também aponta medição inteligente, monitoramento em tempo real, detecção de vazamentos e manutenção preditiva entre os principais caminhos de digitalização das utilities. (World Bank Blogs)
No Brasil, a Atibaia Saneamento, do grupo Iguá, relatou a implantação de sensores e telemetria conectados ao Centro de Controle Operacional para acompanhamento de sistemas de esgotamento sanitário em tempo real. (Iguá SA)
O segredo está na recorrência
Uma venda de sensor acontece uma vez.
Uma assinatura de monitoramento pode durar anos.
Por isso, entre os negócios no saneamento, modelos de hardware mais software mais serviço podem ser particularmente interessantes.
O fornecedor pode começar com dez pontos de monitoramento.
Depois administrar cem.
Em seguida, mil.
A mesma plataforma pode atender diferentes municípios e clientes.
Existem, entretanto, riscos técnicos importantes: ausência de cobertura de telecomunicações, perda de bateria, equipamentos inadequados ao ambiente, deriva de sensores, vandalismo, falhas de integração, cibersegurança e excesso de alarmes.
Telemetria que produz milhares de alertas inúteis apenas digitaliza o problema.
A informação precisa gerar decisão operacional.
4. Ganhar dinheiro reduzindo a conta de energia do saneamento
Bombear água custa caro.
E justamente por isso existe oportunidade.
O Banco Mundial destaca que sistemas de bombeamento podem representar a maior parcela do consumo energético de utilities de água e esgoto e que medidas como adequação de bombas, inversores de frequência, gerenciamento de pressão, redução de perdas, automação, SCADA e otimização dos horários de operação podem produzir ganhos significativos. A instituição recomenda auditorias energéticas para identificar as medidas economicamente adequadas a cada sistema. (World Bank Blogs)
A Iguá informou em 2025 que suas iniciativas de eficiência energética haviam produzido R$ 29,9 milhões em economia, enquanto a migração de 87 unidades para o mercado livre de energia representou outros R$ 28,1 milhões em redução de custos. Novamente, são resultados empresariais específicos, não promessa de retorno para qualquer projeto. (Iguá SA)
O interessante é que esse é um dos negócios no saneamento que pode começar pequeno.
Não é necessário iniciar substituindo dezenas de motores.
Pode-se começar analisando uma única estação elevatória.
Curva da bomba.
Altura manométrica.
Vazão.
Rendimento.
Número de partidas.
Demanda contratada.
Horários de operação.
Pressão necessária.
Volume bombeado por quilowatt-hora.
Depois do diagnóstico aparecem as intervenções.
Talvez seja necessário substituir a bomba.
Talvez apenas ajustar o ponto operacional.
Talvez existam dois conjuntos funcionando quando apenas um deveria operar.
Talvez o reservatório permita reduzir bombeamento no horário mais caro.
Talvez a pressão esteja excessiva, aumentando simultaneamente consumo energético e vazamentos.
Uma empresa especializada poderia executar auditorias energéticas, desenvolver planos de otimização, implantar automação e acompanhar continuamente indicadores como kWh/m³.
E existe uma possibilidade ainda mais poderosa: receber parte da economia comprovada.
O Ministério das Cidades disponibiliza material específico do ProEESA justamente sobre contratos de performance e eficiência energética aplicados a empresas de saneamento. (Serviços e Informações do Brasil)
É uma mudança importante na proposta de valor.
O fornecedor deixa de dizer:
“Será necessário gastar dinheiro para contratar a consultoria.”
E passa a apresentar:
“Existe uma despesa recorrente. O projeto será remunerado se conseguir reduzi-la dentro das regras contratuais.”
Naturalmente, o risco também aumenta. Definir corretamente a linha de base, separar economia real de redução de produção e estabelecer critérios de medição são condições indispensáveis.
Mas é justamente a capacidade de assumir e administrar esse risco que pode aumentar o valor econômico do serviço.
5. Transformar dados regulatórios em um negócio recorrente
A quinta oportunidade talvez seja a menos chamativa.
Pode também ser uma das mais acessíveis para profissionais experientes.
O saneamento brasileiro está ficando mais regulado, mais medido e mais orientado por indicadores.
A Norma de Referência ANA nº 9/2024 estabelece diretrizes para indicadores operacionais dos serviços de água e esgoto. A NR nº 15/2025 estrutura a gestão das perdas. Paralelamente, o SINISA recebe anualmente grande quantidade de informações administrativas, financeiras, comerciais e operacionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Em 2026, municípios, prestadores e entidades reguladoras participaram novamente do ciclo anual de fornecimento de informações ao SINISA. O Ministério das Cidades ressalta que a regularidade no fornecimento de dados é relevante inclusive para manutenção das condições de acesso a recursos federais destinados ao saneamento. (Serviços e Informações do Brasil)
Existe ainda a metodologia ACERTAR, criada para auditoria e certificação das informações do setor. O projeto avalia dimensões como confiança e exatidão dos dados e busca aprimorar os processos de gestão da informação dos prestadores. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso cria uma oportunidade enorme que raramente aparece quando se discutem negócios no saneamento.
Prestadores precisam saber de onde veio cada número.
Um indicador de perda não pode ser apenas uma célula de planilha.
É necessário saber quais macromedidores produziram os volumes, quais períodos foram considerados, quais estimativas foram utilizadas, quem validou a informação e como ela se reconcilia com os sistemas comercial, operacional e financeiro.
Esse trabalho pode virar produto.
Uma empresa especializada poderia estruturar dicionários de dados, rotinas de validação, integração entre sistemas, dashboards regulatórios, trilhas de auditoria, conciliações, preparação para SINISA e apoio à implementação das melhores práticas associadas ao ACERTAR.
Não se trata de simplesmente “preencher o SINISA”.
Esse serviço provavelmente seria facilmente comoditizado.
O valor está em transformar uma companhia que procura números em diferentes planilhas em uma organização capaz de demonstrar a origem de cada indicador.
Isso interessa a diretoria.
Interessa à regulação.
Interessa à auditoria.
Interessa ao financiador.
E interessa cada vez mais à governança corporativa.
Por que pode escalar
Depois que regras de validação, integrações e dashboards são construídos para um prestador, parte da arquitetura pode ser adaptada para outros.
Assim nasce um software ou serviço recorrente.
O negócio deixa de depender exclusivamente de consultores trabalhando horas e passa a incorporar propriedade intelectual, regras automáticas, algoritmos de validação e plataforma.
É a mesma transição observada em outros setores: consultoria vira produto; produto vira assinatura.
O que o mundo ensina sobre esses negócios
Os casos internacionais ajudam a identificar um padrão.
Singapura não está simplesmente comprando hidrômetros. Está construindo infraestrutura digital de medição.
O Banco Mundial não recomenda apenas reparar vazamentos. Estrutura ferramentas para contratos de performance de água não faturada.
Utilities participantes de programas internacionais de transformação digital apontam monitoramento em tempo real, detecção de vazamentos, manutenção preditiva e integração de dados como áreas prioritárias. (Publicações do Governo de Singapura)
A principal lição é que o valor está migrando do equipamento isolado para a capacidade de produzir resultado continuamente.
Isso pode favorecer empresas menores.
Uma startup provavelmente não fabricará uma bomba melhor do que um fabricante global.
Mas pode desenvolver um algoritmo capaz de mostrar quando aquela bomba está operando fora da região de maior eficiência.
Pode não fabricar o hidrômetro.
Mas pode identificar quais 2% do parque devem ser substituídos primeiro.
Pode não fabricar o sensor de pressão.
Mas pode transformar cinco milhões de leituras em três ordens de serviço que realmente importam.
Essa camada de inteligência constitui uma nova fronteira dos negócios no saneamento.
Por que profissionais do setor possuem uma vantagem enorme
Existe um ativo que não aparece no balanço patrimonial: conhecimento acumulado.
Um profissional que passou anos acompanhando leitura, manutenção de redes, faturamento, perdas, elevatórias, cadastro técnico ou atendimento conhece padrões que dificilmente aparecem em livros.
Sabe que uma queda de consumo pode significar imóvel vazio — ou hidrômetro travado.
Sabe que uma pressão elevada às três horas da manhã pode explicar os vazamentos recorrentes de determinado setor.
Sabe que uma bomba nova pode consumir mais energia se estiver operando fora de sua faixa adequada.
Sabe que determinado indicador bonito no dashboard pode estar sustentado por dados ruins.
Quando essa experiência é transformada em método, software ou serviço replicável, deixa de ser apenas conhecimento individual.
Torna-se produto.
É justamente nesse ponto que surgem alguns dos negócios no saneamento mais interessantes.
O que pode dar errado
O primeiro risco é confundir tamanho do problema com tamanho do mercado acessível.
Uma companhia pode perder milhões de metros cúbicos e ainda assim não possuir orçamento, processo de contratação ou prioridade para contratar determinada solução.
O segundo é vender tecnologia antes de entender a operação.
No saneamento existem muitos equipamentos instalados que nunca produziram o retorno esperado porque faltou processo, manutenção, integração ou equipe capaz de utilizar os dados.
O terceiro é subestimar o ciclo de vendas.
Empresas públicas, sociedades de economia mista, concessionárias privadas e serviços municipais possuem modelos de contratação diferentes. Licitações, homologações, provas de conceito, requisitos técnicos e processos internos podem prolongar significativamente uma venda.
O quarto é aceitar contrato de performance sem uma linha de base tecnicamente robusta.
Quando a remuneração depende do resultado, discutir posteriormente o que significa “resultado” pode destruir economicamente o projeto.
E o quinto é tentar escalar antes de provar.
No início, o diferencial não precisa ser possuir 100 clientes.
Pode ser conseguir demonstrar, de forma indiscutível, que determinado serviço encontrou vazamentos, reduziu energia, recuperou receita ou aumentou confiabilidade da informação em um único cliente.
Caso real vende mais do que apresentação.
Como identificar uma boa oportunidade
Antes de investir em qualquer um desses negócios no saneamento, cinco perguntas deveriam ser respondidas:
- O problema custa dinheiro ao cliente? Quanto maior e mais mensurável a perda econômica, maior tende a ser a disposição para resolvê-la.
- O resultado pode ser medido? Metros cúbicos recuperados, kWh evitados, aumento de volume medido, redução de ocorrências ou horas economizadas são argumentos comerciais melhores do que benefícios abstratos.
- A solução pode ser repetida? Um projeto artesanal gera receita. Um processo replicável constrói uma empresa.
- Existe receita recorrente? Monitoramento, manutenção, software, telemetria e acompanhamento regulatório tendem a produzir relações mais duradouras do que uma venda pontual.
- O conhecimento técnico cria barreira de entrada? Quanto mais difícil for reproduzir método, equipe, base histórica, algoritmo ou integração operacional, menor será a tendência de competição exclusivamente por preço.
A oportunidade pouco percebida: vender economia
Talvez essa seja a principal conclusão.
Durante décadas, grande parte dos fornecedores de saneamento ganhou dinheiro vendendo aquilo que as companhias precisavam comprar: tubos, bombas, químicos, hidrômetros, obras, veículos e serviços.
Tudo isso continuará existindo.
Mas a nova geração de negócios no saneamento pode ganhar espaço vendendo aquilo que as companhias precisam alcançar.
Menos perdas.
Mais receita.
Menos energia.
Mais informação.
Mais previsibilidade.
Mais produtividade.
É uma diferença aparentemente pequena, mas profundamente relevante.
Quando o fornecedor vende um equipamento, seu faturamento está associado ao equipamento.
Quando vende resultado mensurável, seu mercado potencial passa a estar relacionado ao tamanho do problema que consegue solucionar.
É por isso que serviços especializados de perdas, inteligência comercial, telemetria, eficiência energética e governança de dados podem se transformar em negócios muito maiores do que parecem no início.
A ideia simples que pode se tornar grande
Ganhar dinheiro no saneamento não exige necessariamente criar uma nova tecnologia revolucionária.
Pode signific usar melhor tecnologias que já existem.
O geofone já existe.
O hidrômetro já existe.
O sensor de pressão já existe.
O inversor de frequência já existe.
O banco de dados já existe.
A oportunidade está em combinar conhecimento técnico, dados e execução para entregar um resultado que alguém esteja disposto a pagar para obter.
Os profissionais mais atentos provavelmente encontrarão dezenas de outras oportunidades dentro das próprias rotinas das companhias.
Toda atividade repetitiva, cara, lenta, manual, imprecisa ou difícil de controlar merece uma pergunta:
“Existe uma forma de transformar esse problema em um serviço especializado e replicável?”
É assim que muitos negócios no saneamento podem surgir.
Não tentando reinventar o setor inteiro.
Mas encontrando uma pequena ineficiência, resolvendo-a melhor do que os outros e repetindo essa solução em escala.
No saneamento brasileiro dos próximos anos, haverá bilhões de reais em grandes obras.
Mas também haverá um mercado gigantesco escondido entre uma obra e outra: o mercado da eficiência.
E talvez seja justamente nele que algumas das empresas mais interessantes do setor ainda estejam para nascer.
Fontes e referências
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Água e Desenvolvimento: o papel da ANA na universalização do saneamento
26 de agosto de 2026
Acessar publicação da ANA
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025 sobre redução e controle de perdas
18 de dezembro de 2025
Acessar Resolução ANA nº 275/2025
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Resolução ANA nº 211/2024 — Norma de Referência nº 9/2024 sobre indicadores operacionais
19 de setembro de 2024
Acessar Resolução ANA nº 211/2024
Instituto Trata Brasil / GO Associados
Estudo de Perdas de Água 2025 — SINISA 2023
2025
Acessar Estudo de Perdas de Água 2025
Ministério das Cidades
Brasil tem ano de investimentos e avanços em saneamento básico
14 de janeiro de 2026
Acessar publicação do Ministério das Cidades
BNDES
Concessão estruturada pelo BNDES em Pernambuco — investimentos previstos de R$ 19,1 bilhões
18 de dezembro de 2025; atualização em 15 de maio de 2026
Acessar Agência BNDES de Notícias
Sanepar
Sanepar escala solução inovadora para monitorar ruídos e detectar vazamentos em redes de água
24 de abril de 2025
Acessar publicação da Sanepar
Copasa
Com investimento recorde de quase R$ 3 bilhões, Copasa supera metas de 2025 e amplia cobertura de esgoto
9 de março de 2026
Acessar publicação da Copasa
Iguá Saneamento
Iguá adota plano integrado para o verão — combate a irregularidades, troca de hidrômetros e eficiência operacional
2026
Acessar publicação da Iguá
Iguá Saneamento
Iguá reforça compromisso com a eficiência operacional no Iguá Day
2025
Acessar publicação da Iguá
PUB — Singapore’s National Water Agency
Smart Water Meter Programme
Consulta em 2026
Acessar programa de hidrômetros inteligentes da PUB
World Bank
Performance-based contracts offer a pathway to efficient water management
21 de março de 2024
Acessar publicação do Banco Mundial
World Bank / PPIAF / IWA / BID
Contracting Tools for Non-Revenue Water Reduction
Consulta em 2026
Acessar ferramentas para contratos de redução de água não faturada
World Bank
How energy efficient utilities of the future save money and help the planet
2020
Acessar publicação sobre eficiência energética
Ministério das Cidades — ProEESA
Manual sobre contratos de performance e eficiência energética para empresas de saneamento
Página atualizada em 27 de junho de 2026
Acessar materiais do ProEESA
Ministério das Cidades
Projeto ACERTAR — Certificação e melhores práticas da gestão da informação sobre saneamento
Consulta em 2026
Acessar Projeto ACERTAR
Presidência da República
Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021 — Lei de Licitações e Contratos Administrativos
Texto atualizado
Acessar Lei nº 14.133/2021



