Uma válvula redutora de pressão pode custar uma fração do valor da rede que protege, mas uma escolha errada é capaz de gerar exatamente o efeito contrário ao esperado: instabilidade hidráulica, cavitação, ruído, rompimentos, pressão insuficiente nos pontos críticos e uma estação que funciona bem durante o pico de consumo, mas perde o controle durante a madrugada.
Por isso, a pergunta “qual é a melhor válvula redutora de pressão?” tem uma resposta menos simples do que parece.
A melhor VRP não é necessariamente a maior, a mais cara nem a marca mais conhecida. É a válvula que consegue controlar a pressão com estabilidade entre a menor e a maior vazão previstas, sem entrar em cavitação, com margem hidráulica adequada, manutenção viável e capacidade de acompanhar a estratégia de gestão de pressão da companhia.
E há um detalhe que muda completamente a especificação: o diâmetro da VRP não deve ser escolhido simplesmente copiando o diâmetro da tubulação.
É justamente nesse ponto que muitas instalações começam erradas.
Por que as válvulas redutoras de pressão são tão estratégicas
As válvulas redutoras de pressão, conhecidas no setor pela sigla VRP, deixaram de ser apenas dispositivos hidráulicos instalados para evitar pressões excessivas.
Hoje são ativos centrais de uma política de gestão de pressão.
Isso porque pressão e perdas reais estão relacionadas. Pressões desnecessariamente elevadas tendem a aumentar a vazão dos vazamentos existentes, ampliar o esforço sobre tubulações e ramais e contribuir para a frequência de rompimentos. Consequentemente, controlar a pressão pode gerar ganhos que vão muito além da redução do número de reclamações de clientes.
Estudos de redes reais mostram reduções relevantes de perdas quando a gestão de pressão é corretamente aplicada, embora os resultados variem muito conforme material das redes, quantidade e tipo de vazamentos, pressão inicial, topografia e condições operacionais. Em um estudo envolvendo uma rede setorizada em DMA, por exemplo, determinados cenários de controle apresentaram redução de vazamentos da ordem de 37%. Outro estudo encontrou redução simulada de 31,65% no volume de vazamentos após instalação otimizada de duas VRPs. Esses percentuais não devem ser transferidos automaticamente para outras redes, mas mostram o potencial da ferramenta. (ScienceDirect)
A experiência internacional reforça essa importância. A Thames Water informou em seu plano de recursos hídricos que mantinha mais de mil válvulas redutoras de pressão instaladas e destacou que preservar os benefícios obtidos exige manutenção permanente das VRPs e das áreas de gerenciamento de pressão associadas. (Thames Water)
O aprendizado é importante: instalar a válvula é apenas o começo.
Como funciona uma VRP piloto-operada
Em redes públicas de distribuição, as válvulas redutoras de pressão mais sofisticadas são normalmente válvulas hidráulicas de controle comandadas por piloto.
A própria pressão da água fornece a energia necessária para movimentar o conjunto.
O piloto monitora a pressão a jusante. Quando essa pressão tenta ultrapassar o valor ajustado, o circuito hidráulico faz a válvula principal fechar parcialmente. Quando a pressão cai devido ao aumento do consumo, a válvula abre progressivamente.
Tudo acontece continuamente.
Em uma instalação corretamente dimensionada, a VRP consegue entregar uma pressão de saída relativamente constante apesar das variações de vazão e da pressão de entrada.
A AWWA mantém a norma C530-22 — Pilot-Operated Control Valves, referência internacional para válvulas de controle piloto-operadas. No Brasil, um documento particularmente relevante é a NTS 299 da Sabesp, intitulada “Válvula Redutora de Pressão Tipo Globo ou Membrana (DN 50 a 600)”. A relação atual de normas técnicas da companhia registra a Revisão 3, de 2020. (American Water Works Association)
A NTS 299 mostra bem a complexidade dessa especificação. Não se trata simplesmente de informar DN e pressão nominal. Entre os parâmetros envolvidos estão pressão a montante, pressão a jusante, vazões de trabalho, mínima e máxima, materiais, revestimento, circuito de controle, ensaios e análise de cavitação. (Portal de Compras Cesan)
Antes da marca, a engenharia
No mercado internacional existem fabricantes consolidados, como BERMAD, Cla-Val, Singer, Dorot, Raphael e GF Piping Systems, entre outros.
Entretanto, comparar apenas logotipos produz uma análise pobre.
Dentro do portfólio do mesmo fabricante podem existir válvulas de passagem plena, passagem reduzida, diferentes geometrias internas, versões anticavitação, câmara simples ou dupla, controles especiais para vazões muito baixas e soluções preparadas para modulação eletrônica.
Assim, duas VRPs com o mesmo DN nominal podem apresentar comportamentos hidráulicos significativamente diferentes.
Na seleção, alguns parâmetros precisam estar obrigatoriamente disponíveis.
Informação necessária
Por que importa
Vazão mínima
Define capacidade de controle nas madrugadas e períodos de baixíssimo consumo
Vazão média
Representa operação predominante
Vazão máxima
Verifica capacidade hidráulica e velocidade
Pressão mínima a montante
Confirma se existe energia suficiente para entregar a pressão requerida
Pressão máxima a montante
Fundamental para cavitação e classe de pressão
Pressão desejada a jusante
Determina o objetivo de controle
Pressão no ponto crítico
Evita reduzir demais a pressão da zona
Cotas topográficas
Permitem avaliar as pressões reais dentro do setor
Cenários de incêndio ou consumo excepcional
Podem alterar drasticamente a vazão
Pressões transitórias
Podem superar muito as pressões observadas em regime permanente
Uma boa especificação nasce desses dados, e não de uma frase como “instalar uma VRP DN 200 porque a rede é DN 200”.
Como dimensionar uma válvula redutora de pressão
O primeiro conceito é simples:
DN da tubulação não significa DN da válvula.
Uma adutora ou rede DN 300 pode, dependendo da vazão, operar com uma VRP de diâmetro menor. Da mesma maneira, reduzir demais o diâmetro pode gerar velocidade excessiva, perda de carga, ruído, cavitação ou impossibilidade de atender ao pico.
Um cálculo preliminar pode utilizar o coeficiente de vazão Kv. Para água em condições usuais, uma aproximação é:
Kv ≈ Q / √ΔP
em que Q é a vazão em m³/h e ΔP é a perda de pressão através da válvula, em bar.
Esse cálculo ajuda a determinar a capacidade necessária, mas não encerra o dimensionamento. Depois dele precisam ser analisados os gráficos e curvas específicas do modelo escolhido, abertura da válvula, limites de velocidade, comportamento em vazão mínima e região de cavitação.
Considere, por exemplo, uma rede DN 200 na qual a vazão varie de 10 a 150 m³/h. A pressão mínima disponível a montante é de 5,5 bar e a pressão desejada a jusante é 2,5 bar.
A diferença de pressão no cenário considerado é de 3 bar.
Para 150 m³/h, o Kv preliminar necessário seria aproximadamente:
Kv ≈ 150 / √3 ≈ 86,6
Mas esse número sozinho ainda não diz se a válvula deverá ser DN 100, DN 150 ou DN 200.
Se hipoteticamente a passagem hidráulica considerada correspondesse a DN 100, 150 m³/h produziria velocidade de aproximadamente 5,3 m/s.
Em DN 150, essa mesma vazão corresponderia a aproximadamente 2,36 m/s.
Entretanto, a 10 m³/h, a velocidade equivalente no DN 150 cairia para cerca de 0,16 m/s.
É aqui que o dimensionamento se torna interessante.
A BERMAD informa, em documentação de seleção da série 700, uma faixa recomendada de velocidade para operação contínua de aproximadamente 0,1 a 6 m/s. A Dorot informa para sua série 300 velocidade máxima recomendada de 5,5 m/s em operação contínua. Esses valores são referências dos próprios fabricantes, e não limites universais para qualquer VRP. (BERMAD)
Portanto, o engenheiro precisa conciliar dois extremos: não estrangular demais no pico e não superdimensionar a ponto de perder estabilidade na vazão mínima.
O perigo escondido da vazão mínima
Muitas VRPs são escolhidas olhando apenas para a vazão máxima.
É um erro.
Durante a madrugada, um distrito de medição e controle pode operar com uma fração da vazão de pico. Uma válvula excessivamente grande poderá trabalhar quase fechada.
Dependendo da construção da VRP e do circuito piloto, isso pode provocar hunting — oscilações repetitivas de abertura e fechamento —, instabilidade de pressão, vibração e desgaste.
É por isso que os fabricantes oferecem soluções diferentes.
A BERMAD 720, por exemplo, dispõe de obturador V-Port opcional voltado à estabilidade em pequenas vazões e construção com câmara dupla. A Cla-Val oferece válvulas de passagem plena 90-01, passagem reduzida 690-01 e configurações específicas com bypass de baixa vazão. A Dorot afirma que sua série 300 foi projetada para permanecer estável até próximo de vazão zero. (BERMAD)
Outra solução clássica é instalar duas VRPs em paralelo, uma menor para os baixos consumos e outra maior para assumir progressivamente as vazões elevadas.
Em determinados sistemas, essa arquitetura pode oferecer melhor faixa operacional e ainda criar alguma flexibilidade para manutenção.
Não existe configuração universal. Existe configuração adequada à curva de demanda.
Cavitação: onde uma boa VRP pode ser destruída
A cavitação merece atenção especial porque uma válvula aparentemente bem dimensionada em vazão pode estar hidraulicamente condenada pela relação entre as pressões.
Quando a água acelera nas regiões de estrangulamento da válvula, a pressão local pode cair abaixo da pressão de vapor. Formam-se pequenas bolhas que posteriormente colapsam quando a pressão se recupera.
Esse colapso pode gerar ruído intenso, vibração e erosão das superfícies internas.
Ao longo do tempo, a consequência pode ser destruição de sede, obturador ou corpo.
A Singer, em seu material de seleção, utiliza uma regra de triagem bastante didática: quando a pressão de saída fica abaixo de aproximadamente 35% da pressão de entrada, recomenda verificar especificamente o risco de cavitação. Isso não significa que todo sistema nessa condição cavitará; significa que a relação de pressões exige análise. (Singer Valve)
A própria NTS 299 da Sabesp exige consideração das condições de cavitação e informações específicas do fabricante. (Portal de Compras Cesan)
Quando a combinação entre pressão de entrada e saída entra em região crítica, existem diferentes alternativas: trim anticavitação, redução em estágios, alteração da localização da estação, mudança do ponto de ajuste ou combinação de válvulas.
A Cla-Val, por exemplo, possui versões 90-01KO e 690-01KO com trim anticavitação. (Cla-Val)
Esse é um dos motivos pelos quais não faz sentido declarar uma única marca vencedora sem conhecer o sistema hidráulico.
Quais são as melhores marcas de válvulas redutoras de pressão?
Considerando presença internacional, amplitude de portfólio, documentação técnica e soluções específicas para controle de pressão, alguns fabricantes merecem ser avaliados em projetos de saneamento.
Isso não representa um ranking absoluto. A análise técnica deve ocorrer modelo a modelo e dentro das condições de cada projeto.
Fabricante
Linhas ou soluções relevantes
Diferencial a avaliar
BERMAD
420, 720 e variantes
Forte presença no Brasil, opções para baixa vazão, dupla câmara, V-Port e soluções anticavitação
Cla-Val
90-01, 690-01, séries KO e bypass
Grande variedade de configurações, passagem plena/reduzida, anticavitação e funções combinadas
Singer
106/206 e família de controle
Longa tradição em válvulas piloto-operadas, diferentes configurações de passagem e controle
Dorot
Série 300 / 30-PR
Projeto voltado a grande faixa operacional e versões PN16/PN25
GF Piping Systems
NeoFlow
Arquitetura mais recente, construção leve e proposta de integração em sistemas compactos de gestão de pressão
Raphael
RAF e linhas de controle
Portfólio internacional de válvulas hidráulicas para redução e sustentação de pressão
Na BERMAD 720, o fabricante destaca ampla faixa de vazão, propriedades anticavitação, câmara dupla e opção V-Port para estabilizar o controle em baixa vazão. (BERMAD)
A Cla-Val diferencia explicitamente a 90-01 como versão de passagem plena e a 690-01 como passagem reduzida, além de disponibilizar configurações anticavitação e com bypass de baixa vazão. (Cla-Val)
Na Dorot Série 300, a documentação técnica informa PN16 para modelos 30/30A e PN25 para 31/31A, além da velocidade contínua recomendada de até 5,5 m/s. (Dorot)
Já a NeoFlow, da GF, representa uma abordagem diferente. O datasheet atual contempla conexões DN 50 a DN 300 e PN16, com foco em uma válvula mais leve e em soluções integradas de gerenciamento de pressão. (Gfps)
A conclusão técnica não deveria ser “qual marca ganha?”, mas qual modelo trabalha melhor dentro do envelope hidráulico real, oferece menor risco ao sistema e tem suporte de ciclo de vida compatível com a companhia.
O que as grandes companhias brasileiras utilizam?
Essa talvez seja a parte mais interessante da pesquisa.
Documentos públicos de compras, homologações e normas permitem identificar algumas marcas presentes nas companhias brasileiras. Entretanto, é necessário fazer uma distinção importante:
uma licitação, uma homologação ou uma compra de peças comprova aquele fornecimento ou a existência daquele equipamento — não significa que a companhia utilize exclusivamente aquela marca em toda a sua rede.
Ainda assim, os dados revelam padrões.
Sabesp: especificação técnica forte e uma nova experiência com NeoFlow
A Sabesp possui a NTS 299 específica para válvulas redutoras de pressão tipo globo ou membrana de DN 50 a 600. A relação pública de normas da empresa registra atualmente a Revisão 3, de 2020. (Sabesp)
Isso mostra uma abordagem importante: em vez de basear a engenharia somente na marca, a companhia estabelece requisitos técnicos que os equipamentos devem cumprir.
Mais recentemente, a GF publicou um caso envolvendo Sabesp e NeoFlow no Vale do Paraíba. Segundo a fabricante, foi utilizada uma câmara pré-fabricada em PEAD com uma válvula NeoFlow para gerenciamento de pressão. A GF atribui à solução economia aproximada de 130 milhões de litros por ano. Como esse número provém de estudo de caso do fornecedor, deve ser interpretado como resultado reportado pela fabricante. (Gfps)
O caso é relevante menos pela marca e mais pelo conceito: a VRP passa a ser parte de uma estação padronizada de controle, concebida para implantação rápida, instrumentação e gestão da rede.
Sanepar: evidência clara de base instalada BERMAD
Em processos públicos recentes da Sanepar aparecem peças especificamente destinadas a válvulas BERMAD Série 400 e Série 700, incluindo diafragmas reforçados e kits de elastômeros. Isso é uma evidência objetiva de equipamentos dessa fabricante na base instalada da companhia. (Licitacoes Sanepar)
A documentação histórica também mostra aquisição de válvula redutora DN 50 com proposta vencedora da BERMAD em 2015. (Licitacoes Sanepar)
Mais importante que a compra do equipamento, porém, é a evolução conceitual. Processos da Sanepar também envolvem serviços de manutenção e otimização de controle automático de pressão em distritos de medição e controle. Isso mostra a migração de “comprar uma válvula” para “gerenciar o desempenho de uma zona”.
Copasa: BERMAD em aquisição pública
Em junho de 2021, a Copasa publicou resultado de licitação específica para válvulas redutoras de pressão. A proposta vencedora foi da BERMAD Brasil, pelo valor total de R$ 220.849,99. (Copasa)
Esse processo comprova aquele fornecimento, mas não deve ser interpretado como inventário completo das VRPs da Copasa.
Cesan: Valloy e BERMAD documentadas
Uma ata de registro de preços da Cesan oferece um exemplo ainda mais detalhado.
O documento de 2021 registra válvulas Valloy VA-601 em DN 50, DN 75, DN 100 e DN 150, além de modelos BERMAD de menores diâmetros, e exige conformidade com a NTS 299 da Sabesp. (CESAN)
A Valloy passou a integrar a BERMAD após aquisição da fabricante brasileira, o que ajuda a explicar a presença das duas denominações em sistemas existentes.
Cagece: BERMAD e Valloy entre produtos certificados
A Cagece emitiu em abril de 2025 Certificado de Conformidade Técnica para a BERMAD Brasil. A documentação associada contempla produtos da fabricante para utilização segundo os critérios de fornecimento da companhia. (Cagece)
Aqui a interpretação precisa ser precisa: certificação significa habilitação técnica para fornecimento, não necessariamente quantidade instalada.
Corsan, Compesa e Caesb também apresentam evidências públicas
Documentação da Corsan aponta produtos BERMAD no contexto de válvulas qualificadas em requisitos de empreendimentos. Na Compesa, registros públicos mostram contratos e atas envolvendo BERMAD para válvulas de redução, alívio e regulação de pressão. Já documentos oficiais do Distrito Federal registraram aquisição pela Caesb de peças de reposição para válvulas auto-operadas BERMAD e Valloy, indicando equipamentos dessas famílias na base instalada. (Corsan)
O conjunto das evidências pesquisadas permite uma conclusão relevante: BERMAD/Valloy possui presença pública particularmente bem documentada em grandes operadores brasileiros.
Isso, contudo, não significa que seja automaticamente a melhor escolha para qualquer novo projeto, nem que Cla-Val, Singer, Dorot, GF ou outros fabricantes não estejam presentes em sistemas brasileiros.
Licitação e engenharia não deveriam ser confundidas.
O benchmarking internacional ensina algo diferente
A experiência internacional mostra que a próxima fronteira não está apenas em instalar mais válvulas redutoras de pressão.
Está em fazer a pressão variar inteligentemente conforme a demanda.
A Thames Water é um bom exemplo. A empresa informou possuir mais de mil VRPs em sua rede e mantém áreas específicas de gestão de pressão. Documentação associada ao planejamento da companhia também destaca uma parcela relevante de válvulas controladas remotamente, capazes de realizar modulação de pressão relacionada às condições da rede. (Thames Water)
O princípio é simples.
Uma VRP convencional pode ser ajustada para entregar, por exemplo, 30 mca durante todo o dia.
Mas talvez a rede necessite dessa pressão apenas no pico.
Às 3h da madrugada, 22 mca poderiam ser suficientes para preservar o nível mínimo de serviço no ponto crítico.
Se a pressão puder ser reduzida quando a demanda cair e aumentada conforme o consumo cresce, diminui-se o excesso de pressão sem sacrificar o abastecimento.
Esse é o conceito de gestão avançada de pressão.
A evolução tecnológica permite utilizar dataloggers, sensores de pressão, medidores de vazão, controladores, telemetria e algoritmos para alterar o setpoint da VRP em função do horário, da vazão ou até da pressão medida em um ponto crítico da rede.
É uma mudança importante de paradigma.
A VRP deixa de ser apenas uma peça mecânico-hidráulica e passa a atuar como elemento de controle da rede digital.
Pressão fixa, modulação por tempo ou modulação por vazão?
As três estratégias têm aplicações distintas.
Estratégia
Funcionamento
Aplicação típica
Saída fixa
Mantém sempre aproximadamente o mesmo setpoint
Redes com pouca variação ou projetos mais simples
Modulação temporal
Diferentes pressões conforme horários programados
Setores com perfil de consumo previsível
Modulação pela vazão
Setpoint varia de acordo com a demanda
DMCs com grande variação entre noite e pico
Controle pelo ponto crítico
Ajuste busca preservar pressão mínima em local estratégico
Gestão avançada e redes monitoradas
A sofisticação, contudo, aumenta a necessidade de instrumentação confiável.
Um sensor defeituoso ou telemetria mal configurada pode levar a uma decisão operacional errada. Por isso, digitalização não elimina a engenharia hidráulica. Pelo contrário: torna o conhecimento técnico ainda mais importante.
O ponto crítico é tão importante quanto a própria VRP
Reduzir pressão na saída da válvula é relativamente fácil.
O desafio real é reduzir apenas o excesso.
Uma zona abastecida por uma VRP pode possuir consumidores imediatamente após a estação e outros vários quilômetros adiante, em cotas muito superiores.
Se o operador observar apenas o manômetro junto à válvula, pode acreditar que tudo está funcionando perfeitamente enquanto clientes localizados no ponto mais desfavorável enfrentam pressão insuficiente.
A NBR 12218:2017, utilizada no projeto de redes de distribuição, estabelece parâmetros de pressão que precisam fazer parte dessa análise. Entre as referências de projeto estão pressão dinâmica mínima de 100 kPa, aproximadamente 10 mca, e limitações para pressão estática, com condições específicas relacionadas à topografia. (Scribd)
Por isso, projetos modernos não deveriam enxergar apenas P1 e P2 da VRP, mas também a pressão no chamado ponto crítico da zona.
A pergunta correta deixa de ser “qual pressão colocar na saída?” e passa a ser:
qual é a menor pressão na saída capaz de garantir o nível de serviço necessário em toda a área atendida?
Essa diferença pode representar milhões de metros cúbicos ao longo da vida útil de uma rede de grande porte.
O que pode dar errado
Um dos erros mais frequentes é dimensionar a válvula pelo DN da rede. Outro é selecionar o equipamento apenas para a vazão máxima. Também existem instalações nas quais a cavitação nunca foi analisada, embora a VRP opere com grande diferencial de pressão.
Há ainda problemas menos óbvios.
Filtros do circuito piloto podem obstruir. Tubulações de comando podem sofrer interferências. Pilotos podem perder calibração. Manômetros podem apresentar leituras incorretas. Válvulas de bloqueio podem ficar em posições inadequadas. Ventosas mal dimensionadas podem permitir acúmulo de ar. Alterações na setorização podem mudar completamente o envelope hidráulico originalmente utilizado no dimensionamento.
E existe o golpe de aríete.
Uma VRP controla pressão em regime operacional, mas isso não significa que, sozinha, resolva todos os transientes hidráulicos. Uma mudança brusca de vazão pode criar ondas de pressão muito superiores às observadas no regime permanente.
Quando o risco é relevante, o projeto precisa analisar fechamento da válvula, velocidade do movimento, válvulas de alívio, ventosas, reservação, bombas e demais dispositivos do sistema.
VRP não substitui estudo de transientes.
Como deveria ser uma especificação moderna
Uma licitação tecnicamente madura não deveria começar definindo uma marca.
Deveria definir o desempenho esperado.
Para cada estação, o documento técnico deveria estabelecer claramente o envelope de vazões, pressões mínima e máxima a montante, pressão requerida a jusante, condições transitórias previstas, classe de pressão, compatibilidade dos materiais com água potável, revestimento, requisitos de estanqueidade, estabilidade em baixa vazão, limites de velocidade e condição de cavitação.
Também deveria exigir as curvas hidráulicas e de cavitação específicas do modelo ofertado, coeficientes de vazão, documentação do piloto, procedimento de regulagem, disponibilidade de kits de manutenção, prazo de fornecimento de peças e capacitação da equipe.
Quando houver automação, o escopo precisa incluir arquitetura de controle, alimentação elétrica, comunicação, sensores, precisão, segurança operacional e comportamento do sistema em caso de perda de comunicação.
Dessa forma, a competição ocorre sobre desempenho e custo total de ciclo de vida — e não apenas sobre preço inicial.
Manutenção pode decidir qual é realmente a melhor VRP
Uma válvula tecnicamente excelente que depende de peças com longos prazos de importação pode representar um problema operacional.
Da mesma forma, escolher um equipamento apenas porque possui peças disponíveis, ignorando seu comportamento hidráulico, também é equivocado.
O custo relevante é o de ciclo de vida.
Isso inclui aquisição, instalação, obra civil da caixa, instrumentação, comissionamento, energia quando aplicável, peças, diafragmas, pilotos, filtros, deslocamento das equipes, treinamento e eventual perda de desempenho.
O histórico da Sanepar é esclarecedor: licitações recentes para diafragmas e kits específicos mostram que uma base instalada de VRPs cria posteriormente uma cadeia permanente de manutenção. (Licitacoes Sanepar)
Para gestores de saneamento, essa é uma lição importante.
Comprar a válvula significa também escolher a manutenção dos próximos anos.
Uma oportunidade pouco percebida: padronizar estações, não apenas válvulas
O caso da Sabesp com a solução pré-fabricada apresentada pela GF aponta para uma tendência interessante.
Historicamente, muitos projetos tratam separadamente válvula, caixa de concreto, tubulação, registros, filtro, ventosa, medidor, instrumentos e telemetria.
Uma alternativa é padronizar a estação de redução e gerenciamento de pressão como um conjunto funcional.
Isso pode facilitar projeto, montagem, comissionamento, manutenção, repetibilidade e expansão de programas de combate a perdas.
A lógica é semelhante à industrialização encontrada em outras áreas do saneamento: quanto maior a quantidade de estações, maior a vantagem potencial de abandonar soluções excessivamente artesanais.
A própria GF informa que a solução utilizada no Vale do Paraíba foi baseada em uma câmara pré-fabricada em PEAD integrada à NeoFlow. (Gfps)
Ainda será necessário acompanhar resultados de longo prazo, durabilidade, manutenção e custo total para compará-la adequadamente às soluções tradicionais.
Mas a direção tecnológica merece atenção.
Da VRP para a rede inteligente
As melhores válvulas redutoras de pressão dos próximos anos talvez não sejam definidas apenas pela robustez mecânica.
O diferencial estará cada vez mais na capacidade de integração.
Sensores baratos, comunicação remota, plataformas de supervisão, modelos hidráulicos e análise de dados permitem transformar uma VRP em um ponto ativo de gerenciamento da rede.
Uma companhia poderá detectar que a vazão mínima noturna de determinado DMC aumentou, comparar o comportamento com a pressão, identificar indício de novo vazamento e ajustar temporariamente o controle enquanto envia uma equipe de pesquisa de perdas.
Outra poderá correlacionar rompimentos históricos com pressão e determinar qual curva de modulação oferece o melhor compromisso entre nível de serviço e conservação dos ativos.
Nesse cenário, profissionais de operação, engenharia, automação e controle de perdas precisam trabalhar juntos.
A competência mais importante deixa de ser simplesmente “saber regular uma válvula” e passa a incluir compreender a interação entre hidráulica, dados e ativos.
O que gestores e profissionais devem levar para o trabalho
A principal lição é que gestão de pressão não deve ser tratada como uma compra de materiais.
É um projeto hidráulico e operacional.
A equipe precisa compreender o perfil de consumo da zona, conhecer o ponto crítico, verificar vazões extremas, avaliar cavitação, analisar possíveis transientes, conferir capacidade de manutenção e definir como será monitorado o desempenho depois do comissionamento.
Além disso, a comparação de fabricantes deve ser realizada dentro do mesmo envelope operacional.
Uma VRP pode apresentar excelente comportamento em um sistema e ser inadequada para outro.
Um modelo de passagem reduzida pode controlar melhor determinada faixa de vazão. Em outro local, o pico pode exigir passagem plena. Uma instalação pode justificar V-Port. Outra pode necessitar trim anticavitação. Uma terceira pode funcionar melhor com duas válvulas em paralelo.
Por isso, perguntar apenas “qual marca é melhor?” simplifica excessivamente uma decisão de engenharia.
Afinal, qual VRP escolher?
Se a análise considerar documentação técnica, amplitude de soluções e referências de mercado, BERMAD, Cla-Val, Singer, Dorot, GF e Raphael estão entre os fabricantes que merecem entrar em uma avaliação técnica de projetos de saneamento.
No Brasil, a pesquisa em documentos públicos encontrou evidências particularmente fortes da presença de BERMAD/Valloy em Sanepar, Copasa, Cesan, Cagece, Corsan, Compesa e Caesb. A Sabesp possui uma especificação técnica própria abrangente e aparece também em caso recente divulgado pela GF envolvendo a NeoFlow.
Isso é benchmarking. Não é recomendação automática de compra.
A decisão deveria seguir uma sequência inversa à que muitas vezes ocorre no mercado:
primeiro o comportamento hidráulico da rede; depois o envelope operacional; depois o tipo de válvula; depois o tamanho; depois os recursos de controle; e somente então os fabricantes capazes de cumprir a especificação.
Quando essa ordem é invertida, a engenharia é obrigada a se adaptar ao equipamento.
Quando é respeitada, o equipamento é escolhido para atender à engenharia.
Conclusão: a melhor VRP é aquela que controla a rede
As válvulas redutoras de pressão estão entre os ativos mais importantes para companhias que pretendem reduzir perdas, preservar tubulações, diminuir rompimentos e melhorar a estabilidade do abastecimento.
Mas o verdadeiro ganho não vem simplesmente da instalação de uma VRP.
Vem da gestão de pressão.
O benchmarking brasileiro mostra companhias com especificações técnicas, bases instaladas relevantes e programas estruturados de controle. A experiência internacional mostra o passo seguinte: milhares de válvulas integradas a áreas de gerenciamento de pressão, telemetria e controle remoto.
A tendência aponta para VRPs cada vez menos isoladas e cada vez mais conectadas à inteligência da operação.
Para o profissional de saneamento, a principal competência não será memorizar qual marca possui o maior catálogo. Será saber interpretar vazões, pressões, pontos críticos, curvas de cavitação, transientes e dados de campo para transformar uma válvula em resultado operacional.
A melhor válvula redutora de pressão não é aquela que consegue simplesmente reduzir a pressão. É aquela que entrega, ao longo de toda a curva de demanda, apenas a pressão que a rede realmente precisa — com estabilidade, segurança, manutenção viável e informação suficiente para que a operação continue melhorando.
Fontes e referências
- Sabesp — Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. Relação de Normas Técnicas Sabesp; NTS 299 — Válvula Redutora de Pressão Tipo Globo ou Membrana (DN 50 a 600), Revisão 3, 2020. Relação de Normas Técnicas da Sabesp
- Sabesp / NTS 299. Especificação técnica para válvula redutora de pressão tipo globo ou membrana; cópia técnica utilizada para consulta dos requisitos de projeto e ensaio. Consultar NTS 299
- American Water Works Association — AWWA. C530-22 — Pilot-Operated Control Valves. Consultar referência AWWA C530-22
- BERMAD. Model 720 — Pressure Reducing Valve. Características de controle, câmara dupla, comportamento em baixa vazão e V-Port. BERMAD 720
- Cla-Val. Models 90-01 & 690-01 — Pressure Reducing Valve. Cla-Val 90-01 e 690-01
- Cla-Val. Models 90-01KO & 690-01KO — Anti-Cavitation Pressure Reducing Valve. Cla-Val anticavitação
- Singer Valve. 106-PR/206-PR — Pressure Reducing Valve; critérios de seleção e análise de cavitação. Singer — documentação técnica de VRP
- Dorot. Series 300 — Model 30-PR Pressure-Reducing Valve; manual de aplicação, dimensionamento e velocidades recomendadas. Dorot Series 300 / 30-PR
- GF Piping Systems. NeoFlow Pressure Reducing Valve — Datasheet, 2025. NeoFlow — ficha técnica
- GF Piping Systems. Caso Sabesp — Vale do Paraíba, câmara plug-and-play com NeoFlow. Dados de resultados apresentados pela própria fabricante. Caso Sabesp e NeoFlow
- Sanepar. Pregão Eletrônico nº 1202/24 — peças para equipamentos, incluindo diafragmas BERMAD Série 400 e kits Série 700. Processo da Sanepar
- Sanepar. Pregão Eletrônico nº 1066/24 — peças destinadas a válvulas redutoras BERMAD. Processo da Sanepar — componentes de VRP
- Copasa. Resultado do Pregão Eletrônico SPAL nº 05.2021/0229 — Válvulas Redutoras de Pressão; proposta vencedora BERMAD Brasil, R$ 220.849,99. Resultado publicado pela Copasa
- Cesan. Ata 0020/2021 — aquisição de válvulas BERMAD e Valloy em conformidade com NTS 299. Ata da Cesan
- Cagece. Certificado de Conformidade Técnica nº 20250403 — BERMAD Brasil, abril de 2025. Certificado da Cagece
- Thames Water. Final Water Resources Management Plan 2019 — Appendix M: Leakage, abril de 2020. Documento registra mais de mil PRVs instaladas e a importância de manutenção das áreas de gestão de pressão. Plano de perdas da Thames Water
- Thames Water / Mott MacDonald. Rationale for London Additional Expenditure — análise de gestão de pressão e controle remoto de VRPs. Estudo sobre gestão de pressão da Thames Water



