A International Water Association (IWA) colocou em um mesmo mapa cinco temas que, em muitas empresas de saneamento, ainda são administrados separadamente: segurança hídrica e clima, digitalização, saúde pública, economia circular e governança com financiamento e equidade.
A quarta edição do Global Trends and Challenges in Water Science, Research and Management, lançada em 6 de outubro de 2026 durante o IWA World Water Congress & Exhibition, em Glasgow, reúne contribuições de mais de 32 grupos de especialistas e clusters da associação. O documento identifica cinco grandes eixos: resiliência climática e segurança hídrica; água digital e inovação; água, saneamento e saúde pública; economia circular e gestão sustentável da água; e governança, financiamento e equidade. (IWA Network)
Mais importante que a lista é a conexão entre os temas.
Uma companhia pode instalar milhares de sensores e continuar perdendo água se não transformar dados em decisão. Pode construir uma estação de esgoto tecnicamente excelente e continuar distante da universalização se os imóveis não forem conectados. Pode produzir água de reúso e não ter compradores. Pode reduzir custos energéticos e, ao mesmo tempo, aumentar sua vulnerabilidade climática.
É nesse ponto que as tendências globais do saneamento ganham importância prática.
O relatório da IWA indica que a próxima transformação do setor não deverá ocorrer pela adoção isolada de uma tecnologia. Ela dependerá da capacidade de integrar engenharia, operação, gestão comercial, tecnologia, regulação, financiamento e comportamento do cliente.
E há urgência.
Em 2024, 2,1 bilhões de pessoas ainda não tinham acesso a água potável gerenciada com segurança e 3,4 bilhões não dispunham de saneamento gerenciado com segurança, segundo o programa conjunto de monitoramento da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF. (UNICEF DATA)
Portanto, o desafio mundial não é simplesmente inventar novas tecnologias. É fazer com que conhecimento, capital, infraestrutura e capacidade de gestão consigam produzir serviços melhores em escala.
O que mudou na visão da IWA
A mudança de escopo entre as duas últimas edições do relatório é reveladora.
Em 2022, a terceira edição estava organizada em três grandes áreas: tecnologias inovadoras, água e saúde, e recuperação de recursos e economia circular. Em 2026, a IWA ampliou explicitamente a agenda para cinco dimensões e colocou segurança hídrica, clima, governança, financiamento e equidade no centro da discussão. (IWA Network)
Não significa que tecnologia tenha perdido importância.
O contrário.
Significa que tecnologia sem modelo de gestão deixou de ser suficiente.
Uma empresa de saneamento poderá ter inteligência artificial, telemetria, medidores inteligentes, imagens de satélite e modelos hidráulicos. Porém, se os dados estiverem fragmentados, se as ordens de serviço demorarem para chegar às equipes, se não houver orçamento para substituir ativos críticos ou se indicadores não estiverem associados à tomada de decisão, grande parte do potencial tecnológico ficará perdida.
Essa talvez seja uma das principais mensagens das tendências globais do saneamento para gestores brasileiros.
1. Segurança hídrica deixa de ser assunto apenas de produção
Durante muito tempo, segurança hídrica foi associada principalmente à pergunta: existe água suficiente no manancial?
A discussão atual é muito mais ampla.
Uma utility resiliente precisa perguntar também se conseguirá captar, tratar, transportar, reservar e distribuir água quando ocorrerem secas mais intensas, chuvas extremas, interrupções de energia, alterações de qualidade da água bruta ou crescimento inesperado da demanda.
Além disso, adaptação climática e mitigação precisam começar a ser avaliadas conjuntamente. A própria IWA tem defendido que utilities integrem as duas estratégias: adaptar infraestrutura às mudanças que já estão ocorrendo e, simultaneamente, reduzir emissões provenientes de bombeamento, tratamento de água e tratamento de esgoto. (IWA Network)
Isso muda a lógica do planejamento.
Reservatórios, adutoras, estações elevatórias, redundâncias, interligações de sistemas, geração própria de energia, redução de perdas, reúso e gestão de demanda passam a compor uma mesma estratégia de segurança hídrica.
Singapura é um dos exemplos mais conhecidos.
A PUB, agência nacional de águas do país, estruturou seu abastecimento a partir de fontes diversificadas e de uma lógica de fechamento do ciclo da água. O país utiliza captação de chuva, importação, dessalinização e NEWater, água de reúso altamente tratada. A demanda atual é de aproximadamente 440 milhões de galões por dia e poderá quase dobrar até 2065. A estratégia oficial prevê que NEWater e dessalinização atendam a maior parte dessa demanda futura. (PUB, Singapore’s National Water Agency)
A lição para o Brasil não é copiar Singapura.
É compreender o princípio: segurança hídrica resulta de diversificação, redundância e gestão de demanda, e não apenas de encontrar um novo manancial.
Reduzir perdas, nesse cenário, transforma-se também em política de segurança hídrica.
2. A água digital está saindo do painel e chegando à decisão
Entre todas as tendências globais do saneamento, provavelmente nenhuma aparecerá com tanta frequência nos próximos anos quanto a digitalização.
Mas existe uma diferença importante entre possuir dados e ser uma utility orientada por dados.
Uma evolução típica começa com instrumentação e sensores, avança para telemetria, integração de dados e modelos analíticos e, posteriormente, permite decisões preditivas e automação.
O salto mais recente está na inteligência artificial generativa e na inteligência artificial agêntica.
Em janeiro de 2026, a própria IWA publicou um documento específico sobre GenAI e AgenticAI para utilities. A associação destaca aplicações como automatização de tarefas rotineiras, preservação e recuperação de conhecimento técnico, apoio a decisões complexas, otimização de recursos e geração de insights operacionais em tempo real. (IWA Network)
Isso pode chegar a praticamente todas as áreas.
Na operação, algoritmos podem procurar padrões de vazamento ou anomalias de pressão.
Na manutenção, podem priorizar ativos com maior probabilidade e consequência de falha.
No atendimento, podem interpretar demandas em linguagem natural.
No faturamento, podem localizar padrões anormais de consumo.
Na cobrança, podem identificar clientes com maior probabilidade de regularização.
No planejamento, podem simular cenários.
No conhecimento corporativo, podem permitir que décadas de procedimentos, normas, projetos e experiências sejam consultadas rapidamente por equipes de campo e gestores.
Mas há um erro que precisa ser evitado: começar pela IA antes de organizar os dados.
Uma inteligência artificial alimentada por cadastros inconsistentes, macromedição insuficiente, telemetria defeituosa ou históricos incompletos apenas automatiza a incerteza.
O Brasil já entrou nessa transformação
Os exemplos brasileiros mostram que as tendências globais do saneamento já estão chegando à operação real.
Em abril de 2025, a Sanepar anunciou a expansão de uma solução baseada em hidrofones inteligentes, Internet das Coisas e inteligência artificial para identificar ruídos associados a vazamentos. O projeto prevê cerca de R$ 5,7 milhões em investimentos durante dois anos. (Sanepar)
A Sabesp, por sua vez, anunciou um programa de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes. Em um projeto-piloto na região da Consolação, em São Paulo, o uso de imagens de satélite associado à inteligência artificial apontou 81 vazamentos, enquanto o método tradicional havia encontrado 14. A empresa também vem utilizando IA em inspeções, atendimento e análise operacional. (Agência SP)
Na Copasa, a combinação de substituição de hidrômetros, automação, detecção por satélite e inteligência artificial fez parte das ações utilizadas em 2025 para melhorar a eficiência operacional. A companhia informou queda de seu indicador de perdas de 38,1% para 35,6%, embora seja necessário observar que houve também alteração metodológica no cálculo do indicador durante o período, o que impede atribuir toda a variação exclusivamente às ações operacionais. (Notícias Copasa)
Na Iguá, a companhia informa utilizar inteligência artificial e gestão preditiva para identificar padrões associados a fraudes e anomalias. Segundo dados divulgados pela própria empresa, a integração dessas ferramentas ao processo operacional contribuiu para elevar de R$ 2,6 milhões para R$ 7,5 milhões mensais os ganhos financeiros associados ao programa analisado. Por se tratar de indicador divulgado pela própria companhia, deve ser lido como resultado corporativo informado, e não como avaliação independente da tecnologia. (Iguá SA)
O ponto mais importante não é escolher qual companhia possui a tecnologia mais avançada.
É perceber a direção do movimento.
Medição inteligente pode mudar até o modelo comercial
A digitalização não termina na operação.
Na Inglaterra e no País de Gales, o regulador Ofwat autorizou mais de £1,7 bilhão para implantação de aproximadamente 10,4 milhões de medidores inteligentes entre 2025 e 2030. Paralelamente, estabeleceu uma expectativa de redução adicional de 17% dos vazamentos no período. (Ofwat)
Um medidor inteligente deixa de ser apenas equipamento de faturamento.
Ele pode funcionar como sensor de demanda.
Quando milhões de pontos passam a produzir séries temporais de consumo, torna-se possível identificar fluxo contínuo, vazamentos internos, alterações repentinas, comportamento por horário, sazonalidade e mudanças de perfil.
Consequentemente, micromedição, perdas, faturamento, atendimento e planejamento deixam de ser áreas completamente separadas.
A mesma informação passa a gerar valor para todas elas.
Essa é uma das aplicações mais concretas das tendências globais do saneamento.
3. Água e esgoto voltam a ser tratados como infraestrutura de saúde
Existe outra transformação relevante na visão internacional.
Universalização não significa apenas possuir uma tubulação passando diante do imóvel.
O conceito de serviço seguro exige disponibilidade, qualidade e destinação adequada.
O levantamento WHO/UNICEF mostra que, apesar dos avanços entre 2015 e 2024, um quarto da população mundial ainda não dispõe de água potável gerenciada de forma segura e dois em cada cinco habitantes não têm saneamento gerenciado com segurança. (UNICEF DATA)
A OMS estimou ainda que condições inadequadas de água, saneamento e higiene contribuem para aproximadamente 1,4 milhão de mortes por ano. (Organização Mundial da Saúde)
Para uma companhia, isso amplia o significado dos indicadores.
Extensão de rede é importante.
Mas também importam continuidade de abastecimento, qualidade da água, pressão, tratamento efetivo do esgoto, extravasamentos, conexão dos imóveis à rede disponível e segurança sanitária ao longo de todo o sistema.
Para equipes comerciais, surge uma implicação frequentemente subestimada.
Rede construída não significa serviço utilizado.
Quando existe rede de esgoto disponível, mas o imóvel não está conectado, parte do investimento permanece sem produzir integralmente o benefício sanitário, ambiental e econômico esperado.
Por isso, programas de adesão ao esgoto, atualização cadastral, relacionamento com clientes e comunicação ganham importância estratégica.
Universalização passa a depender também da gestão comercial.
4. ETE deixa de ser fim de linha e vira potencial fábrica de recursos
A quarta tendência é a economia circular.
Durante décadas, a lógica predominante do saneamento foi linear: captar, tratar, distribuir, consumir, coletar, tratar novamente e lançar.
A economia circular muda a pergunta.
Em vez de perguntar apenas como tratar o esgoto, pergunta-se:
o que ainda existe de valor dentro dele?
A resposta pode incluir água, biogás, energia, calor, nutrientes e outros materiais.
A própria IWA destaca que a recuperação de recursos a partir da água e do esgoto pode produzir benefícios ambientais, econômicos e de resiliência. (IWA Network)
Um caso internacional emblemático está na Dinamarca.
Na Estação de Tratamento de Esgoto Marselisborg, operada pela Aarhus Vand, a empresa informa que a planta chegou a produzir, em 2019, 50% mais energia do que consumia para tratar o esgoto, principalmente a partir da otimização energética e aproveitamento do biogás. (Aarhus Vand)
No Brasil também existem experiências.
A Copasa informa que a ETE Arrudas possui sistema de cogeração de 2,4 MW instalado a partir do biogás e capacidade para suprir parcela significativa da necessidade energética da planta. A companhia também trabalha com aproveitamento de efluente tratado e outros subprodutos em seus conceitos de ETE sustentável. (Copasa)
A mudança conceitual é profunda.
Uma ETE tradicional possui custos de energia, transporte e disposição.
Uma estação orientada à circularidade procura transformar parte desses fluxos em ativos.
Mas isso exige estudo econômico.
Produzir água de reúso sem cliente próximo pode não ser viável. Recuperar um produto sem mercado comprador pode apenas substituir um problema operacional por outro. Biogás em pequena escala pode não justificar o investimento.
Portanto, economia circular não significa aproveitar tudo; significa identificar quais fluxos podem gerar valor técnico, ambiental e econômico naquele contexto específico.
5. Governança e financiamento podem ser o maior gargalo
Talvez o eixo menos chamativo do relatório seja também o mais importante.
O mundo possui tecnologias capazes de detectar vazamentos, tratar esgoto, reutilizar água, gerar energia e automatizar processos.
Entretanto, a capacidade de financiar, regular e operar esses sistemas continua desigual.
Dados compilados pela UN-Water a partir do GLAAS mostram uma lacuna global de financiamento de aproximadamente 46% entre as necessidades identificadas e os recursos disponíveis para atingir metas nacionais de WASH. Quase 90% dos países possuem políticas e planos, mas apenas 13% informam dispor de recursos financeiros ou humanos suficientes para implementá-los. (Unwater)
Essa diferença entre planejamento e execução deveria chamar a atenção de qualquer gestor.
É possível possuir um plano perfeito de redução de perdas e não ter orçamento.
É possível possuir recursos e não ter projetos executivos.
É possível possuir tecnologia e não ter pessoas capacitadas.
É possível construir infraestrutura e não ter receita suficiente para mantê-la.
É possível possuir indicadores e não haver consequência regulatória quando eles deterioram.
Por isso, uma das tendências globais do saneamento é tratar sustentabilidade financeira, governança e capacidade institucional como partes da infraestrutura.
No Brasil, a regulação começa a caminhar nessa direção
O ambiente regulatório brasileiro está incorporando alguns desses conceitos.
A Norma de Referência nº 8/2024 da ANA estabeleceu diretrizes relacionadas às metas progressivas de universalização. A Norma de Referência nº 11/2024 definiu condições gerais para a prestação dos serviços de água e esgoto. (Governo Federal)
Mais recentemente, a Norma de Referência ANA nº 15/2025 avançou especificamente sobre gestão e redução de perdas.
Ela exige diagnóstico padronizado, balanço hídrico, acompanhamento de perdas reais e aparentes, hidrometração, macromedição e elaboração de Plano de Gestão de Redução e Controle de Perdas. A norma prevê ainda justificativa técnico-econômica para as ações e admite instrumentos como contratos de performance, PPPs e tecnologias inovadoras. (Governo Federal)
Há um detalhe particularmente relevante.
A norma cita expressamente tecnologias como telemetria, sensores de pressão, vazão ou ruído, modelos de previsão de vazamentos, georreferenciamento e medição inteligente. (Governo Federal)
Ou seja: uma parte da agenda internacional identificada nas tendências globais do saneamento já começa a aparecer na arquitetura regulatória brasileira.
O que muda na prática dentro de uma companhia
A principal consequência dessa transformação pode ser percebida na forma de organizar decisões.
O setor historicamente funciona por especialidades.
Produção administra produção.
Distribuição administra redes.
Comercial administra clientes.
TI administra sistemas.
Engenharia administra obras.
Financeiro administra recursos.
A realidade descrita pela IWA começa a tornar essas fronteiras insuficientes.
Considere um vazamento.
Ele é um problema operacional porque perde água.
É energético porque aquela água foi captada, tratada e bombeada.
É financeiro porque parte do custo não produz receita.
É comercial porque pode causar falta de água e reclamações.
É ambiental porque aumenta a captação.
É regulatório porque influencia indicadores.
É tecnológico porque pode ser identificado por sensores.
E é de ativos porque talvez revele deterioração da rede.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a inadimplência, esgoto não conectado, intermitência, pressão elevada ou submedição.
O profissional capaz de compreender essas interdependências passa a possuir vantagem relevante.
O que gestores deveriam começar a observar
As tendências globais do saneamento permitem construir uma agenda bastante objetiva para as utilities.
Primeiro, é necessário verificar se dados operacionais, comerciais e financeiros realmente conversam entre si.
Segundo, vale identificar os cinco ou dez problemas de maior impacto econômico e operacional e testar tecnologia sobre problemas reais, em vez de adquirir tecnologia procurando depois uma aplicação.
Terceiro, projetos deveriam ser avaliados pelo ciclo completo de valor. Um hidrômetro inteligente, por exemplo, não gera retorno apenas pela leitura remota. Pode reduzir submedição, identificar vazamentos internos, melhorar cobrança, reduzir reclamações, produzir dados para planejamento e apoiar políticas de demanda.
Quarto, mudanças climáticas precisam entrar nos planos de ativos. Equipamentos, mananciais e instalações projetados utilizando exclusivamente séries históricas podem enfrentar condições futuras diferentes das utilizadas originalmente em seu dimensionamento.
Quinto, cada projeto de circularidade deveria nascer junto de um modelo econômico. Quem utilizará o efluente? A que distância? Quem comprará o produto recuperado? Qual investimento será necessário? Quanto custa atualmente a disposição?
O que pode dar errado
Existe também um risco de interpretar essas tendências de maneira superficial.
O primeiro erro é acreditar que digitalização significa comprar sensores.
O segundo é aplicar inteligência artificial onde sequer existe qualidade mínima de dados.
O terceiro é executar pilotos eternamente, sem critérios para decidir quando escalar ou abandonar uma solução.
O quarto é priorizar inovação visível enquanto problemas básicos de macromedição, cadastro, pressão, manutenção e conexão de esgoto permanecem sem solução.
O quinto é confundir economia circular com obrigação de monetizar todos os subprodutos.
O sexto é tratar resiliência climática apenas como obra de expansão.
E talvez o maior erro seja imaginar que tecnologia reduzirá a importância das pessoas.
O efeito tende a ser justamente o contrário.
O profissional de saneamento ficará mais importante — mas seu perfil mudará
Quanto mais instrumentada e automatizada se torna uma companhia, maior é a necessidade de profissionais capazes de interpretar o sistema.
Um algoritmo pode identificar uma anomalia.
Mas alguém precisa compreender se aquilo representa vazamento, consumo legítimo, falha de sensor, alteração operacional ou problema cadastral.
Um sistema pode prever deterioração de um ativo.
Mas alguém precisa decidir quando intervir, qual risco aceitar e como priorizar orçamento.
Uma IA pode produzir uma recomendação.
Mas responsabilidade operacional, sanitária, jurídica e regulatória continua exigindo julgamento humano.
Por isso, as tendências globais do saneamento valorizam um perfil que combina experiência prática com capacidade analítica.
O operador que conhece o comportamento real da rede.
O técnico que compreende instrumentação.
O engenheiro que consegue interpretar dados.
O analista comercial que entende hidráulica e medição.
O especialista de TI que conhece o processo de saneamento.
O gestor que conecta operação, cliente, regulação e resultado financeiro.
Esses profissionais tornam-se cada vez mais valiosos porque conseguem transformar informação em ação.
A oportunidade pouco percebida: integrar operação e gestão comercial
Talvez uma das maiores oportunidades para empresas brasileiras esteja na integração entre áreas operacionais e comerciais.
Perdas aparentes, submedição, fraude, cadastro, grandes consumidores, alterações anormais de consumo e qualidade da micromedição afetam diretamente o balanço hídrico.
Ao mesmo tempo, pressão, intermitência e vazamentos afetam experiência do cliente, consumo e faturamento.
Isso significa que combate às perdas não deveria existir apenas como programa operacional.
Deveria ser uma agenda empresarial.
A mesma lógica se aplica à expansão do esgoto.
Construir rede sem converter disponibilidade em conexão reduz o retorno sanitário e financeiro do investimento.
Nesse sentido, o futuro do saneamento será cada vez menos dividido entre “operação” e “comercial” e cada vez mais organizado em torno da jornada completa da água e do cliente.
As cinco tendências apontam para uma mesma utility
Quando observadas isoladamente, segurança hídrica, inteligência artificial, saúde, circularidade e governança parecem cinco agendas.
Na prática, representam partes de um mesmo modelo.
Uma utility preparada para a próxima década tende a conhecer melhor seus ativos, medir melhor seus volumes, prever problemas antes da ocorrência, reduzir desperdícios, recuperar recursos, diversificar fontes, entender seus clientes, justificar investimentos com dados e manter capacidade financeira para sustentar o serviço.
Isso explica por que as tendências globais do saneamento apresentadas pela IWA interessam tanto a quem trabalha no setor.
Elas não descrevem apenas tecnologias que poderão chegar no futuro.
Grande parte delas já está sendo implantada.
Conclusão: a próxima revolução será de integração
O relatório de 2026 da IWA não deve ser lido apenas como uma relação de temas internacionais.
Ele funciona como um sinal sobre a direção das utilities.
O desafio dos próximos anos não será escolher entre engenharia ou tecnologia, operação ou comercial, expansão ou eficiência, universalização ou sustentabilidade financeira.
Será integrar essas dimensões.
O exemplo de Singapura mostra o valor da diversificação e do reúso. A experiência regulatória britânica mostra como metas, incentivos e medição inteligente podem ser combinados. Aarhus demonstra que esgoto pode carregar recursos além de resíduos. As iniciativas de Sanepar, Sabesp, Copasa e Iguá mostram que inteligência artificial, sensores e análise de dados já começam a produzir aplicações concretas no Brasil.
Ao mesmo tempo, os números mundiais de acesso e financiamento mostram que nenhuma tecnologia resolve sozinha o problema.
As tendências globais do saneamento apontam, portanto, para uma mudança maior: sair da gestão fragmentada e avançar para sistemas que conseguem enxergar água, ativos, energia, clientes, clima, dados, saúde e dinheiro como partes da mesma equação.
Para empresas, isso significa rever prioridades.
Para gestores, significa tomar decisões mais integradas.
E para profissionais, significa uma oportunidade de crescimento.
Porque quanto mais complexo se torna o saneamento, mais importante se torna quem consegue compreender o sistema inteiro — e transformar conhecimento técnico em resultado.
Fontes e referências
International Water Association — IWA
Global Trends and Challenges in Water Science, Research and Management – 4th Edition
Publicado em 29 de setembro de 2026; lançamento em 6 de outubro de 2026.
Acessar publicação da IWA
International Water Association — IWA
Global Trends and Challenges in Water Science, Research and Management – 3rd Edition
5 de setembro de 2022.
Acessar edição de 2022
International Water Association — IWA
GenAI and AgenticAI for Water Utilities
14 de janeiro de 2026.
Acessar publicação sobre IA
International Water Association — IWA
Closing the gap between Climate Adaptation and Climate Mitigation
22 de maio de 2025.
Acessar publicação
WHO/UNICEF Joint Monitoring Programme — JMP
Progress on household drinking water, sanitation and hygiene 2000–2024
26 de agosto de 2025.
Acessar dados do JMP
World Health Organization — WHO
WHO Global Water, Sanitation and Hygiene: Annual Report 2025
5 de outubro de 2026.
Acessar relatório da OMS
UN-Water
Financing Water and Sanitation
Dados consultados em outubro de 2026.
Acessar dados de financiamento
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025 sobre redução progressiva e controle de perdas.
18 de dezembro de 2025.
Acessar a Resolução ANA nº 275/2025
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Norma de Referência nº 8/2024 — Metas progressivas de universalização.
Acessar a Norma de Referência nº 8/2024
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Norma de Referência nº 11/2024 — Condições gerais da prestação dos serviços de água e esgoto.
Acessar a Norma de Referência nº 11/2024
Sanepar
Sanepar escala solução inovadora para monitorar ruídos e detectar vazamentos em redes de água
24 de abril de 2025.
Acessar caso Sanepar
Governo do Estado de São Paulo / Sabesp
Sabesp acelera modernização com IA, satélite, impressora 3D e tecnologias avançadas de tratamento
29 de novembro de 2025.
Acessar caso Sabesp
Copasa
Com investimento recorde de quase R$ 3 bi, Copasa supera metas de 2025 e amplia cobertura de esgoto para 80%
9 de março de 2026.
Acessar resultados da Copasa
Copasa
ETE Sustentável — aproveitamento de biogás, efluente e lodo
Página institucional consultada em outubro de 2026.
Acessar projeto ETE Sustentável
Iguá Saneamento
Iguá reforça compromisso com a eficiência operacional no Iguá Day
2025.
Acessar caso Iguá
PUB — Singapore’s National Water Agency
Singapore’s Water Loop
Página institucional consultada em outubro de 2026.
Acessar estratégia hídrica de Singapura
PUB — Singapore’s National Water Agency
Singapore NEWater Journey
2024.
Acessar informações sobre NEWater
Aarhus Vand — Dinamarca
Marselisborg Renseanlæg viser vejen for en energipositiv og klimaneutral vandsektor
6 de janeiro de 2020.
Acessar caso Marselisborg
Ofwat — Water Services Regulation Authority
Leakage
Dados e diretrizes sobre redução de vazamentos e implantação de medição inteligente.
Acessar dados da Ofwat



