Cerca de 58% dos municípios brasileiros apresentam níveis baixos ou mínimos de resiliência hídrica. Além disso, 51% das captações destinadas ao abastecimento urbano estão classificadas em situação crítica ou emergencial quanto ao risco futuro de escassez de água. Os números divulgados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) revelam um desafio que pode transformar o planejamento, os investimentos e a operação das companhias de saneamento nos próximos anos.
Os dados integram uma análise publicada pela ANA em 1º de outubro de 2026, baseada em estudos nacionais sobre disponibilidade de água, mudanças climáticas, infraestrutura e proteção dos ecossistemas.
O diagnóstico amplia uma preocupação recorrente no setor: construir novas adutoras, ampliar estações de tratamento e expandir redes não será suficiente para garantir a segurança hídrica se os mananciais continuarem vulneráveis, as perdas permanecerem elevadas e as empresas não desenvolverem capacidade de enfrentar períodos prolongados de escassez.
O alerta também atinge diretamente áreas comerciais, financeiras e de relacionamento com clientes. Uma redução na disponibilidade de água pode elevar custos de produção, limitar novas ligações, comprometer a regularidade do abastecimento, aumentar reclamações e afetar a sustentabilidade econômica da prestação dos serviços.
A questão estratégica deixa de ser apenas quanta água uma companhia consegue produzir. Passa a ser quanto tempo ela consegue manter o abastecimento diante de condições cada vez mais adversas.
O que a ANA revelou sobre a segurança hídrica no Brasil
A publicação utiliza o Índice de Segurança Hídrica (ISH), instrumento que permite avaliar diferentes fatores associados à capacidade dos territórios de garantir água em quantidade e qualidade adequadas.
O índice considera quatro dimensões complementares, com resultados que ajudam a identificar vulnerabilidades distintas.
Dimensão humana: aproximadamente 22% dos municípios apresentam segurança hídrica baixa ou mínima quanto à garantia de água para o abastecimento da população.
Dimensão econômica: cerca de 32% dos municípios estão nas faixas baixa ou mínima em relação à disponibilidade de água para atividades produtivas, especialmente irrigação, pecuária e indústria.
Dimensão ecossistêmica: aproximadamente 27% dos municípios apresentam condição mínima nessa dimensão, relacionada à capacidade dos ambientes aquáticos de manter disponibilidade e qualidade de água adequadas.
Dimensão de resiliência: cerca de 58% dos municípios possuem classificação baixa ou mínima quanto à capacidade dos sistemas hídricos de suportar situações de escassez.
Esses percentuais representam dimensões diferentes e não devem ser somados. Um município pode apresentar desempenho satisfatório em abastecimento humano e, simultaneamente, baixa capacidade de enfrentar uma seca prolongada.
É justamente essa diferença que merece atenção dos gestores.
Uma cidade pode apresentar abastecimento regular durante boa parte do ano, possuir estação de tratamento dimensionada para a demanda atual e, mesmo assim, enfrentar elevado risco de interrupção caso dependa de um único reservatório ou de um rio sujeito a grandes variações de vazão.
Abastecimento regular hoje não significa segurança hídrica garantida amanhã.
Mudanças climáticas colocam mais da metade das captações urbanas sob risco futuro
Outro resultado relevante está nas projeções climáticas analisadas pela ANA.
O estudo identifica tendência de redução de chuvas e vazões de referência em dez das 12 regiões hidrográficas brasileiras, considerando cenários de impactos potenciais no horizonte de 2015 a 2040.
Em determinadas regiões, como Amazônica, Tocantins-Araguaia, Atlântico Nordeste Oriental e São Francisco, os cenários incluem reduções de disponibilidade superiores a 30% e, em algumas situações, superiores a 40%.
Esses números representam projeções condicionadas aos cenários e métodos empregados, não reduções já observadas uniformemente em todos os rios dessas regiões.
O estudo utiliza, entre outras variáveis, a vazão Q95, um indicador hidrológico associado à disponibilidade de água em condições de baixa vazão. Em termos simples, representa uma vazão igualada ou superada em aproximadamente 95% do período analisado.
Para o abastecimento público, essa informação é fundamental.
Uma captação dimensionada exclusivamente com base em vazões médias pode apresentar capacidade aparentemente adequada, mas se tornar insuficiente durante períodos críticos.
Segundo a ANA, 33% das captações urbanas avaliadas estão classificadas na condição crítica e 18% na emergencial em relação ao risco futuro de escassez.
Na agricultura irrigada, esses percentuais alcançam 43% e 19%, respectivamente.
A competição pela água entre abastecimento humano, agricultura, indústria e geração de energia pode aumentar em bacias com disponibilidade limitada.
Isso não significa que 51% das captações urbanas estejam atualmente sem água. Significa que a análise de risco futuro identificou vulnerabilidades relevantes nessas estruturas.
Para companhias de saneamento, a consequência é a necessidade de revisar estudos de disponibilidade hídrica, capacidade de captação, outorgas e planos de expansão considerando cenários menos favoráveis.
O paradoxo brasileiro: disponibilidade nacional elevada e escassez regional
Um dos dados mais reveladores da publicação é a diferença entre o estresse hídrico nacional e o regional.
Em 2024, o indicador brasileiro de estresse hídrico foi estimado em apenas 2,3%.
Entretanto, na Região Hidrográfica Atlântico Nordeste Oriental, o índice chegou a 60%.
Nas regiões do São Francisco, Atlântico Leste e Atlântico Sul, os percentuais foram de 30%, 27% e 22%, respectivamente.
O indicador relaciona as retiradas de água à disponibilidade renovável, descontadas as necessidades ambientais consideradas na metodologia.
Na prática, demonstra por que a análise nacional pode esconder situações extremamente desafiadoras.
Um sistema de abastecimento localizado em uma região de elevada disponibilidade hídrica pode enfrentar dificuldades relacionadas à poluição, à distância dos mananciais ou à infraestrutura inadequada.
Por outro lado, uma região naturalmente seca pode alcançar maior segurança hídrica relativa mediante reservação adequada, gestão eficiente da demanda, diversificação de fontes e controle de perdas.
A disponibilidade natural é importante, mas a gestão determina quanto dessa disponibilidade poderá ser efetivamente utilizada.
O investimento necessário vai muito além de novas barragens
O Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH), lançado em 2019, identificou intervenções estruturantes para reduzir vulnerabilidades e ampliar a oferta de água.
A ANA informa que o planejamento contempla 166 intervenções e investimentos estimados em R$ 26,9 bilhões.
Já o Atlas Águas, publicado em 2021, apresentou uma estimativa de aproximadamente R$ 110 bilhões em investimentos associados à melhoria da segurança hídrica do abastecimento urbano até 2035.
Esses valores não devem ser somados automaticamente.
Os estudos possuem escopos diferentes, e o próprio Atlas apresenta estimativas adicionais quando são considerados custos de reposição de ativos.
Também não representam, necessariamente, recursos orçamentários já assegurados ou obras integralmente contratadas.
O aspecto mais importante é a diversidade de intervenções necessárias.
Além de grandes estruturas de produção e transporte de água, o planejamento envolve melhorias nos sistemas existentes, gerenciamento de perdas, reservação, eficiência operacional e modernização da distribuição.
Isso modifica a lógica de avaliação dos investimentos.
Uma nova captação pode aumentar a disponibilidade de água, mas talvez não seja a alternativa de menor custo quando uma parcela significativa do volume produzido se perde antes de chegar aos consumidores.
Da mesma forma, ampliar a capacidade de uma estação de tratamento pode ser insuficiente quando o verdadeiro problema está na baixa disponibilidade do manancial durante períodos críticos.
A segurança hídrica exige comparar investimentos em aumento de oferta com investimentos em eficiência, considerando o custo de cada metro cúbico efetivamente disponibilizado.
O problema das perdas: desperdiçar água também significa ampliar o risco
A redução de perdas costuma ser apresentada como uma estratégia de eficiência operacional e financeira.
Entretanto, ela também deve ser tratada como uma medida de segurança hídrica.
Cada metro cúbico perdido fisicamente na distribuição representa um volume que precisou ser captado, transportado e tratado, consumindo recursos hídricos, energia, produtos químicos e capacidade operacional sem atender ao consumidor.
Existem duas categorias principais de perdas.
As perdas reais correspondem à água desperdiçada fisicamente por vazamentos, rompimentos e extravasamentos.
As perdas aparentes estão relacionadas, entre outros fatores, à submedição de hidrômetros, consumos não autorizados e inconsistências cadastrais ou comerciais.
A distinção é fundamental.
Reduzir perdas reais pode diminuir diretamente a necessidade de captação e produção.
Já combater perdas aparentes melhora o controle dos volumes utilizados e a recuperação de receitas, embora a regularização de um volume antes não medido não represente necessariamente uma economia física equivalente de água.
Essa diferenciação evita um erro frequente: considerar todo aumento de volume faturado como redução efetiva da pressão sobre os mananciais.
A nova norma de perdas da ANA reforça essa integração
A Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução nº 275/2025, estabeleceu diretrizes para diagnóstico padronizado, elaboração de planos e acompanhamento da redução de perdas de água.
A norma prevê a utilização de balanço hídrico e de indicadores que permitam distinguir perdas reais e aparentes.
Também determina que os planos considerem a continuidade do abastecimento e as pressões mínimas adequadas.
Outro dispositivo merece destaque: em localidades com restrições nos mananciais, o planejamento deve considerar alternativas capazes de evitar o desabastecimento e a exaustão das fontes, em articulação com os instrumentos de contingência pertinentes.
As entidades reguladoras infranacionais possuem responsabilidades específicas na regulamentação e no acompanhamento desses planos. A norma estabelece que a verificação das medidas previstas no seu artigo 14 começa em 20 de maio de 2028, com escalonamento conforme porte municipal e índice de perdas.
O resultado é uma aproximação mais clara entre gestão de perdas, operação dos sistemas e riscos de disponibilidade hídrica.
Para gestores comerciais, isso reforça a importância da macromedição, da micromedição, da consistência cadastral, da identificação de consumos não autorizados e da atuação integrada com as equipes operacionais.
Sabesp: redução de pressão como instrumento de segurança hídrica
A experiência recente da Sabesp, em São Paulo, demonstra como o gerenciamento da demanda pode assumir papel central na segurança hídrica de grandes sistemas.
Em outubro de 2026, o Governo de São Paulo informou a manutenção da Gestão de Demanda Noturna (GDN) por oito horas diárias na Região Metropolitana, mesmo após a recuperação dos níveis de reservação.
Desde o início da medida, em agosto de 2025, a economia acumulada foi estimada em mais de 209 bilhões de litros de água.
O procedimento consiste em reduzir de maneira controlada a pressão na rede de distribuição durante horários de menor consumo.
A lógica hidráulica é relativamente simples: pressões excessivas podem aumentar vazões de vazamentos e agravar solicitações sobre as tubulações.
Com gerenciamento adequado, a redução controlada de pressão pode diminuir perdas físicas e preservar volumes armazenados.
Entretanto, existe uma limitação importante.
Reduzir pressão indiscriminadamente pode comprometer o abastecimento em pontos elevados, extremidades de rede e imóveis em condições hidráulicas desfavoráveis.
A própria experiência paulista mostra a necessidade de acompanhamento regulatório e de avaliação permanente das condições de fornecimento.
O aprendizado não consiste em reproduzir automaticamente a quantidade de horas adotada em São Paulo.
Consiste em utilizar modelagem hidráulica, sensores, macromedição, informações de consumo e monitoramento das reclamações para encontrar condições operacionais capazes de reduzir desperdícios sem comprometer o serviço.
A pressão precisa ser gerenciada dentro de limites tecnicamente adequados, com especial atenção à continuidade e à qualidade da água distribuída.
Nordeste: a transposição do São Francisco mostra a importância da gestão operacional
O Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF) representa outro modelo relevante de segurança hídrica no Brasil.
A infraestrutura conecta bacias hidrográficas e possibilita transferências de água para sistemas estratégicos do Nordeste Setentrional.
Entretanto, transportar água entre bacias não elimina a necessidade de coordenação entre reservatórios, operadores, órgãos gestores e usuários.
Em maio de 2026, a ANA informou que representantes federais e estaduais estavam avaliando a integração operacional do PISF com sistemas hídricos da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
O trabalho incluiu os reservatórios Engenheiro Avidos e São Gonçalo, com procedimentos de ajuste operacional quinzenal e testes iniciados em fevereiro daquele ano.
O caso demonstra uma dificuldade frequentemente subestimada nos grandes empreendimentos hídricos.
A construção da infraestrutura é apenas uma parte da solução.
Também são necessários regras de operação, programação de entregas, acompanhamento de vazões, gestão dos estoques, definição de responsabilidades e compatibilização entre demandas regionais.
Um sistema de transferência pode apresentar disponibilidade de água em sua origem e, ainda assim, enfrentar dificuldades de atendimento por restrições hidráulicas, energéticas, operacionais ou institucionais.
Para as companhias receptoras, a lição é clara: a segurança hídrica deve considerar a cadeia completa de suprimento, inclusive estruturas operadas por outras instituições.
Proteger mananciais pode custar menos do que corrigir seus impactos
A qualidade da água constitui outra dimensão decisiva.
A ANA informa que, em 2023, aproximadamente 57,6% do volume de esgoto doméstico gerado no Brasil recebia tratamento seguro, segundo a metodologia dos indicadores do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6.
Isso significa que uma parcela expressiva do esgoto produzido permanecia sem tratamento adequado.
A consequência vai além da contaminação ambiental.
Quando um manancial recebe cargas elevadas de matéria orgânica, nutrientes e outros poluentes, o tratamento para abastecimento pode tornar-se mais complexo.
Dependendo das características da água bruta, podem ocorrer maior consumo de produtos químicos, problemas de gosto e odor, proliferação de algas, necessidade de processos complementares e elevação de custos operacionais.
Além disso, determinados contaminantes podem exigir tecnologias que não estão disponíveis em estações convencionais.
Portanto, investir em esgotamento sanitário e na proteção das bacias pode gerar benefícios indiretos para os sistemas de abastecimento.
Programa Produtor de Água: conservação como investimento estratégico
Um exemplo brasileiro é o Programa Produtor de Água, coordenado pela ANA com instituições parceiras.
Em março de 2026, a Agência divulgou um balanço acumulado desde 2001, apontando R$ 144,4 milhões investidos em ações de conservação de água e solo.
O levantamento identificou 76 projetos e 1.283 produtores rurais alcançados.
Entre os resultados físicos apresentados estavam mais de 22 mil hectares de vegetação conservada, aproximadamente 4,18 mil hectares de vegetação nativa recuperada e 8.137 barraginhas e caixas secas implantadas.
Essas estruturas favorecem a retenção e infiltração de água, além de auxiliar no controle do escoamento superficial e do transporte de sedimentos.
O programa também utiliza instrumentos de pagamento por serviços ambientais, que remuneram ações de conservação conforme os arranjos estabelecidos.
Para companhias de saneamento, essa experiência mostra que a gestão da água não precisa começar apenas na tomada de captação.
A proteção de nascentes, matas ciliares e áreas de recarga pode integrar estratégias de longo prazo.
Entretanto, os benefícios devem ser acompanhados de indicadores verificáveis, como qualidade da água, sedimentos, cobertura vegetal e disponibilidade hídrica. A execução de ações de conservação não comprova, isoladamente, um ganho específico de vazão.
Singapura: o esgoto tratado tornou-se parte da estratégia de abastecimento
Internacionalmente, Singapura oferece um dos exemplos mais relevantes de diversificação das fontes de água.
A agência nacional PUB estruturou uma estratégia conhecida como Four National Taps, baseada em quatro fontes: água captada localmente, água importada, água de reúso de alta qualidade e água dessalinizada.
Uma das principais tecnologias utilizadas é o NEWater.
O processo aproveita água residuária previamente tratada e realiza etapas adicionais de purificação, incluindo membranas e desinfecção ultravioleta.
A água produzida é utilizada principalmente em aplicações industriais e também pode complementar reservatórios destinados ao abastecimento, sob controles específicos de qualidade.
O sistema reduz a dependência exclusiva das chuvas.
Segundo a PUB, a demanda de água de Singapura poderá praticamente dobrar até 2065, o que reforça a necessidade de ampliar fontes alternativas.
O país também investe em novas instalações de reúso, incluindo projetos integrados a estações de recuperação de água residuária.
Mas existe um desafio econômico.
Tecnologias avançadas de membranas, reúso e dessalinização exigem energia, manutenção especializada e controle rigoroso de qualidade.
Por isso, sua adoção precisa considerar o custo ao longo da vida útil, a disponibilidade energética e o destino adequado dos resíduos e concentrados gerados.
O que pode ser aplicado no Brasil?
A experiência de Singapura não significa que todas as companhias brasileiras devam implantar sistemas de reúso potável.
Uma aplicação mais imediata, em determinadas regiões, pode ser o fornecimento de água de reúso para indústrias que atualmente utilizam água potável em processos que não exigem essa qualidade.
Isso pode liberar capacidade do sistema público para o atendimento humano e reduzir a pressão sobre mananciais.
A viabilidade depende da demanda industrial próxima, da qualidade exigida, da infraestrutura de transporte, do custo de tratamento e do enquadramento regulatório.
O maior aprendizado é reconhecer o efluente tratado não apenas como um resíduo a ser descartado, mas como um recurso potencial, desde que seu aproveitamento seja tecnicamente seguro e economicamente justificável.
Cidade do Cabo: a crise hídrica que mudou a gestão da demanda
A Cidade do Cabo, na África do Sul, tornou-se referência mundial após enfrentar uma das crises hídricas urbanas mais conhecidas da história recente.
Em 2018, a cidade esteve próxima do chamado Day Zero, cenário em que seria necessário interromper grande parte do abastecimento convencional e adotar sistemas emergenciais de distribuição.
A resposta combinou restrições ao consumo, campanhas públicas, gerenciamento de pressão, mudanças tarifárias e medidas de ampliação da oferta.
Segundo informações divulgadas posteriormente pela administração municipal, os moradores reduziram o consumo de água em quase 60% durante o enfrentamento da crise.
A experiência também levou à elaboração de uma estratégia de longo prazo, aprovada em 2019, que contemplou diversificação de fontes, águas subterrâneas, reúso, dessalinização e conservação das bacias de captação.
Naquele planejamento, a cidade estabeleceu a intenção de ampliar sua capacidade disponível em mais de 300 milhões de litros por dia ao longo dos dez anos seguintes. Tratava-se de uma meta de planejamento, não de um resultado já alcançado.
O caso ensina que a comunicação com os consumidores pode influenciar significativamente a demanda em situações extremas.
Entretanto, campanhas emergenciais não substituem investimentos estruturais e planejamento preventivo.
Para o setor brasileiro, a experiência reforça a necessidade de desenvolver protocolos de comunicação antes do agravamento da escassez, definir gatilhos operacionais transparentes e preparar alternativas de atendimento às populações mais vulneráveis.
Segurança hídrica também é responsabilidade da gestão comercial
O debate costuma permanecer concentrado nas áreas de recursos hídricos, engenharia e operação.
Entretanto, as gerências comerciais também possuem instrumentos que podem contribuir para a eficiência e a resiliência dos sistemas.
Uma base cadastral desatualizada, por exemplo, prejudica a projeção de demanda e o planejamento da expansão.
Hidrômetros envelhecidos podem comprometer a confiabilidade das informações de consumo.
Grandes consumidores sem monitoramento adequado dificultam a identificação de variações significativas de demanda.
Ligações clandestinas e usos não autorizados comprometem o controle dos volumes distribuídos.
Em períodos de escassez, esses problemas tornam-se mais sensíveis.
A gestão comercial pode contribuir por meio de substituição de hidrômetros, telemetria em grandes consumidores, melhoria da qualidade cadastral, monitoramento de consumos atípicos e integração das informações de atendimento com os dados operacionais.
A análise de reclamações de falta de água também pode ajudar a identificar setores sujeitos a baixa pressão, intermitência e dificuldades recorrentes.
Outra oportunidade envolve o relacionamento com clientes industriais.
Identificar atividades que poderiam utilizar água de reúso ou fontes alternativas pode contribuir para uma política mais eficiente de alocação de recursos hídricos.
A segurança hídrica deixa de ser responsabilidade exclusiva da produção quando os dados comerciais passam a contribuir para decisões de operação e expansão.
Quanto custa não investir em segurança hídrica?
Uma dificuldade recorrente é justificar financeiramente investimentos cujo principal benefício consiste em evitar interrupções futuras.
A análise tradicional de projetos costuma priorizar ampliação de capacidade, crescimento de receita e redução direta de despesas.
Entretanto, investimentos em segurança hídrica também podem produzir benefícios econômicos relacionados à redução do risco.
Uma interrupção prolongada pode provocar perda de faturamento, despesas emergenciais, contratação de carros-pipa, aumento de reclamações, danos reputacionais e eventual exposição a sanções regulatórias ou demandas judiciais.
A recuperação operacional pode exigir ainda consumo adicional de energia, mobilização extraordinária de equipes e intervenções emergenciais.
Esses impactos variam conforme a infraestrutura, a duração da interrupção e as características do sistema.
Para melhorar a tomada de decisão, as companhias podem comparar alternativas por meio de análises de custo do ciclo de vida e de risco.
Em vez de considerar somente o investimento inicial, a avaliação pode incorporar o custo esperado das falhas, a criticidade dos ativos, os custos operacionais e a capacidade de atendimento em diferentes cenários hidrológicos.
Essa abordagem permite identificar situações em que uma intervenção aparentemente mais cara pode oferecer maior benefício ao longo do tempo.
O que gestores e profissionais devem observar
A publicação da ANA oferece uma oportunidade concreta para revisar os processos de planejamento e operação das companhias.
Algumas medidas possuem aplicação direta.
1. Mapear a vulnerabilidade dos mananciais.
Identificar sistemas que dependem de fonte única, apresentam outorgas próximas das vazões disponíveis ou possuem histórico de restrições durante estiagens.
2. Avaliar a autonomia operacional.
Estimar por quanto tempo reservatórios e sistemas conseguem atender à demanda em diferentes cenários de redução de vazão, indisponibilidade de captação ou falhas energéticas.
3. Priorizar perdas reais em áreas críticas.
Utilizar balanços hídricos, pesquisa de vazamentos, controle de pressão e análise econômica para reduzir desperdícios onde a economia física de água possui maior valor estratégico.
4. Integrar informações comerciais e operacionais.
Relacionar volumes macromedidos, dados de micromedição, reclamações, comportamento de grandes consumidores, pressões e vazões por setor.
5. Atualizar os planos de contingência.
Estabelecer procedimentos para estiagens prolongadas, contaminação de mananciais, falhas de adutoras, interrupções de energia e dificuldades de distribuição.
6. Avaliar fontes alternativas.
Estudar interligações, reúso, reservação estratégica, aproveitamento de água subterrânea e outras soluções compatíveis com as condições locais.
7. Incorporar cenários climáticos ao planejamento.
Evitar que projetos com décadas de vida útil sejam dimensionados exclusivamente com base em padrões históricos de disponibilidade hídrica.
Nenhuma dessas medidas substitui estudos de engenharia específicos. A priorização depende da condição técnica, da regulação aplicável e dos recursos disponíveis.
Os riscos de uma estratégia construída apenas para aumentar a oferta
Um dos erros mais relevantes no planejamento hídrico consiste em tratar a escassez exclusivamente como falta de infraestrutura.
Construir novas barragens e adutoras pode ser indispensável.
Entretanto, ampliar a oferta sem enfrentar perdas elevadas e consumo ineficiente pode resultar em sistemas mais caros, sem resolver integralmente a vulnerabilidade.
Outro risco é investir em tecnologias sofisticadas sem capacidade de operação e manutenção compatível.
Sensores, modelos hidráulicos, sistemas de previsão e plataformas digitais produzem valor quando existem equipes capacitadas para interpretar dados e transformar informações em decisões.
Também é necessário evitar que medidas de conservação comprometam a regularidade do abastecimento das populações mais vulneráveis.
A experiência internacional demonstra que restrições e gerenciamento de demanda precisam ser acompanhados de critérios técnicos, comunicação transparente e avaliação dos efeitos sobre os consumidores.
Além disso, estratégias de segurança hídrica devem considerar os impactos ambientais de novas captações e transferências, incluindo efeitos sobre ecossistemas e usuários existentes.
O futuro será das companhias capazes de antecipar riscos
A evolução tecnológica oferece oportunidades para transformar o planejamento hídrico.
Sistemas de monitoramento em tempo real podem acompanhar níveis de reservatórios, vazões, qualidade da água e condições operacionais.
Modelos hidrológicos podem apoiar a avaliação de cenários de seca.
Ferramentas de análise de dados e inteligência artificial podem auxiliar na identificação de anomalias, previsão de demanda e programação de operações.
Gêmeos digitais, quando alimentados com dados confiáveis, podem permitir simulações de diferentes condições hidráulicas sem interferir diretamente nos sistemas reais.
Entretanto, essas tecnologias não eliminam a incerteza das projeções climáticas nem substituem a experiência das equipes.
A qualidade dos resultados depende da consistência dos dados, da calibração dos modelos e da validação técnica das recomendações.
Na prática, a inovação mais relevante pode não ser uma tecnologia isolada, mas a integração entre monitoramento, planejamento, operação e gestão comercial.
Lições para quem trabalha no saneamento
A análise da ANA e as experiências brasileiras e internacionais apontam três mudanças de perspectiva.
A primeira é compreender que a disponibilidade de água deve ser avaliada considerando quantidade, qualidade, variabilidade climática e capacidade de resposta operacional.
A segunda é reconhecer que a eficiência dos sistemas existentes pode produzir benefícios comparáveis aos de novos investimentos, especialmente em localidades onde as perdas reais representam parcela importante da água distribuída.
A terceira é fortalecer a integração entre diferentes áreas profissionais.
Engenheiros precisam conhecer o comportamento dos mananciais e das redes. Técnicos de campo devem identificar sinais precoces de falha. Analistas precisam produzir informações confiáveis. Gestores comerciais devem compreender a influência do consumo e da medição sobre o sistema. Reguladores necessitam acompanhar o desempenho e os riscos associados à prestação dos serviços.
Executivos, por sua vez, precisam transformar essas informações em prioridades de investimento e políticas de gestão.
O diferencial das companhias mais preparadas não estará apenas no tamanho de sua infraestrutura, mas na capacidade de utilizar conhecimento técnico para antecipar problemas e tomar decisões antes que as crises se agravem.
Conclusão: segurança hídrica precisa entrar no centro das decisões
Os dados divulgados pela ANA reforçam que a segurança hídrica brasileira não pode ser analisada exclusivamente pela quantidade de água disponível ou pela capacidade instalada de produção.
A presença de baixa resiliência em aproximadamente 58% dos municípios evidencia a necessidade de combinar infraestrutura, eficiência, proteção ambiental e planejamento de longo prazo.
A experiência da Sabesp demonstra o potencial do gerenciamento de pressão e da demanda. O Projeto de Integração do São Francisco mostra a complexidade da coordenação entre grandes sistemas. O Programa Produtor de Água reforça o valor da conservação dos mananciais.
Internacionalmente, Singapura evidencia o papel da diversificação de fontes, enquanto a Cidade do Cabo demonstra como a gestão da demanda e a comunicação podem contribuir durante situações extremas.
Para as companhias brasileiras, a principal mudança deve ocorrer na forma de avaliar riscos e investimentos.
Cada nova obra precisa ser analisada em conjunto com a capacidade de reduzir perdas, proteger mananciais, melhorar a eficiência e garantir continuidade operacional.
Segurança hídrica não significa apenas produzir água suficiente em condições normais. Significa construir sistemas capazes de continuar atendendo à população quando as condições deixam de ser normais.
Essa será uma das competências mais importantes para a gestão do saneamento brasileiro nas próximas décadas.
Fontes e referências
1. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Água e segurança hídrica: integração entre infraestrutura, gestão e proteção dos ecossistemas.
Publicado em 1º de outubro de 2026.
2. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025 — Relatório Síntese.
Divulgação em 23 de março de 2026.
Consultar a publicação e o relatório
3. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Atlas Águas — Segurança Hídrica do Abastecimento Urbano.
- 2021.
4. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
ANA aponta ações e investimentos necessários em todas as cidades brasileiras para garantir abastecimento de água até 2035.
18 de outubro de 2021.
5. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025, sobre redução progressiva e controle de perdas de água.
18 de dezembro de 2025.
6. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Programa Produtor de Água alcança quase 1,3 mil produtores rurais e investe R$ 144,4 milhões em ações de conservação.
24 de março de 2026.
7. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
ANA, estados e MIDR avaliam integração da operação do PISF com sistemas hídricos da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
29 de maio de 2026.
8. Governo do Estado de São Paulo — Casa Civil
Comitê de segurança hídrica mantém Faixa 2 em outubro nos reservatórios de água de SP.
5 de outubro de 2026.
9. PUB — Singapore’s National Water Agency
Singapore’s Water Story — Four National Taps.
Página institucional consultada em outubro de 2026.
Consultar estratégia de abastecimento
10. PUB — Singapore’s National Water Agency
Singapore NEWater Journey.
- 2024.
11. City of Cape Town — África do Sul
Our Water Future: Never Let a Good Crisis Go to Waste.
19 de fevereiro de 2020.
12. City of Cape Town — África do Sul
City’s Water Strategy Approved by Council.
30 de maio de 2019.
13. Presidência da República — Brasil
Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 — Política Nacional de Recursos Hídricos.
14. Presidência da República — Brasil
Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020 — Diretrizes nacionais para o saneamento básico.
Consultar legislação consolidada
15. Ministério das Cidades
Resultados SINISA 2025 — Ano de referência 2024.
Publicado em 23 de dezembro de 2025, com atualização em 2026.



