FENASAN 2026: as inovações que podem mudar o saneamento

A FENASAN 2026 começa nesta terça-feira, 20 de outubro, em São Paulo, reunindo uma estrutura de 37 mil m², 479 expositores anunciados e expectativa de 40 mil visitantes. Realizado paralelamente ao 37º Encontro Técnico AESabesp, o evento chega com novidades em inteligência artificial, automação, combate às perdas de água, eficiência energética, tratamento de esgoto, infraestrutura e gestão de serviços públicos.

Os números demonstram o tamanho da mobilização do mercado. Segundo a organização, toda a área comercial estava ocupada dois meses antes da abertura. A edição anterior, em 2025, recebeu mais de 38 mil visitantes, enquanto a edição atual amplia sua estrutura e incorpora novas iniciativas técnicas.

Mas o aspecto mais relevante da FENASAN 2026 não está apenas no número de expositores. Está na aproximação entre tecnologias que já possuem aplicações comerciais e operacionais e os desafios enfrentados diariamente pelas companhias de saneamento.

Medidores inteligentes, manutenção preditiva, plataformas de análise de perdas, métodos de construção sem abertura de valas, soluções de reúso e equipamentos de menor consumo energético estão entre as tecnologias anunciadas para apresentação.

A pergunta central é: quais dessas inovações realmente podem reduzir custos, melhorar resultados operacionais, aumentar receitas e acelerar a universalização dos serviços?

A reportagem especial do Saneamento Pro analisa a programação, os principais anúncios dos expositores, as experiências nacionais e internacionais relacionadas e as oportunidades para engenheiros, técnicos, gestores comerciais, operadores e executivos.

Nota editorial: esta apuração foi realizada em 20 de outubro de 2026, antes do início das atividades do evento. Os lançamentos anunciados são apresentados como programação prevista, e não como resultados já alcançados na feira.

O que é a FENASAN e por que a edição de 2026 é estratégica?

A Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente (FENASAN) é realizada pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), entidade fundada em 1986 que completa 40 anos em 2026.

O evento reúne fabricantes de equipamentos, fornecedores de tecnologia, concessionárias, companhias estaduais, prestadores municipais, empresas de engenharia, pesquisadores, reguladores e profissionais de diferentes especialidades.

A FENASAN funciona como uma exposição técnica e comercial, enquanto o Encontro Técnico AESabesp concentra palestras, mesas-redondas, apresentação de pesquisas, trabalhos científicos e discussões sobre o desenvolvimento do setor.

A edição de 2026 tem como tema central “AESabesp 40 anos: conectando pessoas, conhecimento e inovação pelo saneamento”.

Os principais números divulgados pela organização são:

  • 37 mil m² de área, distribuídos em dois pavilhões.
  • 479 expositores, conforme comunicados oficiais publicados em agosto e outubro.
  • 40 mil visitantes esperados, projeção ainda não confirmada como público realizado.
  • 100% da área comercial ocupada antecipadamente.
  • Três dias de programação, de 20 a 22 de outubro, no Expo Center Norte.
  • 1.620 m² dedicados ao No-Dig Show, com tecnologias de métodos não destrutivos.

A organização também confirmou presença internacional de empresas e representantes de países como Alemanha, Argentina, Chile, China, Estados Unidos, Holanda, Índia, Israel, Itália, México e Portugal.

A dimensão do evento indica um mercado em expansão, mas também uma mudança no perfil dos investimentos. Além de tubulações, válvulas e bombas, ganham espaço softwares, sensores, inteligência artificial e soluções que prometem utilizar melhor a infraestrutura já instalada.

Para as companhias, esse movimento representa uma oportunidade de melhorar produtividade e ampliar capacidade de atendimento sem depender exclusivamente da construção de novos sistemas.

FENASAN 2026: os principais debates do congresso

O 37º Encontro Técnico AESabesp reúne uma programação diversificada, com discussões sobre universalização, mudanças climáticas, inteligência artificial, saneamento rural, eficiência operacional, questões regulatórias e infraestrutura.

20 de outubro: inteligência artificial, universalização e descarbonização

A abertura oficial está programada para as 10h, com palestra magna do pesquisador Diogo Cortiz, da PUC-SP, sobre os paradoxos e as tendências da inteligência artificial.

A escolha do tema demonstra como a transformação digital deixou de ser uma discussão restrita às áreas de tecnologia e passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas.

A programação do primeiro dia inclui discussões sobre tecnologias de descarbonização, desapropriações necessárias à implantação de infraestrutura, métodos não destrutivos, sustentabilidade do saneamento rural e desafios da universalização.

Outro debate relevante envolve o fator de carga poluidora e a sustentabilidade da coleta e do tratamento de esgotos.

Essa discussão possui implicações comerciais e regulatórias. Indústrias e outros grandes geradores podem lançar efluentes com características significativamente diferentes das encontradas no esgoto doméstico.

Quando a carga orgânica ou de determinados poluentes exige tratamento adicional, o custo do serviço pode não guardar relação direta apenas com o volume recebido.

Para as companhias, a gestão adequada dessas situações exige caracterização dos efluentes, regras contratuais, critérios tarifários, fiscalização e compatibilidade com a regulação aplicável.

21 de outubro: regulação, contratos e evolução tecnológica

O segundo dia prevê discussões sobre a transformação do saneamento brasileiro ao longo dos últimos 40 anos.

Também estão programados debates sobre segurança jurídica, cumprimento contratual, protagonismo do usuário na regulação, infraestrutura urbana resiliente, economia circular e gestão de resíduos.

A presença desses assuntos demonstra que a universalização não depende apenas da execução de obras.

A expansão dos sistemas exige planejamento econômico-financeiro, previsibilidade regulatória, contratos bem estruturados e gestão da relação entre empresas, titulares dos serviços e consumidores.

Na área técnica, trabalhos científicos e apresentações de pesquisadores devem aprofundar experiências de operação, engenharia e desenvolvimento tecnológico.

Também está prevista a premiação dos melhores trabalhos técnicos e de jovens profissionais, iniciativa que contribui para dar visibilidade à produção de conhecimento no setor.

22 de outubro: resiliência climática e o desafio de 2033

O último dia concentra discussões sobre infraestrutura resiliente diante de eventos climáticos extremos, liderança feminina, saneamento rural e perspectivas de universalização até 2033.

A programação contempla ainda o futuro da drenagem urbana e sua integração com os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

O tema ganhou relevância porque os efeitos de chuvas intensas, inundações e estiagens prolongadas extrapolam a capacidade de resposta dos sistemas convencionais.

Estações elevatórias inundadas, captações comprometidas, redes danificadas e interrupções no fornecimento exigem planejamento integrado entre operação, engenharia, gestão de riscos e poder público.

A principal reflexão é que a infraestrutura de saneamento precisa ser projetada não apenas para a demanda atual, mas também para condições operacionais futuras.

Sete tendências tecnológicas que merecem atenção na FENASAN 2026

1. Inteligência artificial e manutenção preditiva

Uma das novidades anunciadas é a participação da empresa brasileira 2Neuron, que apresentará o Ultronline, solução de monitoramento de equipamentos por meio da análise de sinais elétricos.

Segundo a divulgação comercial, a tecnologia busca identificar alterações no funcionamento de equipamentos e antecipar possíveis falhas.

A empresa cita aplicações em organizações como Sabesp, BRK Ambiental e Águas do Rio, do grupo Aegea. Essas referências constam do material apresentado pela fornecedora e não representam, isoladamente, comprovação independente de ganhos financeiros ou de precisão preditiva.

O conceito é especialmente relevante para estações elevatórias, conjuntos motobomba e outros equipamentos críticos.

Tradicionalmente, muitas manutenções seguem intervalos fixos ou acontecem depois da falha. A manutenção preditiva utiliza informações do comportamento do equipamento para identificar tendências anormais.

O benefício potencial é reduzir interrupções imprevistas e melhorar o planejamento das intervenções.

Entretanto, um sistema inteligente precisa demonstrar resultados por meio de indicadores como taxa de falhas, disponibilidade, falsos alarmes, custo de manutenção e redução do tempo de indisponibilidade.

A FENASAN TEC ARENA também prevê a apresentação da jornada da Sabesp em hiperautomação e inteligência artificial agêntica, conhecida como Agentic AI.

Nesse modelo, sistemas de IA podem executar sequências de tarefas e interagir com diferentes ferramentas, seguindo regras, objetivos e limites definidos pela organização.

Na gestão comercial, aplicações potenciais incluem análise de inconsistências cadastrais, classificação de solicitações, priorização de ordens de serviço e identificação de padrões de consumo.

Para funções críticas, decisões automatizadas precisam manter supervisão humana, rastreabilidade e controles de segurança.

2. Medição inteligente e combate às perdas de água

O combate às perdas permanece entre os maiores campos de aplicação tecnológica do saneamento.

A Group Link One anunciou soluções que transformam medições operacionais em dados contínuos para apoiar a identificação de perdas e a tomada de decisões.

Também há expositores ligados à telemetria de hidrômetros, medição inteligente e integração de instrumentos com sistemas digitais.

A diferença entre medição convencional e medição inteligente vai além de dispensar a leitura presencial.

Com informações frequentes de consumo e operação, torna-se possível identificar comportamentos atípicos, acompanhar tendências, localizar setores com desequilíbrio hídrico e direcionar equipes de fiscalização e manutenção.

É fundamental, porém, distinguir dois fenômenos.

As perdas reais correspondem à água que escapa fisicamente do sistema, principalmente por vazamentos.

As perdas aparentes decorrem, entre outras causas, de submedição, fraudes e problemas nos dados comerciais.

A primeira categoria demanda intervenções hidráulicas. A segunda pode exigir substituição de hidrômetros, fiscalização, correções cadastrais e melhoria da medição.

A tecnologia deve ser escolhida considerando qual tipo de perda se pretende reduzir.

3. Eficiência energética no bombeamento

A ABB anunciou a apresentação de equipamentos de automação e eletrificação, incluindo o inversor de frequência de média tensão ACS580MV, destinado a aplicações com motores na faixa divulgada de 200 kW a 6,3 MW.

Inversores de frequência permitem controlar a velocidade dos motores e, consequentemente, adequar o funcionamento de sistemas de bombeamento às condições de operação.

Em aplicações hidráulicas apropriadas, a redução da velocidade pode diminuir significativamente a potência demandada.

Entretanto, a economia depende da curva da bomba, da altura manométrica, da configuração do sistema e do regime operacional.

Instalar um inversor não garante, por si só, redução expressiva da conta de energia.

Uma avaliação adequada deve comparar consumo específico, vazão, pressão, eficiência do conjunto, demanda contratada e custos de manutenção.

Companhias com grande quantidade de estações elevatórias podem encontrar oportunidades relevantes quando combinam automação, controle de pressão, reservação e programação operacional.

4. Métodos não destrutivos para instalação de redes

Uma das novidades da edição é a integração do São Paulo No-Dig Show 2026, realizado em parceria com a Associação Brasileira de Tecnologias Não Destrutivas (Abratt).

O espaço reúne soluções para instalação, substituição e recuperação de tubulações com redução da necessidade de escavações abertas.

Entre as técnicas existentes estão perfuração horizontal direcionada, inserção de revestimentos internos e métodos de recuperação de redes.

A principal vantagem é diminuir intervenções na superfície, especialmente em vias urbanas com tráfego intenso ou infraestrutura subterrânea complexa.

Todavia, essas tecnologias não eliminam os estudos geotécnicos, a necessidade de identificar interferências enterradas ou a avaliação de viabilidade econômica.

Para gestores de obras, o custo deve ser analisado considerando não apenas o serviço executado, mas também recomposição de pavimento, interrupções de tráfego, produtividade e riscos de execução.

5. Controle de algas e proteção dos mananciais

A Fluid Feeder anunciou a apresentação do SolaRaft-QDB, sistema flutuante alimentado por energia solar e desenvolvido para atuar no controle de algas e cianobactérias por ultrassom.

A tecnologia é apresentada pela empresa como alternativa de intervenção em corpos hídricos, inclusive em locais sem fornecimento elétrico.

O problema tem importância direta para companhias que utilizam reservatórios sujeitos à eutrofização.

A proliferação excessiva de algas pode aumentar dificuldades de tratamento, gerar alterações de gosto e odor e, dependendo das espécies, elevar riscos associados às cianotoxinas.

Entretanto, soluções dessa natureza exigem comprovação de eficácia para as espécies presentes, estudos de efeitos ambientais e acompanhamento da qualidade da água.

O controle tecnológico também não substitui ações estruturais de proteção de bacias, redução de cargas de nutrientes e monitoramento dos mananciais.

6. Tratamento modular, reúso e dessalinização

A programação e os anúncios de expositores incluem soluções de tratamento modular, tecnologias de membranas, modelagem de processos, reúso e dessalinização.

A Ecosan, por exemplo, anunciou a apresentação de projetos relacionados a Ilhabela e Manaus, incluindo uma maquete de solução de dessalinização.

A ampliação do uso de sistemas modulares pode representar uma alternativa em situações que demandam implantação por etapas ou infraestrutura descentralizada.

Entretanto, a aquisição de módulos não elimina os custos de implantação civil, energia, insumos, descarte de resíduos, equipe especializada e manutenção.

A comparação entre sistemas convencionais e modulares deve considerar custo de ciclo de vida e requisitos de desempenho, não apenas prazo de instalação.

7. Gestão inteligente de ativos e infraestrutura

O avanço da instrumentação, dos sensores e da integração de dados também aparece na gestão de tubulações e ativos enterrados.

A Morken Brasil anunciou uma metodologia que combina informações sobre solo, revestimentos, proteção catódica e condições do material para orientar a avaliação de adutoras.

Esse tipo de abordagem permite avançar de uma manutenção predominantemente reativa para uma estratégia baseada em risco.

Na prática, uma companhia pode priorizar intervenções considerando probabilidade de falha e consequência da interrupção.

Uma adutora que abastece um hospital, por exemplo, pode demandar tratamento de risco distinto daquele aplicado a uma rede com alternativas operacionais disponíveis.

A evolução está em transformar o inventário de equipamentos e tubulações em uma ferramenta efetiva de decisão sobre investimentos.

Como companhias brasileiras estão aplicando essas tecnologias

Aquapolo: reúso industrial já é realidade em São Paulo

Uma das visitas técnicas da FENASAN 2026 está programada para o Aquapolo Ambiental, empreendimento de reciclagem de água que utiliza efluentes previamente tratados pela Sabesp.

O projeto é uma parceria entre a Sabesp e a GS Inima Industrial, voltada principalmente ao fornecimento de água reciclada para indústrias do ABC Paulista.

Segundo informações institucionais, a infraestrutura possui capacidade de fornecimento de até 1.000 litros por segundo. Em maio de 2025, a empresa informou fornecimento efetivo de aproximadamente 450 litros por segundo para clientes industriais.

É importante diferenciar capacidade instalada ou projetada de produção efetiva.

O empreendimento utiliza tecnologias de tratamento avançado, incluindo membranas de ultrafiltração e osmose reversa, para produzir água adequada aos requisitos industriais.

A experiência oferece uma lição importante: o esgoto tratado pode deixar de ser apenas um efluente destinado ao lançamento ambiental e passar a integrar uma cadeia produtiva que gera valor.

Para companhias com grandes consumidores industriais próximos às estações de tratamento, existe a possibilidade de estruturar negócios de fornecimento de água não potável.

A viabilidade depende de demanda contratada, qualidade requerida, distância dos consumidores, investimentos em distribuição, custos operacionais e segurança regulatória.

Sabesp: aproximar startups dos problemas operacionais

Outra visita técnica prevista na FENASAN 2026 envolve o Hub de Inovação Sabesp, localizado no Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos.

A proposta apresentada pela organização é aproximar empresas, startups, universidades e centros de pesquisa dos desafios enfrentados pela operação.

Esse modelo contribui para enfrentar uma dificuldade recorrente: muitas soluções tecnológicas são desenvolvidas sem conhecimento suficiente das particularidades dos sistemas de saneamento.

Um equipamento pode funcionar adequadamente em laboratório e apresentar limitações quando submetido a ambientes com umidade, interferências elétricas, dificuldade de comunicação, variações de pressão e manutenção descentralizada.

Programas de inovação aberta podem reduzir esse distanciamento quando incluem testes de campo, participação de operadores e avaliação objetiva dos resultados.

A experiência prevista para apresentação pela Sabesp reforça a necessidade de conectar pesquisa, desenvolvimento e operação.

Benchmarking internacional: o que o Brasil pode aprender

Singapura: a medição inteligente tornou-se uma ferramenta de relacionamento com o cliente

Em Singapura, a agência nacional de água PUB implantou aproximadamente 300 mil medidores inteligentes na primeira fase de seu programa de medição digital, conforme informação institucional atualizada em 2026.

O sistema registra consumos automaticamente e transmite informações para a concessionária, disponibilizando também dados detalhados aos usuários.

Os consumidores podem acompanhar o próprio consumo e receber alertas de utilização incomum e suspeitas de vazamentos.

O aspecto mais interessante do projeto não está apenas na automação da leitura.

A tecnologia aproxima a gestão operacional da experiência do cliente.

Um alerta antecipado de consumo anormal pode permitir a identificação de um vazamento interno antes que o problema provoque desperdício prolongado e aumento expressivo da fatura.

Esse modelo oferece oportunidades para companhias brasileiras que pretendem ampliar a telemedição.

A implantação pode ser acompanhada de serviços digitais de comunicação, avisos preventivos, acompanhamento de consumo e orientação sobre desperdícios.

Entretanto, o resultado depende da conectividade, da qualidade das medições, da confiabilidade das informações e da capacidade de atendimento às ocorrências identificadas.

Reino Unido: inovação acompanhada de responsabilidade regulatória

No Reino Unido, a agência reguladora Ofwat combina metas de desempenho, acompanhamento dos resultados e incentivos econômicos.

Segundo o regulador, o planejamento para o período de 2025 a 2030 contempla uma redução adicional de 17% nas perdas, além de investimentos em medição inteligente, manutenção de redes e controle de pressão.

A Ofwat também informa que foram previstas aproximadamente 10,4 milhões de instalações e atualizações de medidores inteligentes no período, com autorização de despesas de cerca de 1,7 bilhão de libras para essa finalidade.

Esses números representam planejamento e alocações regulatórias, não a confirmação de que todos os medidores já foram instalados.

A experiência demonstra que a digitalização pode ser tratada como parte de uma política de desempenho, e não apenas como aquisição isolada de equipamentos.

O relatório de desempenho de 2024–2025 também identifica dificuldades persistentes no setor britânico, incluindo problemas ambientais e redução da satisfação dos consumidores.

Esse contraste é relevante.

Avanço tecnológico não significa, necessariamente, melhoria simultânea de todos os indicadores de qualidade.

Para o Brasil, a principal lição é associar investimentos a metas verificáveis e aos benefícios efetivamente entregues à população.

O que a FENASAN 2026 revela sobre a universalização do saneamento

A expansão da infraestrutura permanece como uma necessidade central do Brasil.

A Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020, estabelece, no artigo 11-B, metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgotos até 31 de dezembro de 2033, observadas as disposições legais aplicáveis.

O avanço em direção a essas metas exige investimentos, capacidade de execução e sustentabilidade econômico-financeira.

Mas existe um desafio adicional: ampliar o atendimento sem permitir que os custos operacionais cresçam de maneira descontrolada.

Cada novo sistema pode exigir energia, insumos, manutenção, equipes, serviços comerciais, medição e atendimento ao consumidor.

Uma estação construída sem planejamento de operação pode enfrentar dificuldades financeiras depois de entrar em funcionamento.

É justamente nesse ponto que muitas das tecnologias apresentadas na FENASAN 2026 podem contribuir.

Automação pode melhorar a produtividade. Medição inteligente pode apoiar o controle de perdas. Reúso pode abrir oportunidades comerciais. Sistemas modulares podem facilitar determinadas implantações. Ferramentas de manutenção preditiva podem reduzir falhas.

Nenhuma dessas soluções, isoladamente, garante a universalização.

A contribuição aparece quando elas são incorporadas a um planejamento que considere o ciclo completo dos serviços.

Impactos para as áreas comerciais das companhias

Embora boa parte da programação esteja concentrada em tecnologias operacionais, várias das soluções anunciadas possuem implicações diretas para a gestão comercial.

A modernização da medição, por exemplo, pode melhorar a qualidade das informações utilizadas no faturamento.

Entretanto, a substituição de hidrômetros deve ser acompanhada da atualização cadastral, da validação das leituras e de mecanismos de atendimento capazes de esclarecer possíveis alterações nas contas.

O combate às perdas aparentes também pode contribuir para recuperar volumes consumidos que não estavam sendo corretamente medidos ou faturados.

Outro campo de aplicação é a gestão de grandes consumidores.

Soluções de telemetria permitem acompanhar perfis de consumo, identificar comportamentos anormais e aperfeiçoar o relacionamento com clientes industriais ou comerciais de grande porte.

Em sistemas que oferecem reúso industrial, pode surgir ainda a necessidade de desenvolver produtos comerciais, contratos de fornecimento e estratégias específicas de relacionamento.

Assim, as inovações debatidas na FENASAN 2026 podem impactar faturamento, arrecadação, relacionamento, custos de leitura e gestão de receitas.

O principal cuidado é não tratar ganhos potenciais como resultados garantidos.

Qualquer investimento comercial deve estabelecer indicadores de desempenho antes da implantação e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.

Como transformar as novidades da FENASAN em resultados financeiros

Um erro frequente em projetos de inovação é começar pela escolha da tecnologia.

A abordagem mais eficiente começa pela identificação do problema.

Considere uma companhia que enfrenta consumo elevado de energia em estações elevatórias. Antes de adquirir equipamentos de automação, a organização precisa conhecer seu consumo específico, as condições hidráulicas e o histórico das instalações.

Da mesma forma, uma empresa interessada em medição inteligente deve identificar quais regiões concentram submedição, dificuldade de leitura, consumo elevado ou potencial de redução de custos comerciais.

A seleção da tecnologia deve ocorrer depois do diagnóstico.

Uma metodologia aplicável envolve cinco etapas:

  • Identificar o problema: definir sua dimensão operacional e financeira.
  • Estabelecer a linha de base: registrar os indicadores antes da intervenção.
  • Executar um projeto-piloto: selecionar uma área, instalação ou conjunto de clientes representativo.
  • Medir os resultados: comparar custos, desempenho, confiabilidade e produtividade.
  • Decidir sobre a expansão: utilizar os resultados do piloto para fundamentar o investimento em escala.

Na avaliação econômica, devem ser considerados aquisição, implantação, integração, manutenção, treinamento, substituições futuras e eventual dependência do fornecedor.

O custo total de propriedade costuma ser mais relevante do que o preço inicial da solução.

Uma tecnologia aparentemente barata pode exigir manutenção elevada. Por outro lado, uma solução de aquisição mais cara pode apresentar vantagens quando reduz falhas ou aumenta sua vida útil.

A decisão deve considerar o retorno esperado, os riscos e a capacidade da organização de sustentar a operação.

O maior risco: comprar inovação sem transformar a gestão

Feiras técnicas oferecem contato com soluções e experiências que nem sempre estão disponíveis no cotidiano das equipes.

Entretanto, também concentram propostas comerciais cujos benefícios precisam ser avaliados criticamente.

Uma demonstração de equipamento não equivale a comprovação de resultado em operação contínua.

Da mesma forma, uma apresentação de inteligência artificial não significa que a solução esteja preparada para integração com sistemas corporativos ou que apresente desempenho suficiente para decisões críticas.

Entre os principais cuidados estão a segurança da informação, a compatibilidade tecnológica, a disponibilidade de suporte, a capacitação dos profissionais e a confiabilidade das estimativas econômicas.

Projetos de telemetria também precisam observar a proteção de dados pessoais e as regras aplicáveis ao tratamento dessas informações.

Nas soluções de automação industrial, a segurança cibernética deve integrar os requisitos de contratação, especialmente quando há acesso remoto a instalações operacionais.

A lição para gestores é que a maturidade da gestão precisa acompanhar a sofisticação da tecnologia.

Não basta adquirir um sistema capaz de produzir milhares de dados se a empresa não possui processos para analisar informações, tomar decisões e acompanhar resultados.

FENASAN 2026 também valoriza quem faz o saneamento acontecer

Além dos estandes e debates estratégicos, a edição apresenta iniciativas voltadas à formação e à valorização profissional.

Uma das novidades é a Grand Arena Aqua, ambiente dedicado a demonstrações e competições inspiradas nas atividades reais do setor.

A programação anunciada inclui provas de montagem de ramais de ligação de água com eletrofusão, análises de água, manutenção de válvulas, manutenção eletromecânica e atividades relacionadas a espaços confinados.

Também estão previstas experiências com realidade virtual e competições universitárias.

Essa iniciativa evidencia uma característica importante do saneamento: a qualidade dos serviços depende diretamente da competência das equipes de campo.

Uma ligação executada incorretamente pode causar vazamentos e retrabalho. Uma manutenção inadequada pode comprometer equipamentos. Uma falha na coleta ou análise de amostras pode prejudicar o controle operacional.

Portanto, conhecimento técnico, treinamento, padronização e segurança são componentes fundamentais da eficiência.

A programação também contempla o lançamento presencial do Comitê de Mulheres, Meio Ambiente e Saneamento, denominado Elos entre Elas.

O objetivo anunciado é ampliar o espaço de participação, formação, relacionamento e protagonismo de mulheres no setor.

Além disso, o Prêmio Jovem Profissional e o reconhecimento dos melhores trabalhos técnicos estimulam a produção e o compartilhamento de conhecimento.

Em um setor que necessita ampliar investimentos e modernizar operações, a qualificação profissional é tão relevante quanto a disponibilidade de novas tecnologias.

Cinco oportunidades que gestores não deveriam ignorar

A análise da FENASAN 2026 permite identificar oportunidades que merecem atenção especial das empresas de saneamento.

A primeira está na integração entre operação e gestão comercial. Informações de pressão, vazão, consumo e medição podem produzir resultados maiores quando são analisadas conjuntamente.

A segunda é utilizar inteligência artificial para melhorar decisões existentes. Antes de criar processos totalmente automatizados, a tecnologia pode apoiar tarefas como identificar anomalias, classificar ocorrências e melhorar a programação de serviços.

A terceira envolve a monetização responsável de recursos recuperados. A experiência brasileira de reúso mostra que determinados efluentes tratados podem representar uma oportunidade econômica quando existe demanda industrial compatível.

A quarta oportunidade está na gestão de ativos baseada em risco. Priorizar intervenções considerando criticidade, histórico de falhas e consequências operacionais pode melhorar a aplicação dos recursos disponíveis.

A quinta é transformar capacitação profissional em investimento de produtividade. A atualização técnica das equipes pode diminuir erros, retrabalhos, falhas de operação e desperdícios.

Essas oportunidades não dependem necessariamente da implantação simultânea de sistemas complexos.

Em muitos casos, o primeiro avanço está na utilização mais eficiente das informações e estruturas que a companhia já possui.

O que observar depois do encerramento da FENASAN 2026

A dimensão da feira e a diversidade da programação não são suficientes para demonstrar seu impacto efetivo sobre o setor.

Uma avaliação posterior deverá considerar os lançamentos realmente apresentados, os resultados dos debates, as premiações anunciadas, as parcerias confirmadas e os projetos com potencial de aplicação.

Também será importante verificar se as soluções apresentadas possuem estudos de caso documentados, resultados mensuráveis e condições comerciais compatíveis com a realidade dos prestadores brasileiros.

Para os profissionais que participarem do encontro, o aproveitamento mais valioso poderá ocorrer depois do retorno às empresas.

Compartilhar conhecimento, elaborar propostas técnicas, revisar procedimentos e estruturar pilotos são maneiras de converter a participação em resultados concretos.

Para quem não estiver presente, os anais, as apresentações técnicas e as transmissões disponibilizadas pela organização podem contribuir para acompanhar o conteúdo produzido.

A divulgação do balanço final também permitirá confrontar a expectativa inicial de 40 mil visitantes com o público efetivamente registrado.

Conclusão: o que a FENASAN 2026 ensina sobre o futuro do setor

A FENASAN 2026 demonstra que a modernização do saneamento está associada a uma combinação de infraestrutura, dados, automação, inovação e qualificação profissional.

Os anúncios de tecnologias de inteligência artificial, medição inteligente, controle de perdas, manutenção preditiva e reúso indicam caminhos promissores.

Entretanto, o valor dessas soluções depende da sua aplicação em problemas concretos e da comprovação de resultados.

O desafio das companhias brasileiras não será apenas ampliar sistemas para atender às metas de universalização. Será também garantir que a infraestrutura implantada permaneça eficiente, sustentável e capaz de oferecer serviços de qualidade.

Para isso, gestores precisam compreender as tecnologias disponíveis, avaliar experiências nacionais e internacionais e desenvolver critérios técnicos para selecionar investimentos.

Da mesma forma, profissionais de operação, manutenção, engenharia, gestão comercial e atendimento precisam participar ativamente das transformações.

A principal mensagem da FENASAN 2026 é que a inovação só produz valor quando deixa de ser uma promessa tecnológica e se transforma em melhoria mensurável dos serviços.

O futuro do saneamento não será definido apenas pelos equipamentos apresentados nas feiras, mas pela capacidade das empresas e de seus profissionais de transformar conhecimento em decisões, eficiência e resultados.

Fontes e referências

As referências abaixo foram consultadas para a apuração das informações sobre o evento, a programação, as tecnologias anunciadas e os exemplos de benchmarking.

1. AESabesp / FENASAN

Marco histórico: Fenasan 2026 atinge 100% de ocupação dois meses antes da realização.

18 de agosto de 2026.

Consultar publicação oficial⁠

2. AESabesp / FENASAN

37º Encontro Técnico AESabesp — Programação oficial.

Programação da edição de outubro de 2026.

Consultar programação⁠

3. AESabesp / FENASAN

Sobre o evento — FENASAN 2026.

Informações institucionais, objetivos, datas, horários e organização.

Consultar página oficial⁠

4. AESabesp / FENASAN

Releases dos expositores — FENASAN 2026.

Anúncios sobre tecnologias, produtos e soluções apresentados pelas empresas participantes.

Consultar publicações⁠

5. AESabesp / FENASAN

Fenasan Tec Arena.

Programação sobre transformação digital, tecnologias e inovação.

Consultar programação⁠

6. AESabesp / FENASAN

No-Dig Show 2026.

Informações sobre métodos não destrutivos e parceria com a Abratt.

Consultar informações oficiais⁠

7. AESabesp / FENASAN

Grand Arena Aqua.

Competições profissionais e demonstrações técnicas da edição de 2026.

Consultar programação⁠

8. AESabesp / FENASAN

Visitas Técnicas — FENASAN 2026.

Informações sobre Aquapolo Ambiental e Hub de Inovação Sabesp.

Consultar visitas⁠

9. Asperbras / FENASAN

Asperbras amplia produção de PVC e apresenta novidades na Fenasan.

18 de outubro de 2026.

Consultar publicação⁠

10. ABB / FENASAN

ABB traz soluções para economia de energia.

18 de outubro de 2026.

Consultar publicação⁠

11. Fluid Feeder / FENASAN

Fluid Feeder leva tecnologia para controle de algas e cianobactérias à Fenasan 2026.

18 de outubro de 2026.

Consultar publicação⁠

12. Aquapolo Ambiental

Aquapolo já poupou bilhões de litros de água potável.

12 de maio de 2025. Informações sobre produção efetiva e capacidade de fornecimento.

Consultar dados do empreendimento⁠

13. PUB — Agência Nacional de Água de Singapura

Smart Water Meter Programme.

Página institucional consultada em outubro de 2026.

Consultar programa de medição inteligente⁠

14. Ofwat — Regulador de Água e Esgoto da Inglaterra e do País de Gales

Leakage.

Informações regulatórias sobre redução de perdas, investimentos e medição inteligente.

Consultar informações do regulador⁠

15. Ministério das Cidades

Resultados SINISA 2025.

Publicado em 23 de dezembro de 2025, com atualização em julho de 2026. Informações referentes ao ano-base 2024.

Consultar resultados oficiais⁠

16. Presidência da República — Governo Federal

Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020.

Diretrizes nacionais de saneamento básico e metas legais de universalização.

Consultar legislação consolidada⁠

Apuração concluída em 20/10/2026. As informações referentes a atividades futuras estão sujeitas a alterações pelos organizadores. As projeções de público e os benefícios anunciados por fornecedores não foram apresentados como resultados efetivamente comprovados.