Seca no Brasil atinge 75% e desafia o saneamento


A seca no Brasil alcançou 75% do território nacional em setembro de 2026, avançando oito pontos percentuais em relação a agosto. A atualização do Monitor de Secas, divulgada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em 19 de outubro, revela um agravamento expressivo no Nordeste e no Norte, com consequências potenciais para a disponibilidade de água, a operação dos sistemas de abastecimento e os custos das companhias de saneamento.

O Nordeste apresenta a situação mais preocupante: 96% do território regional estava afetado pela seca. Em Pernambuco, a seca grave avançou de 28% para 74% da área estadual em apenas um mês. Na Bahia, a proporção do território sob seca grave aumentou de 36% para 47%.

Mas o problema não se resume à quantidade de água disponível nos mananciais.

Para empresas de saneamento, a persistência da seca pode significar necessidade de captações alternativas, maior consumo de energia, mudanças na operação dos sistemas, pressões sobre contratos, aumento de reclamações e investimentos emergenciais.

A principal questão é: as companhias estão utilizando os dados climáticos para antecipar decisões ou continuam reagindo somente quando o abastecimento começa a falhar?

Experiências brasileiras e internacionais mostram que a resposta envolve muito mais do que construir novas barragens ou adutoras. Redução de perdas, integração de sistemas, reúso, monitoramento e planejamento comercial também fazem parte da solução.

O que aconteceu com a seca no Brasil?

De acordo com o Monitor de Secas da ANA, a severidade do fenômeno aumentou em 14 unidades da Federação entre agosto e setembro de 2026.

O agravamento ocorreu no Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Tocantins.

Em sentido contrário, seis estados apresentaram redução da severidade: Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo.

Os três estados do Sul permaneceram livres de seca na classificação do Monitor.

Os números mais relevantes da atualização incluem:

  • 75% do Brasil: proporção do território com algum grau de seca em setembro.
  • 96% do Nordeste: área regional afetada pelo fenômeno.
  • 74% de Pernambuco: território classificado com seca grave.
  • 47% da Bahia: proporção estadual com seca grave, ante 36% em agosto.
  • 93% do Pará: território afetado pela seca, contra 63% no mês anterior.
  • 10 unidades da Federação: registraram seca em toda a extensão territorial.

A situação de Pernambuco merece atenção especial. O avanço da seca grave em 46 pontos percentuais representa uma mudança expressiva na classificação climática estadual em apenas um mês.

Na Bahia, o agravamento é igualmente relevante para o planejamento dos sistemas regionais que dependem de reservatórios, rios com vazões sazonais e mananciais de menor capacidade de regularização.

Entretanto, existe uma distinção fundamental: um estado apresentar seca em praticamente todo o território não significa que todos os seus municípios estejam enfrentando desabastecimento.

A relação entre seca e abastecimento depende das condições locais de captação, reservação, tratamento, distribuição e demanda.

É justamente essa diferença que precisa orientar as decisões das companhias.

Seca meteorológica não é sinônimo de crise no abastecimento

O Monitor de Secas acompanha o fenômeno a partir de indicadores climáticos, hidrológicos e evidências de impactos de curto e longo prazo.

Sua classificação considera cinco níveis de intensidade: seca fraca, moderada, grave, extrema e excepcional.

O conceito central é a seca relativa. Isso significa que o sistema analisa o desvio das condições observadas em relação ao comportamento normalmente esperado para determinado local e período.

Na gestão do saneamento, convém diferenciar três situações.

Seca meteorológica: ocorre quando a precipitação fica abaixo do padrão esperado durante determinado período.

Seca hidrológica: envolve a redução das vazões dos rios, dos níveis de reservatórios e da disponibilidade de água superficial ou subterrânea.

Escassez hídrica para abastecimento: aparece quando a disponibilidade de água, considerada a infraestrutura, os usos concorrentes e as condições operacionais, se torna insuficiente para atender adequadamente à demanda.

Essas situações podem ocorrer em momentos diferentes.

Um reservatório com grande capacidade de armazenamento pode sustentar o abastecimento durante meses de precipitação reduzida. Por outro lado, um sistema dependente de um pequeno manancial pode apresentar dificuldades muito antes de a seca alcançar níveis elevados de severidade regional.

Portanto, o mapa da ANA deve funcionar como um instrumento de identificação de risco, não como diagnóstico isolado da situação operacional de cada sistema.

A análise precisa ser complementada por medições de vazão, níveis dos mananciais, volume útil armazenado, qualidade da água bruta, demanda e autonomia operacional.

O dado que merece ainda mais atenção: 96 açudes abaixo de 20%

Uma informação do Painel El Niño da ANA ajuda a compreender por que os percentuais territoriais precisam ser analisados junto com dados hidrológicos.

Segundo levantamento referente a 24 de setembro de 2026, os reservatórios monitorados na Região Nordeste apresentavam armazenamento equivalente a 47,2% da capacidade total considerada.

À primeira vista, o percentual regional poderia sugerir uma situação relativamente administrável.

Entretanto, o mesmo levantamento identificou 96 açudes com armazenamento inferior a 20% e 12 sistemas hídricos locais classificados em Estado Hidrológico Vermelho.

Os números evidenciam um desafio recorrente da gestão de recursos hídricos: indicadores médios regionais podem esconder situações críticas em municípios ou sistemas específicos.

Uma companhia pode operar grandes mananciais com reservas confortáveis e, simultaneamente, enfrentar risco elevado de interrupção em localidades menores.

Por isso, avaliar apenas a capacidade total armazenada não é suficiente.

O planejamento deve considerar a distribuição geográfica da água, sua disponibilidade efetiva para captação, as restrições ambientais e operacionais e a possibilidade de transferência entre sistemas.

Também é necessário distinguir água armazenada de água efetivamente utilizável. Limitações hidráulicas, qualidade da água, volumes não captáveis e regras de operação podem restringir a disponibilidade real.

A segurança hídrica não depende exclusivamente de quanta água existe, mas de quanta água pode ser entregue, com qualidade, onde e quando ela é necessária.

El Niño pode ampliar a pressão sobre os mananciais

O agravamento da seca no Brasil ocorre em um período de acompanhamento intensificado do fenômeno El Niño.

Na quarta edição do Painel El Niño 2026–2027, divulgada em setembro, instituições federais apontaram condições favoráveis à permanência do fenômeno até o início de 2027.

As previsões climáticas então disponíveis indicavam possibilidade de precipitações abaixo da média no centro-norte brasileiro durante o último trimestre de 2026.

Esse cenário exige preparação, mas não permite afirmar que todos os municípios dessas regiões enfrentarão desabastecimento.

Projeções climáticas são informações probabilísticas. Seus efeitos dependem da localização, da duração do déficit de precipitação e das características de cada sistema hídrico.

Para as companhias, a aplicação prática está na construção de cenários operacionais.

Um cenário conservador pode considerar recuperação parcial dos mananciais. Outro pode trabalhar com continuidade de vazões inferiores à média. Um terceiro pode simular estiagem prolongada associada ao aumento do consumo.

Em cada cenário, torna-se possível estimar a disponibilidade hídrica, identificar os sistemas mais vulneráveis e calcular antecipadamente a necessidade de intervenções.

Essa abordagem também permite preparar processos de contratação e mobilização de recursos antes que a emergência comprometa a continuidade do serviço.

O impacto operacional: produzir água pode ficar mais difícil e mais caro

A seca prolongada pode atingir diferentes etapas de um sistema de abastecimento.

Na captação, a redução do nível dos mananciais pode exigir alterações nas estruturas de tomada de água, adaptações em conjuntos motobomba e mudanças no regime de funcionamento das elevatórias.

Dependendo das características hidráulicas, novas condições de bombeamento podem aumentar o consumo específico de energia.

Nas estações de tratamento, alterações na qualidade da água bruta podem exigir ajustes nos processos e na dosagem de produtos químicos. A intensidade e o tipo de alteração precisam ser comprovados por monitoramento, pois variam conforme o manancial.

Na distribuição, uma menor disponibilidade de água pode exigir reprogramação de reservatórios, controle de pressão, ajustes de setorização e, em situações críticas, medidas de contingência previstas nas regras aplicáveis.

Essas mudanças também precisam considerar um risco relevante: a operação intermitente pode aumentar a complexidade do controle hidráulico e exigir atenção adicional à integridade sanitária das redes.

A área de esgotamento sanitário não fica necessariamente imune.

Em determinadas bacias, a redução das vazões dos corpos receptores pode diminuir sua capacidade de diluição dos efluentes. Além disso, mudanças no consumo de água podem alterar as vazões e características do esgoto que chega às estações de tratamento.

Consequentemente, a gestão da seca não deveria ficar restrita às equipes responsáveis pelos mananciais e pelas estações de tratamento de água.

Operação, manutenção, planejamento, meio ambiente, regulação e gestão comercial precisam compartilhar informações.

A oportunidade pouco percebida: reduzir perdas também aumenta a segurança hídrica

Quando a disponibilidade de água diminui, a alternativa mais evidente costuma ser buscar outra fonte de abastecimento.

Entretanto, antes de ampliar a produção, existe uma pergunta economicamente importante: quanto da água já produzida pode ser recuperado por meio do combate às perdas?

As perdas reais correspondem principalmente aos volumes desperdiçados em vazamentos e extravasamentos.

Já as perdas aparentes estão associadas a problemas de medição, consumos não autorizados e outras situações em que a água consumida não é corretamente contabilizada.

Essa distinção é essencial durante a seca.

A redução das perdas reais pode diminuir diretamente a necessidade de captação e produção de água. A redução das perdas aparentes melhora principalmente a contabilização do consumo e a recuperação de receitas, embora também possa contribuir para controlar demandas não autorizadas.

Quanto representa recuperar apenas 5 litros por segundo?

Considere um exemplo hipotético de um sistema que produz 100 litros por segundo.

Isso equivale a 8.640 metros cúbicos de água por dia.

Se uma operação de controle de vazamentos conseguir recuperar efetivamente 5 litros por segundo, mantendo a economia de forma contínua, o volume preservado será:

432 mil litros por dia, ou 12.960 metros cúbicos em 30 dias.

Caso o custo variável evitável de produção e distribuição fosse, hipoteticamente, de R$ 0,80 por metro cúbico, a economia operacional associada poderia alcançar R$ 10.368 mensais.

O exemplo é ilustrativo, não representa resultado de uma companhia específica e não inclui investimento, custos fixos ou eventuais mudanças no regime de produção.

Ainda assim, mostra uma oportunidade: dependendo da condição hidráulica do sistema, eliminar vazamentos pode representar uma alternativa mais rápida ou econômica do que ampliar a captação.

Em regiões submetidas à seca, o valor estratégico da água recuperada pode ser ainda maior do que a economia financeira diretamente mensurável.

A regulação também está mudando: o que estabelece a NR 15/2025?

A discussão sobre redução de perdas ganhou um importante componente regulatório com a publicação da Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução ANA nº 275, de 18 de dezembro de 2025.

A norma estabelece diretrizes para diagnóstico, planejamento, monitoramento e redução progressiva das perdas nos subsistemas de distribuição de água.

Entre os pontos relevantes estão a utilização de balanço hídrico padronizado e o acompanhamento de indicadores como perdas reais e aparentes, intermitência, macromedição e hidrometração.

Além disso, a norma prevê planos de gestão de redução e controle de perdas por município, observados os atos das entidades reguladoras infranacionais.

Existe uma disposição especialmente importante para o cenário de seca.

O artigo 8º determina que, em localidades com restrições nos mananciais, os planos considerem essa condição e proponham alternativas destinadas a garantir a continuidade do abastecimento sem provocar a exaustão das fontes hídricas, respeitadas as condições regulatórias previstas.

Isso reforça uma mudança de perspectiva.

A redução de perdas deixa de ser tratada apenas como instrumento de eficiência operacional e financeira e passa a integrar, de maneira mais explícita, a estratégia de continuidade dos serviços.

A norma também estabelece condições específicas de implementação e preserva determinadas disposições contratuais. Sua edição não significa revisão automática de metas, tarifas ou equilíbrio econômico-financeiro dos contratos existentes.

Como as companhias brasileiras estão enfrentando o problema?

A experiência nacional reúne estratégias diferentes, que vão desde intervenções emergenciais até grandes projetos estruturantes de integração hídrica.

Embasa: monitoramento antecipado e preparação operacional

Na Bahia, onde a seca grave atingiu 47% do território em setembro, a Embasa informou em outubro de 2026 que estava intensificando ações de monitoramento e preparação dos sistemas diante dos possíveis efeitos do El Niño.

Entre as medidas divulgadas estão a aquisição de ferramentas de monitoramento de mananciais, intervenções de integração de sistemas, perfuração de poços, credenciamento antecipado de empresas de carros-pipa e ações de combate ao furto de água.

Uma dessas iniciativas merece atenção do ponto de vista gerencial: a contratação antecipada de capacidade de abastecimento alternativo.

Em uma situação emergencial, a indisponibilidade de fornecedores, veículos ou infraestrutura adequada pode retardar o atendimento às populações afetadas.

Preparar previamente os instrumentos contratuais e os critérios técnicos de acionamento pode reduzir esse risco.

Outro aspecto é o combate aos desvios clandestinos em grandes adutoras. Em sistemas nos quais a água tratada precisa percorrer longas distâncias, o consumo não autorizado pode agravar limitações de oferta.

As ações informadas pela companhia são medidas de preparação e resposta. A publicação consultada não apresenta resultados quantitativos consolidados que permitam atribuir a elas determinada economia de água ou redução de custos.

A lição prática está na integração entre monitoramento, infraestrutura, contratos, fiscalização e comunicação com a população.

Compesa: integração de sistemas reduz dependência de mananciais locais

Em Pernambuco, a Adutora do Agreste oferece um exemplo concreto de diversificação do abastecimento em região historicamente vulnerável à escassez hídrica.

Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, um trecho do Lote 5B entrou em operação em janeiro de 2026, ampliando o fornecimento para Bezerros.

Antes da intervenção, parte da população enfrentava um regime de abastecimento de cinco dias com água e até 25 dias sem fornecimento regular.

Após a entrada em operação do trecho, aproximadamente 93% do município passou a contar com abastecimento diário, conforme os resultados divulgados pelo Ministério naquele momento.

A infraestrutura integra o sistema que utiliza águas do Projeto de Integração do Rio São Francisco, complementado por instalações de tratamento e distribuição.

O trecho entregue envolveu investimento aproximado de R$ 70 milhões, segundo o órgão federal.

O resultado ilustra o potencial da interligação de mananciais e sistemas regionais para reduzir a dependência de fontes locais vulneráveis.

Entretanto, adutoras de grande extensão também exigem investimentos elevados, energia para bombeamento, manutenção, proteção das instalações e planejamento para situações de falha.

A solução estrutural, portanto, precisa ser acompanhada por medidas permanentes de eficiência operacional.

Ceará: a Malha d’Água aposta em sistemas integrados

Outra experiência brasileira relevante é o Projeto Malha d’Água, no Ceará.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional em 2025, o Sistema Adutor Banabuiú, integrante do projeto, já atendia mais de 280 mil pessoas em nove municípios e 38 distritos.

O planejamento mais amplo prevê 33 sistemas adutores interligados, com alcance projetado de 5,6 milhões de beneficiados até 2041.

Esse contingente representa uma meta futura do programa, não um resultado já alcançado.

O modelo aponta para uma estratégia de segurança hídrica baseada na integração regional e no fornecimento de água tratada por infraestruturas capazes de atender diferentes localidades.

Para os profissionais de saneamento, a principal lição não está apenas na escala do empreendimento.

Está na necessidade de considerar conjuntamente disponibilidade hídrica, capacidade de produção, transporte, distribuição e sustentabilidade financeira.

Uma grande adutora pode aumentar a segurança do abastecimento, mas não elimina a necessidade de gerir adequadamente as redes locais que recebem essa água.

O que o mundo está fazendo: duas experiências que merecem atenção

Austrália: transformar esgoto tratado em reserva estratégica

Em Perth, na Austrália, a Water Corporation opera um projeto de recarga de aquíferos com água de reúso altamente purificada.

A primeira etapa começou a operar em 2017. Em 2022, a ampliação do sistema dobrou sua capacidade de tratamento, de 14 bilhões para até 28 bilhões de litros de água por ano.

A expansão representou investimento de aproximadamente 320 milhões de dólares australianos.

O processo utiliza tratamento avançado de efluentes, permitindo que a água purificada seja introduzida em aquíferos profundos. Posteriormente, a água subterrânea pode ser captada e passar por tratamento adicional antes do abastecimento.

A tecnologia reduz a dependência exclusiva da precipitação e dos mananciais superficiais.

É importante observar que os 28 bilhões de litros representam capacidade anual, e não necessariamente o volume efetivamente produzido em todos os anos.

A experiência demonstra que o esgotamento sanitário pode integrar uma política de segurança hídrica.

Entretanto, sua aplicação exige condições geológicas adequadas, controle rigoroso da qualidade, monitoramento, investimentos expressivos e aprovação dos órgãos competentes.

No Brasil, soluções semelhantes demandariam avaliação técnica, econômica, ambiental, sanitária e regulatória específica.

Estados Unidos: reúso reduz dependência de água importada

Na Califórnia, o Groundwater Replenishment System, desenvolvido pelo Orange County Water District e pelo Orange County Sanitation District, constitui outra experiência de referência.

O sistema opera desde 2008 e possui capacidade de produzir até 492 mil metros cúbicos de água purificada por dia.

Segundo o operador, essa capacidade corresponde a um volume suficiente para atender às necessidades de aproximadamente um milhão de habitantes.

A tecnologia combina tratamento avançado de águas residuárias e recarga de reservas subterrâneas.

O objetivo é ampliar a disponibilidade hídrica local e reduzir a dependência de fontes importadas de outras regiões.

A experiência é particularmente relevante para companhias que atuam em regiões com forte competição pelo uso da água.

O aprendizado central é que a segurança hídrica pode ser ampliada tanto por novas captações quanto por mudanças na forma de aproveitar recursos já disponíveis.

Ainda assim, o reúso potável não deve ser confundido com reúso industrial ou agrícola convencional. Exige padrões tecnológicos, controles sanitários e estruturas regulatórias compatíveis com sua finalidade.

Impactos financeiros: a seca pode alterar a estrutura de custos

Para empresas de saneamento, o prolongamento da escassez hídrica pode gerar impactos econômicos em diferentes frentes.

Energia elétrica: mudanças de captação, bombeamento adicional e utilização de sistemas alternativos podem elevar os custos operacionais.

Produtos químicos: alterações da qualidade da água bruta podem exigir ajustes de tratamento, dependendo dos parâmetros identificados.

Contratos: abastecimento emergencial, equipamentos, serviços especializados e obras de adaptação podem demandar novas contratações ou modificações contratuais.

Manutenção: variações operacionais e maior utilização de determinados equipamentos podem aumentar a necessidade de intervenções.

Receitas: eventuais restrições no fornecimento podem afetar os volumes efetivamente consumidos e faturados, embora a magnitude dependa da estrutura tarifária, da demanda e das condições de cada sistema.

Não é possível afirmar que o avanço da seca aumentará automaticamente os custos ou reduzirá o faturamento de todas as companhias.

Essas consequências dependem da exposição de cada operação e das medidas adotadas.

Por isso, uma iniciativa relevante seria a elaboração de um orçamento de risco hídrico, integrando projeções físicas e financeiras.

Esse instrumento pode identificar custos adicionais esperados em diferentes cenários de disponibilidade de água, apoiar a reserva de recursos e melhorar a qualidade das decisões de investimento.

O Atlas Águas, publicado pela ANA em 2021, já estimava necessidade de R$ 110 bilhões em investimentos até 2035 para ampliar a segurança hídrica do abastecimento urbano brasileiro.

A estimativa, elaborada naquele período, incluía intervenções de produção, distribuição, reposição de ativos, controle de perdas e medidas de gestão. Não deve ser interpretada como orçamento atualizado especificamente para a seca de 2026.

O ponto estratégico permanece: segurança hídrica exige investimentos dentro e fora das estações de tratamento.

O impacto comercial que muitas empresas subestimam

Em períodos de irregularidade no abastecimento, a gestão comercial assume responsabilidades que vão além da emissão de contas e da arrecadação.

Mudanças no fornecimento podem provocar aumento de reclamações, dúvidas sobre faturamento, solicitações de revisão de consumo e necessidade de comunicação individualizada.

Uma área comercial preparada pode contribuir para diminuir esses problemas.

A primeira medida é estabelecer integração entre os dados operacionais e os sistemas de atendimento.

Se determinada localidade apresentar redução programada do fornecimento, os canais digitais, telefônicos e presenciais devem receber informações consistentes sobre a área afetada, o motivo, a previsão de normalização quando confiável e as alternativas disponíveis.

Outra iniciativa é acompanhar a evolução dos contatos por município e setor de abastecimento.

Um aumento atípico de reclamações sobre falta de água pode indicar dificuldades de pressão ou distribuição ainda não identificadas pelos instrumentos de monitoramento.

Nesse sentido, o atendimento ao cliente pode atuar como fonte complementar de inteligência operacional.

Também é necessário preservar a qualidade dos processos de leitura e faturamento, especialmente quando houver alterações relevantes no padrão de consumo.

As regras aplicáveis a interrupções, comunicações, compensações e faturamento devem ser verificadas junto à entidade reguladora competente e aos contratos de prestação dos serviços.

O erro gerencial seria tratar a crise hídrica como responsabilidade exclusiva da operação, deixando o atendimento reagir sem informação adequada.

O que dizem a legislação e a regulação?

A Lei Federal nº 9.433/1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que, em situações de escassez, o uso prioritário da água é destinado ao consumo humano e à dessedentação de animais.

Isso não elimina automaticamente outros usos autorizados, mas estabelece um princípio relevante para a gestão de conflitos e alocação do recurso.

Já a Lei nº 11.445/2007, atualizada pelo marco legal do saneamento, disciplina princípios e condições relacionados à prestação dos serviços públicos de saneamento básico.

A adoção de medidas extraordinárias de abastecimento deve observar a legislação, as normas da entidade reguladora competente, os instrumentos contratuais e as determinações das autoridades responsáveis pela gestão dos recursos hídricos.

Outro aspecto essencial é a qualidade da água.

O Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, com as atualizações das Portarias GM/MS nº 888/2021 e nº 2.472/2021, estabelece requisitos de controle, vigilância e potabilidade.

A utilização de fontes alternativas e o abastecimento por carros-pipa não dispensam os controles sanitários aplicáveis.

Portanto, medidas emergenciais precisam preservar simultaneamente a quantidade, a qualidade e a segurança do fornecimento.

Nova oportunidade: usar os indicadores municipais do Monitor de Secas

Uma das novidades mais úteis da atualização da ANA é a disponibilização de três produtos com recorte municipal.

Eles podem ampliar a capacidade de análise territorial e ajudar a priorizar sistemas vulneráveis.

Seca Relativa Máxima (SRM): identifica, para cada município, a condição de seca mais intensa registrada no mês analisado.

Persistência de Seca Relativa Máxima (PSRM): informa quantos meses consecutivos a condição máxima identificada permaneceu inalterada.

Persistência de Seca por Categoria (PSC): acompanha a duração acumulada das diferentes categorias de seca, permitindo avaliar a continuidade do fenômeno mesmo quando sua intensidade muda.

A terceira medida merece atenção especial.

Um município pode passar de seca moderada para grave. Se a análise considerar somente a categoria atual, parte do histórico de exposição poderá ser negligenciada.

A persistência permite acrescentar a duração do fenômeno à avaliação de risco.

Para as companhias, esses indicadores podem ser cruzados com dados de reservatórios, poços, produção, perdas e reclamações.

O resultado pode ser um painel territorial de risco hídrico atualizado periodicamente.

Essa aplicação representa uma proposta técnica de gestão, não uma funcionalidade automática já oferecida pelo Monitor.

Como transformar o mapa da seca em uma ferramenta de decisão

Uma aplicação prática consiste em construir uma matriz de criticidade para cada sistema de abastecimento.

O modelo pode utilizar seis dimensões:

  1. Severidade e persistência da seca: classificação atual, evolução e duração do fenômeno no município.
  2. Disponibilidade hídrica: níveis dos mananciais, vazões, volumes efetivamente utilizáveis e tendências.
  3. Dependência operacional: existência de fonte única, alternativas de captação e possibilidade de interligação.
  4. Eficiência do sistema: perdas reais, macromedição, controle de pressão e capacidade de reservação.
  5. Impacto sobre os clientes: população atendida, unidades essenciais e vulnerabilidade a interrupções.
  6. Capacidade de resposta: equipamentos, contratos, recursos financeiros e tempo necessário para mobilização.

A atribuição de notas e pesos deve ser definida conforme as características dos sistemas e validada pelas equipes técnicas.

O objetivo não é criar uma classificação universal, mas permitir que a administração compare riscos de maneira estruturada.

Uma localidade com seca moderada, baixa reserva e nenhuma captação alternativa pode merecer atenção superior à de outro município submetido a seca grave, mas abastecido por sistema integrado com maior autonomia.

A prioridade de intervenção deve refletir o risco real de falha do serviço, e não somente a cor apresentada no mapa climático.

Cinco decisões que os gestores podem antecipar

A intensificação da seca no Brasil oferece uma oportunidade para revisar procedimentos antes de situações críticas.

1. Reavaliar os mananciais mais vulneráveis

Cada unidade responsável pela operação deve conhecer a autonomia estimada de suas fontes de abastecimento em diferentes cenários de demanda e disponibilidade.

Essa avaliação precisa incorporar séries históricas, condições atuais e margens de incerteza.

2. Priorizar perdas reais em sistemas críticos

Vazamentos em sistemas com baixa disponibilidade hídrica devem receber tratamento gerencial compatível com a escassez de água.

O benefício da intervenção pode ser avaliado tanto pela redução de custos quanto pela preservação de volume para abastecimento.

3. Preparar alternativas antes da emergência

Poços, captações alternativas, interligações e abastecimento emergencial exigem avaliação de viabilidade, autorizações e procedimentos de contratação.

Iniciar essa preparação somente após a interrupção do fornecimento pode ampliar os efeitos da crise.

4. Integrar operação, comercial e comunicação

Os canais de atendimento devem acompanhar as condições operacionais para orientar clientes e apoiar a identificação de problemas.

Painéis de reclamações, serviços executados, pressões, produção e abastecimento podem oferecer uma visão conjunta da situação.

5. Transformar o risco hídrico em planejamento financeiro

As áreas de planejamento e finanças devem trabalhar com a operação na identificação dos recursos necessários para contingências, manutenção e investimentos estruturantes.

A análise de custo-benefício precisa considerar não apenas o gasto da intervenção, mas também o risco e o custo da indisponibilidade do serviço.

O que pode dar errado na resposta à seca?

Algumas decisões aparentemente simples podem produzir consequências indesejadas.

Reduzir pressão de maneira indiscriminada, por exemplo, pode afetar áreas elevadas e usuários situados nas extremidades da rede.

Implantar rodízios sem adequada avaliação hidráulica e sanitária pode aumentar a complexidade operacional e os riscos associados à intermitência.

Recorrer a fontes alternativas sem controle de qualidade pode comprometer a segurança da água fornecida.

Construir grandes infraestruturas sem avaliar consumo energético, perdas, custos de manutenção e demanda futura pode gerar sistemas economicamente difíceis de sustentar.

Da mesma forma, comprar equipamentos de monitoramento sem equipes preparadas para interpretar os dados pode produzir informações que não se convertem em decisões.

Por isso, a resposta eficiente à seca precisa combinar engenharia, operação, gestão de ativos, regulação, finanças, atendimento e capacitação profissional.

Lições para os profissionais de saneamento

O agravamento da seca no Brasil reforça competências que tendem a ganhar importância na rotina das companhias.

Para engenheiros e operadores, torna-se cada vez mais necessário interpretar dados hidrológicos, desenvolver cenários operacionais e conhecer as limitações físicas dos sistemas.

Para profissionais de manutenção, a prioridade está na confiabilidade dos ativos, na prevenção de falhas e na redução de perdas.

Para analistas comerciais, o desafio inclui compreender como alterações no abastecimento repercutem no comportamento dos clientes, no faturamento e na qualidade do atendimento.

Para especialistas em tecnologia, abre-se espaço para integrar dados climáticos, sensores, medidores, sistemas geográficos e informações comerciais em instrumentos de apoio à decisão.

Para gestores e executivos, o desafio principal é transformar essas informações em prioridades claras, investimentos justificáveis e respostas coordenadas.

O conhecimento de campo continua indispensável.

São as equipes que operam captações, estações, adutoras e redes que frequentemente identificam as primeiras alterações de vazão, pressão e desempenho dos equipamentos.

O uso de modelos digitais e previsões climáticas deve complementar essa experiência, não substituí-la.

Conclusão: a próxima crise hídrica precisa começar no planejamento

A seca no Brasil alcançou 75% do território em setembro de 2026, expondo a necessidade de fortalecer estratégias de adaptação e segurança hídrica.

Entretanto, o principal aprendizado para o setor não está apenas na extensão territorial do fenômeno.

Está na maneira como as companhias transformam informações sobre clima, mananciais, infraestrutura e demanda em decisões capazes de proteger a continuidade dos serviços.

As experiências da Embasa, da Compesa e de projetos de integração hídrica no Ceará mostram diferentes caminhos de preparação e resposta.

Os projetos internacionais de reúso avançado, por sua vez, demonstram que a diversificação das fontes pode reduzir a dependência de condições climáticas favoráveis, desde que acompanhada de viabilidade técnica, controle sanitário e sustentabilidade econômica.

A combinação dessas experiências aponta para uma conclusão: a segurança hídrica não será construída por uma única tecnologia ou obra.

Ela dependerá de mananciais protegidos, infraestrutura resiliente, redes eficientes, decisões financeiras adequadas, regulação consistente e profissionais capacitados para interpretar riscos e agir antecipadamente.

O Monitor de Secas fornece sinais importantes. Os dados operacionais mostram como esses sinais afetam cada sistema.

Cabe às companhias unir essas informações para decidir onde investir, quando agir e como preservar o abastecimento.

A diferença entre enfrentar uma seca e administrar uma crise de abastecimento pode estar nas decisões tomadas meses antes de faltar água.


Fontes e referências

1. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Seca se intensifica no Nordeste e Norte. Fenômeno se abranda no Centro-Oeste e Sudeste e não é registrado no Sul segundo Monitor de Secas.
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Consultar publicação oficial da ANA

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Página institucional.
Consultar metodologia oficial

3. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
ANA aponta SIN com 65,9% do volume útil e detalha panorama de rios, vazões e da seca na 4ª edição do Painel El Niño.
30 de setembro de 2026.
Consultar Painel El Niño

4. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Atlas Águas — Segurança Hídrica do Abastecimento Urbano.
18 de outubro de 2021.
Consultar estudo e investimentos previstos

5. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025, redução e controle de perdas na distribuição.
18 de dezembro de 2025.
Consultar norma de referência

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8 de outubro de 2026.
Consultar publicação institucional

7. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)
Adutora do Agreste avança e transforma abastecimento de água no interior de Pernambuco.
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8. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)
Adutoras transformam acesso à água e fortalecem desenvolvimento no Nordeste.
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10. Water Corporation — Austrália
$320m investment doubles Perth’s rainfall-independent water source.
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Página institucional do projeto.
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Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 — Política Nacional de Recursos Hídricos.
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Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007 — Diretrizes nacionais para o saneamento básico.
Texto compilado.
Consultar legislação atualizada

14. Ministério da Saúde
Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano — Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017 e atualizações.
Página institucional.
Consultar normas de potabilidade