O Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae) de Piracicaba, no interior de São Paulo, concluiu a instalação de 845 registros na rede de distribuição, alcançando 84,5% da meta de 1.000 equipamentos. A iniciativa integra um investimento de R$ 9 milhões em setorização e controle de pressão, duas estratégias fundamentais para a redução de perdas de água.
O avanço ocorre em um município que registrou 50,91% de perdas na distribuição e 540,63 litros perdidos por ligação por dia, conforme os indicadores de 2024 apresentados no Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil.
Mas existe uma diferença entre instalar equipamentos e recuperar água efetivamente. O verdadeiro resultado dependerá da capacidade de transformar os novos registros em setores controlados, identificar vazamentos ocultos, estabilizar pressões e medir os volumes economizados.
É justamente nesse ponto que a experiência de Piracicaba oferece uma lição para gestores de companhias públicas e privadas: a redução de perdas de água começa na infraestrutura, mas se consolida na inteligência operacional.
O que aconteceu: de 739 para 845 registros em três meses
Em julho de 2026, o Semae havia instalado 739 registros. Com a atualização divulgada em 22 de outubro, o número chegou a 845, representando o acréscimo de 106 equipamentos.
Restam, portanto, 155 registros para alcançar a meta anunciada.
Os equipamentos substituem registros antigos e ampliam a capacidade de realizar manobras na rede. O investimento de R$ 9 milhões também contempla Válvulas Reguladoras de Pressão (VRPs), utilizadas para reduzir pressões excessivas.
É importante esclarecer que o valor divulgado corresponde ao conjunto das intervenções. Não representa exclusivamente o custo de aquisição e instalação dos 845 registros.
A iniciativa integra um programa mais amplo de modernização do abastecimento, que inclui substituição de tubulações, construção de reservatórios, implantação de adutoras e automação operacional.
Como a setorização contribui para a redução de perdas de água
Uma rede de distribuição com poucos registros operacionais apresenta dificuldades para localizar vazamentos, realizar manutenções e controlar pressões.
Quando ocorre um rompimento, pode ser necessário interromper o abastecimento de uma região muito maior do que aquela diretamente afetada.
A setorização procura modificar essa realidade.
O processo consiste em dividir a rede em áreas hidráulicas menores, com limites conhecidos e pontos de entrada controlados. Dependendo da configuração, esses setores podem formar Distritos de Medição e Controle (DMCs).
Em um DMC adequadamente instrumentado, a companhia consegue acompanhar o volume disponibilizado, a pressão e o comportamento do consumo.
Uma das técnicas utilizadas é analisar a vazão mínima noturna, período em que normalmente existe menor consumo legítimo. Vazões persistentemente elevadas podem indicar vazamentos não visíveis ou outras anomalias.
Entretanto, existe uma distinção importante: instalar registros não significa, automaticamente, implantar DMCs operacionais.
Para isso, também são necessários macromedidores, limites hidráulicos efetivamente isolados, cadastro atualizado e rotinas de análise.
Portanto, o número de equipamentos instalados demonstra avanço físico, mas não permite determinar quantos setores já estão completamente monitorados em Piracicaba.
Por que controlar a pressão pode reduzir vazamentos
A pressão é uma das variáveis mais importantes para o comportamento das perdas reais.
Pressões elevadas tendem a aumentar a vazão dos vazamentos existentes e podem contribuir para a ocorrência de novos rompimentos.
As VRPs atuam ajustando a pressão a jusante, conforme as condições hidráulicas e a configuração do equipamento.
Isso pode produzir benefícios simultâneos:
- Redução do volume perdido por vazamentos.
- Menor ocorrência de rompimentos associados à pressão excessiva.
- Diminuição de intervenções emergenciais.
- Maior estabilidade operacional.
- Menores custos de manutenção.
Contudo, reduzir a pressão indiscriminadamente também representa risco.
Setores com grandes diferenças de altitude, por exemplo, podem apresentar pressões insuficientes nos pontos mais elevados.
O dimensionamento precisa considerar cotas topográficas, demanda máxima, pressão mínima de atendimento e comportamento hidráulico nos diferentes horários.
O objetivo não é trabalhar com a menor pressão possível, mas com a pressão adequada para garantir abastecimento e eficiência.
O indicador de Piracicaba revela o tamanho do desafio
O Ranking do Saneamento 2026 posicionou Piracicaba na 35ª colocação entre os 100 municípios mais populosos do Brasil.
No indicador de perdas na distribuição, o município apresentou 50,91% em 2024, segundo os dados utilizados no levantamento.
Esse percentual reúne perdas reais, relacionadas principalmente a vazamentos, e perdas aparentes, associadas a problemas como submedição, fraudes e falhas de registro.
Consequentemente, não significa que 50,91% da água tenha necessariamente vazado fisicamente.
A diferença importa para a tomada de decisões.
Se a maior parte das perdas estiver concentrada em vazamentos, setorização, controle de pressão e renovação de redes podem produzir benefícios relevantes.
Se houver participação expressiva de perdas aparentes, será necessário combinar essas intervenções com substituição de hidrômetros, regularização de ligações, fiscalização e melhorias cadastrais.
A análise correta exige um balanço hídrico confiável.
O que outras companhias brasileiras estão fazendo
A experiência da Sabesp mostra que a redução de perdas de água exige atuação contínua e integrada.
Em seu programa de controle de perdas, a companhia combina setorização, VRPs, pesquisa de vazamentos não visíveis, reparos, renovação de redes e intervenções para reduzir perdas aparentes.
O princípio é semelhante ao adotado em Piracicaba: não depender de uma única tecnologia para solucionar diferentes causas de perdas.
Outro exemplo está em Visconde do Rio Branco, em Minas Gerais.
Em fevereiro de 2026, a Copasa informou investimentos de aproximadamente R$ 620 mil em ações de controle de perdas e monitoramento, incluindo:
- 15 Distritos de Medição e Controle.
- 10 válvulas redutoras de pressão.
- 22 registros de manobra.
- Monitoramento de cerca de 30 pontos estratégicos.
- Geofonamento e vistorias preventivas.
O caso evidencia uma característica importante: mesmo em sistemas menores, a integração de medição, controle de pressão e pesquisa de vazamentos pode estruturar um programa permanente.
Os números divulgados pela Copasa descrevem intervenções e investimentos, não uma redução percentual final comprovada decorrente dessas obras.
Lisboa demonstra como transformar dados em resultados
Um dos exemplos internacionais mais relevantes vem da Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL), responsável pelo abastecimento de Lisboa.
A companhia desenvolveu o WONE — Water Optimization for Network Efficiency, sistema que integra informações sobre vazão, pressão e desempenho de zonas de monitorização e controle.
Segundo a EPAL, a utilização dessa metodologia, associada ao controle ativo de vazamentos, contribuiu para reduzir a água não faturada de 23,5% em 2005 para aproximadamente 8% em 2015.
A solução utiliza indicadores como consumo mínimo noturno, monitoramento contínuo e alertas para orientar as equipes.
Embora água não faturada e perdas na distribuição não sejam indicadores necessariamente equivalentes, a experiência demonstra o potencial de combinar infraestrutura hidráulica e análise de dados.
O principal aprendizado de Lisboa não está apenas na tecnologia utilizada, mas na capacidade de estabelecer uma rotina permanente de diagnóstico e intervenção.
A nova regulação aumenta a importância dos indicadores
A Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução ANA nº 275/2025, estabelece diretrizes para gestão da redução progressiva e controle das perdas nos subsistemas de distribuição de água potável.
Entre os instrumentos previstos estão o balanço hídrico padronizado, indicadores de desempenho e Planos de Gestão de Redução e Controle de Perdas de Água.
A norma também contempla a diferenciação entre perdas reais e aparentes e reconhece tecnologias como telemetria, sensores, georreferenciamento e medição inteligente.
Para as companhias, isso reforça a necessidade de demonstrar resultados verificáveis, além de executar investimentos.
O controle de perdas deixa de ser apenas uma atividade operacional e passa a demandar integração crescente entre engenharia, gestão comercial, planejamento, tecnologia e regulação.
Impactos financeiros: como avaliar o retorno do investimento
A redução de perdas de água pode diminuir custos com produtos químicos, energia, manutenção e produção, dependendo da capacidade de ajustar a operação.
Também pode liberar capacidade de abastecimento, postergando investimentos em expansão.
Entretanto, nem todo metro cúbico recuperado representa receita adicional.
A água que deixa de vazar produz benefício econômico diferente daquela que passa a ser corretamente medida e faturada.
Por isso, uma avaliação financeira consistente precisa separar três componentes: custos operacionais evitados, receitas recuperadas e investimentos postergados.
Além disso, deve considerar despesas permanentes com operação, calibração, manutenção e substituição de equipamentos.
Um projeto de redução de perdas não deve ser avaliado apenas pelo investimento realizado, mas pelo benefício comprovado ao longo de sua vida útil.
O que gestores e profissionais devem observar
Para transformar a setorização em resultados mensuráveis, cinco medidas merecem prioridade:
- Estabelecer uma linha de base: registrar vazões, pressões, perdas e ocorrências antes das intervenções.
- Validar os setores: confirmar os limites hidráulicos, a estanqueidade dos registros e a confiabilidade dos macromedidores.
- Monitorar continuamente: identificar variações anormais de vazão e pressão, especialmente durante a madrugada.
- Integrar as equipes: conectar operação, manutenção, cadastro técnico, gestão comercial e atendimento.
- Medir os resultados: comparar volumes disponibilizados, perdas por ligação, frequência de vazamentos e custos antes e depois das melhorias.
É indispensável considerar alterações de consumo, sazonalidade e condições operacionais para evitar conclusões equivocadas.
Também merece atenção a comunicação com os consumidores. Manobras hidráulicas e intervenções podem provocar interrupções temporárias, exigindo avisos antecipados e cuidados na retomada do abastecimento.
Piracicaba já apresenta avanços no atendimento?
Em julho de 2026, a Prefeitura informou que as reclamações por falta de água haviam caído de 2.773 no primeiro semestre de 2024 para 1.278 no primeiro semestre de 2026.
A redução foi de aproximadamente 54%, considerando os períodos comparáveis.
O resultado sugere melhora na regularidade percebida do abastecimento.
Entretanto, como o município executa simultaneamente diversas obras de modernização, não é possível atribuir essa evolução exclusivamente à instalação dos registros.
Da mesma forma, ainda não foi divulgado, na comunicação consultada sobre os 845 equipamentos, o volume efetivamente recuperado pelo projeto.
Essa informação será essencial para avaliar a contribuição específica da setorização.
Conclusão: o verdadeiro resultado começa depois da instalação
A instalação de 845 registros em Piracicaba representa uma etapa concreta de modernização da rede de abastecimento e cria condições para melhorar o controle hidráulico.
Mas a principal lição para o setor está na diferença entre executar infraestrutura e produzir eficiência mensurável.
A experiência brasileira e o benchmarking internacional demonstram que a redução de perdas de água depende da combinação entre equipamentos adequados, medições confiáveis, equipes capacitadas e decisões orientadas por dados.
Para os profissionais de saneamento, o desafio não termina quando um registro é instalado ou uma VRP começa a funcionar.
Ele continua quando os dados precisam ser interpretados, os vazamentos localizados, as intervenções priorizadas e os resultados demonstrados.
O sucesso do programa de Piracicaba não será determinado apenas pelos 1.000 registros previstos, mas pela quantidade de água que a companhia conseguirá recuperar — e pela capacidade de manter esses resultados ao longo do tempo.
Fontes e referências
1. Semae Piracicaba — Serviço Municipal de Água e Esgoto Redução de perdas d’água: 845 novos registros de rede já foram instalados em Piracicaba. 22 de outubro de 2026. Publicação oficial do Semae
2. Prefeitura de Piracicaba Redução de perdas d’água: mais de 73% dos novos registros da rede já foram instalados em Piracicaba. 29 de julho de 2026. Publicação da Prefeitura
3. Instituto Trata Brasil e GO Associados Ranking do Saneamento 2026 — Tabela Resumo. Março de 2026. Indicadores referentes a 2024. Consultar tabela oficial dos indicadores
4. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025: gestão da redução progressiva e controle de perdas. 18 de dezembro de 2025. Consultar norma integral
5. Sabesp — Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo Controle de Perdas — principais ações para combater perdas reais e aparentes. Página institucional, sem data indicada. Consultar programa de controle de perdas
6. Copasa — Companhia de Saneamento de Minas Gerais Copasa fortalece abastecimento de água em cidades da Zona da Mata mineira. 20 de fevereiro de 2026. Consultar experiência da Copasa
7. EPAL — Empresa Portuguesa das Águas Livres WONE — Water Optimization for Network Efficiency. Página técnica institucional, sem data indicada. Conhecer o sistema WONE
8. IWA Publishing — Water Supply Mobile DMA testing for leakage assessment: perspectives from Ontario, Canada. 2023. Estudo sobre distritos de medição e avaliação de vazamentos. Consultar estudo técnico
9. Prefeitura de Piracicaba Piracicaba registra queda nas reclamações por falta de água. 16 de julho de 2026. Consultar indicadores de atendimento
10. Gazeta de Piracicaba Semae instala 845 registros para reduzir perdas de água. 23 de outubro de 2026. Consultar reportagem original



